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9.2. O resultado: Buda

O que é "Buda"?

"Buda" é um título que significa "desperto", isto é, alguém que acordou para a verdadeira natureza da realidade. Para o budismo todos que não são Budas vivem sob ilusões.

Em outros termos significa alguém que aperfeiçoou completamente todas as qualidades (tais como as seis perfeições e as seis qualidades incomensuráveis) e eliminou todas as máculas (tais como os venenos e aflições mentais).

Normalmente usamos a palavra para se referir ao Buda histórico, conhecido como Buda Shakyamuni, Gautama Buda e antes disso, como Sidarta Gautama. Ele nasceu uns 500 anos antes de Cristo, e embora, segundo o Budismo, ele não seja "o primeiro Buda", é o Buda que primeiro ensinou nessa era histórica, e que é portanto a fonte de todos os ensinamentos Budistas conhecidos hoje.

Alguém atingiu o nirvana antes de Buda Sakyamuni (Sidarta Gautama)?

Nesse kalpa, que é um kalpa considerado "bom" pois totalizará 1002 Budas, Buda Sakyamuni foi o quarto Buda. Um kalpa é um período em que um universo se forma, existe por um tempo, e desaparece. Houveram muitos kalpas antes do presente kalpa, alguns sem Buda algum, outros com bem mais Budas do que em nosso kalpa "médio".

Repare que um Buda não apenas atinge o nirvana, um Buda atinge iluminação completa, e quando estamos falando desses 1002, por exemplo, eles são Samasambudas, isto é, Budas que surgem sem a existência, naquele momento, do ensinamento restante de nenhum Buda. Isto é, são 1001 Budas que surgem nesse kalpa a partir de um estado em que os ensinamentos do Buda anterior não são mais sequer lembrados. Para cada Buda destes, que marca o início de um período onde existem os ensinamentos budistas, há centenas, milhares ou milhões... talvez bilhões, que ao longo do tempo em que seu ensinamento persiste atingem o nirvana. Durante o período de vida do Buda Sakyamuni, que foram 42 anos após ele atingir a iluminação, ele levou cerca de 500 praticantes ao nirvana. Muitos outros atingiram esse estado através dos ensinamentos de seus alunos ao longo dos tempos. Além do nirvana, muitos praticantes também se tornam efetivos Budas, mas como eles ainda estão num período em que os ensinamentos do Buda Sakyamuni estão preservados, raramente nos referimos a esses seres iluminados como Budas, embora existam alguns casos em que sim, praticantes ao longo do tempo que atingiram a iluminação também são chamados de Budas. Em todo caso, eles não entram na contagem dos 1002 Budas num kalpa bom: estes são Budas que surgem sem base no ensinamento preservado historicamente de outro Buda, só em possivelmente lembranças de terem estudado com eles em vidas passadas.

O que é um Buda? Quantos Budas existem? Como eles surgem? Budas podem existir simultaneamente? Buda disse para o Bodisatva Maytreia: "você será Buda daqui 7 bilhões de anos". Ele estaria algo como que "passando" o título?
Um Buda é alguém que acordou para a realidade, e que portanto eliminou as máculas que impedem de reconhecer a realidade, as aflições mentais, e desenvolveu as qualidades que permitem que ela seja reconhecida, as "perfeições", paramitas.

Há um Buda para cada elemento discreto de ignorância. Isto é, incontáveis Budas. Por outro lado, as noções de unidade, multiplicidade, dualidade e ausência são criadas pela ignorância, assim os Budas não são nem mesmo um, dois, muitos ou nenhum. "Buda" é além desses quatro extremos.

Eles surgem de acordo com o carma dos seres a serem treinados.

Os Budas podem ser concomitantes. Os Budas que surgem sem registro histórico do Buda predecessor, e ensinam o darma novamente pela primeira vez após o darma ter desaparecido por um longo tempo, são chamados de "Samasambuda", em honra a essa condição. Todos aqueles que atingem o nirvana com o ensinamento desse Buda são denominados arhats, todos aqueles que desenvolvem a grande compaixão com base na vacuidade são chamados bodisatvas, e aqueles que atingem o resultado do caminho dos bodisatvas, são chamados de Budas — sua realização não é diferente da dos samasambudas — apenas as condições em que os seres os encontram.

Desconheço o tempo em que Buda Maitreya vai surgir, e nunca vi esse número em nenhuma fonte confiável. É comum um bodisatva receber, em determinado ponto, a profecia de quando e como irá se iluminar. Foi assim com Bodisatva Sumeda (futuro Buda Sakyamuni) e Buda Dipamkara, o primeiro Buda desse kalpa razoavelmente bom com 1002 Budas. Então não há um "passar de título" é uma mera aspiração e profecia (autorrealizável, pode até ser, sem problema) de quando um praticante vai atingir um resultado. Um Buda pode prever isto ou colocar a semente da iluminação num bodisatva, um praticante, porque ele mesmo entende todas as causas e condições de cada fenômeno particular (possui onisciência).

Quais as diferenças entre Tatágata, Arhat, Bodisatva e Buda?

Tatagata é que vê tatata, as coisas como elas de fato são. O Buda muitas vezes se referia a si mesmo dessa forma. Gata é ir, ele vai, ou foi, para onde as coisas são como são. Sugata é alguém que foi para a bem-aventurança, é outro sinônimo de Buda. O Buda também é chamado de abençoado (baghavati), ou "senhor dos mundos".

Arhat é alguém que superou as aflições mentais definitivamente, isto é, atingiu o nirvana (que vamos diferenciar aqui da iluminação completa de um Buda). Bodisatva é alguém que está no caminho para se tornar um Buda, e alcançou pelo menos um breve reconhecimento da vacuidade, que lhe deu a capacidade de, se necessário, oferecer seu próprio corpo como alimento para um ser faminto.

Todo Buda é um arhat. Nem todo arhat é um bodisatva. Nem todo arhat se torna um Buda.

Tatagata, Sugata etc. são títulos diversos para Buda.

Um arhat quando atinge o nirvana também desenvolve compaixão? Ou ele mantém algum tipo de frieza ou indiferença?

A compaixão no hinayana é com o objetivo de atingir o nirvana, que é um objetivo para si só. Então há compaixão, mas destituída de coragem — é uma compaixão extremamente limitada. Os arhats não são indiferentes ou frios, mas eles não se consideram capazes de realmente ajudar os outros no sentido em que um Buda ajuda. Quando eles morrem, eles não se manifestam mais para benefício dos seres — não por indiferença ou frieza, mas por falta de coragem ou por não se acreditarem capazes (durante o treinamento).

O que falta totalmente ao arhat é bodicita, esta sim está totalmente ausente.

Como você descreveria uma pessoa iluminada?

É uma pessoa que eliminou completamente as três máculas e desenvolveu plenamente as seis perfeições.

Isto é, eliminou aversão, apego e indiferença e desenvolveu ao máximo, transcendentemente através do reconhecimento da vacuidade, generosidade, ética, paciência, empenho, concentração e sabedoria (que é esse reconhecimento).

Uma pessoa que atingiu a iluminação pode regredir espiritualmente ou é irreversível?

"Atingir a iluminação" é modo de falar. A iluminação é um não atingimento. É irreversível.

A iluminação é uma condição irreversível?

Por liberdade, um ser iluminado pode vivenciar a ignorância. De fato, é assim conosco nesse momento. Nossa condição básica, livre da ignorância, é incorruptível.

Os mestres podem perder sua realização?

Sim. Mesmo bodisatvas de 10º nível podem perder tudo. A única realização irreversível é o estado de Buda.

Se praticamos o vajrayana, devemos ver nosso professor como o Buda, o que não quer dizer que ele seja o Buda — e em quase todos os casos o próprio professor vai dizer que não é um Buda.

Assim, professores que não são Budas completamente realizados — ainda que nós treinemos nossa própria mente tentando vê-los como Budas — podem perder absolutamente tudo que obtiveram: realização meditativa, erudição e perspectiva espiritual.

As realizações que alcançarmos nessa vida poderão ser perdidas em vidas futuras?

Todas as coisas que podem ser obtidas serão, inevitavelmente, perdidas. A única conquista que não é perdida é a conquista da iluminação, que não é propriamente uma conquista, mas a revelação de nosso estado natural. Qualquer outra conquista que obtivermos, seja grandes acumulações de mérito, conhecimento, e assim por diante, se dissiparão com o tempo.

De fato, no caso do mérito, existe a dedicação de mérito, que é basicamente doar nosso mérito a todos os seres, de forma que o "reservatório geral", mais duradouro, seja de benefício a todos. Ainda assim, sem a sabedoria que revela a natureza das coisas como elas são, de forma atemporal, qualquer mérito acumulado é meramente um instante de felicidade no futuro. É melhor que transformemos essa felicidade em oportunidade vasta para a prática, para dessa forma abrir nosso coração para a realidade que tudo permeia e está além de causas e efeitos, e qualquer noção de eu-outro, fora-dentro e antes-depois.

Quando Gautama tornou-se Buda, o que exatamente se despertou: o corpo, a mente ou outra essência nele?

Corpo, fala (emoções, energia) e mente. Isto significa que cada um dos três âmbitos acordou ou reconheceu o que realmente era desde o início.

A iluminação, seria o "reconhecimento" direto de como as coisas realmente são, além das nossas projeções mentais?

Sim, mas isso inclui a ausência completa das aflições mentais e venenos mentais, e a presença completa de todas as qualidades, tais como compaixão. Uma coisa não é diferente da outra, mas na nossa perspectiva, pode parecer que o mero reconhecimento não implica essas outras coisas.

O Buda precisa meditar?

Não precisa. O que o Buda faz em sua mente é impossível de descrever, mas a meditação é uma prática para seres deludidos. Mesmo se tratarem de Budas completamente iluminados, em alguns casos a prática de meditação em geral, e com certeza algumas formas de meditação são desaconselháveis para aqueles de grandes qualidades.

Porque que quem alcança o nirvana e extingue toda dualidade torna-se onisciente? O que é a onisciência nesse aspecto?

Onisciência para o hinayana é o conhecimento de todas as causas para liberação. No mahayana, é o conhecimento de todos os darmas, isto é, das causas e condições de todas as coisas, e de sua essência, vazia de independência.

Quando extinguimos totalmente as aflições mentais isso é sinal de que obtivemos a primeira onisciência. Isto é, só é possível extinguir completamente essas coisas quando a onisciência do tipo hinayana está presente.

Quando, por outro lado, estamos falando em separatividade, dualidade, ela não é extinta. Ela é reconhecida como nunca tendo existido. Dessa forma, através da interconexão natural entre todas as coisas, o conhecimento da natureza verdadeira de cada darma pode ser inferido. Em outras palavras, conhecer completamente qualquer particularidade é conhecer completamente todas as particularidades. Então, não dualidade é igual a onisciência no sentido mahayana.

Como um corpo com um número finito de neurônios pode conhecer todos os fenômenos nos três tempos, como supostamente o Buda conhece?

Evidentemente, para o budismo, a mente não é o cérebro. O Buda só tem um cérebro de sonho para beneficiar seres de sonho, ele não acredita na existência inerente de um cérebro.

(Mas mesmo se fosse, bastaria que os fenômenos dos três tempos fossem também, finitos — porém, não é esse o caso, quer dizer, não é definido se é finito ou infinito.)

Há dúvida sobre se Buda era ou não onisciente?

Não, mas há alguma discussão sobre o que significa onisciência no caso do Buda. Há escolas que dizem que o Buda sabia tudo sobre todos os fenômenos, portanto sabia até consertar motocicletas antes delas virem a existir. Há escolas que dizem que ele sabia tudo com relação à liberação dos seres, que é o que importa. E há escolas que interpretam essa onisciência num sentido metafórico mundano, de alguém com um conhecimento vastíssimo, mas não completo.

O exemplo tradicional para o conhecimento do Buda sobre o mundo relativo é que ele saberia cada uma das causas que teria causado uma cor específica em cada um dos pontos da cauda de um determinado pavão. O mahayana em geral, e por consequência, o vajrayana, toma isto como o padrão de onisciência do Buda com relação aos fenômenos.

Buda hesitou antes de decidir ensinar sua via de libertação para os homens. Como é possível ser onisciente e hesitar?

Bom, em primeiro lugar, preciso lembrar que há controvérsia sobre o que exatamente "onisciência" no caso do Buda quer dizer. Mas não é necessário argumentar por essa via.

Independentemente do que se queira dizer por onisciência, ela só foi completa — a iluminação — quando o Buda decidiu ensinar. Antes ele podia ter atingido mera liberação — e era essa liberação que ele hesitou em ensinar. Ao decidir ensinar, essa mesma atitude foi uma manifestação das qualidades, essencialmente da compaixão. Portanto o próprio ato de ensinar algo que não é ensinável é uma ação de um Buda, um ato transcendente, inexplicável.

O Buda ainda estava sentado. Toda aquela sessão de prática do Buda, os seis dias todos, não contém um momento discreto em que o Buda se iluminou. Além disso, se pode dizer que ele se iluminou e que sua iluminação continuou crescendo, como uma frase zen expressa: "a iluminação é definitiva e completa, sem faltar nada. Ainda assim, ela aumenta". Mas só um onisciente como um Buda para entender esse tipo de coisa.

Por que o Buda aceitou a comida estragada que o matou? Como budistas devem agir em situações similares?

Para dar um ensinamento sobre impermanência. No caso do Buda, ele era apenas uma aparição de sonho para seres de sonho, ele mesmo se mantendo lúcido e além de vida e morte.

No nosso caso, sabendo que a comida está estragada? Não se deve aceitar, é claro. Se tratar-se de monges, daí eles não podem rejeitar também — mas, se é claro que a comida vai fazer mal, então eles com certeza devem evitar comer.

Uma pessoa iluminada pode cometer erros grosseiros?

Uma pessoa iluminada não comete erros de qualquer tipo. Mas ele pode parecer cometer erros, se isso trouxer benefício aos seres.

É possível estar iluminado em certo grau e ainda assim ser vítima de defeitos humanos?

Os bodisatvas de até 8º nível possuem aflições mentais grosseiras, e do 8 º, 9º e 10º, só tendências habituais, latências, destes hábitos mentais e aflições. Quando mesmo essas tendências são iluminadas, se fala em completa iluminação.

Ainda assim, o treinamento mahayana diz para não prestarmos atenção nas falhas dos outros, e há o voto de ver bodisatvas como budas.

Um Buda, quando se torna darmamega, continua a se manifestar, incessantemente, de várias formas, em nosso benefício?

O bhumi darmamegha é o 10º estado de um bodisatva, portanto, anterior ao estado de Buda. A realização do Buda é portanto maior que o 10º bhumi. Um bodisatva, mesmo antes de darmamega, possui o sidi de se manifestar em incontáveis formas para beneficiar os seres. No estado de darmamega o que ocorre é que ele nem sequer precisa se "manifestar", a chuva dessas densas nuvens de darma simplesmente umedecem as raízes de virtude dos seres naturalmente. Em outras palavras, a emanação, nesse nível, é incontável e espontânea como as gotículas de água presentes em nuvens densas.

Um Buda tem desejos?

Não, mesmo um arhat é livre das três aflições principais, os três venenos: apego, raiva e ignorância.

Apego e desejo são formas da mesma aflição mental. Agora, por exemplo, existe uma ambiguidade no termo "desejo". Se desejamos o bem dos seres, isso não é propriamente uma aflição mental, então não é bem desejo na definição budista. Desejo é uma aflição mental quando existe autocentramento, egoísmo, ignorância. Em outras palavras, quando acreditamos que algo vai nos dar felicidade verdadeira, mas não vai, isso causa sofrimento. Vemos de forma distorcida, acreditamos por ignorância, assim por diante. E, além disso, se para obter algo, evitamos a felicidade de outro ou causamos infelicidade — no budismo isso não poderia sob nenhuma hipótese trazer felicidade verdadeira, então quando fazemos isso em busca de felicidade, trata-se de ignorância. Então, quando lemos a palavra "desejo", precisamos pensar em autocentramento e ignorância — se essas duas coisas não estão presentes, então a emoção pode não ser aflitiva, mesmo que sejamos tentados a chamar de "desejo".

Depois de atingir a iluminação, Buda fez sexo? Um ser iluminado pode fazer sexo e ter filhos?

Quanto ao Buda Sakyamuni, é difícil dizer. Possivelmente não. Com certeza, de forma pública, ele se comportava como um monge. Então, se dizemos que em privado ele não seguia as regras monásticas que ele mesmo criou, o chamamos de hipócrita e mentiroso, e portanto não o vemos como um Buda.

Mas não há nenhum impedimento para praticantes, iluminados ou não, em participar de atividades que não causem sofrimento para os envolvidos. A não ser que sejam monges, nesse caso, não podem se engajar em nenhuma forma de sexualidade. Então há Budas que participam de atividades sexuais (com outros Budas, com Bodisatvas e com seres sencientes) — mas eles não são monges. É possível se tornar um Buda sem nunca se tornar monge, mas para algumas pessoas o monasticismo ajuda em muito — e eles eventualmente mantém, para benefício dos seres, a aparência monástica depois de iluminados, assim não se engajando em atividade sexual.

De forma geral, é óbvio que nada impede um ser iluminado de fazer qualquer coisa — qualquer coisa — que seja de efetivo benefício para os seres. Então, de acordo com as necessidades dos seres, eles podem assumir o papel de pai/mãe e consorte.

Um buda ainda sofre os efeitos do seu carma depois da iluminação?

Na visão do hinayana, sim — ele sofre os carmas residuais, embora não mais acumule carma, enquanto tiver um corpo, isto é, até sua morte, o parinirvana. Na visão do mahayana, não. Ele só se torna Buda após purificar todo o carma, e o corpo não é visto como algo mais que um sonho para benefício de seres de sonho, portanto não sujeito a carma — e qualquer sofrimento que um Buda pareça sofrer, como por exemplo, ter um espinho fincado no pé, será apenas um show representado para benefício dos seres.

Se Buda está livre dos condicionamentos, como é possível que ele veja os objetos da mesma forma que nós? Um Buda vê uma mesa onde vemos uma mesa?

De fato ele, por ele mesmo, não vê como nós. Mas ele vê a nossa ignorância e assim vê o que nós vemos, e dessa forma pode se comunicar.

Em outras palavras, ele não usa a palavra mesa para se referir ao objeto mesa porque seja isso a que ele esteja se referindo, ou aquele um objeto da percepção dele — mas porque essa é a nossa referência e esse o objeto da nossa percepção.

Enfim, a sabedoria do Buda não só reconhece as coisas como elas são, mas reconhece todas as possíveis distorções das coisas também como elas são, distorções. Ele não perde o reconhecimento de quaisquer distorções possíveis, e por isso ele é lúcido. Por isso também lucidez, sabedoria e compaixão são a mesma coisa.

Como uma nota adicional, esse é um ponto crucial para a dialética consequencialista, a prasangika, visto que a própria noção de uma lógica independente, privada, é considerada um engano. Então os prasangikas não só tomam os argumentos dos outros como os outros os entendem (e os refutam, ambas as coisas sendo o natural, considerando que quaisquer premissas são arbitrárias) como a própria concatenação entre os elementos argumentativos é própria "do outro", e ela é seguida "de acordo com o outro". Sua Santidade o Dalai Lama muitas vezes começa ensinamentos mais sofisticados do mahayana com uma citação de Nagarjuna no Mulamadhyamakakarika: "Se algo aqui partiu de mim, então cometi um erro", e algumas vezes uma citação do Vigrahaviavartani: "Me prostro ao Buda, que nunca afirmou uma tese". Que nunca, de fato, arrazoou a partir de uma lógica privada.

Uma mente iluminada é totalmente desapegada a tudo? É uma mente que pensa, mas reconhece tudo como apenas é? Ou é uma mente vazia? Como é uma mente iluminada?

Ela é totalmente desapegada a tudo, o que é o mesmo que reconhecer as coisas como realmente são, é uma mente vazia, mas não é uma mente vazia de tudo e qualquer coisa, é uma mente vazia (como todos os fenômenos também sempre foram, e mesmo nossa mente, do jeito que é agora, é também) de reificação. Não reificar e desapegar é a mesma coisa. O apego é meramente estar na dependência de algo reificado como externo, separado. Não existe nada externo, separado.

A essência da mente iluminada é abertura, claridade e afetuosidade. Abertura é não fixação, não dependência, liberdade. Claridade é lucidez, interesse, inteligência, curiosidade num sentido de se envolver com as coisas. Afetuosidade é compaixão, empatia, capacidade de agir. Esse é o potencial de todos os seres, que é atualizado nos Budas.

O Budismo tem as ideias de Perfeição e de um "ser perfeito"?

Um Buda é um ser perfeito.

Buda não é o único ser perfeito?

Buda é um título. O que o Buda ensinou é como revelar a natureza de buda, que todos os seres sencientes possuem. Então a perfeição é possível a todos, e existem inúmeros praticantes na história (e fora dela), dignos de receber o título Buda.

Nesse kalpa, que é o período desde a formação até a destruição deste sistema de mundos, diz-se que haverá 1002 Budas. Buda Shakyamuni é o quarto. Depois haverá 100 kalpas sem Buda algum, e um kalpa com 84.000 Budas. Depois 500 kalpas sem Buda algum, e então 16.000.000 de Budas em um só kalpa... e assim segue, não necessariamente numa progressão, porque há períodos maiores e menores, e números maiores e menores de Budas em cada kalpa. Como eles sabem disso, daí eu não sei. Se isso é fato, também não sei. Mas é utilizado para nos colocar na perspectiva de que ao renascermos em kalpas negros, não há chance de prática — portanto há urgência em nos tornarmos Buda nessa mesma vida.

Buda escapou da interdependência?

Buda é vazio, interdependente, inseparativo e coemergente — como todo e qualquer outro fenômeno. Aliás, realizar a natureza de Buda é reconhecer o Buda, isto é, reconhecer a realidade: vacuidade, interdependência, inseparatividade, coemergência, em todo e qualquer fenômeno.

Então, em certo sentido, "escapar" não se aplica, mas reconhecer. Sofremos não pela interdependência em si, mas por não reconhecer a interdependência e agirmos de acordo com esse não entendimento, sermos parciais, e produzindo tensões que recaem sobre nós. Um Buda age com o conhecimento completo de toda a rede interdependente, portanto ele não produz nada que venha a "surpreender" ele, ele não possui "regiões de indiferença", "externismos", partes não incluídas, seres não incluídos, e assim por diante.

Se existe compaixão infinita, como pode existir sofrimento? O sofrimento é um infinito maior?

Esse é um ponto importante dos ensinamentos: o Buda não pode ajudar ninguém só pelo lado dele. A existência de um fenômeno independente é negada pelo budismo. Nós praticamos para que a compaixão infinita dos Budas possa ser reconhecida e exercida, essa é a nossa parte. Da mesma forma, nossa natureza é tal que a compaixão infinita já existe latente, só precisa ser revelada.

Então o que ocorre é que a ação compassiva depende do objeto da compaixão. Quem nunca se deparou com alguém que não quer ser ajudado? Tomar refúgio é começar a querer ser ajudado pelo Buda. A conclusão é que nem mesmo toda a ajuda e compaixão do mundo são suficientes para quem continua a crer numa existência independente.

O Buda não criou as coisas. A pergunta surge num entendimento das coisas que propõe que o sofrimento e a compaixão existam num mundo. O sofrimento e a compaixão são qualidades da mente.

Então, aonde o ser acordado habita? Qual a essência de um ser desperto?

Um ser desperto está acordado para a realidade. Os seres dos seis reinos habitam sonhos de ignorância, que parecem sólidos apenas para suas respectivas ignorâncias, mas não existem de verdade. O estado desperto habita o espaço básico, prenhe de todas as possibilidades, mas cuja textura é livre de reificação que possa produzir a noção de "aqui" ou "ali".

A completa inexistência de uma essência, a vacuidade, é a "essência" (o que caracteriza) todos os seres, um ser desperto é alguém que reconhece isto, portanto sua "essência" (o que caracteriza) é a realização da vacuidade, o que é idêntico a compaixão. A natureza de Buda é, portanto, a total liberdade perante todas as fixações, a ausência de reificação das coisas falsas, tais como um "eu" ou uma "essência" dos objetos e de si próprio. Essa claridade (com relação ao que é, ao que é real) possui um aspecto criativo, radiante e luminoso — que é o aspecto de compaixão, a disponibilidade total, que vem dessa abertura total.

Para onde vai um buda quando acorda? Quando deixa de se manifestar no sonho? Ele vai para uma terra pura?

Um Buda não vai nem vem, não fica nem sai. Na verdade, além de todos estes conceitos, porque são projeções do sonho, de uma ignorância básica que forma a noção do espaço e da causalidade ordinários.

Quando esperamos que um Buda opere como nossa mente espera que objetos operem, que possuem localização, surgem por condições e desaparecem por condições, não entendemos o que é Buda, e portanto não entendemos nossa própria natureza. É a reificação de noções como estas "deixa de se manifestar", "passa a se manifestar", que produzem todas as formas de sofrimento.

Quando acordamos de um sonho na noite, descobrimos que estivemos o tempo todo no mesmo lugar, em nossa cama. Da mesma forma, o Buda acorda para o estado que sempre existiu, mesmo em meio ao sonho. Podemos usar palavras tais como "espaço básico" ou "terra pura incondicionada" para descreve-lo, mas estas palavras apenas servem para acalmar nossa ignorância, dando pontos de referência que nos façam pensar isso ou aquilo sobre o que é um Buda. O que há de fato, além do sonho, só é visto por quem acorda. Tudo que podemos fazer, no sonho, presos às aparências do sonho, cheios de noções de tempo e espaço, sem falar em noções mais grosseiras ainda do que essas, é ver as coisas nesses termos. A partir da ignorância, nunca reconheceremos a sabedoria. Precisamos começar da sabedoria, daí vemos como a ignorância se forma. Enquanto isso, só nos resta praticar, dentro do sonho, com nossas coisinhas de sonho — o que não é pouco: gerar mérito.

Quando se atinge a iluminação, a consciência para, deixa de existir?

Dependendo da escola, até 8 tipos de consciência são descritas no budismo. O Buda é acordado, isso significa, ciente, onisciente — portanto necessariamente consciente. Porém nenhuma consciência que surja através de causas e condições é um obstáculo para a iluminação, embora elas também, por si só, não estejam necessariamente presentes num ser iluminado.

Mas se a sua pergunta é se um ser iluminado está "apagado", inconsciente, ou se sua mente cognoscente "some": não, é exatamente o contrário disso que a tradução da palavra "Buda" significa. Isto é, desperto, acordado. Aliás, é esse fator de luminosidade que dá origem ao termo "iluminado" — que até mesmo a nossa "iluminação" histórica, lá no século XVII, apropriou. O esclarecimento, a inteligência, a razão — valores que influenciam o pensamento até hoje — a eles foi dado o nome de "iluminação", sem um sentido místico, especial. Mas o Buda é totalmente esclarecido, essa clareza tem uma qualidade viva, presente — é uma vivacidade, um estar acordado, atento. Isso é "bodhi", de onde vem "buddha". Portanto um Buda não é alguém que está apagado perante as coisas, num mundo próprio, desconectado de tudo. Essa é uma visão que o Papa e os filósofos do século retrasado tentaram passar sobre o budismo, mas que nada tem a ver com budismo.

Um ser iluminado não renasce mais, certo? Mas, se for assim, como ele continuará beneficiando os seres?

Usa-se a palavra "emanação" para os surgimentos que não são embasados em preferências e inclinações, mas sim em compaixão. Esses surgimentos ocorrem de acordo com os méritos dos seres, já que do lado do Buda não há surgimento ou cessação. A compaixão é incessante e não tem princípio. Então, do lado dos seres que têm mérito, parecem surgir Budas; do lado dos Budas, nada, em lugar algum, jamais surgiu. Uma sabedoria luminosa atemporal, o que quer dizer sem início e sem fim, mas não eterna, cuja natureza é a compaixão, incessantemente parece brotar perante os seres com mérito — mas por si só ela nunca aumenta ou diminui, piora ou melhora, não é local.

Ou, no mínimo, tal compaixão brotou apenas uma vez no registro histórico, 2600 anos atrás. Isto para os seres com o menor mérito possível para praticar o budismo. Para os seres de vasto mérito, encontrar dezenas de mestres iluminados no período de uma vida humana, nestes tempos degenerados, não é difícil.

Os budas, enquanto praticantes, também formulam aspirações. Assim ele, quando atinge o mérito infinito do resultado, unificado com sabedoria e compaixão, dentre todas as atividades iluminadas possíveis, ele preenche em particular aquelas que aspirou durante o caminho. Por exemplo, Buda Amitaba fez aspirações ligadas com o sofrimento do momento da morte, e com a possibilidade de facilitar a prática espiritual mesmo das pessoas que cometeram grandes desvirtudes: assim ele foi capaz de manifestar uma Terra Pura relativamente fácil de se alcançar. Basta lembrar de Amitaba no momento da morte que o renascimento na Terra Pura da Grande Bem-aventurança, onde a pessoa poderá seguir praticando o darma até a iluminação, é garantido pelas aspirações do Buda Amitaba — mesmo que a pessoa tenha cometido muitas ações desvirtuosas durante aquela vida.

Gostaria de saber o que acontece com o Buda a partir da morte física dele, ele renasce novamente ou não?

O termo para surgimento ou nascimento implica ignorância. O Buda nunca surge, e portanto nunca cessa. Coisas que surgem, cessam. O Buda parece nascer e surgir de acordo com o mérito dos seres a serem domados, mas em verdade, ele, do lado dele, está livre de surgimento. O Buda, desde o princípio sem princípio, é não nascido. Essa é nossa verdadeira natureza. Nós nascemos e morremos porque nos fixamos às aparências através da energia do hábito.

Como a compaixão do Buda não tem limites, onde quer que haja seres com mérito, um Buda é reconhecido. O que aparece e desaparece é o mérito dos seres, o Buda nunca se desvia do incondicionado, do não causal e do não local, e nunca está preso a extremos tais como "ir" e "vir".

Mas essa era exatamente uma das 14 perguntas que o Buda não respondia. O que é morte para alguém acordado? A morte faz parte do sonho.

No Budismo existe a noção, como em outras tradições, de pessoas que deixam este mundo sem ter que passar pela morte física? E por que o Buda teve que envelhecer e morrer se ele já tinha alcançado a perfeição?

Sim, no vajrayana há alguns modelos de morte "sem apodrecimento", sendo que alguns podem ser metafóricos, e outros podem ser mais miraculosos mesmo.

No nível hinayana a sua segunda pergunta é respondida assim: Buda era um homem perfeito, não um ser humano imortal, que não só não faz parte da perfeição de um homem, como é algo impossível.

Há dois grilhões entre os 10 descritos no hinayana, que impedem a prática espiritual. Um deles é desejar a imortalidade física, e outro desejar a imortalidade de uma alma ou eu eterno. Não sei bem se é desejar ou buscar. Acho que no nível da aspiração, uma vida bem longa é uma boa aspiração, mesmo no hinayana. Mas nada pode ser eterno, e mesmo os deuses do reino da não forma — há quatro tipos deles — que duram mais do que o tempo de formação e destruição de um "universo" físico — eventualmente morrem de acordo com os ensinamentos budistas.

No nível mahayana, o Buda, completamente lúcido, acordado e além dos sonhos, surgiu como um ser de sonho para dar ensinamentos de sonho para seres de sonho. Assim ele manifestou uma morte de sonho e um envelhecimento de sonho para ensinar sobre a impermanência. E de fato algumas vezes é louvado como aquele que envelheceu e morreu apenas para dar o ensinamento da impermanência — como alguém que se sujeita a algo em benefício dos outros. Embora o Buda estivesse lúcido, e, segundo os ensinamentos mais elevados do mahayana, seu surgimento, como um todo, fosse pelo benefício dos seres. Então é quase como que dizer o Buda que completamente acordado se sujeitou ao sonho dos seres sonhantes, para dar um ensinamento de sonho sobre o estar acordado.

Portanto, no mahayana o sonho humano do Buda é também apenas um sonho. Ao ser perguntado sobre o que ele era, se era um Deus, um ser humano, um fantasma, o Buda respondeu apenas "sou (estou) acordado". E é daí que vem o nome Buda: "sou Buda" se traduz como "estou acordado".

No Lankavatara o Buda diz "ensino renascimento para os alunos de pouca capacidade. Para os de grande capacidade, ensino o que está além da vida e da morte."

Se o buda é aquele que realizou a vacuidade, então ele nunca deixa de renascer, ou melhor, de se manifestar?

Vamos clarificar alguma confusão nessa pergunta. Não só o Buda realiza a vacuidade. E há vários tipos de realização da vacuidade. Todos os seres nobres realizam a vacuidade: isso inclui Arhats, bodisatvas do 8º bhumi (nível) e acima, e Budas. A realização da vacuidade de um arhat é diferente da de um Buda em algumas tradições. Então se fala em vacuidade do eu e vacuidade dos fenômenos, e portanto, vacuidade estreita e vacuidade ampla. Segundo algumas escolas, os Arhats realizam apenas a vacuidade estreita.

Então como o termo "realização da vacuidade" não é unívoco, podemos falar em "eliminou as aflições", inclusive a ignorância. Eliminar a ignorância, estritamente falando, é reconhecer a realidade como é, isto é, realizar a vacuidade dos fenômenos. E a ignorância é a raiz das demais aflições mentais.

São as aflições mentais que levam alguém a renascer. Quando usamos a palavra "renascer" isso significa "ser levado pelo carma (pelas ações de corpo, fala e mente causadas por aflições mentais) a um nascimento". Portanto alguém que não possua aflições mentais não renasce. A mesma distinção entre grande vacuidade e pequena vacuidade se dá entre aflições mentais grosseiras e sutis. Um bodisatva de 8º bhumi, portanto, renasce apenas através da aflições mentais sutis. As aflições mentais sutis são as tendências de hábito, como se fossem sementes estéreis. Elas não chegam a ser perseguidas e se transformarem em aflições mentais grosseiras, mas existem como "latências". Essas latências produzem um renascimento, mas não um renascimento simplesmente sem controle (como os sonhos bons e ruins durante nossa noite), mas um sonho direcionado com lucidez para benefício dos outros. Ainda há algo a depurar, mas há um grande grau de controle sobre o nascimento.

No caso dos Arhats, eles também dissolveram completamente as aflições mentais grosseiras. Se eles dissolveram as aflições sutis, isso é ponto de debate. Mas com certeza no hinayana é ensinado que eles não renascem mais.

No caso dos Budas, não há aflições mentais grosseiras ou sutis, mas há as qualidades da mente, tais como generosidade. Um Buda jamais temeria o tecido de sonho, e jamais abandonaria os seres, portanto, de acordo com os méritos dos seres, ele surge. Ele não surge de "seu próprio lado", isto é, para o Buda, surgimento e não surgimento são etapas da ignorância. Um Buda não opera através de nascimentos ou mortes, que são causados pelos 12 elos da originação, que começam com a ignorância. Portanto é incorreto dizer que, do ponto de vista do Buda, ele nasça. Do ponto de vista dos seres que se beneficiam do nascimento do Buda, ele nasce. Do ponto de vista do Buda, este nascimento é uma mera encenação.

Mas a resposta mais simples é que o Buda nunca abandona os seres. Isto pode ser explicado de uma forma dual, como um Buda lá fora que atingiu a iluminação antes de nós e agora nos protege: essa é uma história contada para um tipo de ignorância que temos. Para outro tipo de ignorância, se vai dizer que o Buda é nossa própria natureza, que também nunca nos abandona. Quando se fala em sabedoria, daí não há Budas ou seres sencientes, nem caminho budista e todas essas coisas. O que há é o que há para um ser que possui sabedoria, e eu não sei o que é isso. Mas com certeza um Buda não guarda, para si, a noção arbitrária de si mesmo como um Buda. Isso não quer dizer que ele não saiba que é um Buda, é diferente. Ele não tem um "eu" que é um Buda, ele é uma mero sonho de Buda para uma pessoa que possui mérito.

Os despertos estão no nosso sonho? Eles possuem corpo físico?

Se nosso mérito não é suficiente, eles surgem com um corpo que o seu mérito pode entender. Ou seja, se o seu mérito é maior, você não precisa ver o Buda substancialmente. Do lado dos Budas eles não possuem nada, e eles só estão no nosso sonho do nosso lado, pelo lado deles, só tem lucidez.

O que seria este sonho que você fala? O ser iluminado (fora do sonho), quando "morre" se mistura a este fluxo incessante que dá movimento a tudo, a vida? Ou Seja, ele perde a noção de "eu" e se mistura a tudo?
Um ser iluminado não está fora do sonho — ele não teme o sonho. Ele só reconhece o sonho como ele é, um sonho. Quando ele morre é exatamente como quando ele vive — na verdade ele morre como um display (uma exibição, um show) para os outros, e ele também vive como um display para os outros. Em "si mesmo" ele nem morre nem vive. Não há um "em si mesmo", ele apenas reconhece isto, ele não faz com que seja assim — essa é uma diferença bem grande: o eu, agora, já não existe. Ele é só um engano.

A noção de eu, o apego a um eu, é perdida(o) muito antes da iluminação, mas isso não implica mistura alguma, muito menos a um "tudo" místico. A inseparatividade com tudo (com cada coisa) já opera, o tempo todo: ela só é reconhecida.

É importante entender: o eu já não existe desde o princípio sem princípio, essa não existência é só reconhecida.

O sonho é uma mera manifestação da liberdade incessante do estado desperto. Ao reificarmos as aparências tais como "eu", "outro", "mundo" e as tomarmos por reais, surge a insatisfatoriedade, expectativa e medo, as aflições mentais e todos os 84.000 sofrimentos. Em outras palavras, deixamos de reconhecer o Buda, e nesse engano vagamos indefinidamente.

Se uma pessoa revelar o estado de buda, mesmo assim ela pode voltar a uma vida normal? Por exemplo, passar num concurso público, ter família etc.?

A vida sempre é normal, em particular para um Buda. Um Buda não faz as coisas por impulsos próprios, mas de acordo com as necessidades e os méritos dos seres. Um Buda, portanto, não decidiria "ah, agora chegou a hora de eu fazer um concurso público" — ele veria as causas e condições com sua onisciência, e se fosse benéfico para os seres, ele poderia surgir em qualquer lugar. Até mesmo como cobrador de ônibus, camelô, presidente, hippie de feira de artesanato — mesmo como animal, como presidiário, como prostituta. É claro que, do lado dele, ele não é — como nós também não somos — nenhuma coisa particular. Mas, para benefício dos outros, e de acordo com suas necessidades e méritos, um Buda pode manifestar qualquer forma.

Agora, o curioso é pensar que o ser com um mérito infinito precisaria trabalhar para ganhar dinheiro. O maior problema dos seres com grande realização, nem vou dizer Budas, porque Budas não tem problemas, é ter tempo para utilizar beneficamente toda a riqueza que recebem continuamente como oferenda. O trabalho maior deles é oferecer a riqueza, não acumular.

A extinção das aflições mentais é o fim do sofrimento?

Sim, a extinção das aflições é o fim do sofrimento, o chamado "nirvana". Sofrimento é definido como "presença de aflições".

É verdade que, quando se atinge o nirvana percebe-se que nada muda, que as coisas sempre foram do mesmo jeito?

Esta frase vem do zen. Elas nunca mudaram, mas o que muda, e muito, é nossa percepção. As coisas já são como elas são. Nossa percepção cheia de aflições mentais, no entanto, não nos permite ver as coisas como elas são. Com o nirvana, nada muda nas coisas — o que muda, e muito, é nossa percepção delas. Então faz sentido dizer que nada muda, mas faz ainda mais sentido dizer que, para nós, cheios de ignorância, tudo parece mudar.

O nirvana é simplesmente uma percepção da realidade obtida pelo desapego, que proporciona um alívio e uma paz duradoura?

O nirvana não é uma percepção da realidade: é a percepção da realidade. As outras percepções não são da realidade, são de mundos filtrados pelas lentes das aflições mentais — entre elas o apego, sem colocar o apego em primeiro lugar. Em primeiro lugar está a ignorância. A paz no nirvana não é meramente duradoura, ela é definitiva.

Então a definição de nirvana é o reconhecimento da realidade além das aflições mentais. As aflições mentais produzem o samsara, portanto a eliminação delas é o nirvana.

É algo extremamente incomensurável a quem vive no sonho e não pratica?

O nirvana é um resultado bastante raro. Mesmo entre os alunos do Buda, enquanto o Buda estava vivo, poucos atingiram esse resultado. Algumas centenas, talvez. Chamam-se Arhats. Muitos alunos do Buda estavam a uma ou duas vidas de se tornarem Arhats, e isso foi profetizado também.

Na visão mahayana, a iluminação é muito superior ao estado de arhat. Diz-se que se houverem 500 arhats (que atingiram o nirvana) dentro da possibilidade imediata de ajuda do Buda, e um único bodisatva, alguém que busca a iluminação e não apenas o nirvana, o Buda escolhe ajudar o bodisatva. Ele puxaria um riquixá com esse único bodisatva e não ajudaria os praticantes que buscam o nirvana — um objetivo inferior segundo o mahayana. Shantideva disse que um praticante do mahayana deveria sentir ânsia de vômito ao contemplar um objetivo inferior como o nirvana.

Então, mesmo sendo uma realização bastante elevada (o nirvana, o estado de arhat), ela não é considerada elevada o suficiente, e de fato considerada bem inferior, na perspectiva do caminho do bodisatva. Dentro do escopo do caminho do bodisatva, a eliminação completa e definitiva das aflições mentais ocorre no oitavo nível de 10. Esta realização é equivalente a de um arhat, mas como o bodisatva tem bodicita, e o arhat não tem, o 8º nível de um bodisatva é infinitamente superior ao nirvana. O 10º nível é o último antes de um Buda.

Bodisatvas de 8º nível são também bastante raros.

Qual a diferença entre iluminação e nirvana?
Nirvana é a extinção completa das aflições mentais. Iluminação é nirvana mais a conquista ou o revelar de todas as qualidades de um Buda.

Iluminação e nirvana são estados distintos? Pelo que entendi: Um Buda não dissolve sua mente no nirvana quando "morre", mas está constantemente presente em tudo que existe?
Há diferença entre nirvana e iluminação: segundo o mahayana "nirvana" é o objetivo do hinayana e iluminação o objetivo do mahayana. Shantideva diz que um bodisatva deveria ter ânsia de vômito ao pensar em ir para o nirvana abandonando os seres-mães no sofrimento.

A segunda colocação eu não afirmaria. Tudo no Buda que era dissolvível se dissolve já no nirvana em vida. Nada muda após a morte, exceto que os seres, pela sua falta de mérito, perdem uma referência. Por outro lado, eles ganham um ensinamento sobre a impermanência.

Como o estado de Buda é a verdadeira natureza de cada um, e como ele é a essência da cognição — o estado desperto — , que agora está impedida pelos filtros das aflições mentais, quando esse filtro é diminuído ou abaixado, somos capazes de ver o Buda. O Buda é a experiência de inseparatividade. Pode-se dizer então que "está constantemente presente", mas apenas nesse sentido. Caso contrário o Buda teria que dizer que ele é especial porque a impermanência não opera nele — e não há nenhum fenômeno composto que escape à impermanência. Até se pode dizer que a natureza de buda não é impermanente, se for possível compreendê-la como algo não composto, não separativo.

Quando o Buda entra no Nirvana, ele se dissolve? Por isso ele não renasce mais? Ou ele está apenas presente?

O Nirvana significa ausência de aflições mentais, então ausência dos reinos. Porém, no caso do Buda, além de nirvana ele atingiu a iluminação, o que significa que além de dissolver os reinos, ele surge no sonho dos reinos de acordo com os seres que sonham, e isto é a prática de compaixão, uma das qualidades não necessariamente presente em grande quantidade no nirvana, mas presente em qualidade e quantidade infinitas na iluminação. Portanto, do lado do Buda, ele não está em reino algum, mas do nosso lado, ele surge no reino humano e nos dá um exemplo humano, que podemos seguir — devido a nosso mérito em conjunção com suas qualidades infinitas.

Qual o significado da palavra "emanação" no contexto do Budismo Tibetano? O que se quer dizer com isto?

A essência de todos os Budas é a mesma, e não é diferente da de qualquer outro ser. A diferença entre os seres sencientes como nós e um Buda é que o Buda revelou completamente esta essência.

A diversidade de manifestações do Buda é completamente livre para surgir de acordo com as necessidades dos seres. Assim, a forma de um Buda surge para nós de acordo com nossas peculiaridades.

Enquanto ele apenas manifesta um não alterar do que é natural e incessante, a realidade nua, não fabricada, ausência completa de fixações e arbitrariedades, a liberdade se revela em cada evento, fenômeno e particularidade, e isto é o que chamamos "vacuidade". Esse mesmo espaço amplo é o que dá vazão para a compaixão que é a energia ou luminosidade, que preenche completamente este espaço e é indistinguível dele. Para cada forma que surge perante nós como fixação e falta desse reconhecimento, há um Buda correspondente, que é o próprio desvelar daquela mesma forma particular em cognição além de objeto e observador, nessa esfera sem limites e luminosa.

Quando falamos em uma emanação, falamos que ocorreu o reconhecimento de uma dessas qualidades particulares na forma de alguém ou até mesmo alguma coisa. No zen uma das emanações do Buda foi um graveto sujo de cocô.

No caso mais específico de mestres em que reconhecemos um yidam, é simples, eles realizaram a prática daquele yidam completamente. Se pensamos a prática do yidam como algo através do qual a pessoa passa a ser algo que não era, não entendemos a prática do yidam. No vajrayana, quando tomamos uma iniciação o mestre nos diz que somos o yidam, e diz que temos o potencial para realizar o nirmanakaya, o sambogakaya e o darmakaya, e enfim o sobhavikakaya e o vajrakaya. Isso quer dizer que através daquela prática vamos revelar as qualidades do yidam no mundo, ou em outras palavras, vamos reconhecer estas qualidades, sempre presentes desde o princípio sem princípio, operando em todos os fenômenos.

O que o vajrayana tem de curioso é o próprio uso da peculiaridade como transcendência. É uma vacuidade "bem humorada" esta que surge com nove cabeças, chifres, trinta e dois braços, dezesseis pernas e em união sexual. Ela surge numa forma bastante específica, para dizer o mínimo, e isso é o aspecto de luminosidade, um não desperdiçar de oportunidade e um esbanjar de compaixão. Imaginar uma forma geral, uma forma pura, um ponto, algo assim, é, ainda assim, imaginar uma forma particular. Então porque não imaginar uma forma bem particular, que segura um moedor de café na mão? E aquele moedor de café por si só basta como visualização, porque nele, como em qualquer dos outros elementos, está todo o sentido do vajrayana.

Então, quando completamos certas práticas gerais, nosso professor nos dá a prática do yidam. Não devemos contar a ninguém quem é nosso yidam, isso seria frívolo, seria uma gafe, visto que, se ainda não o realizamos completamente, estamos apenas tentando nos promover. De fato, isso vale para qualquer prática e qualquer coisa que fazemos no budismo, o melhor é só comentar com quem participa daquela prática, e no caso do vajrayana e da prática do nosso yidam, apenas com nosso lama.

E pode ser que não seja para aquela vida. Pode levar algumas vidas praticando, mas então revelamos aquelas qualidades representadas pelo yidam. E quando existe uma plateia que usufrui e revela essas qualidades de forma aberta e irrestrita, esse é o sentido de "nirmanakaya" ou do que chamamos emanação.

E então retornamos aos grandes mestres, como estas formas particulares são no fundo de uma só essência, conhecendo-se uma, conhece-se a todas. Realizando uma, realiza-se todas. Diante de uma plateia de seres a serem domados, surge como Manjushri, diante de outra, surge como Avalokiteshvara. Pode ser que nos pareça ter um sabor mais laranja, mas o sabor branco está ali também. E o lama é a fonte de todos os yidams. É o contrário de uma tradição teísta, em que há avatares, seres que manifestam a divindade no mundo. O guru manifesta a divindade unindo o céu e a terra, e ele é o soberano na mandala de todos os yidams.

Levando em consideração que o estado desperto, a natureza de buda, é uma qualidade natural em todos os seres, pode haver algum ser iluminado que se manifeste, ou já se manifestou, em nosso benefício sem ter tido nenhum contato com o budismo?

Sem nenhum contato formal com a sanga nessa vida? Sim. Inclusive sem nenhuma religião, inclusive animais e seres inanimados — os Budas podem se manifestar de todas essas formas para trazer benefício para os seres que possuem méritos.

Buda conviveu no mundo de sonho por compaixão. Mas quando dormia, ele sonhava?

Os grandes professores não tem sonhos durante a noite. O Buda só aparentava dormir para dar um ensinamento aos seres de sonho. Ele só parecia dormir, no sonho dos outros.

Como saber se a ideia de iluminação não é um subterfúgio dos mestres para fazer com que as pessoas pratiquem um caminho de lucidez, gerem virtude e sejam felizes verdadeiramente? Parece-me que seria uma mentira digna!

Tudo que pode ser dito sobre o caminho budista, no sentido último, é falso, e é uma mentira. No zen um poeta louva o Buda como "o grande mentiroso". Na verdade, tudo que pode ser dito (visto, pensado, cheirado, sentido), ponto, no sentido último, é uma mentira, uma falsidade, um engano, uma ilusão, um sonho e assim por diante.

No sentido convencional, essas coisas tem sua verdade convencional. Essa verdade deve ser convencionalmente respeitada. Então tudo que pode ser dito sobre a iluminação não faz jus ao que o Buda quer dizer por ela. Se nem mesmo o Buda pode falar corretamente sobre iluminação, que dirá quem não é Buda. Mas a fala do Buda, que inclui a palavra "iluminação", é de utilidade convencional para aqueles que seguem o Buda. É basicamente isso.

Será que alguém consegue reconhecer que se liberou, ou "atingiu a iluminação"? Ele simplesmente pode ter "acordado" e percebido que tudo é assim mesmo, "é como é", e continuar levando uma vida normal?

Não, o relato dos Budas é que tudo é 100% diferente — mesmo que, para beneficiar os seres, eles eventualmente assumam externamente uma aparência 100% normalzinha.

Quando um ser senciente torna-se buda, no que esse ser se transforma, já que o sofrimento, samsara e o carma são extintos?

Um Buda não é um ser que pertence a nenhum reino. Ele é acordado, e não sonha de forma alguma qualquer dos seis sonhos. Porém, pelo benefício dos seres, e de acordo com o mérito deles, Budas surgem no sonho dos seres, como amostras da própria natureza essencialmente acordada de cada um. Na radiância natural da mente desperta, não há nem mesmo Budas. Mas Budas surgem como o jogo incessante da natureza que tenta revelar a si própria perante as aparições fantasmagóricas dos seis reinos, inclusive do reino humano.

O que são darmakaya, sambogakaya e nirmanakaya?

O Buda tem dois corpos, o darmakaya e o rupakaya. O darmakaya é o corpo verdadeiro do Buda, isto é, o que está de acordo com a natureza da realidade, e portanto é não nascido. Esse é o corpo do Buda como um Buda o vê. Daí, pelo mérito dos seres, surge o rupakaya, o corpo da forma, que os seres veem de acordo com suas necessidades e seus méritos. Seres de grande mérito veem um rupakaya puro, seres de pouco mérito veem um rupakaya impuro. O rupakaya puro é o sambogakaya, o corpo de deleite, o rupakaya impuro é o nirmanakaya, o corpo de emanação, como por exemplo, o do Buda que nasceu em Kapilavastu cerca de 2500 e tantos anos atrás e morreu 82 anos depois. Ambos os corpos do rupakaya surgem por compaixão. Os três corpos não são essencialmente distintos, eles são um único corpo, com três percepções: de sabedoria, de ignorância com muito mérito pura e impura. Pureza e impureza referem-se as aflições mentais, no caso da impureza, são os filtros grosseiros das aflições mentais, e no caso da pureza, apenas o filtro das tendências habituais sutis destas aflições.

O que é Darmakaya?

O Buda tem dois corpos, um verdadeiro e o outro uma aparência para benefício dos seres. O corpo verdadeiro do Buda é o darmakaya, isto é, literalmente, corpo do darma, ou corpo da realidade. Da compaixão do Buda brota o outro corpo, que possui dois tipos: o sambogakaya, que é uma forma pura, para beneficiar seres sublimes — e o nirmanakaya, que é uma forma pura para beneficiar seres como nós.

O darmakaya é a ausência completa de fixações, isto é, liberdade e lucidez, livre da ignorância da reificação do espaço e do tempo.

O que é liberdade?

Ausência de fixação (flexibilidade cognitiva), ausência de responsividade (energia/disposição estável) e ausência de distração (uma mente dócil que permanece sem esforço onde a colocamos). As condições criadas pelo carma passado são o aprisionamento externo, as causas que criam o carma, as aflições mentais, são o aprisionamento interno, e o aprisionamento secreto é o não reconhecimento do buda inseparativo, a ignorância. Eliminando a ignorância, não há aflições mentais, e as condições externas aprisionadoras naturalmente cessam. Na ausência de qualquer obscurecimento ou obstrução, o sol da natureza de buda brilha desimpedido como num céu sem nuvens.

O que é o "nirvana"? É um lugar?

Nirvana é a ausência completa e a impossibilidade de ressurgimento das aflições da indiferença, desejo e aversão.

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