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2.3. Compromisso

Se Sidarta descobriu sozinho o método que leva a liberação, então, na verdade não há necessidade de ser budista, basta seguir o método, não é mesmo? Se não fosse assim, o budismo seria fechado, somente a sanga atingiria a liberação. É possível praticar sozinho?

Não é assim. Não é possível praticar sozinho.

O próprio Buda Sakyamuni contou que ao longo de suas 500 vidas ele serviu a incontáveis outros Budas, e recebeu ensinamentos de milhares de professores. Ele começou o caminho que culminou na 500a vida como Buda com um voto tomado diante de Buda Dipamkara. Na sua 500a vida de praticante, ele fundou a sanga e deu ensinamentos a milhares de alunos por 42 anos. Não existe diferença entre seguir o método e ser budista, e o método inclui, desde as formas mais simples de budismo até as mais elaboradas, o refúgio na sanga (e no Buda e no Darma).

Qualquer um pode participar da sanga, portanto não faz nenhum sentido falar em budismo fechado. Se o que você quer é praticar qualquer coisa e se autointitular budista, não há nenhuma lei contra isso — pessoas como eu ficamos tristes com o autoengano dos outros, mas é tudo o que podemos fazer. Agora, se você quer o resultado do caminho budista, e não apenas aplicar o rótulo "praticante" a si mesmo, você precisa se relacionar pessoalmente com budistas, e bons praticantes, e, em particular, mestres. Bodidarma dizia que uma em um milhão de pessoas não precisam de um professor para avançar no caminho, mas, sinceramente, isso é muito otimismo da parte de Bodidarma. E mesmo Bodidarma concordaria que esse um milhão de avos já tiveram, como o Buda, muitos professores em vidas passadas.

Além dos Budas e Bodisatvas, há outros objetos de refúgio possíveis?

Há o darma. Os objetos de refúgio no mahayana e no hinayana são o Buda, o Darma e a Sanga. No vajrayana a esses três objetos são adicionados o lama, o yidam e a dakini, que são expressões vajrayana daquelas três joias, em particular da própria sanga, como os bodisatvas e arhats. A sanga que é refúgio infalível é a que obteve reconhecimento da vacuidade, ao menos do eu — portanto bodisatvas de ao menos 8º nível e arhats. Bodisatvas de níveis inferiores são também sanga, mas não podem ser tomados como refúgio infalível.

 

É necessário acreditar em reencarnação para praticar o budismo? Eu procuro no budismo uma filosofia, um novo olhar para a vida, uma forma de melhorar a minha vida e das outras pessoas, não um monte de ideias meio "loucas" para aceitar ou não.

Acreditar, não precisa. Você só não pode acreditar no oposto, que é que a reencarnação não existe. Mas, sem a noção de renascimento, sua perspectiva de sofrimento fica muito limitada a uma vida, e da mesma forma, sua prática budista se limita a esse parco entendimento da insatisfatoriedade, então é possível, mas não vai muito longe.

Sem uma perspectiva transcendente, não há prática espiritual. O budismo pode ajudar nas causas temporárias das pessoas, mas esse não é o ponto central da prática. Então talvez seja melhor procurar algum tipo de terapia, por exemplo, massagem. A pessoa pode receber massagem e fazer massagem nos outros, e isso vai efetivamente melhorar a sua vida e a vida dos outros. O budismo vai requerer que a pessoa abandone a crença na realidade que ela vê como sendo sólida, sendo ESSA a forma de autobenefício e de beneficiar os outros.

Tenho dificuldade de acreditar que, por exemplo, Padmasambava nasceu de uma flor de lótus.

Dilgo Khyentse Rinpoche diz que, se a pessoa não tem mérito para entender a natureza onírica desta realidade, Padmasambava manifesta um pai e uma mãe para não excluir essa pessoa que é uma fundamentalista do senso comum.

Por outro lado, enquanto você tem essa dificuldade, você pode entender isso num sentido metafórico ou poético, que diz respeito a um nascimento livre de carma. Essa compreensão é útil e verdadeira mesmo que você venha a acreditar na versão mais literal.

Preciso acreditar na realidade de outros reinos para praticar o budismo?

Não, mas é preciso ter a mesma dúvida com relação a existência do reino humano. Se você é capaz de ver tudo como um sonho, não muito real, então esse é o máximo de "realidade" em que você precisa acreditar para qualquer outra "dimensão" possível.

É possível praticar a meditação, estudar e viver alguns dos princípios budistas e não "ser" budista? Continuar vivendo, em alguns aspectos, fora da doutrina?

Sim, o resultado que a pessoa obterá não será a iluminação, mas ela pode melhorar de vida e gerar uma conexão para que numa vida futura pratique efetivamente. Da mesma forma, mesmo os animais que ouvem os sons da prática se conectarão eventualmente.

Sua Santidade o Dalai Lama muitas vezes diz que o mais importante não é se filiar a algo, mas desenvolver um bom coração, treinar a mente para isto. Independentemente da pessoa seguir ou não uma religião, ou em particular o budismo, isso é o mais importante. Porém, para aqueles que reconhecem os objetivos do caminho budista e anseiam por eles, apenas o caminho budista pode levar a eles.

O budismo observa ser possível alguém estar no darma com sinceridade, sem propriamente fazer parte de qualquer seita/religião/filosofia específica? Tem algo a dizer sobre alguém querer seguir o coração sem ter acesso a muitos conceitos?

O que importa é ter um professor, sem ele, não há darma. Esse professor precisa vir de uma linhagem de professores que começa com o Buda, senão não é budismo. Esse professor é que vai garantir que nossa visão de Buda, Darma e Sanga, as três joias, cujo refúgio nelas é o que define um budista, é correta e está de acordo com a realidade.

Agora, tendo esses pré-requisitos, a pessoa pode manter qualquer aparência que seja benéfica perante os outros. Em outras palavras, ela pode ser um praticante secreto, sem ninguém saber dessa conexão dela com a linhagem.

Agora, segundo os critérios do IBGE, se a pessoa se pensa budista, ela é budista. Então se a pessoa não vai seguir um critério budista para se dizer budista, esse é tão bom quanto qualquer outro. Se, por outro lado, ela vai seguir um critério budista, já por aí ela está identificada com a tradição, e nesse caso não há saída senão comprometer-se com o refúgio nas três joias.

Se a pessoa não quer se comprometer com um caminho, ela pode ainda assim obter certo benefício de estar em contato com os ensinamentos e o ambiente budista. Ninguém impede as pessoas de fazerem o contato que conseguirem. Mesmo os animais que ouvem o som da concha ou de outro instrumento que usamos se beneficiam e criam uma interdependência que eventualmente permitirá que pratiquem o darma de forma coerente e comprometida.

O que é um "professor" no budismo? Precisa ser um Lama? Ou uma pessoa que tem contato com o Lama já serve?

É uma pessoa autorizada pela linhagem a dar ensinamentos. Lamas são professores do budismo tibetano, outras formas de budismo tem outros títulos, por isso é mais seguro usar a palavra neutra "professor", embora no budismo tibetano também algumas vezes haja professores autorizados que não são chamados de lamas. A pessoa pode, para certas coisas, confiar em alunos mais antigos também. Mas ela precisa tomar contato com um grande professor, e depois, segundo a orientação desse grande professor, ela pode pedir pormenores e coisas específicas de professores pequenos autorizados por esse grande professor, ou pelo menos que ela seja autorizada por esse grande professor a procurar (ou seja, a autorização tem que vir de um lado ou de outro: ou a pessoa é autorizada a ouvir alguém, ou ela ouve alguém que é autorizado).

Em outras palavras ela precisa de um lastro de linhagem, um professor cujas qualidades ela quer obter, e a partir do qual ela descobre que outros professores ela pode ouvir. É bom pedir a seu professor mesmo para ouvir professores reconhecidos, ao fazer esse pedido, você conecta com as bênçãos da linhagem. Mesmo livros é bom pedir autorização para ler. Se não for possível ver detalhe a detalhe, pelo menos a pessoa precisa receber uma instrução clara sobre que forma de prática seguir, o que ouvir, de quem, o que ler etc. (mesmo que de forma bem geral).

Porque ter mestres?

Essa é uma pergunta recorrente entre pessoas que tomam os primeiros contatos com o darma e possuem uma inclinação forte de livre-pensadores.

Segundo os ensinamentos do Buda, em que existe o princípio de que a iluminação é nosso objetivo prioritário, para atingir a iluminação que o próprio Buda atingiu, precisamos tomar refúgio no Buda, no Darma e na Sanga. Não só no Buda, não só no Darma e não só na Sanga. Essas são as três joias.

Existem alguns seres que de fato não precisam de mestres no seu caminho. Porém como eles estão muito próximos de se iluminar, tem muito mérito, e tudo que fazem é dar exemplo para os seres com menos mérito, eles manifestam uma grande linhagem de professores para benefício dos seres que de fato precisam de mestres e tenderão a seguir seu exemplo.

No nível do hinayana, o único mestre é o Buda. Mas sem refúgio no Buda, não é possível atingir iluminação. No hinayana, que é o veículo estreito, ainda existe uma forte motivação egóica, daí confia-se muito no próprio esforço. Também nos amigos espirituais (a sanga), isto é, os monges que sustentam os ensinamentos.

No nível do mahayana temos os "amigos espirituais", que são a sanga engajada nos mesmo propósito (de trazer benefícios temporários e definitivos a todos os seres). Porém a função dos amigos espirituais não é tanto aconselhar (admoestar, encorajar) e sim prover exemplo — e não são apenas os monges, mas também os leigos. Aqui novamente temos o Buda como mestre, e uma pletora de bodisatvas — mestres históricos e também o que chamamos de deidades, que são mestres. No mahayana, como a motivação idealmente vai além do ego, confia-se muito mais na bênção dos budas do que no esforço próprio. No mahayana leva-se incontáveis vidas de prática servindo a centenas de mestres a cada vida, como o próprio Buda relatou ter feito antes de sua vida como príncipe Sidarta.

Enfim, o nível vajrayana não existe se não encontramos um Buda face a face. É esse método que possibilita a iluminação nesta mesma vida ou em no máximo 17 vidas.

A pressa para nos iluminarmos não é uma questão de materialismo espiritual, já que nos iluminamos para trazer benefício aos outros, e não para benefício próprio.

Algumas vezes surge esta noção de que todos são professores. De fato, é possível aprender com tudo e com todos. Porém, isso ocorre apenas para seres de grande mérito. Para a maioria das pessoas como eu, com muito pouco mérito, a maioria das coisas é apenas distração com a qual me envolvo por apego ou aversão, e eu raramente aprendo qualquer coisa que vá me ajudar no que realmente importa, que é a iluminação.

Nas doutrinas new age parece que surge essa ideia de que aprendizados são muito comuns, mas essa vida de autorreferência, onde tudo representa algum crescimento, não é a visão do darma. O darma é um tanto mais realista. A maior parte do tempo a maior parte dos seres está perdendo tempo, não aprendendo. Não existe evolução numa doutrina que ensina a roda da vida — e a maioria das pessoas acha que tudo está indo, de uma forma e de outra, com atalhos ou não, numa direção mais positiva. Para o budismo não. A maioria dos seres apenas erra, anda em círculos.

Assim, é necessário muito mérito para aprender mesmo uma única palavra do darma, que é o que nos coloca numa direção positiva, quanto mais para reconhecer darma em tudo e qualquer coisa.

De fato, existe um fundo de verdade em dizer que tudo nos aponta o darma, já que é verdade que o darma está em todas as coisas.

Porém, o que falta muitas vezes falta é perceber que é muito raro que reconheçamos isto operando.

Nesse sentido, encontrar um único mestre representa um mérito incomensurável. Boa parte da prática diária da maioria dos praticantes vajrayana consiste em rezar para que, caso morram antes de atingir alguma realização qualquer, venham a encontrar o darma numa vida futura. Particularmente encontrar o lama, que é a forma humana e viva do darma, numa vida futura. E não só encontrar, mas reconhecer. Não vou exagerar em dizer que 80-90% da prática budista é gerar mérito e condicionamentos positivos para que, caso o resultado final não seja atingido, nosso fluxo mental olhe para algum símbolo do darma e algum professor fidedigno e "relembre" — "hm, aí tem alguma coisa que eu preciso examinar".

Na prática, para iniciantes como nós, a atitude correta é reconhecer o darma como algo raro, fácil de perder e difícil de encontrar. Um antibiótico para uma doença muito grave, que não podemos interromper, não podemos tomar na hora errada, e para o qual precisamos uma receita precisa. Portanto, se para nossa saúde automedicação é temeroso, e um erro no remédio só pode arruinar no máximo uma única vida, quão mais cuidadosos em não nos automedicar e encontrar um bom médico para a condição que nos aflige há infindáveis vidas, e cujos erros podem nos afetar por muitas vidas futuras, deveríamos ser?

É certo que nos sentimos mais próximos de uns que de outros, mas não é por isso que não interagimos com o resto.

De fato com o darma precisamos vencer exatamente os vedanas, essa tendência a preferirmos uns aos outros. Não nos sentimos exatamente "próximos" do mestre. Nós nos sentimos próximos de pessoas que nos agradam. O mestre nem sempre nos agrada.

De fato o mestre é aquele que nos faz reconhecer a igualdade entre todos os seres. Porém essa igualdade não é bater tudo num liquidificador e separar de novo em porções iguais da mesma gororoba. É tratar cada um como é melhor para todos.

No caso, se tudo é igual do jeito do liquidificador, poderíamos ir a um hospício e pedir a um paciente para que faça nossa neurocirurgia. Porém, não é essa igualdade de que o darma fala. A igualdade do darma é, pelo contrário, tratar o paciente mental do jeito que é melhor, e tratar o neurocirurgião do jeito que é melhor: e não tratar os dois da mesma forma.

É mesmo preciso ter um mestre específico ou podemos só estar atentos?

O mestre absoluto é a natureza de nossa mente. Um Buda é alguém que reconhece incessantemente a natureza da mente, e assim toma todos os fenômenos como professores.

Seres como eu, no entanto, que cometem erros e assistem ao Late Show do David Letterman, e que, com relação à natureza da mente, não a reconhecem melhor do que o porco que produz o bacon que comem, precisam de professores mais grosseiros do que arco-íris, formigas, a zeladora ou o trânsito. Eu, ainda pelo menos, preciso de um sujeito ou sujeita que saiba falar, conheça bem o darma, tenha experiência na prática e seja compassivo.

Mas se, por acaso, alguém tiver muito mais mérito e sabedoria do que eu, sem problema. Mas acontece algumas vezes que alguém tenha ainda menos mérito e sabedoria do que eu e o bacon. Portanto, é preciso deixar bem claro qual é o ensinamento indicado para a maioria dos seres segundo o budismo, deixando simultaneamente claro quais são as concepções errôneas comuns da espiritualidade de banca de revistas.

...

Segundo o budismo, o sofrimento surge devido à fixação a nossa identidade, e à crença equivocada (que não corresponde a realidade) de que nossa identidade provê segurança e felicidade.

Se vamos ser capazes de aprender algo, isso vai depender de nosso mérito. Portanto é essencial gerar mérito para encontrar o médico, conseguir uma consulta, pegar uma receita, fazer o tratamento e ficar saudável dessa fixação ao eu e da visão equivocada quanto aos fenômenos — acreditando que eles são o que não são.

Quando se diz que o professor "abençoa", isto é como passar uma "força" do professor ao aluno? Ou é só uma tradição simbólica?

O professor abençoa através de mudra, mantra e samadhi — corpo, fala e mente. Em particular, o samadhi reconhece a vacuidade luminosa do objeto abençoado. Meramente estar na presença da postura, fala e mente de uma pessoa que opera assim é a benção, porque isso desperta a atualização do mesmo potencial em nós. Mas, algumas vezes, para a bênção operar, precisamos de um contato mais elaborado, numa cerimônia, ou intenso e inesperado, como quando Naropa levou uma sapatada de seu Guru — ou simplesmente mais pessoal. Isso vai depender da capacidade de prática do guru e de seu mérito. Apenas lembrar do guru já beneficia, traz bênçãos da prática dele, da realização dele, de forma muito intensa.

Um exemplo fácil de entender. Numa ocasião perdi algum dinheiro na rua. Não era muito, mas era tudo que eu tinha para comer no dia seguinte. Minha primeira reação foi extrema raiva, aquela raiva de gritar alto — raiva comigo mesmo, com minha distração. Porém, eu tive o mérito de ter algumas fotos de lamas na parede, e no meio do meu acesso solitário de fúria, estavam ali aqueles Budas olhando para mim. Então imediatamente me acalmei e ri de mim mesmo. Esses seres praticaram muito para ter essa influência, para despertar essa interdependência. E agora nós temos o mérito de reconhecer e usufruir dessa interdependência. Isso é extraordinário, e muitas vezes vai além do que nós somos capazes de reconhecer ou compreender — por isso parece mágico. Mas é apenas a operação do que é mais natural, a interdependência.

Eu preciso estar próximo do meu professor?

Isso depende muito do seu carma. Mas algum contato pessoal é preciso, isto é, ele e você precisam se encontrar pessoalmente — pode ser uma entrevista rápida em meio a um retiro de alguns dias — algumas vezes por ano, ou uma vez a cada dois anos... mas isso varia muito, o mais importante é você vê-lo como seu professor e ele vê-lo como seu aluno — algumas vezes alguns professores não aceitam alunos tão facilmente.

Tenho a impressão que as sangas são enormes. Há professores para orientar tantas pessoas? É preciso "largar tudo" para ser aceito por um professor?

Algumas sangas são maiores, outras bem pequenas. Algumas pessoas são bem próximas do lama, outras só encontram o lama uma vez por ano, ou algo assim. Isso não significa necessariamente que umas avançarão mais rápido ou menos rápido que as outras, isso depende do compromisso pessoal de cada um, isto é, da aplicação efetiva por parte dessa pessoa, desses ensinamentos que ela recebeu.

Da mesma forma, algumas pessoas de fato largam tudo e "grudam" no professor o tempo todo. Se a pessoa tiver o mérito, isso é muito bom. Ter o mérito significa conseguir lidar com todos os obstáculos que porventura surgirem e não se tornar um peso para o professor e para a sanga. Mas essa atitude não é necessária, nem é possível, para todos. A pessoa vai sondando um grau de proximidade que esteja de acordo com sua capacidade e necessidade, e então vai ajustando o que for necessário.

Uma vez tendo estudado e praticado com um professor deve sempre continuar com ele?

Se você formalmente o requisitou como professor, só é adequado trocar com a autorização dele. Se você apenas praticou um pouco e ouviu alguns ensinamentos — especialmente se você não recebeu iniciações do vajrayana — então não há problema trocar de professor. Ainda assim, sempre é educado consultar, e não custa nada.

Um ponto importante é que você deve evitar criticar qualquer professor que lhe tenha dado ainda que um verso de ensinamento. Então mesmo que você mude de professor, é preciso manter o maior cuidado e o respeito pelos professores anteriores.

Como faço para conseguir um professor? Preciso pedir para o mesmo? Ou geralmente o professor pergunta quem quer ser aluno?

Não, você tem que examinar o candidato e fazer um pedido formal.

Como é este pedido formal?

Primeiro você examina o professor por um tempo, depois você pede uma entrevista, faz uma oferenda e diz "quero ser seu aluno". Se não funcionar da primeira vez, pode tentar de novo. O quão formal ou o quão pouco formal pode ser esse pedido vai depender inteiramente das características do professor com que você quer se conectar. Há professores extremamente formais e professores bastante informais. Mas em algum nível você vai pelo menos precisar formular o pedido claramente e obter uma resposta, é isso que quis dizer com "formal".

Sou praticante budista, sigo os ensinamentos de um professor, vou a palestras e retiros, participo da sanga, mas ele não me conhece, nunca nos falamos pessoalmente. Isso tem algum problema?

Não tem problema nenhum, você está verificando o professor. Num determinado momento é importante formar um compromisso, mas quem faz a hora é você. Tradicionalmente devemos examinar um professor por 8 anos. Nos tempos atuais isso nem sempre é possível, então de alguns meses a alguns anos é um bom período de exame.

A monja com que tenho conexão disse: "Pratique zazen e ponto final". Isso que dizer que devo fazer somente essa prática e nada mais até segunda ordem?
Sim. Se você quiser praticar outra coisa, pergunte a ela.

Como mestres que apresentam comportamentos desagradáveis, ou por vezes que não estão de acordo com a moralidade comum (como demonstrarem certa promiscuidade, por exemplo) podem ser considerados iluminados?

No caso do comportamento de mestres, não somos capazes de julgar adequadamente com base na nossa própria moralidade. O que podemos fazer é não tomar como mestres pessoas cujo comportamento não aceitamos ou não entendemos.

No caso da promiscuidade, é claro que, em geral, quanto mais pessoas na nossa vida íntima, mais difícil de evitar as aflições mentais. Então normalmente não conseguimos acreditar que alguém seja capaz de praticar (trazer mais benefício do que malefício) nesse contexto. É muita confusão com uma pessoa, imagine duas ou uma dezena! Mas essa é exatamente a diferença dos mestres e das pessoas comuns: a capacidade de praticar em situações e ambientes onde a prática é difícil.

Repito, se a pessoa tem dificuldade em aceitar mestres de "louca sabedoria", que se comportam de forma selvagem, desagradável, sedutora ou ameaçadora e quebram nossos conceitos, há muitos mestres budistas cujas ações são mais palatáveis ao nosso senso comum, tanto ético quanto estético. Uma pessoa com essa dificuldade com certeza se beneficiaria mais de mestres tais como Sua Santidade o Dalai Lama, Sua Santidade Trulshik Rinpoche e muitos outros monásticos ou não, que se comportam de uma forma mais enquadrada com uma pequena capacidade de entendimento — e assim tem o potencial de beneficiar mais pessoas.

Mas, se a pessoa não está tão presa a noções de moralidade "pequeno burguesa"... daí ela pode usufruir da compaixão e bondade de professores verdadeiramente desafiadores e perigosos. É uma questão da nossa capacidade — e é claro, se somos iludidos pelo comportamento externo de um professor, seja ele de acordo com nossas expectativas ou não, não há muita chance de progresso, e é muito fácil se conectar com um professor falso. Por isso, precisamos olhar se a compaixão está presente e, se estiver, mesmo que queiramos um professor mais "louco", mas terminamos com um monge de comportamento extremamente suave e de pequeno impacto, é só o nosso próprio carma. O que importa é achar um bom professor, que desafie nossas falhas ocultas, inclusive nossa mente preconceituosa.

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