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5.4. Vegetarianismo

Afinal de contas, Buda comia carne ou não? Por favor, dê uma resposta curta.

Algumas formas de mahayana acham que não, mas a maioria das formas de budismo acredita que Buda comia o que quer que fosse oferecido — exceto se tivesse sido especialmente abatido para consumo dele (o que evitava exatamente que um animal fosse abatido para ele por uma pessoa sem noção).

Buda morreu de disenteria ao comer comida estragada. Essa comida é muitas vezes descrita como "delícia dos porcos" ou "delícia de porco" — no mahayana que não aceita que o Buda comia carne, em geral é dito que é um tipo de cogumelo que os porcos gostam muito. Outros acham que era mesmo carne de porco passada.

Para grande parte dos budistas, Buda morreu de disenteria ao comer carne de porco estragada. Mas Buda prescreveu algumas indicações morais para melhorar nossa experiência. Um destes preceitos é não causar sofrimento aos seres-mães. Considerando este preceito, por que Buda comeu carne?

Essa é uma pergunta muito comum. Como vivemos num mundo onde a interdependência parece ter se tornado um bocado mais intensa, ou, melhor dizendo, mais evidente, não conseguimos separar o ato de comer do ato de comprar do ato de matar. Portanto em nossos tempos devemos realmente praticar consumo consciente, já que não só a carne que vemos exposta nos supermercados está cheia de sofrimento vasto e inconcebível, mas todos os produtos que compramos — vegetais que implicam em agrotóxicos e a morte de incontáveis insetos, uso de energia que implica impacto no ambiente, exploração dos trabalhadores e roubo dos vários atravessadores, sem falar nos impostos que algumas vezes promovem guerras e patrocinam corruptos — quase todas nossas ações de consumo igualmente implicam sofrimento vasto e inconcebível.

O consumo consciente deve estar presente em todas as nossas compras, e devemos de fato privilegiar aqueles produtos que implicam em menor impacto. A carne, sem dúvida, é um produto bastante negativo e deve ser evitada com moderação, sem orgulho e sem a ideia de que ao consumirmos vegetais estamos absolutamente livres de estar causando sofrimento.

Com relação ao Buda, a regra monástica que até hoje muitas comunidades no sul da Ásia seguem e que ele estabeleceu é que um monge deve comer o que quer que seja oferecido de bom coração, por degradado que pareça. Como algumas pessoas estavam caçando e criando animais para oferecer à sanga, o Buda recomendou que não se comesse carne com menos de seis atravessadores: isto é, da pessoa que matou o animal até o monge que recebe a carne devem haver pelo menos seis pessoas, de forma que fique claro que o animal não poderia ter sido salvo pelo monge, e que não tivesse sido abatido especialmente para ele. O monge, evidentemente, não podia comprar carne, visto que tudo que ele come devia ser esmolado.

Originalmente um monge também não podia trabalhar, sequer no campo, de forma a produzir o próprio alimento. Estas regras foram afrouxadas em algumas comunidades com o passar dos tempos. (Na verdade um monge não pode sequer pegar um fruto de uma árvore que esteja em "área pública", isto é, que não pertença a ninguém. Isso é considerado roubo, porque o modo com que é fraseado o preceito da desvirtude de roubar é "tomar o que não é dado".)

No caso dos leigos que estão no jogo da compra e venda, e particularmente nos dias de hoje, devemos procurar comer o que é mais saudável, consumir conscientemente e tentar exercer atividades que não produzam sofrimento, ou o mínimo de sofrimento possível.

A maioria dos professores budistas que conheço evitam a carne, mas a comem quando oferecida. Com relação a mestres realizados, sabe-se que é benéfico para o animal ser consumido por um ser de sabedoria.

Um mestre budista relata em sua biografia ter sido perseguido na Índia por comer o cadáver de uma vaca (que morreu de causas naturais). O vegetarianismo algumas vezes se torna apenas uma outra forma de intolerância, e portanto é adequado ter em mente uma verdadeira conduta de ecologia profunda e menor impacto do que seguir cegamente preceitos inflexíveis.

Também não é incomum na história do vajrayana mestres budistas oferecerem a alunos brâmanes carne de porco — considerada o suprassumo da imundície entre a casta alta da Índia clássica. Alguns eruditos afirmam que era uma forma de quebrar o orgulho dessa posição social. Nas histórias dos 84 mahasiddhas ocorre mais do que duas vezes.

Qual é a relação do Budismo com o vegetarianismo?

Quanto ao vegetarianismo, tudo que consumimos vem de sofrimento. Para produzir arroz vastos campos são alagados, e incontáveis insetos morrem. Nós sentimos mais afinidade com mamíferos, e talvez haja alguma coisa nessa afinidade — mas não devemos desconsiderar todo o outro sofrimento. Precisamos nos engajar em mais virtude do que produzimos impacto ao comprar roupas, celulares, comida, transportes. É basicamente isso.

Em geral, comer carne não é o problema. Se a carne já está morta, que diferença faz? Participar do processo econômico que causa mortes é o problema. Assim, não é unânime a posição budista sobre vegetarianismo — e de fato diferentes tipos de praticantes tem diferentes relações com o consumo. Monges, que não podem trabalhar, comprar ou produzir comida, comem só o que é oferecido. Eles podem comer carne oferecida desde que não tenha sido especialmente morta para eles. Já um budista tendo uma criação para fazer abate — daí, nesse caso, é algo bastante difícil de integrar — provavelmente impossível de integrar sem uma realização de controle total sobre a vida: isto é, se o, nesse caso, mestre, é capaz de ressuscitar um animal com um milagre, então ele pode abater. Creio que essa é a única exceção, embora os sutras contem a história de um abatedor de animais que matava de dia e praticava de noite, e nesse caso ele colheu o mérito de passar os dias no inferno e as noites na terra pura praticando. Não é o melhor dos mundos, mas a ideia é que a pessoa, mesmo numa posição degradada, pode praticar o que puder. As pessoas que compram, como a maioria de nós, devem consumir conscientemente. Isso não significa prescrever nada de forma tão geral, quanto pensar sobre o que se está consumindo e que tipo de impacto causa.

Evidentemente que mesmo a morte de um inseto para a produção do seu punhado de arroz integral, que você patrocinou, vai produzir sofrimento para você no futuro. Então, se você leva uma vida neutra, você na verdade leva uma vida negativa — e por isso você precisa ter uma vida extremamente positiva — e por isso você precisa coerência — e assim você não pode deixar os outros decidirem, e sim reconhecer a sua situação e fazer o melhor dela.

É preciso ser vegetariano para ser budista? Em que grau o vegetarianismo é recomendado?

No budismo muitas vezes não existe grande pressão para que o praticante se torne vegetariano — a base do sofrimento são as aflições mentais, e lutar por causas secundárias pode se tornar perda de tempo. Em alguns casos, é claro, essas causas tem méritos que valem algum esforço. Mas, tendo dito isso, com certeza o vegetarianismo é recomendado por muitos professores, com maior ou menor ênfase. Se o seu professor recomenda, é altamente adequado seguir essa recomendação.

Minha perspectiva pessoal é que os sofrimentos do reino animal são muito leves perto dos infernos e do reino dos pretas. E, de fato, o sofrimento tem uma característica pervasiva mesmo nos reinos dos deuses da forma e da não forma, onde não se come nada nem ninguém. Por isso não acho nem um pouco interessante se focar muito num sofrimento mais evidente, porque com essa perspectiva, chegaríamos de volta a apenas o "meu sofrimento" e o "sofrimento que EU sou capaz de entender", o "sofrimento que ME faz sofrer da minha perspectiva limitada", o que é muito mesquinho.

Assim, mesmo achando que, de forma geral, o vegetarianismo deva ser encorajado, acho que a ênfase excessiva no tema é contraproducente. Uma vida animal e uma vida humana sem o darma, como a maioria das nossas vidas é, não tem sentido nenhum. Então se nós queremos beneficiar os seres-mães, precisamos nos tornar Budas, atacando as aflições mentais, não as ramificações atuais, temporárias, delas. É por isso que o ensinamento do Buda é atemporal. Por outro lado, mesmo uma pequena virtude não deve ser desprezada: então é recomendável ser vegetariano. Em outras palavras, o vegetarianismo low-profile é recomendável e bem mais recomendável do que o proselitismo do vegetarianismo.

A produção de alimentos derivados de animais, ao se tornar industrial, não torna ainda mais cheio de sofrimento o processo? Em que momento um praticante deve dizer "basta"?

As coisas, de modo geral, estão mesmo mais difíceis para todos nós, desde a época do Buda. Para os seres humanos, para os animais que consumimos e utilizamos, e mesmo para os animais que apenas habitam essa terra. Para os animais que são afetados pelas plantações, a situação está muito difícil também. Patrul Rinpoche disse, no séc XIX, que se soubéssemos de todo sofrimento envolvido na produção do chá, não seríamos capazes de tomar nem mesmo um gole. Esse tipo de reflexão é encorajada em todos os ensinamentos sobre sofrimento. Já "parar de tomar chá", isso ninguém é encorajado a fazer. A única obrigação do praticante é melhorar continuamente, diminuir o impacto o melhor que puder. Ele não precisa fazer nenhuma atitude heroica externa. Essas atitudes heroicas são uma forma de reificação do eu.

Por outro lado, se com a clara motivação de diminuir o sofrimento animal alguém diminui ou para o consumo de certos produtos, isso é consumo consciente, e é ético, meritório. Então a pessoa deve, de fato, prestar atenção na cadeia produtiva do que consome.

Comer carne gera carma negativo?

Só se a presa estiver viva enquanto você mastiga. Quando as pessoas comem ostras frescas, por exemplo. Elas jogam limão, que retesa a ostra de dor, e então comem a ostra viva. Torturar e matar um ser gera com certeza grande carma negativo.

Também quando uma pessoa escolhe uma lagosta num aquário. Como ele escolheu um ser específico, o carma com aquele ser específico, de o ter prejudicado, é muito maior. Se comemos um pedaço de uma vaca a quem nunca pessoalmente dirigimos nossa raiva ou cobiça, mas apenas certa negligência, indiferença, e assim por diante — temos o carma correspondente à negligência e a essas aflições. Nesse caso, comer a carne não faz muita diferença, o que faz diferença é comprar a carne e assim participar ativamente de sua morte.

Comer a carcaça de um animal que morreu de causas naturais, ou mesmo foi abatido por outro animal, sem que você fique contente por isso — não gera carma negativo algum. Você até pode gerar carma positivo ao fazer aspirações e levar uma vida virtuosa sustentado por esse animal. Portanto comer carne, por si só, não gera carma negativo.

Agora, comprar e matar gera carma negativo, sem dúvida. Mas comprar arroz também gera carma negativo, porque morrem muitos insetos na produção do arroz — e de qualquer outra coisa que se coma, se vista ou se use. Você está patrocinando o impacto causado para qualquer pequeno animal que seja morto ou desalojado, ou perca o alimento que iria comer. Portanto há muito carma em comprar arroz, carne, leite, frutas.

Agora, é preciso lembrar que comer por apego, sem considerar o compromisso de bodisatva ou o mero fato de que estamos nos sustentando — comer meramente por prazer, possui alguma marca cármica. Isto é, não é totalmente isento de carma. Mas isso serve para qualquer tipo de comida, dependendo do que nosso apego manifesta. Então nada tem a ver com carne ou a violência do abate, mas com o processo de comer em si.

O budismo tem algum ponto de vista sobre a alimentação do praticante? É necessário ser vegetariano ou algo do tipo? Dieta especial?

Depende de sua forma de vida, da sua saúde, da forma de budismo que você segue e do seu professor. Em geral, nenhuma tradição budista exige que alguém seja vegetariano ou tenha uma dieta específica para ser praticante.

Mas pode haver circunstâncias, ligadas a local, forma de prática, forma de vida, professor etc., que podem gerar mais pressão no sentido de um consumo com menor impacto.

Em geral se aceita que tudo que consumimos causa sofrimento em algum lugar, portanto é preciso ter consciência desse fato e agir de forma a reduzir impacto ao máximo possível.

O próprio Buda comia carne, e aos monges do Sul da Ásia é vedado escolher a comida que lhes é oferecida — eles tendo direito de negar apenas um animal que tenha sido especificamente morto para eles. Então, no cerne, o budismo está preocupado mais com reduzir danos e não escolher tanto o que se come do que com uma dieta específica.

Se há carma na compra e consumo de chá, arroz, carne, leite, frutas, camisetas de algodão, celulares e etc., então não há escolha, ou acumulamos carma ou morremos de fome, frio e não participamos do mundo atual? E como é quitado esse carma?

Como disse antes também, a única saída é produzir mais benefício do que malefício, e minimizar o impacto como pudermos — sermos consumidores conscientes. Mesmo respirar ou se mover promove a morte de seres, e, portanto, carma negativo.

Você acha que quem come carne é mais desequilibrado e/ou agressivo?

Os hormônios na carne podem ter um efeito sobre o humor da pessoa, mas, falando em termos gerais, não. Muitos grandes professores comem muita carne e são extremamente gentis mesmo assim.

É verdade que o Dalai Lama precisa comer carne às vezes?

Sim, por orientação médica — na medicina tibetana algumas vezes a carne é prescrita para algumas condições.

Retorne ao índice. Envie suas perguntas, correções e sugestões para padma.dorje@gmail.com. Última alteração em 2015-07-04 06:31:54.




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