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5. Ética

Defina "virtude", afinal, o que é bom para um, ou mesmo vários pode ser ruim para outro. Isto não é um tanto relativo?

A prescrição de virtude tem algum grau de relativização, melhor dizendo, algum grau de flexibilidade, porque é apenas um croqui, mas a virtude em si não é relativa, ela é aquilo que produz felicidade de maior duração e escopo, isto é, felicidade mais genuína e para o maior número de seres.

Por exemplo, sofrimento e insatisfação não são desejados (verdadeiramente, sinceramente) por ninguém, portanto aliviar sofrimento e insatisfação de outro é praticar virtude.

Prescrição significa dizer "matar deve ser evitado", isto porque os seres, em geral, querem viver, e mesmo os que aparentemente não querem, estão sob suas próprias visões errôneas. Mas, se algum malfeitor não puder ser impedido, então é possível que matar seja mais correto do que não matar. Por exemplo, bernes num cachorro. Para salvar a vida do cão, que é uma virtude, se mata o berne, que não é uma virtude. Porém o berne está praticando ele mesmo desvirtude, e eventualmente matará o cão. Assim, para salvar o cão e impedir o berne de causar desvirtude, se pratica, aí sim, o matar de forma virtuosa.

Buda quebrava suas próprias regras de vez em quando para provar que nada é permanente? Como isso se aplica aos discípulos?

Budas não operam por regras, as regras são para quem está no caminho. Mas o Buda não prejudica nenhum ser, porque o estado natural é livre de aflições mentais. Então as características negativas (no sentido de não haver, não ter artificialidade) não podem ferir exatamente a noção de impermanência. Algo pode mudar sempre, mas pode não mudar num certo sentido, que é o sentido de produzir aflições e prejudicar os seres.

Os preceitos são feitos para aqueles que, percebendo que possuem aflições mentais, precisam artificialmente refrear suas ações em corpo, fala e mente, de forma a não causarem mal a si próprios e aos outros. Aqueles que não possuem aflições, arhats e budas não seguem preceitos, porque sem aflições mentais não há como prejudicar os outros. Portanto eles não se desviam dos preceitos sem precisar seguir qualquer fórmula estabelecida nos textos ou na comunidade.

Em filosofia se faz algumas vezes a diferença entre ética e ética prescritiva. Os Budas são simplesmente éticos, porque para o budismo o que é ético é o que se coaduna com a realidade — nós agimos de forma não ética quando operamos no mundo de fantasia criado pelas aflições mentais. A ética prescritiva serve para seres como nós, que nos confundimos tanto que precisamos de alguns princípios ou preceitos fáceis de lembrar que estejam à mão quando estivermos totalmente dominados por aflições mentais.

A beleza disso é que não só cada uma das regras é impermanente, porque ser ético (para quem pode, não para quem quer) não depende de regras, como todo e qualquer esquema ético pronunciado em palavras é uma mera tentativa de lidar com problemas adventícios — a única maneira de abandonar esquemas e preceitos, e juntamente com isso não amealhar grande sofrimento, é despertar para a natureza da realidade tal como ela é, isto é, se tornar um buda.

O budismo convida as pessoas a experimentarem por si mesmas o que é bom ou não para a mente, certo? Porém, essa "sugestão" não contribui para a geração de mau carma?

Se a pessoa entender mal, pode levar a confusão. Daí ela pratica o que ela sabe ser desvirtude para ver se sofre depois — o que não é adequado. Se você sabe ler o rótulo, e você sabe que é veneno, você não precisa tomar para provar que é veneno para si próprio. Isso seria inadequado.

Agora, com relação a nossas ações já realizadas e as que vamos realizando, principalmente as de fala, onde isso fica bem claro, podemos rapidamente evidenciar a ressaca moral quando falamos rudemente em várias ocasiões, por exemplo. Então nós experimentamos nos dedicar a erradicar a fala rude, e há métodos para isso, um deles é cuidadosamente, exatamente, examinar as consequências, e olhar para o outro, para a vítima de nossa fala rude, com compaixão. Assim, quando formos vítimas da fala rude, podemos também desenvolver compaixão pelo agressor.

É nesse sentido que funciona o experimento. Além disso, podemos livremente experimentar com a virtude. Em como a virtude traz felicidade para nós mesmos e para os outros.

Quem não é monge e decide não ter filhos estará gerando mau carma?

Não. Só não está gerando um mérito específico. Não gerar determinado mérito não é carma negativo, é apenas não gerar aquele carma positivo particular.

Da mesma forma o monge, enquanto monge, não gera o mérito especifico de ter filhos.

O que fazer com aqueles de índole perversa, que nos atrapalham em todos os nossos projetos e que parecem imutáveis? Não seria como Maquiavel falou: "O homem que tenta ser bom o tempo todo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons."

Segundo o ensinamento budista, a perseverança na bondade, mesmo para com quem nos prejudica, é essencial. Isso inclui agir com dureza para evitar que o outro prejudique principalmente a si próprio.

A prática da paciência (e demais práticas de virtude) são essenciais para nós, até mesmo para que não nos tornemos passivos diante da desvirtude alheia.

Ser bondoso é uma vitória por si só, os outros critérios de “vitória” são baseados em profunda ignorância.

Quais são, para o budismo, as virtudes?

Virtude no budismo é o que produz felicidade temporária e definitiva para os seres. Há quatro qualidades incomensuráveis: amor, compaixão, alegria e equanimidade e seis perfeições: generosidade, ética, paciência, empenho, concentração e sabedoria.

Sugira uma prática para desenvolver a paciência.

Procurar conviver com pessoas desagradáveis.

Omissão por covardia ou comodismo diante de uma injustiça que poderia ser impedida gera mau carma?

Com certeza.

Quando uma situação ruim acontece, devemos vê-la como um carma sendo purificado. Porém se eu buscar, por exemplo, ressarcimento legal dos danos causados por uma situação, isso geraria mais carma negativo?
Quando algo ruim acontece, isso é carma negativo que está sendo purificado, e aí temos a oportunidade de não gerar mais carma negativo com relação aquela situação. Em geral, se não somos praticantes perfeitos, vamos ainda gerar alguma tendência residual de desconforto ou irritação com relação àquela situação.

Se por ressarcimento legal você está falando da lei humana mesmo, claro que não. Apenas na medida em que o sistema e você forem corruptos ou prejudicarem a outra pessoa por vingança ou algo assim. Aqui, a motivação conta em primeiro lugar. Pedir uma reparação, desde que não meramente punitiva, por si só, não produz carma negativo. Isso não quer dizer que as pessoas envolvidas nos procedimentos legais, por serem influenciadas pelas próprias aflições mentais, não acabem gerando este ou aquele carma. No caso de praticantes acionando o sistema jurídico, ou de praticantes que são profissionais do sistema jurídico, eles devem tomar as situações que se apresentam como uma prática desafiadora, mas possível.

Há ações que à primeira vista parecem nocivas, mas que quando são compreendidas de uma maneira mais elevada mostram ter resultados muito positivos?

Há ações dos outros que podemos julgar como nocivas mas que não são, e há ações próprias que os outros podem julgar nocivas mas não são.

O que não há é ações próprias que julgamos nocivas e se mostram benéficas — se elas parecem benéficas é apenas o nosso mau carma de ver assim, porque a raiz da nocividade de uma ação é nossa motivação, e se fizemos algo com a ideia de que era nocivo em mente, é porque era nocivo.

Causar sofrimento a uma pessoa com o intuito de ensinar algo, essa é uma atitude virtuosa?

Em geral não. Apenas no caso de um relacionamento particular em que a pessoa que sofre e efetivamente aprende com o acontecimento tem um tipo peculiar de devoção para com quem "ensina", o que é extremamente raro — mas aconteceu entre Marpa e Milarepa, ou Tilopa e Naropa. No nosso caso, precisamos realmente verificar nossa motivação, e a possível eficácia, em termos de uma ação. Se estamos pensando em benefício maior, a longo prazo, não tem problema dar um remédio amargo a uma criança que não vai entender e vai chorar. Mas é muito raro estarmos numa posição em que algo que falamos, por exemplo, vai magoar mas depois produzir benefício. Muito raro mesmo.

O Buda pode mentir se isso eventualmente trouxer algum tipo de benefício para os seres?

Claro. Exemplo clássico o do caçador que segue atrás do veado e nos pergunta para onde ele foi. Há formas de budismo que ficam em silêncio, mas no mahayana certamente devemos apontar a direção oposta.

Certamente devemos apontar a direção oposta? Mas e se o caçador tem uma criança que precisa ser alimentada e não sabemos? Aí a boa intenção nos livra do mau carma mesmo que a criança morra por causa do nosso altruísmo amador?

Você mencionou um Buda, que é onisciente. Se no caso somos eu ou você, eu diria que se aparece um caçador bem vestido, com uma arma cara, e assim por diante — a gente simplesmente dá o melhor "chute" que a gente pode. Se é um caçador que pareça paupérrimo ao ponto de usar uma arma que não valha o valor de uma refeição, algo assim, com certeza, além de mentir é recomendável oferecer algo.

No Budismo, uma atitude pode gerar mau carma dependendo sempre da intenção e das circunstâncias ou algumas atitudes são intrinsecamente maléficas?

Só as três atitudes negativas de mente, equivalentes as três aflições mentais básicas: apego, aversão e indiferença. É a presença delas que define uma desvirtude de fala ou de corpo.

É verdade que o buda matou um homem?

Como um Bodisatva, isto é, quando ainda não era um Buda, numa vida passada, Buda matou o capitão de um navio que causaria a morte de 500 pessoas. Foi uma atitude compassiva — ele não matou o ser por raiva, indiferença ou cobiça (para o roubar, usurpar seu posto, comer sua carne, vestir sua pele — como fazemos com os animais). Ele o matou com a única boa motivação de salvar vidas, então, nesse caso, o ato de matar foi uma virtude.

A diferença das capacidades mentais entre os animais implica diferenças na gravidade do carma resultante de matá-los?

Capacidade para beneficiar ou ao menos, não prejudicar, os outros seres. Esse é o critério essencial. Então, de forma geral pode ser menos carma matar um carnívoro do que um herbívoro, e menos carma matar um peixe grande do que um peixe pequeno (o peixe grande tem o potencial de comer mais peixes, já que a maioria dos peixes — exceto piranhas etc. — só conseguem comer peixes menores do que eles). Porém, apenas com onisciência pode alguém ver todas as vidas passadas daquele animal e prever o que uma morte, naquele momento, e de que forma, pode afetar os futuros renascimentos. Um ser que tenha esse tipo de visão pode até matar um animal ou outro ser com o objetivo de beneficiá-lo, em alguma circunstância muito particular. Como nós não temos esse poder, é difícil discriminar, sendo mais fácil discriminar em termos de quantidade. Assim, comer camarão é mais carmicamente negativo do que comer vaca, porque você em geral mata muitos camarões para uma única refeição, enquanto que uma vaca alimenta várias pessoas por várias refeições.

A capacidade mental pode implicar um maior potencial para trazer benefício e evitar malefício. Mas essa é uma generalização perigosa, porque a capacidade mental também pode implicar exatamente o oposto. Os grandes caçadores são estrategistas fantásticos, para o grande sofrimento das presas. Assim, o critério não é capacidade cognitiva em si, mas a capacidade cognitiva da empatia, ou, na falta dessas, o simples mérito de não se encontrar em condições (físicas) de causas grande prejuízo aos outros. Esses seres devem ser defendidos em detrimento dos outros. Não é porque o verme tem uma menor capacidade cognitiva do que o cachorro que nos livramos do verme para salvar o cachorro: é porque o verme está, ele mesmo, gerando carma negativo. Então, estamos protegendo tanto o cachorro quanto ao verme, ao matar o verme. Se deixássemos o verme matar o cachorro, estaríamos protegendo apenas o verme, e em sua atividade negativa, prejudicial ao cachorro. Portanto, não estaríamos, na verdade, protegendo nem mesmo o verme — que virá a sofrer no futuro pelo sofrimento que causou devido a seu carma presente negativo (um renascimento como verme, que causa sofrimento a um cachorro).

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