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9.1 Perguntas que encobrem a sabedoria

Qual é o sentido da vida?

Essa é uma pergunta embasada na ideia de que a soma total das coisas possa ser refinada em uma fórmula explicativa e apresentada, mastigada, de uma pessoa para outra. Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche dizia que o sentido da vida é se preparar para a morte. É claro que ele escolheu falar de "sentido" significando propósito, ou finalidade. Quando se ouve essa pergunta, se entende que se está perguntando o derradeiro porquê, e portanto, esse é o sentido de "encobrir" a sabedoria. Perguntar isso é estar alienado perante a resposta. A pergunta, por si só, impede uma resposta.

Existe algo que seja estável e real antes da impermanência e do sonho?

Nada que exista como um objeto separativo, portanto nada que possua um modo de existência, portanto não.

Porque tudo é impermanente?

Na verdade nem tudo é impermanente. Tudo que é composto é impermanente. Por outro lado, se você pode falar de algo, é porque é composto. Como a delusão projeta esses elementos distintos, e uma cadeia causal, e tempo e espaço, a liberdade naturalmente segue operando, e não consegue sustentar a ignorância de forma contínua. A impermanência é a porta da vacuidade, da sabedoria, portanto, porque é nessas "quebras" que se pode reconhecer a liberdade operando além das fixações particulares produzidas pela delusão e às quais a delusão ela mesma se prende, por uma espécie de autofascínio.

Como viemos parar onde estamos? O que é este engano que tanto ouço falar no budismo?

Nós não saímos de nenhum lugar, mas nós estamos enganados e acreditamos que sim. Esse é o engano, acreditamos que há coisas como causalidade e tempo.

Como e por que passamos do estado natural (livre de sofrimento) para uma existência permeada pelas chamadas aflições mentais?
Primeiro, não há esse passar. O estado natural está sempre disponível, o tempo todo. Não existe um momento em que ele deixe de ser natural e então as artificialidades "tomem conta". No entanto, nossa experiência não é essa, e é por isso que chamamos isso de "ignorância". A falta de reconhecimento surge por uma liberdade, que é uma característica inata da natureza da realidade. Todo tipo de projeção surge por causa dessa liberdade, nos envolvemos na projeção, e esquecemos da realidade e da liberdade inata. Daí surge, coemergente com um ser ignorante, um Buda, que é uma expressão dessa liberdade, para nos lembrar dela — e até um sistema de pensamento e uma série de treinamentos. Se nossa experiência não fosse essa, não precisaríamos do darma.

Então não há uma passagem, a ignorância é fruto da liberdade, e o que há realmente é o estado desperto de um Buda. A ignorância é adventícia e instável, embora nos pareça sólida, porque a reificamos, ou seja, as projeções da ignorância se somam sobre ela mesma, como quando vamos ao cinema e ficamos tristes com a morte de um personagem, e depois achamos "justa" a vingança, e assim por diante. É só uma tela com figuras luminosas, mas nós entramos em vários níveis de "ignorância" para apreciar um filme. Aliás, se o filme é bom, é exatamente porque nos prende dessa forma. Mas, é só um filme.

O não reconhecimento da realidade e da liberdade inata nos faz precisar dos ensinamentos do Buda. O Buda é portanto uma projeção ou espelho de nossa própria ignorância, é um aspecto de compaixão que surge concomitantemente com o sofrimento que produzimos para nós mesmos. Se vemos uma pessoa tendo um pesadelo, nós acordamos a pessoa "está tudo bem", e então ela vê que não havia monstro nenhum, em momento algum. Assim é com as aflições mentais, enquanto elas operam, elas parecem poderosas, mas elas tem menos substância que cinema ou monstros em sonhos.

A ignorância é a raiz das aflições mentais que produzem os diversos sonhos e mundos ilusórios. Entender a liberdade que produz a ignorância, é reconhecer a fonte dessa liberdade e dessa ignorância, que é a sabedoria primordial. Portanto as perguntas sobre ignorância, como surgem de dentro do escopo da ignorância, nunca vão produzir o reconhecimento da sabedoria. Começando-se da perspectiva da sabedoria, ou seja, postulando a realidade como ela é, mesmo que isso não seja diretamente reconhecido ainda, há mais possibilidade de obter esse reconhecimento.

Quanto ao "porquê", não há, até onde pude perceber, qualquer conhecimento ou afirmação teleológica no budismo. Em outras palavras, o budismo não se ocupa de explicar as coisas ou porque elas são dessa forma. Temos um problema, que é a insatisfatoriedade, e a partir disso produzimos uma solução, que são os métodos e ensinamentos. A imagem usual é a de uma pessoa que está com uma flecha enfiada no olho, perguntando ao cirurgião como é a flecha, que cor ela tem, de onde ela veio, e assim por diante: o que importa é retirar a flecha.

Então o "como" tem uma explicação tortuosa, porque é mesmo um pouco como uma ilusão de ótica: entender o engano é entender o que não é o engano, e daí vemos que era um engano, nada mais, nada menos que isso. A causa do engano é o próprio engano, ele é um "engano enganoso", não é nem mesmo um engano de verdade. Você entra numa sala escura e confunde uma corda com uma cobra, todo tipo de medo surge. Alguém acende a luz, a corda não tem nenhuma culpa de você a ver como uma cobra. Você pode dizer que a corda causou a experiência da cobra em você? A corda não fez nada, você com sua imaginação projetou todo tipo de coisa na realidade. E quando a luz acende, nunca houve cobra alguma, não é mesmo?

Já o "porque" não tem resposta, e na verdade, é considerado uma pergunta meio sem sentido.

Se a origem é perfeita, como e por que surgiu o primeiro ser no samsara?

Samsara é um engano, e o termo "samsara" é um ensinamento para seres que operam de acordo com esse falso engano. Também não há "origem", origem faz parte do engano.

Quando a pessoa se assusta porque confunde uma cobra com uma corda numa sala escura, e ao acender a luz ela se alivia, esse alívio é também um engano. Nunca houve cobra alguma, acender a luz nunca mudou nada com relação a corda ser uma corda. Samsara é a cobra, nunca existiu, quando a pessoa se ilumina ela não só se "livra da cobra", ela reconhece que a cobra nunca esteve ali em momento algum.

Quem não renasce vai para onde? O que acontecerá com este mundo quando todos os seres atingirem a iluminação?

O mundo surge junto com o nascimento. Na verdade é um sonho, não há mundo. Nunca houve um mundo no sentido último — não desse jeito, com tempo, espaço, localidade, objetos. Essa noção de que existe algo que vai ficar vazio quando todo mundo for embora, é achar que a sala é verdadeira enquanto os seres dançando dentro dela são de sonho. Tanto a sala quanto os seres são um sonho. É o mesmo sonho, a mesma ignorância.

Mas o que acontece quando todo mundo se ilumina não faz muito sentido se você pensa que "todo mundo" é um conceito arbitrário, parte do sonho, e a noção de que uma iluminação começa em algum momento no tempo é também uma noção arbitrária, parte do sonho.

Se o "eu" não existe, o que é que renasce? De qualquer forma, não se deixa de existir com a morte física?

Renascer é "nascer de novo", isso significa que uma nova ilusão de eu se forma com base no carma. Você, como um eu, não existe agora mesmo. Com a morte você não se torna mais existente. Mas o sofrimento que você sente segue.

Por favor, explica melhor: "O que acontecerá com este mundo quando todos os seres atingirem a iluminação?" Porque não faz sentido perguntar isso? Os mestres dizem que é certo que todos "atingirão" a iluminação. A pergunta então é: mas e aí, o que acontece?

Os mestres não dizem que é certo que todos atingirão a iluminação. Eu já vi lamas serem perguntados isso e rirem muito.

Vai chegar um dia em que todos os seres estarão livres da ignorância?

O Buda não respondia essa pergunta, porque se você entender que a ignorância inclui noções tais como "um dia" e "todos os seres", isto é, sem ignorância não há "um dia" nem "todos os seres", estes são objetos da ignorância. Então é quase como perguntar "a ignorância contém ignorância?" isto é "a ignorância é ignorante da ignorância?" Claro que sim, por outro lado, não. Tudo que a ignorância sabe é ignorância, por outro lado, ela não sabe nem mesmo que é ignorante. Todas as perguntas que dizem respeito a tempo, espaço, "todos", "nenhum", e assim por diante, estão ligadas aos quatro extremos que são a característica da ignorância — então é impossível responder uma pergunta que é formulada com base na ignorância sem dar uma resposta com base na ignorância. Assim, é uma pergunta sem resposta. O próprio Buda não dava essa resposta.

Segundo o Budismo, todos os seres se libertarão do sofrimento um dia, ou a coisa não tem fim? O número de seres é finito?

Quanto a isso, há discussão. O próprio Buda ficava em silêncio com relação ao fim do samsara (iluminação de todos os seres). Algumas tradições claramente dizem que, embora todos tenham natureza de buda, muitos não irão nunca revelá-la. Para tempos compreensíveis e vastos, nem todo mundo, é claro, vai se iluminar. Mas quando estamos falando em tempo budista... daí foge da possibilidade da razão. São googolplexes de kalpas, que tem, cada um deles, bilhões de anos.

Agora, se o número total de seres aumenta, diminui, ou permanece o mesmo — o Buda também não se metia a responder sobre isso.

Eu tenho uma mente e você tem uma mente. O números de mentes que existem é fixo ou elas podem ser "criadas"?

Unidade e multiplicidade são criações da mente fixada (presa) na delusão e conceptualização arbitrária. A separação entre as mentes, bem como uma noção new age de unidade de mentes liquidificadas umas nas outras são extremos embasados na ignorância. Na visão budista, eu ter uma mente separada da sua é uma verdade convencional, e empírica, já que eu não tenho acesso aos seus conteúdos mentais, e acho que você não tem acesso aos meus. Por outro lado, essa limitação é adventícia, essa separação é causada por marcas temporárias, e na sua essência, a vacuidade, as duas mentes são e nunca deixaram de ser a mesma. A prática do budismo é o caminho do meio, que vai além desses extremos, sem tomar qualquer um deles por sólido.

Digamos que, numa situação hipotética, todos os seres se iluminem e a roda do samsara desapareça. Qual seria o papel dos Budas após isso?

O Buda não respondia se o samsara teria ou não um fim, mas a noção de "budas" só existe na mente dos seres sencientes, os Budas não pensam em termos de budas versus seres sencientes.

Retorne ao índice. Envie suas perguntas, correções e sugestões para padma.dorje@gmail.com. Última alteração em 2015-07-04 05:14:07.




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