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20. Naropa


O Discípulo Incansável

Assim como os exércitos do Imperador Universal
Conquistaram todos os continentes e as muitas ilhas,
Da mesma forma, o iogue que conhece o gosto de sahaja, o incondicionado,
Conquista o samsara, e somente reina o puro êxtase.

Naropa veio de Pataliputra, de pais de castas diferentes. Seu pai era um vendedor de bebidas, mas quando chegou a hora de seguir a profissão do pai, Naropa a rejeitou e foi para a floresta tornar-se um colhedor de madeira. Mesmo ali seu espírito incansável não lhe deu descanso.

Uma noite ele por acaso ouviu contos do grande sábio Tilopa. Naquele momento decidiu que Tilopa era seu guru e que não descansaria enquanto não o tivesse encontrado. No dia seguinte ele negociou uma carga de madeira com um caçador pela pele de cervo tradicionalmente vestida por um iogue e seguiu na direção de Visnunagar em busca de seu mestre.

Quando alcançou seu destino, ele ficou muito decepcionado ao saber que o grande sábio tinha recentemente ido embora e que ninguém sabia onde ele poderia estar. Sem perder a motivação, Naropa prosseguiu numa busca que duraria anos e que levaria-o pelos quatro cantos da Índia, enquanto ele seguia qualquer pista, qualquer dica sobre onde Tilopa poderia estar.

Um dia, quando o pó assentava-se pesado no ar parado, Naropa estava na estrada em direção a nenhum lugar em particular quando ele viu uma figura se aproximando no nebuloso horizonte. Por nenhuma razão aparente, seu coração pulou em sua garganta. Como se tivessem vontade própria, seus pés voaram pela estrada na direção do vulto ainda irreconhecível.

Quanto mais perto ele chegava, mais certeza tinha. E finalmente, quando pôde discernir o rosto e a forma do outro viajante, ele sabia. Ele finalmente havia encontrado Tilopa. Ele correu para seu mestre, prostrou-se no pó a seus pés, e começou a dançar em círculos a seu redor, chamando-o de "guru", e perguntando por sua saúde.

Tilopa parou no meio da estrada, olhou bravo para Naropa e berrou: "Pode ir parando com essas besteiras. Não sou teu guru. Tu não és meu discípulo. Eu nunca te vi antes e espero nunca mais te ver de novo!" E ele golpeou forte Naropa com sua robusta bengala e mandou-o sair do caminho.

Mas Naropa nem ficou surpreso nem desencorajado. Agora que tinha encontrado o mestre que havia procurado por tantos anos, sua fé certamente não seria sacudida com alguns xingões. Ele simplesmente seguiu para a cidade mais próxima para esmolar comida para ambos.

Quando ele retornou, Tilopa deleitou-se comendo sem nenhuma palavra de agradecimento e bateu forte nele novamente. Em silêncio, Naropa contentou-se com as sobras, e novamente caminhou ao redor de seu guru em circulos de devoção.

Por doze longos anos ele permaneceu ao lado de Tilopa, esmolando comida e servindo-o em todas as coisas. Nem por uma vez ele recebeu sequer uma palavra de simpatia. Nem por um instante Tilopa o reconheceu como seu discípulo. E nem por uma vez esmaeceu a fé de Naropa.

Ao fim do décimo segundo ano eles estavam em uma vila que celebrava o casamento da filha de um homem muito rico. O generoso anfitrião havia providenciado para os convidados oitenta e quatro tipos diferentes de curry. Um dos pratos era uma iguaria tão rara e tão requintada que apenas uma pequena prova o faria acreditar ter jantado com os deuses.

Naropa recebeu grandes oferendas de todos os curries, inclusive da grande iguaria. Quando retornou a Tilopa e apresentou o banquete, uma coisa fantástica aconteceu. Pela primeira vez em todos os anos que Naropa o havia conhecido, Tilopa sorriu. Então ele se serviu de cada pedacinho do prato especial. Lambendo os dedos, ele deu seu pote vazio para Naropa, diendo, "Onde encontrastes isto, filho? Por favor, volta lá e me consegue mais um pouco."

"'Filho!' ele me chamou de 'filho!'" pensou Naropa, feliz como um bodisatva no primeiro nível do caminho. "Por doze anos eu sentei aos pés de meu guru sem ele nem mesmo ter perguntado meu nome. E agora ele me chamou de 'filho!'" Flutuando em êxtase, ele retornou ao banquete do casamento para pedir mais do curry especial para seu mestre.

Mas tal era o apetite de Tilopa que ele re-enviou seu discípulo várias vezes. A cada vez, para alívio de Naropa, ele conseguia mais um pouco do elegante prato. Mas quando Tilopa o enviou pela quinta vez, Naropa ficou envergonhado, e ele passou por uma grande luta interna. Finalmente, incapaz de encarar o desagrado de seu guru, ele resolveu roubar o pote inteiro.

Esperando pelo momento certo, ele esgueirou-se pelas extremidades da multidão, sorrateiramente aproximando-se do pote de curry. E logo que os servos e convidados estavam ocupados com algum ponto da cerimônia, ele abandonou seu autorrespeito, roubou o pote, escondeu-o sob suas vestes, e escapou.

Tilopa louvou-o por degradar-se a tamanho nível de humilhação, adicionando elogios por seus muitos anos de perseverança. Chamando-o de "meu diligente filho," Tilopa então concedeu a iniciação e bênção de Vajra Varahi sobre ele e lhe deu instrução sobre meditação.

Em seis meses Naropa atingiu mahamudra-siddhi, e uma luz começou a brilhar de seu ser, tão intensa que podia ser vista a um mês de viagem de seu eremitério. Sua fama se espalhou como fogo, e devotos vieram até ele de todas as partes do mundo.

Depois de anos de incansável devoção a seus incontáveis discípulos, ele ascendeu em seu próprio corpo ao Paraíso das Dakinis.

Traduzido por Padma Dorje em 1999, a partir de Masters of Mahamudra e Legends of the Mahasiddhas: Lives of the Tantric Masters, de Keith Dowman, Buddha's Lions: The Lives of the Eighty-Four Siddhas, de Abhayadatta, traduzido por James B. Robinson e Empowered Masters, de Ulrich Von Schroeder. Por favor envie sugestões e correções para padma.dorje@gmail.com. 3 de dezembro de 2018, às 17:24h





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