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19. Thaganapa

Mestre da Mentira

Para retirar água do ouvido,
injete mais água nele.
Para ver a verdade,
contemple todos os fenômenos como mentiras.

Thaganapa nasceu numa família da casta baixa na Índia oriental. Muito cedo mostrou tendências criminosas, e com o tempo todos seus meios de vida dependiam de exploração e falcatruas.

Um dia, ele estava sentado em uma tora num canto da vila planejando um belo engodo e um monge sábio por acaso passou por ali.

"Por que estais tão concentrado em seus pensamentos, amigo?" perguntou o monge.

"É uma longa história, venerável senhor," Thaganapa começou.

Mas o monge interrompeu. "Tu vais me contar uma mentira, não é? Não aprendestes que quanto mais mentes, mais acreditas que a mentir é normal, e mais o hábito de mentir se fortalece. Se continuares dessa forma, quando seu carma maturar, renascerás no inferno."

Thaganapa ficou pálido e começou a tremer.

"Saibas que mentir tem efeitos físicos também," o monge continuou. "Crescem pelos na sua língua, seu hálito fica malcheiroso, e sua fala fica defeituosa e perde a convicção. O carma de um mentiroso faz todos os campos inférteis e as sementes que plantas secas e impotentes."

Thaganapa ainda não havia ouvido a doutrina do carma aplicada a mentira ainda, e a apta análise do monge bateu no lugar certo. "Vistes através de mim," ele admitiu. "Me chamam de Thaganapa porque não consigo falar mais do que um centésimo de um fio de cabelo de verdade. Minto para todos - sem exceção. Mas o que posso fazer a respeito?"

"Te consideras capaz de praticar uma sadhana?" perguntou o monge.

"Bem, suponho que eu possa tentar," disse Thaganapa duvidosamente. "Mas tenho mentido há tanto tempo que não sei se posso parar."

"Tu não és o primeiro mentiroso desde o inicio dos tempos," disse o monge benévolo. "Há preceitos mesmo para aqueles como tu."

"Tudo bem então," disse Thaganapa, aliviado. "Vá em frente."

O monge começou a dar instrução a Thaganapa na ioga chamada "removendo a água nos ouvidos com mais água" - um meio que usa o engano como um antídoto para o engano. Finalmente, deu iniciação que amadurece o fluxo mental imaturo. E então o monge ensinou-o estes preceitos: "Tudo que vejas, ouças, toques, penses que perceba com os cinco sentidos enfim, tudo que experimentes, não é nada além de uma mentira."

Sem saber que todos os fenômenos são uma mentira
Dizes que és um mentiroso.
Mas se o conhecimento e o conhecedor,
Os cinco sentidos e tudo que é percebido,
São mentiras, então o que é verdade?

Ignorância infantil da mentira universal mantém a falsidade verdadeira.
Quando dizemos a nós mesmos que engano é verdade
Amarramo-nos ao ciclo da existência
Como o líquido caindo nas pás do moinho.

Portanto contemple Toda a experiência como inerentemente enganadora,
Toda a forma como inerentemente enganadora,
Todo o som como inerentemente enganador,
Em tempo descobriras que mesmo sua crença no engodo é uma mentira.

Por sete anos Thaganapa meditou sobre o conhecimento perceptivo como enganador. Na conclusão de sua sadhana, ele ganhou a compreensão de que todas as experiências do mundo fenomenal são ficções.

Atingindo o perfeito desapego, ele conseguiu ver todos os fenômenos como um sonhos, alucinações, castelos no ar, reflexos da lua na água, imagens num espelho. E com seu desapego ele alcançou as qualidades de clareza, controle e equanimidade. Pensando que havia atingido a finalidade última, ele procurou seu guru para uma confirmação.

O monge disse simplesmente, "Experiência não é mentira nem verdade. Realidade é incriada, indeterminada. Agora deves meditar sobre todas as coisas como vacuidade feita vazia por sua própria natureza."

Thaganapa obedeceu seu guru e retornou a sua prática. Seu caminho era um de resolver paradoxos, de tecer pensamentos e sentimentos conflituosos juntos na tapeçaria da vacuidade inerente de todas as coisas.

Atingindo siddhi, ele ficou conhecido como "Mestre da Mentira," e ensinou aqueles com bom carma como "remover a água dos ouvidos por meio de água." Depois de muitos anos de trabalho altruísta, chegou ao Paraíso das Dakinis.

Traduzido por Padma Dorje em 1999, a partir de Masters of Mahamudra e Buddhist Masters of Enchantment, de Keith Dowman, Buddha's Lions: The Lives of the Eighty-Four Siddhas, de Abhayadatta, traduzido por James B. Robinson e Empowered Masters, de Ulrich Von Schroeder. Por favor envie sugestões e correções para padma.dorje@gmail.com. Alterado em 2013-11-20 02:12:57.





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