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3. A insatisfatoriedade do samsara

Se as pessoas vivem insatisfeitas e seu sofrimento prejudicará outras vidas no futuro, numa espécie de círculo vicioso que nunca acaba (a não ser para alguns poucos iluminados), qual o sentido disso tudo? O "funcionamento" das coisas é só isso?

O sofrimento atual não necessariamente causará sofrimento futuro: só no caso em que a pessoa gere mais negatividade ainda ao sofrer, isto é, que ela prejudique os outros durante seu sofrimento.

E, para quem não tem o darma, é sim exaustivo assim. Por sorte não temos criador, senão teríamos que por a culpa nele. Algumas vezes se descreve que só as lágrimas que tivemos pelo sofrimento em cada uma dessas vidas encheria um oceano do tamanho do universo...

Mas, para quem tem o darma, existe a verdade da extinção do sofrimento. E mesmo quando todo sofrimento não cessa, o próprio caminho é alegre e sem tanto sofrimento.

Se alguém se sentir feliz e contente no Samsara, conseguindo realizar e equilibrar seus desejos, seria ainda relevante alcançar o Nirvana?

Por definição, é impossível sentir felicidade e contentamento duradouros e não enganadores no samsara. Se a pessoa não tem consciência disso, ela simplesmente perde mais tempo no samsara e cria mais causas de sofrimento futuro.

Seres que vivem no samsara vivem em vão?

Os que não encontram e não são capazes de seguir um caminho espiritual coerente, vivem em vão no sentido de que suas vidas só produzem mais samsara — e o samsara como um todo é em vão.

Qual a diferença entre "estar fora da roda da vida", "iluminação" e "nirvana"?

Dependendo do contexto, as três coisas podem querer dizer a mesma coisa.

No entanto, é possível analisar esse "fora" do primeiro item e entender a diferença entre nirvana e iluminação.

O fora do nirvana é absoluto, não há vínculo. O fora da iluminação é "sem se envolver, mas dentro".

Nirvana é além de samsara, iluminação é além de samsara e nirvana. Samsara é a roda da vida.

Agora, as pessoas podem usar a palavra iluminação para falar de uma mera realização espiritual qualquer, não a iluminação completa, nem mesmo o nirvana.

O nirvana ocorre quando as aflições mentais cessam completamente, portanto não há mais roda da vida, já que a roda da vida é formada pelas aflições mentais.

No mahayana a realização do Buda é a eliminação das aflições mentais mais o desenvolvimento das qualidades, as perfeições, paramitas. Então, é a diferença entre acordar do sonho e seguir sonhando lucidamente. Seguir no sonho, lúcido, é melhor do que o mero acordar. É um acordar que não dissipa o sonho enquanto mero sonho.

Então, nirvana, iluminação e samsara são apenas estados de consciência?

De forma alguma, iluminação não é um estado. Se for um estado, tem um início e um fim. Nirvana é debatível, mas do ponto de vista do mahayana, é um estado. E samsara definitivamente é um estado, caso contrário a liberação não seria possível.

Mas o que você quer dizer é "essas coisas são ligadas a mente, e não às coisas". Independente da forma de budismo, o budismo dá primazia à mente. Corpo e fala são subjugados à mente. A mente vem em primeiro lugar. Nas formas mais sofisticadas de budismo, não só isso, mas as coisas todas são produtos da mente. Samsara, mundo, não é uma coisa que exista externamente, independentemente — é um produto da mente. Mas não é um produto da mente no sentido ordinário, new age, do "eu penso, eu posso, acontece". De certa forma, como o eu é a maior ilusão de todas, o "eu" não pode nada. Nossa própria mente não é uma posse desse eu, como muitas vezes pensamos. Então a geração de méritos e sabedoria de fato alteram a realidade externa que aparece perante esse eu, mas esse eu, pela ação e vontade dele, não é capaz de muita coisa nesse sentido.

O que representam o Javali, o galo e a serpente que estão no centro do diagrama da roda da vida?

Ignorância (delusão, indiferença, preguiça), apego (desejo egoísta, inquietação, responsividade) e aversão (raiva, medo, nojo). Eles são a origem de todas as complicações da roda da vida, o samsara.

O único sentido do Samsara é esforçar-se para sair dele?

Esse sentido não pertence ao samsara, portanto o samsara não tem sentido algum.

Se o samsara não tem nenhum sentido, quem nunca encontrar a iluminação estará fadado à infelicidade? Ou todos se iluminarão um dia?

Sim, quem não encontrar a iluminação só terá felicidades insatisfatórias, as que estão presentes no samsara. Não há felicidade verdadeira no samsara.

A pergunta sobre se todos se iluminarão é recorrente, mas não é possível respondê-la adequadamente. O samsara não tem objetivo, ele não surgiu com o sentido de que os seres atingissem a iluminação. Existe uma forte tendência a teleologizar o samsara como se ele fosse uma criação, meio que gnosticamente, uma criação-labirinto, um teste divino, ou algo assim. Inúmeras tradições propõem a existência dessa forma — inclusive boa parte do cristianismo — e quase todas as formas de nova era. Mas, no budismo não é assim. Samsara é só um engano. Ele não existe – ele é um modo de existência deludida, ou enganosa. É uma experiência dos seres, não é em nada real. Ele não tem propósito. Ele tem o propósito confuso dos três venenos: apego, aversão e indiferença – infindavelmente um cutucando o outro e se produzindo, e proliferando as aflições mentais, as 84.000 insatisfações, as milhões de doenças e angústias. Samsara é a própria falta de sentido.

Com certeza, de acordo com o budismo, todos os seres tem o potencial de superar esse engano: iluminarem-se, tornarem-se Budas, reconhecerem a realidade, encontrarem felicidade definitiva, compaixão incessante, sabedoria. Se todos vão encontrar esse objetivo? Daí... bom, devemos praticar para levar todos os seres-mães à iluminação, sem dúvida. Mas se todos vão se iluminar... não é dito. Em algumas escolas há o conceito de seres que, mesmo tendo o potencial, nunca vão revelar esse potencial. Não são todas as escolas, mas o conceito existe.

Basicamente, os Budas não veem samsara em lugar algum, só seres que se enganam. Então, como esse engano causa sofrimento, surge compaixão. Porém, os Budas sabem que, mesmo estando enganados, mesmo sofrendo, os seres no fundo não são aquilo que eles pensam que são, então, não faz sentido falar em um início e um fim para o samsara, a não ser numa mente enganada.

Por que há tanto sofrimento no mundo, sendo o sofrimento artificial?

O sofrimento advém de uma percepção equivocada do mundo, da realidade. Por exemplo, confiamos em nosso corpo como fonte de felicidade — mas envelhecimento, doença e morte são inevitáveis para o corpo. Como embasamos nossa felicidade em uma fonte não confiável, sofremos. Segundo o ensinamento budista existe uma fonte confiável de felicidade, que, se não nos enganamos — reconhecendo a impermanência, interdependência e vacuidade — reconhecemos como uma expressão natural. Ela não depende de condições, portanto nada que é condicionado impede essa felicidade — se ela é reconhecida. Porém, enquanto nos envolvemos com as aparências, e não reconhecemos a realidade, tomamos como fonte de felicidade o que não vai nos dar felicidade, e daí o sofrimento.

A quantidade de sofrimento que percebemos está vinculada diretamente à ignorância, nossa e dos seres que sofrem. Não é porque o sofrimento dos seres é irreal, que vem de um engano, que eles sofrem menos. Para o budismo, saber que o sofrimento dos outros advém de um equívoco — que no fundo não passa de um pesadelo momentâneo — não é motivo de diminuir a compaixão, pelo contrário. Quanto mais envolvidos em sofrimentos falsos, mais compaixão é possível. Se um sofrimento fosse verdadeiro, apenas um, a compaixão não seria possível, ou pelo menos não teria por que. É exatamente porque os sofrimentos são artificiais, causados pela crença errônea na existência independente de um eu, que eles são motivo de grande compaixão. Quando vemos o sofrimento como real, temos apenas pena. Pena coloca o outro numa posição inferior — é um coitado. Compaixão é o reconhecimento de que, não importa a situação da pessoa, existe o potencial para reconhecer o que está além do sofrimento, o que existe de fato, o que é real. Portanto compaixão é o que vê simultaneamente o Buda em cada um, e o fato de que esse Buda não é reconhecido.

Como a realidade pode ser naturalmente boa se, por exemplo, um animal precisa matar, isto é, causar sofrimento a outro ser vivo, para sobreviver?

Pode parecer circular, mas se tem sofrimento, não é realidade. Para evitar essa circularidade, pense: se é temporário, não é real. Assim, uma vida como animal, não é real. É um pesadelo temporário. Da mesma forma, todas as formas biológicas e tecidos ecológicos são temporários, e portanto irreais. Isso é verdade das condições de relativa felicidade, por duradoura que aparente ser. Se é temporário, é irreal, é um sonho bom ou um pesadelo.

O que são fixações? Como agir no samsara sem ter fixações?

Falta de flexibilidade na mente. Com menos fixações, mesmo o samsara é mais fácil e melhores condições são encontradas no próprio samsara. Uma pessoa sem flexibilidade mental pode ser preconceituosa, fechada, difícil, e assim por diante, coisas que a tornam desagradável perante os outros.

Com relação as fixações sutis, não é possível permanecer completamente no samsara sem elas. Mas isso é vantagem, já que o samsara é só sofrimento. Evidentemente, sem tais fixações sutis pelo samsara a pessoa também não terá fixações sutis pelo nirvana, então seguirá manifestando benefício aos seres.

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