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3.4. Morte, renascimento, reinos

O que é samsara? Vejo essa palavra muito frequentemente em textos budistas e outros contextos, mas não consigo entender.

Samsara é "experiência cíclica", ou o fato de que todas as experiências condicionadas pelas aflições mentais (raiva, orgulho, apego, inveja e ignorância) produzem sofrimento. Em outras palavras, é o mundo que surge através de nosso engajamento em corpo, fala e mente filtrado por essas aflições.

Samsara é maior do que a experiência dessa vida e desse corpo, isto é, é a experiência de sofrimento vinculada as aflições mentais que produz todos os corpos que vivenciam sofrimento.

No sentido mais estrito, quando existe a experiência de tempo e espaço, produzidas pelo veneno da ignorância, há samsara.

Assim, realmente não é um conceito fácil, e começamos apenas estudando a profundidade do sofrimento das diversas circunstâncias humanas e animais que conhecemos, e eventualmente ampliamos isso para toda experiência possível embasada em alguma aflição mental. E, quando reconhecermos a aflição base, a ignorância, finalmente teremos entendido o que é sabedoria, e estaremos livres do samsara. Por enquanto, trabalhamos com uma versão grosseira do veneno da ignorância que é uma espécie de preguiça ou indiferença, o sofrimento que advém da negligência, por exemplo, e enfim chegaremos ao entendimento de causalidade, espaço e tempo como reificações da luminosidade.

Para onde vamos após nossa morte?

Após sonhar a morte, sonhamos um renascimento — se ele vai ser bom ou ruim, isso depende do carma. A não ser os seres despertos, para eles só há lucidez.

Segundo o budismo, o que acontece com a pessoa depois da morte?

O sonho continua. O sonho pode piorar, principalmente se a pessoa não agiu de forma ética durante a vida. Ou ele pode melhorar, se ela praticou a virtude. Uma pessoa que pratica meditação, pode, durante a vida ou a morte, acordar do sonho. E também ela pode seguir num sonho lúcido, durante a vida ou a morte.

Normalmente a pessoa sofre muito logo antes de morrer e durante o processo de morte. Só um grande praticante — que é bem raro — tem confiança na sua prática na hora da morte e penetra lucidamente nas experiências que surgem.

Como budistas encaram a morte? Sofrem menos? Acham natural? Ou depende de como se morre?

Depende da forma de budismo, mas em geral é um momento delicado e crucial, para o qual se deve se preparar durante toda a vida. É uma grande oportunidade, que normalmente é desperdiçada por aqueles que não possuem prática de meditação. Para os que não tem confiança em sua prática de meditação, budistas ou não budistas, os budistas veem um momento de grande dificuldade, confusão e sofrimento. Uma pessoa que levou uma vida bastante ética tem uma chance melhor de sofrer menos, mas mesmo uma pessoa muito boa, sem a prática de meditação, pode sofrer bastante e envolver-se em muita confusão durante o processo de morte até o próximo renascimento — e daí em diante.

O que ocorre com a consciência após a morte?

Depende da consciência. As consciências ligadas aos seis sentidos (5+consciência da mente) vão desaparecendo uma a uma até a morte (na verdade, inclusive quando você toma uma anestesia geral, ou em sono profundo, ou coma). Essas consciências desaparecem. A consciência base, é a fundação para os novos surgimentos. Antes dos surgimentos existe a oportunidade de reconhecer o estado de abertura e repousar nele, sem fixação. Se não meditamos durante a vida, normalmente ele passa quase imediatamente, e passamos a alucinar — quem alucina é uma consciência. Depois cansada de não ter uma estabilidade, e simplesmente ser jogada de um lado para o outro (pelos ventos do carma), ela se fixa a algo que considera atraente, e assim ela se vincula a um novo nascimento.

Como devemos reagir diante da morte de um ente querido?

Sem desespero, sem choro. Praticar o que se sabe, patrocinar práticas em nome dele, e evitar brigas e discussões com os parentes e amigos próximos, principalmente sobre as posses do falecido.

Se for uma pessoa que morreu extemporaneamente, ou em circunstâncias pouco auspiciosas (suicídio, acidente, assassinato), ou se a pessoa levava uma vida pouco virtuosa (um caçador, pescador, alguém que fez aborto, alguém que prejudicava os outros) daí em particular a pessoa deve procurar fazer prática intensa e patrocinar a prática de Akshobya, por exemplo.

Por que as aparições do bardo da morte são horríveis? Sendo o bardo uma ilusão, por que o teor do bardo da morte não é qualquer um, mas necessariamente aterrorizante?
Porque naturalmente somos apegados a nossa condição atual, e tudo se dissipa. O que surge é aterrador para todos nós que ainda temos esperança e medo, mas não para todos: quem superou esperança e medo não vê o bardo como aterrador.

Quando o bardo da morte apresenta a oportunidade da iluminação?

Quanto menos prática em vida, mais difícil de reconhecer a oportunidade de liberação em cada momento. No momento da morte há uma ótima oportunidade, ela é disponível para qualquer um. Porém, sem a prática durante a vida e as instruções de um professor qualificado, vai ser difícil haver reconhecimento e estabilidade nesse reconhecimento. Nesse caso a pessoa deve lembrar do Buda Amitaba e aspirar renascer numa terra pura, para ter mais facilidades de praticar.

A reencarnação me parece um fenômeno muito irreal, que pode ser questionada por vários exemplos. Quais são os argumentos budistas em favor deste fenômeno?

No nosso mundo hoje, realmente a reencarnação é difícil de engolir. Mas, para começar, o budismo não aceita exatamente o que se descreveria como reencarnação (porque isso envolve uma coisa na carne — alma — que pega uma nova carne) mas sim renascimento (ressurgimento num outro sonho, com um outro corpo de sonho, inseparável desse novo ambiente de sonho).

Depois é preciso entender o contexto em que os ensinamentos primeiro foram dados: num ambiente onde o renascimento já era a crença comum e incontestável das pessoas. Assim, não há tantos ensinamentos budistas para convencer alguém sobre isso.

Enfim, o ponto crucial da noção de renascimento é fazer os "experimentos mentais" de acordo com o que é prescrito. Se eu tivesse uma série enorme de vidas consecutivas, e não visse sentido em qualquer uma delas, que tipo de ensinamento seria interessante para mim? O darma. Portanto não é uma questão, como geralmente parece ser, de medo de morrer que nos faria ansiar por uma existência após a outra, que levaria à crença em renascimento, mas sim a ideia de que a insatisfação não está contida em uma vida, mas em todas as vidas possíveis.

Então a pessoa é aconselhada a raciocinar com base nessa hipótese, sem precisar acreditar. Mas ela precisa ser capaz de ver o mundo no ângulo de vidas incontáveis, todos os seres já tendo sido nossas mães, e assim por diante, isso é crucial.

Eventualmente, através da prática da meditação é possível encontrar evidência de primeira pessoa com relação a vidas passadas e futuras.

Ademais, sem a noção de uma alma, ou mais do que isso, com toda a noção de identidade pessoal essa sim, como sendo uma crença equivocada, ao abandonar essa crença absurda, a pessoa reflete sobre as muitas vidas de uma perspectiva ligada ao que se chama de "tecido do sonho", e a prática do budismo enfim se foca naquilo que é real, e que portanto, não nasce nem morre.

No Lankavatara Sutra Buda teria dito que ensina renascimento para aqueles de pequena e média capacidade, para aqueles de mais alta capacidade ele ensina sobre aquilo que nem nasce nem morre.

Se o budismo segundo Buda Shakyamuni é para ser praticado de modo a aprendermos com a própria experiência, como então comprovarmos o Renascimento sem cair na armadilha de mais uma crença ou religião, alijando a experiência citada pelo Buda?

Você usa o renascimento como um experimento de pensamento. Você vive de acordo com essa perspectiva, em particular com o fato de que as bilhões de vidas que supostamente você viveu foram pura perda de tempo, sem sentido, cheias de sofrimento, e então você se direciona para a prática espiritual, que é a verificação empírica de um estado além do renascimento.

Como comprovar o renascimento sem cair nas armadilhas da crença?

Você abandona o requerimento de comprovação e participa das ideias de uma forma puramente cética, isto é, sem aceitar nada definitivamente, mas aceitando temporariamente aquilo que é proposto e pode ser empiricamente testado. No caso você talvez não possa testar empiricamente o renascimento sem muitos anos de meditação, mas você pode testar empiricamente o benefício de tomar o renascimento como base para urgência na prática, ou trazer benefício aos seres, por exemplo. Então você pode usar a ideia não com base no seu valor de verdade, mas no seu valor moral (como ela é boa para você e para os outros, num sentido de benefício) — e você pode verificar, no devido tempo, ambos. Como ética e realidade são convergentes, ao pensar de qualquer dos modos, através da virtude (os benefícios de pensar assim ou assado, desconsiderando, temporariamente, se é ou não verdade) ou verdade (se é o caso ou não) você reconhece a mesma coisa.

Para ser budista é preciso acreditar em outras vidas além desta?

Sim, você não pode ser solipsista.

Mas se além disso você quis dizer outras vidas SUAS além desta vida, isto é, renascimento.... bem, nesse caso você pode usar alguma coisa do budismo para melhorar sua qualidade de vida e dos outros ao seu redor, mas para praticar o budismo com profundidade e com efeitos duradouros, será necessário pensar em muitas vidas.

O que são seres sencientes? Quem são eles?

São seres que possuem mentes e portanto são capazes de sofrer. São o objeto de compaixão, o que inclui todos os humanos, todos os animais e mais algumas classes de seres (pretas, narakas, asuras e devas).

Tenho preferido, nessas respostas, usar a expressão "seres-mães", para lembrar que cada ser senciente já foi nossas mães várias vezes ao longo de incontáveis vidas.

O que leva uma pessoa a renascer como animal? Ter levado uma "vida de animal"? O que seria isso?

Procrastinação, preguiça, desinteresse, covardia, tédio, falta de engajamento — má vontade. A pessoa treinando nesses estados mentais produzirá um corpo correspondente — e as características secundárias deste corpo estarão ligadas a outras ações particulares e às aflições mentais causadoras dessas ações particulares.

Você acredita que já foi uma barata em outra vida?

Num dia bom não acredito nem mesmo que sou um ser humano agora! Também um dos maiores problemas dos humanos é o especismo, e a arrogância com que lidam com outras formas de vida. O regime nazista transformou os judeus em insetos, o caminho do meio vê todos os seres como budas. Agora você escolhe seu lado.

"O caminho do meio vê todos os seres como budas." Baratas têm tanta dignidade assim? Isso me parece tão extremo.

Eu e uma barata não somos essencialmente diferentes, eu apenas tenho mais capacidade, neste momento, para a arrogância ou para a compaixão. Não existe nenhuma diferença entre não reconhecer a dignidade da barata e a dignidade ela mesma como um valor por si só. Não reconhecer a dignidade do outro é não reconhecer a própria dignidade.

O nosso senso comum é carregado de pressupostos extremos. Um pressuposto extremo é o de que esse nosso corpo humano é mais do que um sonho. Outro pressuposto extremo é olhar para o outro e não ver um Buda, e sim uma barata. Da nossa perspectiva distorcida, o estado atual das coisas parece extremo — mas isso se deve apenas às nossas próprias projeções.

Eu não played the nazi card em vão na resposta anterior. E isso não é um reductio ad Hitlerem ou uma prova da Lei de Godwin. Peço que tome o argumento como ele está. O holocausto é certamente gravíssimo — nele alguns seres olharam para outros e disseram que eles eram nojentos e não mereciam viver. O que o budismo vai dizer é que apenas dizer "não se deve tratar seres humanos como insetos" não é o suficiente. A raiz desse problema está na soberba daqueles que se apoderam do ponto de vista que os outros, sejam quem forem, são descartáveis, uma mera incomodação, algo desagradável. O que o budismo diz é que enquanto nós treinarmos essa visão com as baratas, não vai ser possível desenvolver um bom coração verdadeiro. E sem ele, basta sermos levados pelo carma que o objeto muda — em outras palavras, de exterminar insetos para exterminar humanos não é um abismo tão grande. Enquanto treinarmos nessa tendência de culpar o outro pelo nosso desconforto, nessa mesma medida nós vamos sofrer e criar raízes de sofrimento. Enquanto não pudermos ter empatia por todo e qualquer ser, sem discriminação, não estaremos livres do sofrimento. Por isso, mais do que uma mera curiosidade em saber de renascimentos passados como seres repulsivos ou a quem consideramos desprezíveis — a sensação de repulsa e desprezo e a incapacidade de empatia com uma determinada classe mostra que o impulso do sofrimento e de causar o sofrimento está ali todo presente. Esse ponto é o mais importante.

Acredito que há alguma evidência (fraquíssima) de que humanos renascem. Mas que evidência há de que baratas renasçam? Creio que nenhuma. Puro dogma. Ou não?

Você não precisa aceitar sem evidência — mas é bom lembrar que para negar, também não há evidência. Então, quando em meditação você lembrar de uma existência de barata, daí você tem evidência. Enquanto isso, você pode até tender para não acreditar — desde que isso não impeça sua prática de compaixão.

E, como já disse antes, se tender para acreditar ajudar na sua prática e na sua vida — mesmo sem muita evidência — é com você se você prefere os seus conceitos ou os conceitos dos outros, independente de que conceitos funcionam melhor na sua vida. Segundo os ensinamentos, quanto mais você estiver de acordo com como as coisas são, mais você mesmo se dá bem. Então você pode usar essas evidências indiretas também, e não custa nada, pelo contrário.

Mas você não precisa acreditar em nada para que não tenha evidência. Apenas, eventualmente, ser capaz de raciocinar dentro de um desses mundos possíveis, sem compromisso.

Outro ponto é que, cientificamente falando, não há grande diferença entre você e uma barata — além de complexidade. Então pressupor que a complexidade faça diferença (produza uma "alma"), essa sim é uma noção que se embasa numa crença dogmática.

Lembrar de uma existência de barata, ou outra qualquer, não pode ser um autoengano, uma memória forjada como aquelas que, em sessões de hipnose, às vezes levam pessoas a pensar terem vivido nesta vida coisas que não viveram?

Pode, é claro. Por isso o refinamento de ferramentas epistêmicas é a prática central do budismo — isto é, a prática de meditação. Segundo os ensinamentos budistas é autoengano essa nossa própria memória de humanos neste exato momento. Essa é só uma projeção de nossas aflições mentais.

Segundo os ensinamentos budistas, as aflições mentais produzem filtros que distorcem nossa autopercepção e a percepção de todos os outros fenômenos.

Através da prática de shamata estabelecem-se duas ferramentas cruciais: nitidez e estabilidade. Como uma tapeçaria detalhada numa sala iluminada por uma vela — as correntes de ar das aflições mentais fazem tremeluzir a chama, e a própria intensidade da luz é pequena — fica difícil de compreender que é autoengano nossa condição atual, e lembrar de todos os nossos outros autoenganos. Foco e exposição, como numa foto. Ao meditar na direção de shamata, desenvolvemos uma "câmera" estável e bem focada para analisar os fenômenos, particularmente os internos.

Shamata é considerada como a capacidade de se focar, sem perder a estabilidade e mantendo a claridade (isto é, não caindo em torpor), por pelo menos 4 horas ininterruptas. Com esse tipo de prática a pessoa pode começar a sondar suas próprias memórias nesta e em outras vidas — sem isso, nem mesmo as memórias desta vida tem qualquer clareza. Para a maioria das pessoas, esse tipo de prática requer 50.000 horas acumuladas de shamata regular, todos os dias, por de 15 minutos a 14 horas por dia. Muitos, milhares, de budistas fizeram esse experimento, e relataram em detalhes o que observaram.

É como um telescópio fora da atmosfera, capaz de repetir o mesmo fotograma da mesma parte do espaço a cada rotação, dia após dia, até que mesmo pontos de luz muito fracos e muito distantes vão ganhando nitidez. Isso é a prática de shamata.

Enfim, com a realização da prática de shamata, podemos mergulhar na prática que é particularmente budista (os hindus também possuem a prática de shamata — e tem grandes praticantes do seu lado também), a vipassana, que é o exame de determinados objetos com esse instrumento epistêmico fortemente estabelecido. No caso, a própria mente e a natureza dos fenômenos. É assim que a vacuidade é diretamente vivenciada.

Nesse meio tempo, a prática essencial de gerar méritos é crucial. Se não for para gerar méritos, todos esses elementos de renascimento, e assim por diante, são meras explicações e não interessam verdadeiramente. Agora, para gerarmos mérito, eles podem ser importantes. Precisamos de mérito porque caso contrário, temos obstáculos na nossa prática — obstáculos que impeçam a prática, como falta de tempo, doenças, vida curta, turbulência social, falta de casa e alimento durante essas 50.000 horas iniciais e as demais de vipassana, e assim por diante. Ademais, 50.000 horas é para aqueles atletas espirituais profissionais, a maioria dos budistas não vai fazer isso — e gerar mérito vai ser a única prática deles. Para estes, ter compaixão, generosidade, e as outras qualidades é mais crucial ainda. Portanto, se pensar em renascimentos como barata nos ajuda nisso, faz sentido pensar assim. Se não nos ajuda — e em alguns casos pode não ajudar, podemos esperar para a verificação.

Em geral o que obstaculiza as pessoas não é exatamente a noção de explicações sem muita evidência, mas sua própria falta de mérito. Após se dizer repetidas vezes que a pessoa precisa se dedicar para atingir, digamos, as qualidades que ela reconhece no lama — e que essa dedicação não inclui crer em coisas que ela considera absurda — a única coisa que impede a pessoa são seus próprios preconceitos, seus próprios obstáculos.

Uma vez um colega meu na filosofia disse que os budistas não matavam baratas porque elas podiam ter sido nossas mães em vidas passadas. Não é por isso que não se mata baratas — mas mesmo em tom ficcional, pensar nelas como nossas mães ajuda em nossa compaixão. Então não há problema com essa perspectiva. Nem mesmo é correta a ideia de que elas "podem" ter sido nossas mães, nós pensamos em todos os seres como TENDO sido nossas mães. Mas não é por isso que não os matamos. Não os prejudicamos porque sofrem, ponto. Do ponto de vista do NOSSO próprio treinamento, daí é interessante experimentar com essa perspectiva de ver todos como mães — ou qualquer que seja o ser por quem temos grande consideração, caso não achemos nossa mãe muito especial. Por exemplo, se odiamos nossa mãe, e adoramos nosso cachorro ou nosso gato, podemos pensar que nossa mãe já foi nosso cachorro ou gato. Porque ela já foi, ou porque é bom pensar assim. ESSE ponto depende da capacidade da pessoa, mas em ambos os casos, é bom para a pessoa.

Em uma das respostas você afirma que os animais possuem uma racionalidade rudimentar e que não estamos tão distantes assim deles. Não somos superiores em nada? Uma bactéria e um humano têm a mesma importância? Poderia falar mais a respeito?

Bom, a bactéria é um ponto de debate. Embora ela evite toxinas e busque alimento, porque ela não sente dor, é difícil estabelecer ela como um ser senciente — e com certeza não é possível estabelecer ela como um ser racional, nem mesmo de racionalidade rudimentar.

No caso dos seres que sentem, sim, esse é o critério, estejam eles em que nível de racionalidade estiverem.

"Mesma importância", daí eu diria que não. No sentido de sua "essência", eles são a mesma coisa — o potencial é o mesmo. No sentido de suas qualidades, daí o ser humano é claro desenvolveu mais qualidades do que os animais. Mesmo um ser humano profundamente negativo pode se regenerar e fazer muito mais bem, ter muito mais compaixão, do que um animal.

Assim há dois pontos importantes: não há diferença essencial (na racionalidade, na capacidade de compaixão) entre os seres sencientes. Mas há diferença qualitativa. Entre as diferenças qualitativas, o ser que, pelas causas e condições, manifesta ou pode manifestar mais compaixão, "vale mais". O critério não é a racionalidade, mas a capacidade para a compaixão.

No Budismo existe alma? O que renasce?

Não há alma, mas o carma não cessa quando condições não estão presentes, ele só se conecta com novas condições se apresentam.

Nos diálogo com o rei grego Milinda, Nagasena responde essa pergunta dizendo que é como uma lamparina que acende outra lamparina — não é nem mesmo o fogo, nem é essencialmente diferente.

Qual a diferença entre alma e mente?

Essa diferença é peculiar ao budismo.

No budismo o que chamamos de alma é um substrato pessoal imortal, uma essência da pessoa que é indestrutível. Considera-se no budismo que isso não existe. Algumas vezes se fala em substrato da psique, como sendo as energias de hábito que são mais arraigadas e passam de uma vida para a outra.

Já mente depende um pouco da linhagem. De uma forma geral, mente é citta, isto é, a capacidade cognitiva. No budismo tibetano muitas vezes se fala em duas mentes: a capacidade cognitiva pristina, inalterada, impessoal, que funciona como o espaço onde se desenrolam as memórias e a discursividade. As memórias e a discursividade são a mente convencional, o espaço onde elas se desenrolam são a mente última ou básica.

Como se dá a imortalidade da mente?

A mente discursiva, que produz uma noção de pessoalidade, essa morre. Se é nela que estamos confiando, é por isso que sofremos. Se sofremos, é porque estamos confiando nela. Já o espaço de atenção, ou o foco básico dessa mente, não depende de localidade ou corporeidade, e portanto ela é não nascida. Como é não nascida, não pode morrer.

É preciso também apontar que dependendo um pouco do budismo, "imortalidade" é visto com maus olhos. O Buda descreve como um dos obstáculos diretos ao entendimento do darma desejar a imortalidade ou a existência de um substrato eterno. Mas existem alguns ensinamentos que apontam para um substrato que algumas vezes é confundido com "eterno".

Basicamente o budismo teria problema com eterno e imortal, mas não com atemporal e "além da morte". De fato, em inglês em geral se usa a palavra deathless, não immortal. Da mesma forma, sempre se prefere timeless/atemporal do que eternal.

Então não é muito simples, também porque existem limitações de linguagem, explicar o que realmente quer dizer "transcendente".

Quem escolhe pra que corpo cada mente vai?

Algumas vezes surge uma imagem de transmigração em alguns ensinamentos budistas. Mas estes são apenas meios hábeis para explicar de forma simplista algo que é mais sutil.

O que ocorre é que nossos corpos são manifestações das tendências de não reconhecimento da mente básica. Na verdade, não só nossos corpos, mas todas as formas. Assim, eles surgem peculiares devido a essas escaras (da mesma origem indo-europeia do sânscrito "skaras", que dá também no inglês "scar"), cicatrizes ou marcas, que as energias de hábito entalham na natureza básica. Como uma bolha, elas se formam, duram um tempo, e explodem, visto que a gama de possibilidades infinitas da mente básica constantemente age e produz um desgaste, que chamamos de impermanência. Como nossa perspectiva surge condicionada por estas aparências, vemos o desgaste e a impermanência como ameaças. Essa é a mesma velha energia de hábito que nos colocou aqui em primeiro lugar. Depois que explode uma bolha, a energia de hábito trata de soprar outra. E embora ela não seja a mesma, ela é feita com quase o mesmo sabão de hábito, e cores de hábito semelhante surgem.

Essa energia de hábito não está no corpo, mas o corpo surge como uma forma de reificá-la ainda mais. Então passamos a confiar no corpo e surge, num determinado momento, a ideia de um "eu" coeso e independentemente existente. Esse "eu" postula então noções de uma alma e outros conceitos que servem para reificar ainda mais a energia de hábito da separatividade.

Quando praticamos o darma, treinamos no reconhecimento da vacuidade dos fenômenos, e então vemos a bolha como uma bolha. Algo magnífico e transitório — a bolha em si não macula a natureza básica, e nem mesmo oculta verdadeiramente a natureza básica — o que é necessário é que, mesmo fascinados pela bolha, não percamos de vista o espaço que permite que ela se forme. O que o budismo chama de "compaixão" é a percepção de que há outras mentes convencionais presas desse não reconhecimento. O que os mestres fazem é usar o que se apresenta como meio hábil para revelar incessantemente a mente básica, em que, de fato, nenhuma cicatriz pode ficar eternamente.

Quando se fala em renascimento, o que de fato morre e renasce são as atitudes positivas e negativas? Mas pensar em atitudes positivas e negativas não é pensar na dualidade?

Sim, dualidade, renascimento, samsara, tudo isso faz parte da delusão da dualidade. Na verdade nada disso ocorre, senão na mente que sonha, deludida.

Por outro lado, os resultados das atitudes positivas e negativas é exatamente o que não morre — isto é, o resultado do carma segue além do corpo. Em verdade, cada corpo é o resultado de um conjunto de carmas que encontra uma nova forma de se "estabilizar" por um tempo. É um corpo de sonho num mundo de sonho — ambos criados pelas tendências habituais e pelas marcas criadas pelas ações.

É possível carregar o que aprendemos com os ensinamentos para outra vida?

Para um determinado darma passar de uma vida para a outra ele precisa passar do nível superficial dos conceitos — que é como a agitação das ondas — depois passar do nível intermediário das correntes submarinas, de hábitos grosseiros, e penetrar no leito marinho, dos hábitos sutis. Para isso se faz prática. Então em geral podemos não lembrar das palavras dos ensinamentos, mas podemos deixar certas marcas profundas através principalmente da repetição regular de determinadas práticas, e essas podem ressurgir com mais facilidade em vidas subsequentes.

Por isso o mero ler e refletir não são suficientes para um contato mais aprofundado com o darma — é necessário integrar as práticas que penetram no âmago dos hábitos, dissolvendo os nocivos e criando novas marcas que podem ser úteis onde quer que estivermos no futuro.

Onde fica armazenada a informação de fatos ou conhecimentos de outras encarnações que às vezes supostamente são relembrados? As memórias de uma pessoa sobrevivem quando não há mais corpo e cérebro?

O corpo, segundo o budismo, é um epifenômeno da mente. Daí que as coisas de sonho não precisam ficar propriamente armazenadas. O Buda não sabia apenas suas vidas passadas, mas as vidas passadas de todos os outros. Se fossemos fisicalistas, como ele teria memórias de outros?

Agora, é interessante frisar que as memórias são mesmo perecíveis como o cérebro. Quando alguém consegue vislumbrar parte do tecido da impermanência, e reconhecer as causas para as condições, entender como o carma se formou, ainda que parcialmente, isso é um feito considerável. Significa que a pessoa não está mais operando através de seu cérebro, da limitação particular que sua ignorância, aliada a causas e condições criou (o corpo), mas operando com a mente não condicionada por essas causas e condições. Esse é um resultado da prática. É um tipo de clarividência, um poder mágico, tornado possível pela não reificação, em até certa medida, não precisa ser total, do sonho.

Algumas escolas idealistas budistas propõem uma "consciência armazém", que uma entre outras 8 consciências. O caminho do meio pode falar em termos da alaya (essa consciência), mas não precisa sequer postulá-la, se isso não for necessário (para dar um ensinamento particular).

A típica falta de lembrança das vidas passadas do reino humano é coisa que se repete nos outros reinos?

A memória é melhor, mas não completa ou suficiente, nos reinos superiores dos humanos, asuras e semideuses. Também, nos reinos dos deuses, eles conseguem, no final da vida, ver onde renascerão — alguns humanos também tem esse tipo de experiência. No reino animal, a memória é menor do que a nossa, e nos reinos inferiores dos pretas e narakas — bem, não há tempo para rememorar, já que o sofrimento é tão presente. Um preta fixado numa caixa de joias, por exemplo, não fica raciocinando sobre como são as joias de sua família e assim por diante — ele simplesmente se fixa, por hábito, embora essa fixação possa ter nascido, no passado, pelo apego a membros da família da vida passada e assim por diante.

É como uma pessoa num hospital psiquiátrico, cujas fixações não são entendidas por elas, e nem pelos médicos. Algumas são, outras não são. Na maioria dos casos não há clareza de onde tudo aquilo surgiu.

Há alguma outra espécie de animal na terra capaz de alcançar os objetivos do Budismo, ou o ser humano é especial de alguma forma?

Só o renascimento humano permite a prática do darma. Mas os animais podem renascer em qualquer lugar, como qualquer outro ser, e assim eventualmente praticarem o darma.

E, curiosamente, seres realizados tem a liberdade de se manifestar como animais. E, se com essa manifestação forem trazer benefício a algum ser, eles podem surgir em qualquer forma.

Há conhecimento de casos em que outros seres sencientes que alcançaram a iluminação? Seres tais como animais, deuses etc.?

Seres iluminados podem surgir no sonho dos seres em qualquer forma de sonho. Assim, para beneficiar os seres, os Budas podem se manifestar como deuses, animais e até como objetos inanimados. Mas seres deludidos não podem atingir a iluminação sem um caminho espiritual e esforço coerente. Portanto, os animais, enquanto animais, não são capazes de seguir um caminho espiritual. Já os deuses não tem interesse. Assim, nenhum deus ou animal já atingiu a iluminação nessa forma, porém eles podem gerar méritos, renascer como humanos, encontrar e praticar um caminho espiritual até a iluminação.

Algumas formas de budismo descrevem terras puras num reino específico do reino dos deuses. Normalmente são descritos 22 tipos, sendo 6 do reino do desejo — onde os deuses tem corpos e usufruem de comida, bebida e sexualidade. Assim, essas tradições budistas descrevem um sétimo reino dos deuses do desejo, na verdade "meio aqui, meio ali" entre o samsara e o nirvana.

Mas com relação aos outros deuses, semideuses, animais, pretas e seres dos infernos — e mesmo com relação a boa parcela dos seres humanos (em extrema miséria, em locais extremamente agitados pela guerra e visões errôneas, e assim por diante), não tem chance de alguma de alcançar a iluminação nessa vida.

Alguns ateus materialistas dizem que nós e os macacos somos todos primatas e gostariam de estender direitos humanos a eles. Gorilas e orangotangos podem atingir o nirvana?

Nirvana não é um direito. Em certo sentido, eles podem — mas não como animais. Todo mundo já foi tudo, então todos esses animais já foram humanos e serão humanos noutra ocasião. Mas é bem raro, entre os humanos mesmo, aqueles que são capazes de prática espiritual, então é a mesma coisa.

Outra coisa é que um bodisatva pode se manifestar como um animal para dar algum ensinamento específico. Então nós nunca sabemos se esse animal sonhado é um animal por propensões derivadas do carma ou se é um display de compaixão. É apropriado manter ceticismo quanto ao status verdadeiro de todo e qualquer ser — como não temos sabedoria, podemos estar diante do Buda e não saber.

O que é a "terra pura"? Onde fica esse lugar?

Ele fica exatamente onde convergem os méritos de um Buda e seus seguidores. Ao redor de todo Buda há uma terra pura. Esta é a terra pura do Buda Sakyamuni.

A terra pura é a terra de um Buda. Isto é, o local onde um Buda está com seus alunos.

Os ensinamentos do vajrayana só são concedidos em terras puras, e onde quer que um ensinamento vajrayana seja falado e ouvido, é uma terra pura. Alguns ensinamentos mahayana também, aliás, como o Prajnaparamita.

Há infindáveis terras puras, como há infindáveis Budas — para aqueles que regozijam com quantidade. Para aqueles que regozijam com unidade, há só uma terra pura. Para aqueles que regozijam sem conceitos, a terra pura é além dos conceitos.

O espaço e o tempo são meros sonhos, quando você sonha perto de alguém lúcido, acordado, o que quer que surja é lúcido e acordado. Portanto terra pura é estar com o Buda, ser próximo do Buda em corpo, fala e mente, interno, externo e secreto. Separativo ou não separativo, igual a um Buda ou reconhecendo um Buda.

"Esta é a terra pura do Buda Sakyamuni." Como assim, o planeta Terra? Este universo? Algum subconjunto deles?

O mundo partilhado pelos seres que reconhecem o Buda Shakyamuni como refúgio último.

Uma terra pura está fora do samsara (dos três reinos)?

Algumas terras puras sim, outras são limiares, isto é, estão no samsara para alguns habitantes e além do samsara para outros.

Algumas terras puras estão entre os 3 reinos (um destes, o do desejo, contendo os seis reinos usualmente descritos). Há terras puras onde há apenas Budas, que são mandalas do trikaya.

Se eu tiver um pouquinho de lucidez na hora da morte, posso escolher renascer em uma terra pura apenas visualizando um buda?
No caso do Buda Amitaba, que fez esse voto, sim. Na verdade você só precisa lembrar do nome dele — estritamente falando no caso de Amitaba, por causa de um voto específico que ele fez de ajudar quem lembrasse dele na hora da morte. No caso de outros Budas, vai variar com o seu carma e o grau de lucidez que você consiga sustentar.

Na medida do seu carma, você vai encontrar uma terra pura mais ou menos elevada, onde você vai conseguir praticar mais ou menos efetivamente, com mais ou menos obstáculos.

Efetivamente, mesmo grandes praticantes com anos de retiro de meditação e que muitos alunos veem como verdadeiros Budas, praticam intensamente antes da morte, já que nada é garantido — de acordo com Shantideva, um momento de raiva pode destruir montanhas de virtudes praticadas ao longo de eras e em milhares de vidas consecutivas. Então mesmo um grande praticante toma todo o cuidado para na hora da morte ter um renascimento positivo e reencontrar o darma.

De toda forma, Buda Amitaba efetivamente fez o voto de que mesmo uma pessoa muito não virtuosa, se lembrasse dele na hora da morte, ele a levaria para a Terra Pura dele, onde poderá praticar o darma.

Quando se fala em ter renascimento em terra pura isso é o mesmo que iluminação?

Não necessariamente, e não na maioria dos casos. Numa Terra Pura há budas e bodisatvas, isto é, seres totalmente realizados e seres que estão praticando o darma ainda. No mais das vezes seguimos recebendo ensinamentos e praticamos sob a orientação de um Buda ou de bodisatvas, ou pelo menos de praticantes em algum dos veículos ensinados por um Buda. É um lugar onde é mais fácil praticar.

O que seria o "Paraíso das Dakinis"? Tipo um "Céu"?

Dakini é uma expressão de sabedoria, portanto um reconhecimento incessante de dakinis é um reconhecimento incessante da sabedoria, no brotar de qualquer fenômeno. Também são as Terras Puras onde há predominância de budas e bodisatvas femininos, ou pelo menos onde a "chefe" ou o Buda principal é um Buda feminino.

Afinal: Há somente 6 planos de existência ou 31?

Todos os números são meras exposições didáticas. Subdividindo menos, são três reinos, subdividindo mais, são 18+4+22, sendo que um dos quatro pode talvez ser dividido em mais, talvez.

Os reinos budistas não seriam apenas metáforas para estados psicológicos? Preciso acreditar na existência efetiva de vários céus e infernos?

A noção de vacuidade nos leva a não reificar nenhuma existência, particularmente a não reificar essa existência presente como seres humanos, como algo mais que um sonho. Então, evidente que há outros sonhos possíveis.

Enquanto acreditarmos em algo que verdadeiramente existe, não há possibilidade de transcender o samsara. Por outro lado, se não entendemos que as experiências-de-sonho dos seres são reais na medida em que se apresentam, não haverá motivação alguma para transcender o ciclo de existências.

Por outro lado, se alguém de início tem dificuldade de entender que é a substância mente que cria a ilusão de solidez e substancialidade, e cai em algum tipo de superstição materialista quanto a uma existência não-como-sonho deste lugar, nesse caso um ensinamento expediente que psicologize essas noções pode ser empregado. Então, não são apenas metáforas, mas de acordo com a ignorância do ser a ser beneficiado, podem sim ser ensinados como metáforas.

Para tomar refúgio e praticar o darma é preciso reconhecer que reificamos o sonho, e dessa reificação – essa solidez que damos a algo que é irreal – é que surge o sofrimento. Então é preciso reconhecer a natureza do sonho, e nosso hábito de reificação. Nesse escopo, é útil estudar vários tipos de sonhos possíveis, categorizados de forma ampla como experiências boas e ruins de vários tipos, e para isso podemos utilizar as descrições tradicionais.

Por que o Buda utilizou o termo "sonho" para descrever o samsara?

Porque ele é uma experiência e não é substancial. A palavra "sonho" é uma das analogias preferidas para vacuidade.

Se tudo se dissolve no momento da morte, até "os três venenos... a raiz do samsara" (Livro Tibetano do Viver e do Morrer, p. 323), como e de onde ressurge o carma que opera assim que se perde a chance de iluminação trazida pela fase da Clara Luz?

No caso de uma pessoa que não tenha praticado o reconhecimento da natureza de sua própria mente durante a vida, isso é um instante, e como num toque de mouse num screensaver, tudo retorna como era. Esse é o motivo: por não ter se acostumado com o estado natural, as aparências surgem novamente. De onde, há diversas explicações. Como essas tendências não obscurecem verdadeiramente a natureza livre, ela esteve sempre presente, o tempo todo, inclusive agora, sem ser efetivamente maculada por todas as diversas manifestações. Quando as diversas manifestações cessam, isso não faz diferença para esta natureza — e não faz tanta diferença para quem não se acostumou com ela, porque logo as tendências se formam novamente, a partir da mesma base de onde se formaram da primeira vez. Em outras palavras, a ignorância é renitente, embora intermitente. A sabedoria é primordial e pura, nunca cessando em momento algum, e nunca sequer alterando sua intensidade, em meio a ignorância ou à lucidez.

Já a pergunta de onde a ignorância surge em primeiro lugar é complicada: ela é um próprio exercício da liberdade primordial. Porém, ao reificar as aparências e se esquecer desta liberdade, surge o samsara e os 84.000 sofrimentos.

Mas se após a pausa é retomado algo anterior a ela, aquilo que experimenta a pausa é o quê? Como a experiência deludida individualizada pode se dissolver e ressurgir como era antes? Não se está muito próximo aqui de uma noção ontológica?

Bom, não se fala em "noções" no budismo. O que se tem é a experiência dos praticantes. Se fosse fácil como morrer escapar do carma, daí não haveria necessidade para o darma do Buda. Existe uma janela de oportunidade na morte, mas utilizar ela depende de nós. A pessoa tem um pequeno vislumbre da realidade, mas ela volta ao sonho. Como eu disse, essa base vislumbrada esteve sempre presente, nunca se ausentou. Então ela não é algo novo em meio ao que se apresenta na delusão. E a delusão é o mero jogo dessa liberdade, que se autoaprisiona por liberdade. A continuidade do tecido cármico se dá pelo mesmo motivo que o tecido cármico se dá em primeiro lugar, não há diferença.

A pausa não é um objeto de experiência, se ela tornar-se um objeto de experiência, então não é a pausa, mas um mero filme parado. Há uma diferença entre uma pausa e um filme parado numa mesma cena. A pausa implica o não se fixar na tela, muito menos no observador.

A dissolução da experiência é do mesmo sabor do seu surgimento. Ambas as experiências ocorrem no âmbito do filme. O filme não impede em nenhum momento a experiência fora da tela, que está sempre presente e disponível o tempo todo.

De onde vem o movimento incessante do sonho?

O sonho vem da liberdade e da espontaneidade naturais da mente, com todas as características próprias desta indeterminação e não fixação. Ao reificarmos essas características ocorrem nascimento, envelhecimento, doença e morte — pelo menos para nós, humanos, que temos esse sonho semelhante ao de outros humanos.

Se o planeta terra explodir, o samsara vai continuar rodando e o carma continuar existindo?

Claro. O samsara é uma experiência que não depende da forma. Há samsara até na não forma. Pode sumir todo o universo detectável e ainda assim pode haver sofrimento. De fato se diz que isso ocorre de tempos em tempos.

Como explica-se o renascimento em conjunto com o crescimento populacional?

Essa pergunta vem de três noções que não se aplicam ao budismo: que o número de seres permaneça necessariamente constante (o que é incerto), que a pessoa renasça sempre como um só (muitos lamas renascem como mais de uma criança) e, principalmente — esse é o argumento central — que o número de seres nos outros reinos seja constante. Há tamanho número de formigas, por exemplo... e pense em 14 ratos por habitante em NY! Uma pequena variação na ordem dos bilhões, temporariamente, na população humana é minúscula se pensamos na variação populacional de seres sencientes em geral.

No budismo todos os seres sencientes podem renascer como qualquer outro ser senciente.

Ao jogar pesticida sobre uma vasta área, por exemplo, uma porcentagem desses insetos mortos vai renascer ainda no reino animal — outras grandes porcentagens vão para cada um dos outros reinos — e hecatombes similares acontecem com seres humanos, e nos outros reinos o tempo todo — portanto mesmo que o número de seres permaneça o mesmo, o que é incerto (e creio que era um tipo de questionamento que a que o Buda não se entregava), só pela realocação de seres entre os reinos fenômenos temporários como o crescimento populacional poderiam ser explicados.

Onde posso conseguir referências em livros ou online sobre as principais características do reino humano? Preciso de maiores detalhes para além do fato de que é o reino mais valioso por ser aquele onde mais facilmente se atinge o despertar.

Words of my Perfect Teacher tem descrições detalhadas de todos os reinos. Cada um dos 18 infernos é descrito em detalhe, por exemplo.

Os quatro principais sofrimentos do reino humano são o nascimento, a doença, a velhice, e a morte. Os sofrimentos de não se conseguir o que se quer, não conseguir se livrar do que não se quer, e assim por diante.

Os ensinamentos sobre reinos estão no que se chama "preliminares externas", nas quais se reflete antes de tomar refúgio. São chamados de "quatro pensamentos que transformam a mente". Eles são 1) a preciosidade do nascimento humano (com 18 itens no mínimo, mas o As Palavras do Meu Perfeito Professor tem 16 itens adicionais); 2) carma; 3) impermanência e 4) sofrimento. Neste quarto item estão as descrições dos infernos aos reinos dos devas, inclusive os sofrimentos usuais do reino humano.

Os subitens são temas para uma prática formal de reflexão, na qual se senta em postura de meditação e segue cada item com exemplos e reflexões pessoais adicionais.

Após refletir assim, a pessoa então passa a prática de refúgio, geralmente com prostrações, e enfim ela penetra nas preliminares internas, que incluem visualizações. Após praticar estas preliminares até completar as acumulações (normalmente o número é 100.000 de cada), então a pessoa pode fazer a prática do estágio do desenvolvimento e eventualmente a prática do estágio da consumação.

Esta estrutura é comum a todas as formas de budismo tibetano, mas estruturas semelhantes existem em outras formas de budismo. Alguns professores adicionam outras práticas preliminares — Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche tem um conjunto especial para seus alunos ocidentais — que inclui leituras, trabalho social e outros itens, antes das (e algumas vezes durante as) reflexões.

O que são os infernos no Budismo?

São o resultado de ações negativas, isto é, sofrimento muito intenso por um período muito longo de tempo. É como um pesadelo extremamente longo.

O reino humano também é o resultado de ações passadas, na sua maioria positivas. Assim é um sonho também. Nós sonhamos esse corpo e esse ambiente devido a ações passadas em outros ambientes de sonho.

Então pode existir por aí gente que foi um deus em outra vida?

Todo mundo já esteve por todos os reinos, não centenas, mas infindáveis vezes. Então toda gente por aí já foi um deva em outras vidas.

Os deuses também podem alcançar a forma de realização mais elevada que os budistas almejam ou essa só pode ser atingida pelos humanos?

Os deuses nem conseguem praticar o darma, quanto mais atingir realização... Eles nem se interessam por prática espiritual, a vida deles é boa demais — até que acaba. Mas eles podem renascer como humanos (ou em qualquer outro lugar).

As entidades que habitam os outros mundos que o Budismo acredita existir também são humanóides, antropomórficas?

Os devas do reino do desejo e os asuras tem corpos semelhantes aos humanos — eventualmente com algumas diferenças, mas bem melhores, mais flexíveis e mais belos, em todos os casos. Alguns asuras podem parecer "monstrinhos". Os devas do reino da não forma não tem corporeidade (lendo-se a descrição, realmente parece o que muito new age busca na prática espiritual, mas segundo o budismo é uma forma de profunda ignorância), e os devas da forma possuem formas corpóreas variadas. Todos os corpos são corpos de sonho, mesmo no reino humano.

No reino dos animais os corpos são variados, e no reino dos pretas e narakas possuem algumas diferenças graves com a forma humanóide — como um pescoço da espessura de uma agulha e uma barriga enorme, no caso dos pretas, por exemplo.

Os corpos são sonhados através do carma, mesmo as diferenças e semelhanças entre corpos humanos são questão puramente de carma mais individual e mais coletivo de um ser. Isto é, ele tem dois braços e duas pernas como a maioira dos humanos por algum carma coletivo, mas tem uma pintinha na bochecha que pouca gente tem parecido, e ninguém tem igual, por causa de um carma mais individual.

O fantasma "clássico" do Ocidente — por exemplo, o dono de uma casa antiga que aparece para os novos moradores –- está ainda no bardo ou já teve renascimento como fantasma faminto? Em que medida a identidade humana é mantida nos renascimentos em outros reinos?

"Preta", isto é, fantasma faminto. Ele retém todo o carma de suas identidades passadas, inclusive a humana, mas não apenas, todas as vidas passadas pesam sobre a presente, e são infindáveis — é possível que certas fixações (a casa, objetos) permaneçam, mas em pouco tempo ele nem sabe porque está fixado (não lembra os detalhes humanos, resta apenas o carma e o hábito).

Porque que cada um dos seis reinos têm um buda?

É uma forma de demonstrar a compaixão do Buda. Ele surge dando proteção para os animais, comida e água para os pretas, diversão para os deuses, etc. Isto é, da forma que eles projetam, ele surge. É claro que como preta ("fantasma faminto") os seres não estão prontos ou dispostos a ouvir ensinamentos, então o Buda aparece dando comida e água. E esse é o tipo de benefício que eles obtém.

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