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58. Jayananda

O Mestre dos Corvos

Meu reino é o samadi
o reino da estado desperto atemporal e do conhecimento.
Ali moro na pureza inata, livre da dualidade,
livre de pensamento discursivo e ideias fixas.
Minha realização assegurou minha liberdade

Em Bengal, muito tempo atrás, vivia um sacerdote brâmane que se convertera às praticas do Budismo Tântrico. Mantendo sua vida externa como antes, ele praticava em segredo os mistérios tântricos. Entre suas oferendas estavam tormas, pequenos bolos especialmente preparados e consagrados para representar o corpo da deidade. Depois de provar as tormas durante as cerimônias, ele costumava jogar o resto no chão para beneficio dos cães, pássaros e fantasmas famintos. Um grande bando de corvos, que eram seres muito inteligentes, logo se deram conta de sua prática, e esperavam todo dia na hora certa pelo seu banquete sacramental.

Um vizinho invejoso, outro sacerdote brâmane cujos modos eram conservadores e contidos, percebeu essa congregação diária de corvos fora da casa de Jayananda, e comecou a espioná-lo. Ele logo descobriu sua deserção aos costumes brâmanes e não perdeu tempo em relatar o que sabia ao rei, um declarado inimigo do budismo.

O Rei exigiu que Jayananda fosse acorrentado e trazido a sua presença.

"Não há pecado ou desperdício em fazer oferendas aos deuses," disse o prisioneiro em resposta as acusações do rei, "solte-me dessas amarras!" Mas o Rei ficou imperturbável, e ordenou o encarceramento de Jayananda nas profundezas da prisão do palácio.

Mais tarde naquele dia, quando chegava a hora do banquete, a fiel congregação de corvos se reuniu ao lado da casa de Jayananda. Esperaram em vão pelos bolinhos gostosos. Irritados e cansados, finalmente enviaram batedores para espionar e descobrir onde estava seu benfeitor. Imaginem sua ira quando descobriram que ele estava acorrentado na parede de um calabouço.

Como nuvens negras que agrupam-se no horizonte, o gigantesco bando preencheu o céu dirigindo-se ao palácio do rei. Voando por todas as portas e janelas abertas, os corvos desceram até a sala do trono, dando rasantes na cabeça das pessoas e bicando seus olhos e mãos. Pessoas ensangüentadas corriam gritando por causa do ataque, mas não havia onde se esconder.

Finalmente, um homem que conhecia a linguagem dos pássaros correu até o rei, que nessa altura escondia-se atrás do trono, e disse a ele que os corvos exigiam a liberdade de um certo brâmane que era seu pai e mãe.

O acuado rei imediatamente mandou buscar Jayananda. No momento que o brâmane apareceu, os pássaros empoleraram-se em todos os locais disponíveis. Como uma neblina negra todo-envolvente, esperavam pela absolvição.

O rei se prostrou perante o brâmane e implorou seu perdão. Então rogou para que Jayananda levasse os corvos do palácio de volta para o céu, que era seu lugar, prometendo que ele mesmo pessoalmente iria encarrear-se de que nunca mais ficassem famintos.

O brâmane se dirigiu benevolente para com sua familia emplumada, e como um só corpo, retornaram aos céus. O rei se encheu de fé ao ver tudo isto, e ele e toda a corte tomaram refugio no Buda.

O guru permaneceu por muitos anos em Bengal, trabalhando pelo beneficio de todas as criaturas. Freqüentemente cantava assim:

Ouçam, todos que precisam saber,
ouçam as palavras de vitória de Jaya:
Pela benção do guru,
a perfeita realização foi-me concedida.

Meu tesouro está preenchido de
atenção inata espontaneamente surgida,
Agora sou o ministro do puro deleite
que não mais colabora com a corte de samsara.
Meu rei é a natureza naturalmente radiante do ser
que derrota todos os poderes hostis da dualidade,
desapegado de todos os prazeres mundanos.

Apos setecentos anos de serviço altruísta, Jayananda chegou ao Paraíso das Dakinis.

Traduzido por Padma Dorje em 1999, a partir de Masters of Mahamudra e Buddhist Masters of Enchantment, de Keith Dowman, Buddha's Lions: The Lives of the Eighty-Four Siddhas, de Abhayadatta, traduzido por James B. Robinson e Empowered Masters, de Ulrich Von Schroeder. Por favor envie sugestões e correções para padma.dorje@gmail.com. Alterado em 2011-12-12 06:37:17.


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