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52. Ghantapa


Aquele que Segura o Sino

Para fazer descer as bênçãos,
Enlace forte os três canais
Lalana, rasana e avadhuti.
Para atingir a realização,
Cuide de três coisas –
A instrução do guru,
A natureza da mente
E a pureza de todas as aparências.

Ghantapa era o filho do rei de Nalanda, mas renunciou ao trono e se tornou um monge renomado e erudito na academia monástica, dominando as cinco ciências. Como mestre, ele beneficiou os seres em muitas terras. Anos mais tarde, insatisfeito, ele renunciou à vida monástica e se tornou um iogue errante. Em suas viagens ele encontrou o guru Darikapa e foi iniciado na mandala de Samvara.

Seguindo as instruções de seu guru, Ghantapa viajou a Pataliputra, onde o Rei Devapala, em seu mérito, trazia prosperidade a três milhões de casas de família. O monge passou a viver sob uma árvore de sombra ampla, na fronteira entre a cidade e a floresta. Ali ele esmolava e praticava a sadhana.

O Rei Devapala era ele mesmo um homem devoto e religioso. Por muitos anos havia recebido incontáveis monges e iogues nas fronteiras de seu reino, mas apesar de todas suas obras de caridade, ele ainda sentia que não havia acumulado mérito suficiente para seus futuros renascimentos. Isso tanto perturbava sua mente que sua esposa perguntou se não estava doente. Talvez não fosse o momento de chamar um médico?

Ele confessou a ela suas dificuldades espirituais e pediu por seu conselho. A esposa pensou por um momento, e então bateu palmas feliz. “É realmente devido a bom carma que você me disse isso hoje. Recentemente descobri que um grande santo chegou a nosso reino. Ele observa estritamente a conduta moral, e acabou de dispor seu colchonete de meditação sob uma árvore nos limiares da cidade.”

“Mas, querida”, objetou o rei, “eu já patrocinei tantos homens santos, e minha mente segue perturbada...”

“Este é diferente,” insistiu a rainha. “Senti em meus próprios ossos. O que importa agora é trazer ele para vir morar no palácio. Certamente com sua orientação diária você será capaz de atingir o estado mais elevado. Já que ele é um homem que não tem nada além da roupa do corpo e umas poucas outras coisas, e que precisa esmolar por comida, vamos oferecer um banquete em sua honra.” E levada por essa ideia, ela começou a pensar no menu – “oitenta e quatro pratos dos curries mais refinados; quatorze tipos de guloseimas extraordinárias; vinho das melhores uvas e cinco tipos de bebidas. Será como um banquete para os próprios deuses. Ele certamente não recusará nossa hospitalidade.”

O rei era o mais generoso entre todos os homens, e essa ideia o consolou muito. Na manhã seguinte ele enviou seus serviçais para convidar Ghantapa ao palácio. Porém, para surpresa de todos, o mestre recusou o convite, e os emissários retornaram sozinhos.

No dia seguinte, o rei foi em pessoa, acompanhado por um séquito numeroso, até a árvore do mestre. Prostrando-se diante de Ghantapa, o rei fez um apelo eloquente para que viesse ao palácio.

“Já dei a resposta ontem,” disse Ghantapa. “Porque vir em pessoa?”

“Para oferecer a você minha caridade e mostrar quanta fé deposito em sua santa presença”, respondeu o rei.

“Seu reino está cheio de desvirtude”, disse Ghantapa diretamente. “Não irei”.

O rei foi tocado por essas palavras — ele por acaso não havia vivido uma vida exemplar? Ainda assim, persistiu. “Imploro por sua bondade. Por favor, venha até o palácio e viva conosco por um ano.”

Novamente Ghantapa se recusou. O rei barganhou uma visita de seis meses, então três meses, e então duas semanas, e finalmente uma visita de uma hora apenas.

“Nunca, nunca, nunca”, disse Ghantapa com firmeza. “Cada movimento que você faz, cada ação que você realiza, cada pensamento que você pensa, cada palavra que você pronuncia é cheia de desvirtude. Fique com seus banquetes e prazeres mundanos. Não quero saber de nada disso”.

Todos os dias daquele momento em diante, por quarenta dias, o rei voltou a árvore de Ghantapa, repetindo o pedido para que viesse ao palácio. E cada dia, por quarenta dias, Ghantapa recusou.

Finalmente, com o orgulho ferido, o rei e a rainha passaram a odiar Ghantapa. E embora antes só quisessem ouvir coisas boas a respeito dele, agora queriam saber apenas de fofocas maldosas.

Com o rancor queimando em seus corações, o rei promulgou um decreto aos quatro cantos do reino: “A quem conseguir provar que a virtude e a castidade de que esse monge se gaba não passa de um embuste, darei metade de meu reino mais cem medidas de ouro puro.”

Esta declaração real caiu por acaso aos ouvidos de uma tal Darima, uma lendária cortesã que vivia em Pataliputra. Darima era na verdade a prostituta mais ardilosa que já existiu, e quando ficou sabendo do dito real, viu nela uma boa chance de obter poder e riquezas.
Com suas melhores roupas, acompanhada por um séquito de serventes, ela foi ao palácio e pediu uma audiência com o rei.

“Sua majestade,” disse ela, “o seu desejo mais profundo está prestes a se realizar. Não tenho a menor dúvida em minha capacidade de causar a queda desse monge problemático.”

“Então faça o que estiver ao seu alcance,” respondeu o rei, que ficou bastante impressionado com sua beleza e inteligência.

Mas Darima era ainda mais sagaz do que o rei desconfiava. Ela não pretendia oferecer a si mesma para o monge. Não. Ela tinha uma surpresa escondida em sua manga de seda. Darima tinha uma filha de doze anos de idade, uma virgem cuja bela face radiante, andar sedutor, fala doce e inteligente, ancas voluptuosas e seios bem formados faziam o próprio sol parar no meio do céu, toda vez que se deparava com ela. Era essa combinação fantástica de beleza sensual e pureza prístina que Darima tinha certeza iria fisgar o monge.

Então Darima passou a visitar o monge todas as manhãs no alvorecer, por dez dias. A cada dia ela se prostrava perante ele, e caminhava a seu redor em círculos de reverência. Por nove dias ela não disse nada, e não ofereceu nada além de sua devoção. No décimo dia ela implorou, “Por favor, me permita ser sua patrocinadora durante o retiro da monção do verão”.

Ghantapa recusou a oferta do mesmo modo que havia recusado ao rei. Mas Darima continuou retornando a cada alvorecer por um mês, até as nuvens começarem a se reunir no céu. Ela implorou pela possibilidade de ajudar — tudo que ela oferecia era a hospitalidade de suas propriedades. Finalmente, sem ver problema nisso, Ghantapa concordou.

Ao retornar a seu estabelecimento, a alegria de Darima não tinha limites. Ela decidiu celebrar o futuro sucesso e convidou todos os amigos e clientes para um grande banquete. Naquela noite, enquanto brindavam, ela constantemente cantava para si mesma, sussurrando:

Com o sexo como a arma infalível
O ardil da mulher realiza seus desejos.
Uma artimanha como a minha seria capaz de seduzir o mundo todo.
Um monge, com toda sua santidade, no fim não passa de um homem!

Quando as chuvas vieram, Ghantapa se retirou para uma pequena cabana que Darima havia construído para ele no perímetro de sua propriedade, onde a selva fazia fronteira com a estrada. Preocupado, o monge insistiu que apenas servos do sexo masculino trouxessem sua comida. Darima disse que concordava com todos os pedidos. E por duas semanas ela enviou rapazes com arroz simples e água pura da fonte.

No décimo quinto dia, ela preparou um banquete exuberante. Chamou a filha a seus aposentos, a vestiu com sedas e a ornamentou com joias dignas de uma princesa. Então a enviou para servir ao mestre com uma comitiva de cinquenta servos levando bandejas de alimentos deliciosos. Os homens carregaram os pratos até os limites da clareira onde estava o abrigo do mestre, e então retornar, deixando ali apenas a comida muito aromática e a virgem belíssima.

“Quem é você?” Ghantapa perguntou cheio de suspeita, ao se deparar com aquela visão.

“Hoje sou eu quem veio servir você”, disse a bela garota, com a voz e os maneirismos docemente sedutores. “Os rapazes tinham outras obrigações.”

Oferecendo a ele esta e aquela guloseima, ela conseguiu ficar até surgirem as nuvens da tarde.

“Você precisa ir embora agora!” Ghantapa ordenou com firmeza.

“Ah, por favor, sagrado senhor”, disse ela, olhando preocupada para o céu. “Vejo nuvens de cinco cores diferentes. Certamente haverá chuva torrencial a qualquer momento. E este é o único abrigo por vários quilômetros!”

Como que se tivesse sido combinado, um trovão rasgou os céus e a chuva começou a cair muito forte. Relutantemente, o monge concordou em compartilhar o abrigo, mas apenas se ela ficasse do outro lado da cabana, bem longe dele.

A chuva só parou de cair quando a noite chegou, e o tempo todo ela trabalhou o monge com sorrisos tímidos e rubores afetuosos.

Mas nada disso produziu qualquer efeito sobre o monge. Quando a chuva parou, ele novamente ordenou que fosse embora.

“Bom, senhor”, ela disse tremendo, os olhos arregalados de medo, “certamente você não vai me mandar sozinha por essa estrada. Os ladrões e trombadinhas certamente cortarão minha garganta pelas joias que estou usando.”

Sabendo que seus medos não eram infundados, Ghantapa lhe deu permissão para dormir fora da cabana. Mas durante a noite ela ficou amedrontada com os sons e a paisagem estranha. Com uma voz doce ela implorou sua proteção. Com um suspiro resignado, Ghantapa a permitiu entrar novamente.

A cabana era muito pequena. Os dois dormiram inquietos. Inevitavelmente, seus corpos se tocaram. Então seus braços e pernas se enredaram. E não levou muito tempo para eles atravessarem os quatro níveis de regozijo, e seguirem para o caminho da liberação com sua consumação última.

Por seis vidas anteriores esta mesma garota havia sido a queda deste monge. Ela o havia feito quebrar os votos seis vezes. Mas isso foi antes de sua mente ser purificada, antes dele perder o sim e o não, a dualidade sujeito-objeto dos olhos enevoados. Nesta vida, porém, tais máculas há muito há haviam se dissolvido na infinita expansão da vacuidade, e ele havia atingido o verdadeiro caminho.

Durante a manhã ele pediu à garota que permanecesse com ele, e ela consentiu. Eles se tornaram iogue e consorte. E devido a seu serviço a ele por seis vidas, também as máculas da consorte de Ghantapa haviam sido purificadas.

No ano seguinte nasceu o filho deles.

Durante esse período o rei estava cada vez mais impaciente por seu triunfo perante aquele monge tão santo. E ele enviava mensagens constantemente para Darima, exigindo saber se algum progresso já havia sido realizado. Mas a cortesã sagaz sabia comprar tempo. Por três anos suas respostas ao rei foram uma combinação cuidadosa de promessas de sucesso e evasivas.

Seus espiões a mantinham informada sobre tudo que acontecia naquela cabana de três ocupantes. Finalmente Darima sentiu que era hora de ir ao rei e contar a ele como seria doce sua vingança.

O rei ficou cheio de alegria, seu moralismo enraivecido logo seria aplacado, e aquele monge do pau ôco veria seu fim. “Mande um aviso para sua filha e para o monge,” disse o rei, “eu os visitarei em três dias”.

Quando ouviram as notícias, a garota ficou com muito medo do escárnio e dos insultos da população, e também muito preocupada com a segurança da criança. Ghantapa perguntou se ela queria ficar e encarar a todos, ou se queria fugir de Pataliputra e procurar abrigo em outra região. Ela implorou por fugir, e ele concordou.

No dia marcado, o rei reuniu todo o povo de seu reino para testemunhar a degradação do monge. Montado em seu ostentosamente ornamentado elefante, ele liderava a caravana debochada e burlesca na direção da cabana do iogue.

Enquanto isso, Ghantapa e sua consorte faziam preparativos para abandonar o local. O monge escondeu a criança no seu robe, tomou uma jarra de bebida alcoólica sob o braço, e se colocou na estrada junto com a mulher, que também carregava algumas poucas posses.

Infelizmente, eles não ouviram a multidão chegando, e ao fazer a curva na estrada, se deram face a face com o rei e toda a caravana.

Provando o sabor doce da vingança, o rei olhou com desprezo para o casal em fuga da altura de seu elefante real. “O que você está carregando, e o que está escondido em suas roupas?” ele inquiriu, com uma voz de trovão. “Quem é essa garota, e porque ela o acompanha?”

Ghantapa parou no meio da estrada. Olhou bem nos olhos do rei, e com uma voz duas vezes mais alta, respondeu “estou carregando uma jarra de bebida.”

A multidão arfou.

Abrindo o robe, ele ergueu a criança. “E tenho meu filho em meu robe”.

A multidão começou a ficar tumultuosa.

“E esta é minha consorte”, adicionou, colocando o braço ao redor da garota.

Ao ouvir isso, a multidão começou a gritar impropérios contra a pequena família, e pedir por todo tipo de punição. Mas o rei ergueu a mão pedindo silêncio.

“Então”, disse o rei, saboreando cada momento, “o monge que se recusou a vir a meu palácio porque eu era um homem sem virtude tem a filha de uma prostituta como amante, com a qual teve um filho bastardo, e para complementar — ainda bebe!”

“Não cometi nenhuma infração,” respondeu Ghantapa, calmamente, “Porque você me insulta?”

Novamente o rei repetiu a acusação. E novamente a multidão berrou impropérios. Finalmente Ghantapa atirou tanto o filho quanto a jarra de bebida no chão. Isso assustou tanto a deusa da terra que ela tremeu de medo. O chão se abriu e um gêiser de água passou a jorrar.

A criança foi instantaneamente transformada num vajra, e o jarro de bebida se transformou em um sino. Então o iogue, segurando o dorje e o sino, levitou ao céu com sua consorte, e se revelaram as deidades Samvara e Vajravarahi, em união. Eles flutuaram sobre as cabeças do rei e da multidão, na medida em que as águas não paravam de subir.

“Tomamos refúgio no mestre!” gritavam as pessoas se afogando. Mas Ghantapa permanecia firme em seu samadhi de ira imutável.

Quando a morte parecia iminente, e todos estavam prestes a se afogarem, o Bodisatva da Compaixão repentinamente apareceu. Avalokitesvara colocou seu pé sagrado sobre a fonte da enchente e as águas imediatamente se esvaíram pelo chão.

Todos foram salvos. Prostrando-se no lodo — até mesmo o rei — eles todos imploraram perdão a Ghantapa. Como que se por mágica, uma imagem de pedra do bodisatva apareceu onde seu pé havia tocado. Está ali até os dias de hoje, e uma vertente da mais pura água segue jorrando água a uma altura de dois metros, próximo ao pé da estátua.

Ainda flutuando sobre a assembleia penitente, Ghantapa disse: “Conceitos morais praticados sem compreensão podem ser os maiores obstáculos para a execução do voto de bodisatva da compaixão implacável. Não cultivem a virtude e abandonem a desvirtude. Em vez disso, aprendam a aceitar todas as coisas como elas surgem. Penetrem a essência de cada experiência até que tenham atingido o único sabor.” E ele lhes cantou a seguinte canção de realização:

Enquanto que o remédio cura e o veneno mata,

Sua essência última é a mesma.
Tanto as ações negativas quanto as positivas
Ajudam o caminho —
O sábio nada rejeita.
Ainda assim, o tolo sem realização
Envenenado cinco vezes
Está para sempre perdido no
samsara.

Com isso, o rei e toda a população se iluminaram. Como nuvens perante a ventania, seu moralismo e preconceitos mesquinhos se dissiparam, e a fé nasceu no centro de lótus de seus corações.

Ghantapa passou a ser conhecido como “Aquele que Carrega o Sino”, e sua fama ressoou por todos os cantos da terra. Dotado do poder glorioso da virtude de um Buda, o iogue ascendeu à Terra Pura das Dakinis com sua consorte.

Traduzido por Padma Dorje em 2018, a partir de Masters of Mahamudra e Legends of the Mahasiddhas: Lives of the Tantric Masters, de Keith Dowman, Buddha's Lions: The Lives of the Eighty-Four Siddhas, de Abhayadatta, traduzido por James B. Robinson e Empowered Masters, de Ulrich Von Schroeder. Por favor envie sugestões e correções para padma.dorje@gmail.com. 3 de dezembro de 2018, às 17:24h


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