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1.7. Budismo e crenças diversas

Você discorda da noção que as diferentes tradições religiosas iluminam e ajudam a entender umas às outras pelos paralelos notáveis que existem entre elas?

Discordo de toda e qualquer noção intolerante, e aparentemente procurar encaixar tradições umas nas outras é bem mais intolerante do que reconhecer a diferença e conviver com ela.

Claro que existem semelhanças, e é possível regozijar nelas. Mas reconhecer a diferença e aceitá-la é muito mais grandioso. Afinal, gostar do outro porque nos achamos parecidos é fácil, mas seguir gostando do outro na diferença, aí é que surgem as qualidades grandiosas.

Além dos ensinamentos budistas, existem outras práticas para atingir a iluminação?

Pode até haver, mas desconheço. É bom lembrar que nem todas as práticas budistas levam até a iluminação. Todos os ensinamentos que o Buda deu no nível do hinayana não levam à iluminação. E mesmo a grande maioria dos ensinamentos mahayana, por si só, não levam a iluminação, e sim são preliminares a ensinamentos que aí sim levarão a iluminação. Isto é, levam a iluminação mas de uma forma indireta — a maioria deles. Mesmo os tantras externos, eles vão levar a iluminação, mas possivelmente quando levarem aos tantras internos. E entre os tantras internos, apenas um deles representa o próprio estado iluminado atualizado, o último deles — portanto só ele leva a iluminação diretamente.

É possível atingir a iluminação com outra religiões, ou filosofias?

Primeiro é preciso examinar quais outras tradições, religiosas ou filosóficas, buscam a iluminação ou algo parecido. Para isso precisamos de uma definição mais precisa de iluminação — o que encontramos em alguns tratados budistas. Iluminação é a dissolução completa e irreversível das aflições mentais e o desenvolvimento completo das qualidades tais como compaixão e amor.

Algumas tradições hindus tem noções de liberação que guardam alguma semelhança com as budistas, outras buscam estados semelhantes a alguns considerados até mesmo obstáculos à iluminação pelos budistas. Então, se eles tem como objetivo algo que no budismo é considerado um obstáculo à iluminação, é evidente que essas tradições não vão produzir iluminação.

Também é o caso que nem mesmo todas as tradições budistas buscam a iluminação completa. Algumas buscam só a liberação, que é o mero remover das aflições mentais, sem o desenvolvimento das qualidades de um Buda.

No caso das tradições que tem como objetivo algo semelhante a certos bons resultados no budismo, ou o resultado final, daí cabe analisar se os meios para obter tais resultados são eficazes. No caso deles serem eficazes, é preciso ver se são eficientes, isto é, se são mais ou menos rápidos e poderosos.

É claro que, para alguém que está em busca da iluminação, tal tipo de comparação não só é difícil, mas improvável de ocorrer. Afinal, a pessoa, motivada por compaixão, está se engajando em prática espiritual, não em religião comparada! Então não se considera, em geral, possível, fora do nosso caminho, obter os resultados que são propostos pelo nosso caminho. A favor das outras tradições se pode dizer que, em geral, eles nem mesmo querem o mesmo resultado. E, além disso, em se tratando dos resultados menores, a maioria das tradições concorda e é, em maior ou menor grau, efetiva. Isto é, a maioria das tradições ajuda a desenvolver ética e compaixão.

Em teoria, é possível que outros métodos levem à iluminação — no entanto, daí eles facilmente também seriam chamados de "darma do Buda", já que é essa a definição do darma do Buda. Na prática, ainda não se verificou isso. O que não quer dizer que grandes praticantes e seres realizados não surjam em contextos não budistas, para ensinar as pessoas de acordo com suas capacidades — do jeito que dá naquele momento. Os bodisatvas renascem até mesmo como animais ou pessoas em situações degradadas, como em prisões e prostíbulos, porque não renasceriam em igrejas e mesquitas? Mas isso não quer dizer que os ensinamentos de outras tradições levem até o resultado final, só quer dizer que, para certas pessoas, é tudo o que se pode praticar, e esse benefício temporário, em termos de ética e compaixão, é tudo que pode ser praticado naquele momento, naquela circunstância.

O budismo crê, que com o cultivo do amor e da compaixão, independentemente se há ou não religião, todos chegarão no mesmo fim, a iluminação?

Não, os seres podem ficar indefinidamente perdidos no samsara, até eventualmente encontrarem ensinamentos que os levem a um caminho espiritual genuíno. Existem muitos caminhos espirituais falsos, e também muitos caminhos espirituais que não levam até o final. Portanto é absolutamente incerto se todos chegarão ao mesmo resultado. Mesmo se todos os seres praticassem o budismo, o que o budismo não prevê, nem todos necessariamente atingiriam a iluminação. Há caminhos budistas, genuínos, que o Buda ensinou, e que levam apenas até o nirvana, um resultado inferior que de fato pode impedir a iluminação por muitos éons. O Buda mesmo não respondia a pergunta "todos os seres um dia atingirão a iluminação?" Isso porque a concepção de muitos seres e de um atingimento é um obscurecimento que não permite uma resposta dentro do escopo da sabedoria.

Ademais, o cultivo de amor e compaixão sem sabedoria, por si só só produzem renascimentos mais felizes, e não um caminho espiritual.

Um professor budista pode orientar um aluno não budista?

Claro. Prática de shamata, por exemplo, não requer compromisso com a tradição budista.

"Criar intimidade com a própria lucidez" significa fazer apenas práticas budistas, como recitar sutras, meditações e compaixão? E quando a pessoa não é budista e nem sequer sabe o que é, como ela pode buscar essa intimidade?

Sim, criar essa intimidade é fazer a prática. Fora do budismo há práticas religiosas benéficas. Se elas se equivalem aos seis tipos de tantra, ou as práticas mahayana, ou hinayana, é difícil dizer. Possivelmente a maioria das práticas budistas são comuns a uma ou outra tradição, embora seja extremamente raro encontrar linhagens ininterruptas em tradições ocidentais, por exemplo.

Com certeza a maioria dos praticantes hindus de hoje em dia partilham os métodos dos tantras externos com o vajrayana (budista). Já os métodos dos tantras internos, mais sofisticados, é bastante difícil avaliar, mesmo dentro das diversas formas de vajrayana, se todos estão presentes em todas as escolas. Em geral, todas as formas tibetanas têm alguma forma de tantra não dual. As diferenças e semelhanças são tópico de constante e acirrado debate ao longo dos séculos. Em geral se assume que, o que você consegue praticar, está ok.

Um problema comum é a mera incoerência da mistura de métodos e a ausência de um professor qualificado, de uma linhagem pura e sem quebras. Assim a maioria das pessoas segue sem tradição, por vontade própria ou falta de mérito de encontrar uma linhagem. Esses esforços aleatórios algumas vezes produzem algum benefício, outras vezes se tornam apenas mais obstáculos a espiritualidade. No que Trungpa Rinpoche chamava de "supermercado espiritual" que encontramos no ocidente, as pessoas olham para a espiritualidade como que comparando produtos — "todo sabão limpa minha roupa, mas o sabão x tem o alvejante y, e é só 50 centavos mais caro..." Esse tipo de atitude é completamente equivocada.

Ao reconhecer a raridade de encontrar um professor qualificado de linhagem pura e sem quebras, e a possibilidade de praticar um caminho coerente, não aleatório, e que foi infalível para centenas de pessoas ao longo dos séculos, a pessoa deveria se focar nisso como prioridade perante qualquer outra coisa. Se ela não tem esse mérito, qualquer esforço na direção da virtude vale. Porém, se estamos falando de buscar intimidade com a lucidez, esses são métodos bastante raros, mesmo dentro do budismo — que dirá fora dele.

Sem uma estrutura religiosa, a pessoa precisa de, pelo menos, um guru — e um guru que ensine um método desvinculado da tradição. Eles são raros, mas existem.

Quais seriam os resultados que se espera encontrar com o experimento budista? Não são resultados que se espera encontrar em outras tradições religiosas?

A diminuição das aflições mentais, a intensificação de certas qualidades, tais como a compaixão e o contentamento.

Se tais resultados podem ser encontrados em outras tradições? Bom, pouquíssimas tradições sequer possuem a noção de treinamento da mente, e a possibilidade de fazer experimentos. Essa é uma quase exclusividade do budismo, por si só. Não que o budismo esteja livre de propaganda — mas a maioria das tradições é só propaganda (e, como disse antes, não que o "produto" em si não tenha seus benefícios) — mas você não é encorajado sequer a experimentar, e sim a meramente aceitar. Por exemplo, o experimento do cristianismo seria o quê? Acreditar em Jesus até que eu seja salvo? Não é algo que eu possa fazer no transcorrer de algumas horas, um dia ou alguns anos — como no caso de muitos experimentos budistas...

Nas tradições onde eventualmente haja 1) treinamento da mente; 2) experimentos com o treinamento da mente, daí, possivelmente, como no budismo, haja benefícios similares. Porém, a vida é demasiado curta para ficar experimentando de tudo, é preciso ter certa coerência, que se traduz como consistência. Portanto não há tempo para comprovar várias tradições — com base em experiência de seus próprios métodos. É possível ter uma posição com relação a certas afirmações de outras tradições com base em experiência em uma delas e alguma inferência.

O mais importante é entender que as outras religiões, e mesmo o budismo ele mesmo, com sua infinita variedade, são como um buffet. Não se deve bater toda a comida no liquidificador, e comer aquela pasta verde — o ideal do universalismo na religião. A pessoa come o que quer, e se tem bom gosto, se não quer passar mal, não mistura muito. Um conhecedor toma o vinho certo com a refeição que vai combinar, e vice-versa. Ele faz isso para que o sabor seja mais agradável, e para que ele tenha uma experiência, em geral, mais agradável. Por puro autointeresse, ele não sai comendo tudo, ou rápido demais, ou passando doce de leite na moqueca. Se você é imaturo como uma criança, você se lambuza de porcarias. E a maioria das pessoas é assim com as tradições religiosas: uma mistura de fast food com salgadinhos e refrigerante. Mas, ao contrário da alimentação, muita gente ainda se orgulha de ser tão aberto a qualquer religião junk. E veja bem, mesmo um hamburguer saboroso — uma tradição que tenha seu valor nutricional — se for comido como junk, será junk. Então essa atitude de mixórdia religiosa só vai produzir náusea religiosa a curto prazo e problemas de saúde espiritual a longo prazo.

E, falando em uma atitude mais metodológica, mais científica, se a pessoa quer saber se é alérgica a tomate, e não confia nos grandes laboratórios (os professores, os lamas), então ela fica sem comer tomate por um tempo e vê se se sente melhor. Depois ela experimenta um pedacinho de tomate, e vê se há algum sintoma. E, com o tempo, e comprovando o laboratório por si própria, ela pode começar a confiar nos outros resultados do laboratório.

Sendo o budismo um método, é possível uma pessoa ser budista e judia, por exemplo?

Etnicamente judia, claro. Praticante do judaísmo, bom, daí há métodos budistas que ela pode usar, outros vão requerer que ela tome refúgio, e portanto ela não pode ter refúgio em Deus e no Buda... isso do ponto de vista de ambas as religiões. Agora, as pessoas não compreendem bem nem a religião cultural-familiar em que estão inseridas, muito menos uma religião tão diversificada, profunda e pouco conhecida como o budismo. Então provavelmente muitas pessoas que afirmam coisas assim estão equivocadas quanto a sua própria religião e quanto ao budismo, a não ser que, no caso do budismo, elas se restrinjam aos métodos chamados "externos".

Sendo o budismo não deísta, como ele se relaciona com as religiões monoteístas e politeístas?

Se a tradição se esforça na virtude, ela é respeitada pelo budismo. A virtude é o que evita o sofrimento dos seres e traz algum tipo de benefício. A grande maioria das tradições, segundo o budismo, é mais benéfica do que maléfica.

Já que não há a figura de uma divindade, os budistas são, tecnicamente, ateus?

Algumas vezes as pessoas usam a palavra "ateu" para designar quem não acredita em nada espiritual. Nesse caso, os budistas não são ateus. Se por ateu a pessoa quiser dizer "não acredita num criador", então sim, os budistas são ateus.

Para o budismo, Deus existe ou poderia existir?

Um criador, ou um ser onipotente, ou um ser que possua um eu, ou que seja inerentemente existente (exista por si só, independentemente), ou que possua simultaneamente algum grau de separação e transcendência, não é possível do ponto de vista do budismo. Se o Deus postulado possuir qualquer uma dessas características, ele não só não existe como um fato, ele não existe sequer como uma possibilidade.

Outras formas de postular um Deus que não envolvam criação, onipotência ou separação (pelo menos uma das três já exclui possibilidade) são possibilidades segundo o budismo. Seres de compaixão e sabedoria plena, por exemplo, são tanto possíveis como considerados efetivamente existentes segundo o budismo.

Existe alguma vertente do Budismo que aceite pelo menos a possibilidade de um Deus criador?

Não. O mais próximo são os pudgala, que acreditam na existência de um "eu" — mas eles não existem mais há milênios. Porém eles são um argumento comum para dizer que acreditar na inexistência de um "eu" não é uma característica essencial do budismo.

Agora, o que você vai encontrar são mestres muito políticos que não vão dizer muito claramente que a doutrina budista não pode aceitar um criador. Mas com certeza eles não vão dizer claramente o oposto. É só para não criar atrito — em algumas circunstâncias é bom.

Sua Santidade o Dalai Lama disse que se uma senhora idosa que pratica a virtude porque acredita num criador vier e perguntar algo sobre isso, você não deve tentar dissuadi-la de sua crença. As únicas pessoas a que é lícito tentar dissuadir são pessoas que 1) não atrelam sua prática de virtude a essa crença; 2) estão abertas ao debate racional; se essas duas coisas não estão presentes é desvirtude debater isso, e talvez seja até desvirtude falar no assunto ou deixar tão clara a posição budista. O budismo está muito mais preocupado com o benefício dos seres do que com conclusões a respeito de coisas, com discurso.

Aliás, essa é uma diferença essencial entre o budismo e a filosofia, pelo menos uma vastíssima porção de filosofia. O efetivo benefício dos seres é muito mais importante do que qualquer coisa que possa ser dita.

"A tradição budista não chega a negar a existência de um criador, mas também não está interessada em saber quem criou o universo." Edward Conze. Essa afirmação está correta?

Não, a inexistência de um criador é conclusão da inexistência de um eu e da inexistência de uma essência dos fenômenos, ensinamentos presentes no hinayana e no mahayana.

Conze é uma figura interessante. O volume de traduções dele é impressionante. Ele também, além de erudito, tentou praticar o budismo, o que, para sua época, foi realmente fantástico. Ainda levará um tempo para avaliar suas traduções à luz de traduções feitas com a colaboração de professores budistas com realização espiritual.

O Buda afirma conclusivamente em algum lugar que não existe Deus criador ou é apenas algo que se consolidou nos ensinamentos dos intérpretes posteriores da doutrina?

Nos textos mais antigos já está escrito que não há um "eu", isso é um pouco mais radical, e inclui tudo isso.

Mas especificamente há uma refutação de um criador pelo próprio Buda já no Cânone Páli (considerados os mais antigos registros dos ensinamentos budistas), no Patika Sutta (2.14-17 do Digha-Nikaya).

Se existem verdades absolutas como o amor e a compaixão, isso não implica na existência de um ser que seja a manifestação máxima de tais virtudes?

Em primeiro lugar, não se deveria talvez ver essas qualidades como "verdades". Nem absolutas. Depois, existem seres que são a manifestação máxima dessas qualidades: os budas e bodisatvas. Eles são vazios, impermanentes e ilusórios, como todos os outros fenômenos. Eles também diferem da noção de um criador (que o budismo não aceita) — já que eles não são responsáveis pelos surgimentos.

Se não há um criador, então não houve um principio? Como as coisas existem? ou sempre existiram?

O modo de existência ou surgimento das coisas é irrelevante, o que conta é que estamos num estado de insatisfatoriedade e precisamos de métodos para revelar o estado natural, livre de insatisfatoriedade. O Buda dizia que fazer perguntas assim é como estar com uma flecha enfiada no olho se perguntando "de onde ela veio, que cor tem a flecha" em vez de buscar um cirurgião.

Por que no Budismo não se fala em Deus, ou qualquer conceito de um ser superior? Será que a existência de uma entidade assim desqualifica os ensinamentos budistas? Não é possível ser teísta e budista?

Você tem seres superiores no budismo. Basicamente, qualquer ser que tenha mais compaixão que você, é superior a você. Seres de compaixão e sabedoria supremas, chamamos de Budas.

Mas não pode haver um criador. A noção de criador não é apenas incompatível com o budismo, é incompatível com a lógica e a realidade, e por isso o budismo não a aceita. Em outras palavras, não é uma questão de crença, mas de conhecimento estabelecido através do raciocínio e da experiência. Portanto você é encorajado pelo budismo a descobrir isso por si próprio, sem ter medo de, por outro lado, já de cara dizer que é assim.

Li que o aspecto "deus pessoal" aparece no Amidismo japonês, o culto mahayana do Buda Amitaba. Poderia dizer alguma coisa sobre isso?

Amitaba é um Buda pelo qual se tem devoção, mas não é um criador, nem é onipotente. Pela noção de ausência de eu, no Japão se desenvolveu a noção de "a força do outro", em contraposição ao zen, em que a pessoa se ilumina pela "força própria".

Mas um Buda não é um deus, nem mesmo Amitaba.

Os materialistas acreditam num mundo desgovernado onde o mal pode não ser punido. O Budismo parece ter implícita a noção de justiça (más ações são punidas e virtuosas recompensadas). De onde essa Justiça na natureza das coisas pode vir se não de Deus?
Não é justiça. É apenas o fato de que os seres não são efetivamente separados. É a nossa ignorância que produz a noção de que há alguém lá fora. Prejudicar a outro é exatamente como a mão esquerda colocar fogo na mão direita — só pode demorar mais um pouco para o efeito ser percebido, mas é exatamente a mesma coisa. Então não há necessidade alguma de um "governo" ou "consciência" centrais para resolver "questões" de ética. A ética vem do próprio tecido do sofrimento ou da ausência de sofrimento, e enfim, o sofrimento é causado por uma visão distorcida, ignorância.

A relação entre causa e efeito é uma aparência que depende dessa separatividade. Eu causo dor lá, se passa um tempo, dói aqui. Com sabedoria, causar dor lá e aqui sempre foram a mesma coisa. A localidade e a temporalidade são projeções da nossa mente deludida. O carma, no budismo, é exatamente como quando uma pessoa esconde o chocolate de outra e então ela mesma esquece onde está o chocolate. Nós estamos pregando uma peça em nós mesmos ao ver o outro como separado.

Isto é uma ótima notícia: para sermos éticos basta uma noção não religiosa de que o outro é importante para sua própria felicidade. Quando precisamos de religião para sermos éticos — precisamos de obediência, leis, e assim por diante — isso é apenas um sinal de que ainda somos crianças em certo sentido. Algumas vezes no budismo se diz que ética e realidade são a mesma coisa. Agir em desacordo com a realidade é o que produz sofrimento.

Qual a relação entre o hinduísmo e o budismo?

As relações são vastas e complexas — e as duas tradições são muito mais vastas, cada uma delas, que nós em geral conseguimos compreender. Só em volumes de textos e diversidades internas, cada uma delas pode nos surpreender por vidas a fio.

O budismo utiliza muitos conceitos e palavras vindos do hinduísmo, como o próprio termo "darma". E formas de hinduísmo, em debate com budistas no período clássico indiano, mudaram em vários aspectos. Então existe uma grande inter-relação entre as duas tradições.

A diferença central é que o budismo não é teísta, e o hinduísmo é. Algumas formas de budismo acreditam num "eu", e algumas formas de hinduísmo, como a maior parte do budismo, chega a negar o "eu" — então nem mesmo isso é um critério.

Essas formas de budismo que acreditam num "eu" que você menciona também são não teístas?

Sim, e eles não existem mais. Eram os pudgalavadins. Eles são só um exemplo histórico que serve para indicar que a inexistência de um eu não é um critério definitivo para distinguir entre o que é budismo e não é.

Na sua visão do Budismo é errado considerar o Buda como um avatar de Vishnu?

Na visão do budismo isso é um equívoco sim. Essa é a visão hindu do Buda, que transforma o Buda num deus com existência inerente. Mas é algo a se dizer da nação hindu que eles incorporem o objeto de refúgio da outra religião como um deus do seu panteão. O budismo fez isso também com inúmeras deidades hindus, que agora foram convertidas e trabalham para o senhor Buda, inclusive Vishnu, Brahma e Shiva. Um dia, seguindo o caminho do Buda, eventualmente eles também vão se iluminar. Podemos escolher ver esse amálgama como sectarismo na forma de "fagocitose" da crença do outro, ou como uma forma de respeito pela crença alheia. Possivelmente há algo de respeitoso e algo de condescendente e imperialista em ambas as atitudes.

Por que o Buda é chamado baghavati, "senhor dos mundos", se ele não é onipotente? Esse não é um título também de Krishna, que seria onipotente?

Bhagavati é abençoado, senhor dos mundos é outra coisa, que não significa que ele é onipotente, mas que ele está com os seres em todos os mundos, para ajudá-los.

Também, como o ensinamento do Buda é superior a todas as outras expressões de ensinamentos, é chamado de "o rugido do leão" — porque produz liberação. A força do Buda não está em subjugar seres, mas as aflições mentais — dele mesmo. Através do ensinamento do Buda, o rugido de leão proclamado por ele, os seres podem, se se aplicarem, fazer o mesmo. Em outras palavras, ele é o exemplo final de todos os mundos possíveis.

Não há nenhum tipo de onipotência no budismo. A onipotência gera uma série de contradições nas doutrinas teístas. No budismo com certeza, em nenhuma forma de budismo, o Buda tem poder independente sobre os outros seres. Para ajudar, até mesmo o Buda depende do mérito do outro. Se ele tivesse esse poder, ninguém sofreria. Um ser infinitamente benevolente e infinitamente poderoso não permitiria a existência do sofrimento. Como o Buda não é nem criador, nem onipotente, no budismo não precisamos lidar com invenções como o livre-arbítrio, nem caímos no problema de ter que explicar porque o mal (sofrimento, no caso do budismo) existe.

Os hindus que possuem a prática de shamata são teístas ou não teístas?

Não há hindu não teísta. É uma pena que eles não tenham a prática de vipassana, nesse caso poderiam reconhecer que... não é bem assim. E eles chegam a muitas das mesmas conclusões que o budismo sobre assuntos pouco importantes, como renascimento.

Mas de fato, hindus sofisticados podem fazer o nosso não teísmo soar teísta, com os que, por exemplo, Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche tanto elogia.

Olhando de um viés histórico, quando os muçulmanos destruiram a universidade de Nalanda os desenvolvimentos do hinduísmo ainda não tinham incorporado as últimas sofisticações do debate com os budistas — em alguns séculos eles fariam isso. (É claro que o oposto também vale, isto é, os budistas se desenvolveram muito no debate com os hindus, até os muçulmanos acabarem com a festa usando um argumento... de força.)

Há um artigo de Alan Wallace O Budismo é Realmente Não teísta o não teísmo budista é comparado com várias tradições, inclusive o vedanta e as teologias "hereges" de certos cristãos (Eriugena e Eckhart me vem à mente) — as semelhanças são colocadas, e enfim, a diferença é novamente afirmada.

A boa notícia é que a prática de shamata pode servir a qualquer um, com ou sem crença religiosa. De fato, até para cometer desvirtude, ou ações mundanas, ela é boa. Uma pessoa com boa prática de shamata é até mesmo um melhor atirador de elite, um melhor ladrão de bancos. Ou joga videogames melhor. Onde quer que ela coloque a mente, ali ela vai ter mais clareza e estabilidade. Agora, você gastar um número grande de horas para dominar atividades mundanas, e não algo como a prática de vipassana, é não ter mérito, é não saber dar prioridades adequadas a um tempo de vida que deve ser considerado curto.

Uma das comprovações (e aqui não é indicação) mais extraordinárias da neurologia e psicologia modernas é que a prática de shamata aumenta a capacidade de empatia. Um resultado bem menos interessante, mas também relevante, é a neuroplastia. Hoje estão sendo realizados experimentos longitudinais e mais rigorosos, com meditadores iniciantes em retiros longos — nos anos que virão mais detalhes surgirão com relação a evidências científicas ligadas a esta prática.

A questão da empatia foi demonstrada ao dar relances de fotos com expressões faciais para meditadores e não meditadores, e os meditadores foram capazes de reconhecer o estado mental muito mais frequentemente do que os não meditadores.

E de fato, a prática de shamata no contexto do budismo, vem vinculada a outras pequenas práticas formais, que garantem a coerência de shamata com o todo do ensinamento budista. A prática da tomada de refúgio com prostrações, por exemplo — e, essencial, o desenvolvimento de bodicita.

Também é possível atingir o resultado do budismo sem sequer praticar shamata — isso é algo que depende da constituição e do mérito de cada um.

Então, é preciso perceber que a prática de shamata, por si só, não nos torna capazes de reconhecer a realidade, e que portanto os hindus podem estar enganados quanto a deus mesmo sendo praticantes perfeitos de shamata.

Você sabe se há descrições/ensinamentos sobre vacuidade e luminosidade em outras tradições além do budismo? Em alguma forma de hinduísmo, talvez?

Mesmo no budismo há diversos níveis de ensinamentos sobre a vacuidade — sendo que apenas o mais elevado, a prasangika, é a correta forma de apresentá-los: os outros são usados como expedientes didáticos para quem não é capaz de captar o ensinamento prasangika.

Então em algumas tradições advaita hindus, a coisa chega bastante perto. Eles chegam a ser bons oponentes para a cittamatra buddhista, mas ao que parece nem tocam no solo da prasangika.

No budismo não existe nenhum análogo do conceito hindu de "lila"?

O tantra budista em nada fica atrás em termos de metáforas com relação ao tantra hindu. A única diferença essencial é a não existência do eu, e portanto a não existência de um deus eterno, criador, imanente, ou superpoderoso.

No vajrayana o praticante está em constante envolvimento lúdico com as circunstâncias. As deidades iradas apresentam 9 modos de dança — que são "humores" que o praticante revela simultaneamente ao manter o orgulho equânime de uma deidade. Dorje Drolod cavalga uma tigresa prenhe, por exemplo. O animal mais instável, segundo Trungpa Rinpoche, que pode te amamentar ou devorar — este é o praticante lidando com as aparências, removendo obstáculos, e assim por diante. Mas não é algo que ocorre lá fora ou que alguém fez para nós, ou no que estamos simplesmente imersos, o de que fazemos parte. Por isso não é pandeísmo, porque não é nenhuma forma de teísmo. Ainda assim, em termos de metáforas de dança, passatempo, brincadeira — elas todas ocasionalmente surgem no contexto da união de sabedoria e compaixão.

A sílaba OM tem algum papel no Budismo?

Sim, OM AH HUNG são as sílabas correspondentes as mandalas de corpo, fala e mente dos Budas, respectivamente. Algumas vezes são chamados de "os três segredos", já que nossas próprias mandalas de corpo, fala e mente são inseparáveis às dos Budas, e não reconhecemos isso. Também chamados de "os três vajras".

No hinduísmo, o mantra OM é um mantra que emana o som do universo e é equivalente às deidades mais transcendentes. E no budismo? O mantra OM parece apontar para o reino dos deuses, os quais têm suas imperfeições. As divindades hinduístas estariam no reino dos deuses do budismo?

Sim, os deuses hindus em geral são tidos como deuses mundanos pelo budismo, ou seja, sujeitos à impermanência, ausência de existência intrínseca (separada, verdadeira, essencial, independente), e cheios de sofrimento (dukkha — a própria falsa felicidade desses reinos é sofrimento).

Mantra no budismo e no hinduísmo possuem conotações extremamente diversas. Embora se encontrem no nível popular e devocional (extremamente importante), ou seja, para o povo é o mesmo que "rezar forte" e pedir ajuda. Já no seu uso em termos de mudra e samadhi (mudra, mantra e samadhi, corpo, fala e mente), daí existem muitas diferenças. Em algumas escolas do hinduísmo, esse som OM é a própria divindade, e é eterno. É o "som" da realidade. A primeira refutação que se aprende em lógica budista é justamente, por causa disso talvez, a da permanência do som! Isso parece meio bobo (claro, não existe som eterno), mas se liga a uma espécie de pitagorismo que cientistas até hoje algumas vezes pregam, de que há uma "fórmula" ou explicação final para as coisas. Essa é uma noção refutada pelo budismo.

Por exemplo, OM MANI PADME HUNG é o mantra mais popular no budismo indo-tibetano, e é um mantra extremamente importante, um rei dos mantras: mas não tem (seguindo os raciocínios acima) nenhuma "definitude", não é definitivo, não é um final das coisas, uma fórmula de explicação, ou algo que por si só seja mais ou menos importante que outros mantras no budismo. Neste mantra OM representa, entre possivelmente muitas outras coisas, a purificação da aflição do orgulho, ligada ao reino dos deuses. No OM AH HUNG encontrado em muitos mantras, OM é o corpo de todos os Budas (o mudra), e AH e HUNG, fala e mente respectivamente (mantra e samadhi). O corpo do Buda é, por si só, uma explicação enorme. Em geral se fala do trikaya, isto é, os três corpos, o corpo do benefício para os outros, que se divide em uma forma pura, para os de percepção pura, e uma forma impura, para nós (como o Buda histórico), e um corpo definitivo, um corpo de realidade, que é a própria ausência de existência inerente, que é o benefício do próprio Buda, a sua realização espiritual, a sua sabedoria.

OM AH HUNG também é a purificação dos três reinos: forma, não forma e desejo. Os seis reinos estão no reino do desejo, e o reino dos deuses tem essas outras duas divisões, forma e não forma. A purificação dos três reinos é o trikaya, que é a purificação dos três venenos: ignorância, apego e aversão — e que é a superação, na meditação, da fixação em não conceptualidade, clareza (nitidez, foco) e bem-aventurança — isto é, as formas mais sutis de ignorância, apego e aversão são purificadas na meditação, quando não nos fixamos nessas três experiências. OM AH HUNG contém todos esses sentidos e provavelmente muitos mais.

Que relação tem isto com a tese do atman e anatman? No hinduísmo, o atman é o "eu divino" e no budismo há o anatman, isto é não há "eu divino". Esse "eu divino" teria alguma equivalência na questão do (imperfeito) reino dos deuses?

Sim, no reino dos deuses o engano com relação ao "eu" é mais sutil e mais difícil de eliminar — há deuses sem localidade, espacialidade ou noção de tempo (embora seja uma falsa atemporalidade, já que ela acaba, quando os méritos dos deuses se acabam). Em particular a classe de deuses da não forma (esses sem localidade etc.) possuem um apego a um eu extremamente sutil — algumas tradições religiosas podem chamar esse estado de moksha, liberação, mas no budismo ele é uma forma profunda de ignorância.

Porém, há que se relativizar: que hinduísmo? O hinduísmo entrou em debate com o budismo e se desenvolveu muito — ao ponto de alguns professores budistas dizerem que certos adversários hindus eram mais sofisticados do que determinados adversários budistas. O advaita vedanta em particular é muito elogiado — e o nível de debate entre advaita vedanta e prasangika madhyamaka com certeza fica fora das possibilidades de curiosos como nós.

As 22 categorias de devas são herdadas do hinduísmo ou é algo próprio da doutrina budista?

Não tenho certeza, mas o que tenho certeza é que os hindus (pelo menos os "duais") tomam como realização espiritual última uma das três categorias de deuses (desejo, forma e não forma). Para o budismo todas as 22 categorias estão na existência cíclica, são insatisfatórias e impermanentes. Se essa divisão particular em 22 categorias está já presente no hinduísmo, daí não sei. Possivelmente.

Existe além do Budismo alguma outra grande religião que é não teísta?

O Jainismo.

Como os budistas veem o Jainismo que, para quem está de fora, parece muito com o Budismo?

Só sei que o jainismo já existia na época de Buda e houve debates entre as duas tradições desde aquela época. Desconheço completamente tudo sobre o Jainismo, exceto o fato de que cobrem a boca e varrem o chão para evitar matar insetos — e que alguns deles andam pelados por aí. Há budistas que andam pelados por aí e que tomam cuidados exagerados para evitar a morte de insetos, mas estes não são a maioria (nem os pelados do jainismo, creio eu).

Jesus é um Buda?

Em primeiro lugar, as religiões são incomensuráveis. Pode ser o maior elogio budista dizer que alguém é Buda, mas se o interlocutor tiver outros valores, isso pode ser insuficiente, ou até mesmo uma ofensa.

No caso de Jesus isso fica claro, porque várias tradições cristãs o consideram uno com o criador. E um Buda não é um deus, muito menos um criador. Nem mesmo uma emanação secundária de um deus ou um criador, muito menos o criador feito carne. Então, para esses cristãos, é melhor adotar uma atitude mais respeitosa do que usar a nossa melhor terminologia para explicar a terminologia deles — usamos a terminologia deles, nos colocamos no lugar deles, e ajudamos eles a serem bons cristãos, se isso for possível. Alguns cristãos tem uma perspectiva quase hindu, até mesmo de vários messias, como avatares de uma deidade única — nesse caso aí cabe as mesmas semelhanças e restrições que ocorrem com boa parte do sistema hindu.

Em geral, se o debate ocorre, não ocorre em termos de queridas figuras históricas, que provavelmente foram realmente santos sob qualquer perspectiva religiosa — mas sobre pontos abstratos e interpretação dos ensinamentos.

No caso do próprio praticante budista que tem conexão com Jesus pelo seu pano de fundo cultural, nesse caso é adequado pensar em Jesus como, ao menos, um bodisatva — e também é um voto mahayana considerar os bodisatvas como Budas... nesse caso ele precisa entender tudo que Jesus disse como um meio hábil. Se ele tomar os ensinamentos de Jesus muito literalmente, nesse caso ele será um cristão, e daí será um cristão lidando com ensinamentos budistas — o que ele precisa verificar em sua própria consciência. O que ele não pode é misturar — pelo menos não enquanto ele não atinge alguma realização (o requisito no lado budista para poder lidar com os ensinamentos, mesmo os próprios ensinamentos budistas, em termos de comparação),

Sua Santidade o Dalai Lama tem em português um livro chamado O Dalai Lama fala de Jesus onde ele analisa trechos da Bíblia sob a ótica budista. É uma excelente demonstração de tolerância religiosa, boa política e vasto conhecimento.

É possível que Jesus tenha sido um Buda, e se foi, por que não aparece nas profecias budistas?

É possível, mas talvez ele não tenha sido. Talvez a ausência de profecias seja um indício de que ele não era. Em geral os professores budistas o consideram ao menos um bodisatva.

O Dalai Lama aparentemente disse que entendia Jesus como a manifestação de um Buda. Nesse caso, Jesus seria uma fonte de refúgio infalível?
Se Jesus foi a manifestação de um Buda, há refúgio sim. Mesmo se fosse de um bodisatva. E além disso, no vajrayana há o voto de não pensar os bodisatvas como menores que os Budas. Porém não é necessário que ele seja (mesmo que seja o entendimento de Sua Santidade), e mesmo que seja, não é necessário tomar Jesus em particular como refúgio.

Mas o fato de Sua Santidade dizer isso com certeza tem implicações para os devotos em Sua Santidade. Eu, como tomo refúgio em Sua Santidade, agora posso considerar Jesus como parte desse refúgio. Mas isso é só para quem toma Sua Santidade o Dalai Lama como refúgio, não para todos os budistas, nem mesmo para todos os praticantes do budismo tibetano.

Buda era filho de uma virgem?

Não. Embora a intimidade da rainha com o rei fosse deles, ninguém afirmou isso, muito menos o Buda. Algumas vezes um mestre da tradição dzogchen chamado Garab Dorje é dito ter nascido de uma virgem. No entanto, a pergunta implica uma comparação com Jesus Cristo, não é mesmo? E aqui eu repito, a melhor forma de tolerância é apreciar a diferença, não a comparação, ou o amálgama que destrói as belezas específicas de cada tradição, transformando tudo numa pasta disforme.

Buda em algum momento não diz "eu sou a Verdade"?

Buda nunca disse tal coisa, embora você possa encontrar traduções diversas dos ensinamentos budistas, algumas nas quais darma é traduzido como "verdade" ou mesmo "lei". Na tradução da Bíblia pro tibetano o cristão usou a palavra para "três joias" para traduzir Deus. Agora imagine a confusão.

Darma é mais bem traduzido como método, ou fenômeno, dependendo do contexto. (Darma como ensinamento, darma como "coisa", aparência, fenômeno.)

Na vida ou mitologia de Buda existe algum episódio em que ele tenha ressuscitado um morto? Do ponto de vista budista isso é possível?

Não, há uma história onde o Buda pede que uma mãe que perdeu o filho recolha um grão de ervilha de 10 casas onde ninguém tenha morrido, para que ele pudesse ressuscitar o filho dela... ela não encontra nenhuma casa onde ninguém houvesse morrido. O Buda dá esse ensinamento, que mostra como diminuir nosso próprio sofrimento através da compaixão pelos outros, e pelo reconhecimento da realidade.

Por outro lado, Yeshe Tsogyal faz exatamente isso em sua biografia, para levantar fundos para libertar um escravo (a família paga pelo ressuscitado). Virupa pára o curso do sol por três dias: qualquer coisa é possível num sonho.

No Budismo existe algum inimigo tentador invisível e ardiloso, como o demônio é no Cristianismo?

Sim, a crença equivocada no próprio eu e o autocentramento que advém disso.

No Cristianismo e outras tradições se espera para antes do fim deste mundo um Anticristo que é uma caricatura grotesca e invertida de Cristo. No Budismo se espera algum "Antibuda" ou algo do tipo?

Não. O problema pode se focar num ditador ou tirano por um tempo, mas no fundo, as aflições mentais é que são "as culpadas", então que sentido faz usar um bode expiatório?

O homem que foi o Buda uns séculos antes de Cristo, não é a encarnação de um princípio sobrenatural? Não poderia ocorrer de um outro homem ser a encarnação da negação ou antítese desse princípio?

O budismo não lida com o tecido das coisas como se houvesse um plano. Todos nós somos como o Buda, o Buda não é essencialmente diferente de nós — nós temos a mesma natureza. A diferença entre nós e o Buda é que ele revelou essa natureza, e nós ainda não.

Os seres que causam dificuldades para nós são projeções do nosso próprio carma ruim. Ninguém consegue prejudicar ninguém se não existe a fragilidade criada por ações anteriores. A responsabilidade de todo e qualquer sofrimento nosso é toda nossa, ninguém mais pode ser culpado. E nós, como disse anteriormente, não podemos sequer ser considerados culpados, porque se soubéssemos antes, não teríamos agido como agimos.

O Buda, portanto, não é a encarnação de um princípio sobrenatural, já que esse princípio é natural a todos nós. Ele é perfeitamente bom e não tem máculas essenciais, e a única coisa que produz o sofrimento são as máculas adventícias. É como um diamante sujo de lama. A lama nunca pode sujar efetivamente o diamante, embora para nós, ele não pareça brilhante nesse momento. É só lavar e ele está exatamente como novo, impecável. Nós lavamos através da prática dos métodos.

Nenhum ser "malvado" é mais do que um diamante sujo. Se ele vier a lavar esse diamante, ele não vai ser diferente do Buda em nada.

Se não há um plano, como já se sabe que virão outros Budas?

Tudo sempre pode dar errado, e não é certo que o sol nasça amanhã. Mas há uma boa chance de que ele siga pelo céu. E as profecias são interpretadas: você fica esperando que algo corresponda àquilo que foi dito, e essa expectativa é parte integral da profecia.

Como um Buda possui conhecimento sobre todos os fenômenos, ele sabe tudo nos três tempos. Ainda assim, as coisas não são como são porque foram planejadas. Uma coisa de forma alguma está ligada com a outra. Se determinação exigisse planejamento ou sequer consciência, o budismo seria teísta, não é mesmo? Mas já ficou claro que o budismo possui carma, e certo sentido de determinação, e não possui um puppet master (um fantochista, alguém que comanda os fantoches). E, ademais, o Buda sabe que toda determinação ocorre dentro do sonho, e que todo o sonho é falsidade num sentido último — inclusive os próprios ensinamentos do Buda.

Um Buda sendo onisciente, e querendo o benefício dos seres, pode anunciar uma "profecia" — essa profecia não é a descrição de algo que já está planejado "desde o início", e sim uma proclamação que tem objetivo de beneficiar: quando a fé dos praticantes se encontra com a intenção iluminada do Buda, surge uma bênção. Dizer que o Buda "causou" através de uma profecia que realiza a si própria pode fazer sentido, mas isso só ocorre na interdependência daqueles que se reconhecem na terra pura deste Buda, isto é, o veem, de fato como um Buda e como alguém que proclama profecias.

No budismo não existe a ideia de destino? E de acaso?

Nenhuma das duas. Se houvesse, não haveria possibilidade do carma.

Pode ser que o céu que Cristo descreveu para as pessoas que praticam o bem seja uma Terra Pura?

Entenda o problema: pode parecer respeitoso, e do ponto de vista do budista até talvez seria, atribuir semelhança entre o céu cristão e a terra pura. Porém, a terra pura é vazia e impermanente. Não existe noção de eternidade no budismo. E no cristianismo você só pode estar ao lado de Deus/Cristo, nunca no centro da mandala. No budismo você pratica como um bodisatva em inúmeras terras puras de Budas para então a terra pura de que você é o centro se revelar... Então comparar as duas coisas retira características essenciais de ambas. Além disso, os reinos dos deuses de muitos hindus também parecem aprazíveis, até que o budismo os aponta como perda de tempo do ponto de vista espiritual. Eles são atingidos através da prática do bem sem sabedoria: mas se tornam uma forma de aprisionamento e impedem a prática espiritual. O que é visto como resultado final de uma tradição pode ser considerado contratempo da perspectiva de outra tradição. E se incluirmos a visão muçulmana de nuvens inexauríveis de himens complacentes como recompensa a um guerreiro — aí temos bem a definição de um reino dos deuses mundanos, perda de tempo, segundo o budismo.

É claro que, no leito de morte de uma pessoa sem sofisticação, se ela disser "devo imaginar que vou para a terra pura de Jesus Cristo", misturando conceitos budistas e cristãos, essa não é a hora de dizer "não é bem assim". Você deixa a pessoa usar a fé dela do jeito que ela consegue. Mas, para quem não é paciente terminal, nem se contenta com pouca sofisticação, apontar a diferença é um exercício saudável de inter-religiosidade. Você respeita a outra tradição ao não tentar reduzí-la ao entendimento da sua. É importante respeitar as tradições religiosas como incomensuráveis, e sendo incomensuráveis, suas comparações só podem ser feitas de forma simplista, estereotipada e limitada.

Se o Budismo é verdadeiro, isto quer dizer que o Cristianismo é falso?

Seria difícil falar do cristianismo como um todo, mas, para o budismo não pode haver um criador. Se o cristianismo precisa da noção de um criador para ser considerado cristianismo, então ele precisaria ser falso na visão do budismo. O que não quer dizer que ele não possa ser benéfico e útil, como muitas visões temporárias, equivocadas em sentido último, ensinadas pelo próprio budismo.

Para o cristianismo "só quem é cristão é salvo". E para o budismo, existe este tipo de afirmação?

Talvez exista algum tipo de salvação no budismo, que seria algo como a iluminação. Mas diferentemente do cristianismo (ou de certas formas de cristianismo), não é uma entidade externa que provê ou pelo menos avalia esse salvamento. No Budismo o Buda não é a fonte da iluminação, e também não é ele que decide quem se ilumina. Isso diferencia bastante o cristianismo do budismo.

Até aí, tudo bem. Mas poderíamos dizer que o budista diria "só quem é budista se ilumina". E isso é, em parte, verdadeiro. Não é tão fácil entender o que é iluminação, mas o ensinamento do Buda é definido como "aquele ensinamento que leva ao estado de Buda", então tudo aquilo que produz iluminação, que faz um Buda, é "budismo". Mesmo que se chame outra coisa.

O budismo ao longo da história entrou em debate com as milhares de tradições hindus e outras tradições indianas, como o jainismo, e muitos desses debates estão registrados. E algumas vezes o sentido do debate é "bom, isso que você chama de liberação, iluminação, não é bem o que eu chamo pelas mesmas palavras". Boa parte desse debate interreligioso se foca sobre exatamente a finalidade dessas religiões. Então, de fato, o budismo concorda com o cristianismo que se alguém quer o resultado cristão, ela deve praticar o método cristão! O que interessa, na verdade, é o que é essa tal salvação! Se ela passa no nosso controle de qualidade ou não. Mesmo dentro do budismo, há ensinamentos do Buda que não levam à iluminação, mas que são só o que uma determinada pessoa consegue entender e praticar, então o Buda ensina aquilo, por compaixão. Ele ensina um método que não leva ao resultado final, mas a um resultado compreensível, a um resultado possível. E, de preferência, que esse resultado intermediário não se torne um obstáculo ao resultado final... e mesmo quanto a isso há debate no budismo, porque algumas escolas falam de outras escolas que a iluminação delas poderia se tornar um obstáculo à iluminação! Mas isso tudo só serve para depurar o que é esse resultado, para que o resultado almejado seja realmente o de maior benefício para a pessoa e para todos os seres.

Como o budismo tem uma relativa boa tolerância com seus próprios métodos intermediários, que são vastamente ensinados, por todas as escolas, até hoje, aí o budismo pode ter tolerância com os métodos (possivelmente) intermediários de outras tradições. Desde que o seu céu não crie obstáculos para você e para ninguém, ótimo! Pratique para chegar no seu céu! A prática da virtude, por exemplo, é em maior ou menor grau, ensinada por todas as tradições religiosas, então todas essas tradições geram grande benefício ao ensinar a virtude a seus praticantes/fiéis. Se elas geram Budas? Até alguma delas pode gerar, a gente não conhece todas, mas o importante é perceber que, em geral, o objetivo delas não é produzir Budas.

Acho que as vezes eu uso essa expressão: "as tradições religiosas são incomensuráveis", não dá para medir uma pela outra, não dá nem mesmo para entender verdadeiramente uma da perspectiva da outra. E muitas vezes nós nos focamos em comparar, ou mesmo misturar elas. Mas a tolerância não acontece com o igual — do igual nós já somos amigos. A tolerância só ocorre com o diferente, com o que não entendemos, com o que não nos deixa em nossa zona de conforto. Ver que a religião do outro é diferente é essencial para a tolerância religiosa. Ter confiança na própria religião também é fundamental, ou seja, a pessoa precisa saber que está no melhor entre todos os caminhos possíveis. Ela só não precisa impor ao outro esse seu juízo. O budismo, ao contrário do cristianismo, não é proselitista. Mesmo que nós achemos que as pessoas em geral se beneficiariam da prática budista, não existe prática budista a que alguém possa ser convertido. A pessoa só segue o caminho budista porque faz sentido, e não adianta enganar ou forçar uma outra pessoa a fazer o caminho budista ter sentido para ela. Não faz sentido isso. No cristianismo isso só faz sentido, me parece, porque acreditar em Deus e em Jesus Cristo como uma força que provê e/ou avalia o seu salvamento, e que pode tudo e está sempre ali para você, é imprescindível. Existem formas de cristianismo que quase apontam um revolver para sua cabeça "se você não acreditar, você está ferrado". No budismo, acreditar é pouco importante. Você acredita no Buda como você "acredita" num médico com boas qualificações. Você vai na farmácia e toma direitinho o que ele prescreveu — e também, se você não melhorar, o seu bom médico sempre vai também dizer "olha, num caso como esse é bom pegar uma segunda opinião". Essa diferença essencial entre o budismo e o cristianismo é que define parte da atitude, embora ambas as tradições tenham plena confiança de que são o melhor caminho para os seus próprios resultados.

Dai o que um budista faz quando vê um não budista sofrendo? Ele não necessariamente tenta converter a pessoa ao budismo — ele tenta entender a pessoa do lado da pessoa — e, se a pessoa tem, de mérito próprio, a capacidade de ver algo de valor no caminho budista, ele provê de acordo com as requisições do outro. É preciso lembrar que no budismo não é permitido nem mesmo falar do budismo sem que o outro peça, e algumas vezes, o outro tem que pedir três vezes! Existem até formas mais proselitistas de budismo, mas todas as formas de budismo tem em comum que a prática surge da pessoa, não do outro. Isso é essencialmente diferente do cristianismo, onde acreditar, às vezes, quase basta por si só.

Como um budista deve lidar com blasfêmias contra Buda?

É considerado desvirtude defender o Buda perante alguém que o critica sem interesse de diálogo. Se há interesse de diálogo, daí é possível debater. Não existe a noção de "blasfemo" no budismo. É apenas mais um objeto de compaixão como todos os demais, inclusive bodisatvas de 10º nível. Em outras palavras, seres positivos ou negativos, todos eles, são objeto de compaixão. Só quem não é objeto de compaixão são os Budas totalmente realizados — os outros seres todos, sem exceção, no sentido da compaixão, são iguais.

No Budismo existe reencarnação no sentido kardecista?

No sentido kardecista, não. Há várias diferenças, sendo que a principal é a noção de samsara, no qual as várias existências não são necessariamente um aprendizado, e não há necessariamente uma evolução. Pelo contrário, as muitas existências, em geral, são só uma vastidão de sofrimento e falta de sentido — até que o darma é praticado, e ele não é necessariamente praticado (isto é, não é uma evolução natural, mas uma deliberação de, relativamente, poucos).

A reencarnação no budismo tem alguma semelhança com o que acham os kardecistas?

Alguma semelhança existe, mas há diferenças.

Os kardecistas (no Brasil há várias formas de "espiritismo") em geral estão focados em algumas poucas vidas, e uma evolução necessária, ainda que com contratempos. No budismo já se passaram tantas vidas que todo mundo já foi mãe de todo mundo — então embora haja em certa medida essa coisa espírita de que seu filho pode ter sido o seu bisavô, a coisa em geral é muito mais vasta. Um professor viu uma pessoa atirando pedras num cachorro que atacava um caranguejo e disse "atira pedras na mãe, que devora o pai". No espiritismo, no máximo a pessoa estaciona, porque se considera que certas conquistas não são perdidas, como o renascimento humano. No budismo o renascimento humano não é muito fácil de se conquistar. É muito difícil ter confiança de que o próximo renascimento será humano.

Em geral, também, no espiritismo a crença em vidas futuras é vista como um alento — a pessoa não cessa, o "eu" não cessa, ele é só abalado pela falta de memórias. No budismo as vidas futuras são apenas mais sofrimento. O objetivo do hinayana é essencialmente eliminar as aflições mentais, exatamente porque são elas que levam a um novo nascimento, isto é, à perpetuação do sofrimento. No mahayana isso muda um pouco de figura, porque você pode renascer com a aspiração de trazer benefício. Mas mesmo no mahayana e no vajrayana se faz a diferença entre emanação e renascimento, isto é, renascimento lúcido e renascimento a que se é levado pelas aflições mentais.

Enfim, como o budismo não aceita um "eu", o que renasce não é o que a pessoa pensa que é si própria, mas o carma que ela criou. Em outras vidas esse carma produz outras noções equivocadas de um eu, outros apegos a um eu que não existe — e essa é a base do sofrimento. Através da prática de meditação, no entanto, é possível reconhecer as estruturas cármicas, algo até como um histórico delas, e assim reconstruir os outros apegos ao eu baseados nessas estruturas. Essas estruturas são individuais em certo sentido, mas boa parte delas é comum a certas experiências, como ser humano, falar uma língua, e assim por diante. Da mesma forma que o DNA, em que parte é propriamente individual, e parte é comum a espécie, à família, e assim por diante. Quanto mais fundo se vai na meditação, portanto, menos subjetiva ela é. O nosso fluxo ordinário é extremamente subjetivo até mesmo para nossa percepção ordinária, isto é, achamos isso e logo depois achamos aquilo. É mais que subjetivo, é quase aleatório. Já quando desenvolvemos estabilidade e claridade (abertura no "obturador"), os movimentos rápidos da mente ficam difusos, e as estruturas mais básicas, que formam certas características mais globais podem ser discernidas.

Agora, o objetivo da prática de meditação não é lembrar vidas passadas. A única utilidade de lembrar vidas passadas, para o budismo, é entender quão fúteis foram nossos esforços anteriores e não cometer os mesmos erros. Isto é, se focar mais urgentemente no darma, e não nas atividades em que temos nos focado vida após vida e que não nos levaram a lugar algum.

Então há diferença entre o renascimento ou reencarnação (esta palavra inclusive sendo evitada de propósito) no budismo e no kardecismo. Há diferenças cruciais como 1) ausência da noção do eu; 2) ausência de uma evolução necessária (os renascimentos são chamados de "experiência cíclica" no budismo, a pessoa sempre melhora e piora, até a iluminação, quando ela não mais renasce — no kardecismo alguém não volta mais como animal, por exemplo — certas conquistas intelectuais são também definitivas. No budismo é muito claro que toda conquista intelectual pode ser perdida nesta mesma vida, de um momento para o outro — que dirá em vidas futuras — e não é nada de especial; 3) renascer não é um conforto, não é uma continuidade do eu, pelo contrário, e na medida que é uma continuidade da ilusão do eu, é uma continuidade do sofrimento; 4) o reino humano é o que mais possui oportunidade para a prática espiritual (outros reinos mais "sutis" não são melhores); 5) não se foca em questões familiares, de algumas dezenas de vidas e de um círculo restrito de pessoas, mas no fato de que todos já foram nossa mãe, gato, cachorro e papagaio, são vidas incontáveis e temos conexão com todos os seres;

Pode haver mais alguns itens, mas não sou profundo conhecedor do kardecismo. Sei que é uma doutrina recente, basicamente brasileira na atualidade, embasada em paradigmas científicos do séc. XIX e no positivismo da época. Não há métodos para o refino dos instrumentos epistêmicos, há o cristianismo como base de fundo, e é uma doutrina teísta.

Se nós fossemos comparar o kardecismo com o hinduísmo também haveriam vários pontos a diferenciar, embora ambos acreditem na noção de um eu permanente.

Você poderia resumir as diferenças entre o kardecismo e o budismo, além das noções de renascimento/reencarnação? Alguma semelhança?

A forte influência do positivismo causa uma visão teleológica da "criação". O budismo não é teísta e não vê o samsara como uma criação senão de nossa ignorância e aflições mentais. Essa diferença valeria para o cristianismo em geral, mas no kardecismo há uma forte ênfase numa progressão espiritual, como se a criação fosse uma função de autoaperfeiçoamento (sua teleologia). Assim não há noção de insatisfatoriedade no ciclo infindável de renascimentos, e dessa forma existe até uma felicidade em "prosseguir" vida após vida num caminho de "aprendizado", desenhado pelos espíritos/deus. No budismo a prática do darma só é possível com um grande descontentamento com o ciclo de renascimentos, e todas as posições boas e ruins (cíclicas, não progressivas) que ele possui.

Talvez seja possível dizer que o espírito para o kardecista é meramente uma nova forma de matéria. Essa matéria não é suficiente, então ele precisa postular uma outra, sutil, com outras características, mas essencialmente difícil de distinguir senão por ser "mais ideal". No budismo não existe conceito de matéria. Tudo é tecido de sonho.

A noção de carma como expiações e provações é altamente problemática no budismo. Se o carma tem um intermediário, isto é, há uma maneira correta de fazer as coisas que foi desobedecida, isso é bem diferente do carma "naturalista" do budismo, onde não há um intermediário. O que não é ético é causar sofrimento aos outros, não desobedecer uma suposta teleologia da criação ou especificações criadas por seres divinos ou um deus. Dessa forma, as ações ruins causam sofrimento não com o "objetivo de ensinar", mas simplesmente porque é a natureza de sofrimento do samsara. Dessa forma, ir além do carma, ir além da ignorância que promove separação entre os seres e produz o samsara, a efetiva transcendência do carma, é um objetivo maior do que ir progredindo ao produzir mais e mais carma bom. Produzir carma bom é importante também, mas a prioridade é reconhecer a realidade, ir além do samsara, não produzir as "algemas de ouro" que o carma bom produz.

As semelhanças são às mesmas que com o cristianismo em geral: ênfase na compaixão e na ética.

Como entender, com bases budistas, a manifestação de espíritos que "baixam" para se comunicarem, tão real para os médiums no espiritismo? Seria apenas uma manifestação ilusória da mente? Teria algo a ver com o oráculo no Budismo tibetano? Como fica o fenômeno da mediunidade no budismo?

O oráculo no budismo tibetano é talvez semelhante a certas manifestações ditas mediúnicas. Outras formas de budismo não possuem "mediunidade", talvez alguma forma japonesa, mas não estou certo. O Buda nunca ensinou nada, nos seus 84.000 ensinamentos, nos sutras do tripitaka, nos sutras do mahayana, e assim por diante, sobre mediunidade.

Creio que a maioria dos casos de pessoas que ouvem vozes e se relacionam com espíritos é tratada no budismo tradicional, especialmente no Tibete, com práticas de exorcismo. Milarepa disse que todos os espíritos e demônios são causados pela mente, e isso está de acordo com a doutrina madhyamaka de que todos os seres externos são postulados pela nossa ignorância, ao conceber uma separação. Assim a psiquiatria moderna não está errada em tratar estes fenômenos como eventos mentais (só que dai eles dão o passo adicional e reduzem a mente ao cérebro, isso já não daria para aceitar).

O importante é entender que, para o budismo, essa não é uma prática espiritual. A sabedoria do lama "encarnado" é maior do que a de seres de qualquer outro reino. Em outras palavras, um ser de verdadeira compaixão renasce como um ser humano para ensinar os humanos — os seres nos reinos dos asuras e devas não são superiores em sabedoria e compaixão (e muito menos os seres nos infernos, reinos de carência ou animais sutis, tais como nagas).

Algumas vezes existem lamas que usam um médium que entra em contato com um ser sutil para receber respostas sobre questões práticas — qual a melhor rota para fugir do Tibete invadido, por exemplo. Mas nunca para questões de sabedoria e espiritualidade. Os seres com que o lama entra em contato são subalternos da sabedoria do lama. Digamos que você seja um grande filósofo escrevendo um livro, e dá um problema em seu computador. O técnico entende mais de computador do que você, mas ele não interfere no conteúdo do seu livro. Assim é o lama com o oráculo: ele só pede informações práticas, de uso mundano, nunca conselhos espirituais.

Sua Santidade o Dalai Lama em seu site oficial diz que devemos cuidar para que o budismo não se torne uma mera prática de propiciação de espíritos. De fato, entre a comunidade tibetana existe algumas vezes uma tendência, como é muito popular no Brasil, de buscar favores a espíritos. Isso não é prática do budismo. E não é uma prática espiritual: é buscar melhorar a vida com uma técnica aparentemente espiritual. Isso é bem mais comum do que mediunidade: fazer oferendas e recitar orações em busca de favores. Mas repito, não é uma prática espiritual ou budista. Se não é prioridade, pode até não ser incompatível com o budismo — mas não pode ser a ênfase.

Como funciona, até onde eu entendo, nunca recebi explicações sobre isso, é que a pessoa tem uma fisiologia sutil que pode entrar em ressonância com uma outra fisiologia sutil. Mas nenhum ensinamento que eu li ou ouvi nunca mencionaram isso. Ouvi isso de um budista num congresso kardecista a que eu fui obrigado a comparecer porque era tradutor de um dos participantes. Na sala de prática mesmo, e no contexto budista geral, fora uma cena no filme "Kun Dun" do Martin Scorsese, e perguntas de visitantes espíritas, não parece ser algo que ocorra frequentemente (quase nunca? nunca exceto para certas instituições como a do Dalai Lama?) tenha importância para a prática.

Ah, mas todas as formas de budismo não tem problemas com "seres invisíveis". Quer dizer, para todas elas, eles existem. Só que são objetos de compaixão, da mesma forma que com os seres visíveis.

Qual a explicação budista para os milagres que supostamente acontecem no catolicismo?

Muitos podem ter acontecido mesmo. Sidis são comuns em vários professores, e até mesmo em alguns falsos professores. Não são necessariamente uma grande evidência de espiritualidade, ainda que muitos milagres católicos possam ter acontecido em meio a espiritualidade honesta.

No budismo, como a realidade é feita de tecido de sonho, nós podemos ter o mérito de perceber uma falha na coerência desse sonho. E algumas vezes chamamos isso de "milagre". E quando isso se dá em conexão com um grande praticante espiritual do passado, um "santo", por exemplo, isso se dá por interdependência com a prática e realização espiritual daquele ser.

o budismo não é uma prática de muito mais autorrestrição do que o catolicismo, por exemplo?

A diferença entre a ética budista e a católica é que no budismo você pratica a virtude porque ela é naturalmente boa para você e para os outros seres, no catolicismo você pratica virtude por obediência, e porque na visão de Deus e na perspectiva divina é bom — e portanto não é tão naturalmente bom para você, é bom através da vontade de outro, no caso Deus.

Se você entender a prática de ética como uma restrição, você não estará praticando o budismo, e sim a obediência a regras, que não é a prática do budismo. A prática do budismo é o exame da mente e do que produz benefício em maior âmbito e a mais longo prazo — a partir disso se lida com os hábitos mentais que nos levam a praticar o que causa sofrimento, e adotamos hábitos que nos levem a praticar o que produz felicidade para nós mesmos e para os outros.

Uma questão que coloca a Igreja Católica em conflito com as tendências contemporâneas é a luta contra o uso de preservativos. Existe no Budismo algo que possa ser dito a favor da postura da Igreja, ou ela está errada e gerando sofrimento?

Em geral eu não vi nenhum professor budista a favor dessa posição da igreja católica. Mas, por outro lado, não vi tanta indignação quanto as vezes vejo em setores seculares.

Quando você não concorda com uma opinião religiosa, por exemplo com os ensinamentos católicos, é melhor discutir com as pessoas que acreditam ou fingir que eles tem razão?

Cada caso é um caso. Se os envolvidos estão abertos ao debate racional, o debate racional é uma boa opção. Se não há essa possibilidade, existem muitas alternativas: rezar por eles, se afastar, apenas dizer que não concorda, e assim por diante.

Budistas são idólatras?

Idolatria, no budismo, é buscar favores mundanos de uma fonte de refúgio ou favores de qualquer tipo de algo que não é uma fonte de refúgio verdadeira.

Isto, é, pedir ao Buda ou ao Papai Noel, por um novo videogame no natal, ou para resolver os problemas na sua vida sem que você tenha planos ou a motivação de usar sua vida para a prática espiritual. Basicamente, usar a espiritualidade para se dar bem no mundo, de acordo com os valores do mundo.

Algumas formas de cristianismo simplificam essa visão sofisticada (que encontra espelho no cristianismo de boa qualidade) num mero "confiar em estátuas", como se a metáfora disso, apresentada acima, não fosse muito mais verdadeira, terrível e comum do que algumas representações bonitinhas num altar. De fato, muitos dos sacerdotes de formas de cristianismo são eles mesmos ídolos, a quem se dá dinheiro para que se atinja prosperidade, e assim por diante. Afinal, ídolos de carne e osso são muito mais perigosos do que estátuas. E Deus, até onde eu saiba, não tem conta bancária — portanto aquele que se coloca no lugar de Deus para receber dinheiro no nome de Deus, e promete favores em retorno... ah, esse é danado. E muitas vezes esse é que dá o discurso contra estátuas.

As estátuas e altares são muito importantes no budismo como treinamento da mente e efetivas no despertar do praticante com a interdependência daquilo que está representado. Assim como os nomes dos Budas, as formas dos Budas representadas em estátuas são uma forma de gerar interdependência. A pessoa só precisa se posicionar com a motivação correta, que é o refúgio, e pedir ajuda ao Buda para remover seus obstáculos a realização do estado de Buda — que as felicidades temporárias não sejam colocadas como prioridade, que não há idolatria.

Os devas têm alguma relação com os anjos das tradições semíticas? Se anjos existem, eles também são objetos de compaixão?

Não creio que os conceitos possam ser facilmente comparados. Robert Thurman usou a palavra anjo para traduzir dakini, no seu Livro Tibetano dos Mortos — mas com a ressalva de que era apenas para ajudar um moribundo que ficaria confuso com uma terminologia alienígena num momento muito delicado — há muita diferença mesmo entre anjo e dakini. Deva não é sequer comparado. Deva vem da mesma raiz que a palavra "Deus", e o Deus Aristotélico, por exemplo, é muito semelhante a um dos quatro tipos de deuses da não forma, em estado profundo de ignorância e autoengano, na visão budista...

Entre os devas estão muitos deuses hindus, e sim, muitos deles são objetos de compaixão, sofrem e são impermanentes — portanto não são objetos de refúgio como os budas e bodisatvas.

Há 22 categorias de devas. 4 da não forma, 12 da forma e 6 do desejo. O reino do desejo, além desses 6 tipos de devas, inclui os asuras, humanos, animais, pretas e narakas. Quando fala-se em seis reinos, são os seis tipos de reinos do desejo, quando se fala em três reinos, são os reinos da forma, não forma e desejo. Todos eles são sujeitos as três características: insatisfatoriedade ("sofrimento", dukkha), impermanência e ausência de existência inerente (não são substanciais, são sonhos). Mesmo o estado pós-meditativo de um bodisatva do nível mais elevado, é um estado temporário e objeto de compaixão.

Não existe no budismo nada análogo ao anjo da guarda do Catolicismo?

Análogo, talvez. Com algum grau de semelhança, num sentido bem específico... mas bem diferente com relação a todo o resto, o yidam. O yidam é nossa própria lucidez, representado numa forma específica. Geralmente é a deidade que praticamos a várias vidas — nós buscamos total reconhecimento com ela.

Ela tem a ver com o anjo da guarda na exata medida que o daimon grego tem a ver com nossa inteligência de ação no mundo. Isto é, o yidam tem a ver com as qualidades que expressaremos quando iluminados, ele é a visão de nós mesmos como um ser perfeito. E em certo sentido, podemos dizer que essa visão nos protege. Mas não precisamos, e o melhor, é não vê-lo como algo externo, separado. É nós mesmos, livres dos obscurecimentos.

O que o budismo tem a dizer das práticas de certas religiões que "maltratam o corpo" como uma forma de sacrifício ou penitência em nome de um deus?

Desde que o próprio Buda se engajou nessas práticas, e disse que eram uma perda de tempo, elas são má vistas pelo budismo. Em particular no vajrayana é uma quebra de voto raiz maltratar o próprio corpo.

Os sentimentos de culpa provocados pelos dogmas equivocados das religiões não prejudicam quem os sente?

Com certeza, porém fica difícil avaliar, numa tradição vasta e alienígena, tudo que pode ser positivo e negativo dentro do que eles ensinam. Ou que tipo de ensinamentos, vinculados a outros, no fim dão uma soma positiva — e se você mexer no castelo de cartas, tudo pode ruir. É o caso da senhora idosa que pratica virtude apenas porque teme a deus, e possivelmente, sem deus, ela abandonará essa prática...

Só o que podemos fazer, enquanto no diálogo, é tentar deixar claro o que consideramos contraproducente — se e somente se não for contraproducende o próprio ato de deixar isso claro.

Há muitas pessoas que mantém ideologias que produzem sofrimento, na religião e na filosofia — na publicidade — por todo lado. Porém se não temos meios hábeis de efetivamente transformar aquelas visões, meramente se posicionar contra pode até piorar a situação. Daí que a política é a arte central da compaixão, em termos do discurso. A política parece exatamente agir, em corpo, fala e mente, de acordo com a situação e os meios hábeis, sem "forçar a tanga", sem tentar atitudes de coragem meramente fabricada.

Quando os meios hábeis se apresentam, e torna-se efetivo dizer algo, é evidente que algo deve ser dito. Como Dzongsar Khyentse Rinpoche diz, se você está com a navalha no pescoço do apego ao eu: nesse momento o hesitar é terrível. Nesse momento, a ação deve ser sem hesitação, limpa e rápida.

Qual o papel que desempenham no Budismo o perdão às injustiças e ofensas que os outros nos fazem e o arrependimento pelo mal que percebemos fazer aos outros?

Não somos ninguém para perdoar os outros. Não temos o poder de perdoar. Quem nos prejudica deve ser sempre objeto de compaixão, e portanto, não há motivo para culpar quem quer que seja em primeiro lugar. Se percebemos que ficamos com raiva, devemos é ter compaixão de nós mesmos também.

Nosso remorso é importante para que evitemos repetir erros no futuro.

Se não somos ninguém para perdoar os outros, também não faz sentido pedir perdão a quem ofendemos ou prejudicamos?

Todos os seres são objetos de compaixão. Não os tornamos automaticamente objetos de compaixão especiais apenas porque somos seus credores cármicos — eles seguem sendo objetos de compaixão. Se pudermos ajudar, independente de termos prejudicado no passado, devemos ajudar. Se for de benefício para a pessoa, se ela se sentir beneficiada, podemos "pedir perdão", se não for de benefício, não devemos.

Se uma pessoa que ofendemos for ficar ainda mais ofendida porque lhe dirigimos a palavra, ainda que para pedir perdão, então não devemos lhe dirigir a palavra. Estes atos verbais raramente possuem substância, eles dependem de nossa intenção e da receptividade do outro. Confessar perante o outro que se cometeu um erro pode ser mais inteligente, já que ele não tem o poder de "perdão" também.

Ninguém, em lugar algum, jamais é culpado. Então o que há para perdoar? Se as pessoas soubessem as consequências de suas ações prejudiciais, elas não as fariam, como alguém que não tomaria o veneno se soubesse o que está escrito no rótulo. Não existe maldade no budismo, apenas ignorância — e ignorância não se perdoa.

Agora, reconhecer erros como erros, para si mesmo e para os outros, é essencial. Sem esperar nada em troca, muito menos um perdão que já é o estado natural das coisas, e ninguém pode dar a ninguém.

Se for preciso ouvir uma confissão ou receber algo em troca de uma confissão, basta um totalmente neutro "tudo bem, tente não repetir". Se você tiver boa fé de que vai fazer bem para o ser dizer "esqueça isso, por mim é como se nunca tivesse acontecido", pode dizer algo assim. Na verdade os budistas tem um Buda específico a quem confessam (Vajrasatva), e que basicamente "responde": "está purificado", ao você se comprometer em não repetir a ação negativa. Algumas vezes podemos pensar "ele me purificou", o que é quase como um perdão, mas isso não é o mais sofisticado.

O conceito de gratidão existe no Budismo?

Contentamento com o que se tem, e regozijo com os que os outros tem, especialmente em termos de virtude, poderia ser traduzido como gratidão.

O Budismo crê que é possível se contaminar com energias negativas (ou positivas) de lugares?

Se existe uma fragilidade interna, devido ao carma, ao se encontrar condições externas de qualquer tipo — uma mera atmosfera diferente, isso pode nos influenciar bastante, negativa ou positivamente.

Da mesma forma que alguém que tomou alucinógenos fica muito entretido ou apavorado com alguém brincando com o interruptor da luz da sala, nós que tomamos o lsd da ignorância básica podemos estar sensíveis, ou não, às coisas mais banais.

Se temos o carma e encontramos a circunstância, seremos influenciados. Grandes praticantes não são muito influenciados por circunstâncias porque já purificaram muito carma e geraram muito mérito e sabedoria. Agora, usar a palavra "contaminar" é um pouco demais — nem mesmo os venenos e as aflições mentais — que muitas vezes são chamados de contaminadores, são contaminações irreversíveis. A natureza imaculada da mente está sempre presente, então o máximo que pode acontecer, em termos de contaminação — e as piores são os venenos e as aflições, que são internos, e não causados pelo exterior, por mais que possa parecer que não — é algo temporário.

De toda forma, a melhor prática é desenvolver destemor e praticar em meio a qualquer circunstância criada pelo carma e pelas condições. Em outras palavras, o melhor é não ficar preso a uma engenharia das condições externas, procurar "bons lugares" — isto não é prática espiritual.

Dizem que lugares onde ocorreram suicídios ou crimes violentos às vezes induzem pensamentos muito perturbadores. O Budismo tem alguma coisa a dizer sobre isso?

No mahayana a pessoa pode ir para um local desses fazer prática, e recitar algo como a Prajnaparamita ou o Bodhicharyavatara. No vajrayana há uma série de meios hábeis que ela pode usar.

Isso para praticantes com certa estabilidade. Locais perturbadores são importantes para intensificar a meditação, e, é claro, isso também produz benefícios para quem sofreu ali, através da interdependência. Fleet Maull, um aluno de Trungpa Rinpoche conduziu um retiro de tonglen em Auschwitz. Se a pessoa é iniciante, por outro lado, ela deve buscar locais pouco perturbadores externa e internamente — isto é, silenciosos, limpos, sem muito calor ou frio.

Quando chega a hora de intensificar a prática, então locais como mercados, hospícios, cemitérios, campos de concentração, casas assombradas, ferros-velhos, pontos de drogas e prostituição, e assim por diante, são bons locais para certos tipos de meditação — locais sujos, amedrontadores, perturbadores e barulhentos. Mas isso é para praticantes avançados.

Por experiência própria, percebi que existe um principio que age conforme nossa intenção: Algumas coisas boas ou ruins que penso se manifestam. Também posso ver ou sentir algumas coisas que ainda vão acontecer. Como o budismo explica?

No caso da primeira coisa (pensamento mágico), é totalmente autoengano. No caso da segunda afirmação (clarividência), é muito possível que seja autoengano (ainda mais se vemos que ela veio junta com a primeira afirmação, que é totalmente absurda) — mas existem alguns casos raros em que a pessoa desenvolve mesmo essa faculdade. Isso não é importante, de todo modo. Muitas pessoas sem nenhuma qualidade espiritual podem ter clarividência — e os deuses e semideuses com certeza a têm — mas isso só os leva a mais sofrimento. O que importa é desenvolver qualidades espirituais tais como a compaixão.

O que se quer dizer quando se diz que a mente é a "joia dos desejos". Isso quer dizer que podemos realizar desejos através da nossa mente?

Essa expressão surge porque todos os fenômenos surgem coemergentes com o observador. Então a mente é melhor do que a mítica joia que realiza desejos, ela é mais flexível e capaz de maior transformação ainda. Com ela é possível ser compassivo, por exemplo. A mente compassiva é ainda melhor que a joia que realiza desejos. Isso tem um pouco esse sentido, de fazer uma analogia com a melhor coisa que um hindu antigo poderia imaginar, e dizer "olha, você treinar a sua mente e desenvolver qualidades, em particular a compaixão, é ainda melhor do que ..." Hoje o que se usaria? Um iPad? Uma BMW? Uma coisa que é melhor que todas essas coisas, uma varinha de condão, a pedra filosofal etc. Mas isso não quer dizer que a mente opere de acordo com nosso desejo e produza coisas, e sim que a realidade é inseparável da mente, e reconhecer as qualidades inatas da mente é sinônimo de viver no melhor dos mundos possíveis. Por outro lado, tudo que nos é agradável ou que nos fascina, é agradável e nos fascina por causa da mente — então ela é a fonte de tudo que nos liberta e aprisiona, e reconhecer sua verdadeira natureza é descortinar a liberdade básica que subjaz a nossas fixações temporárias.

Existe uma alquimia budista?

Algumas vezes os tradutores usam essa palavra para designar certos aspectos do vajrayana. Não sei se eles estão corretos, ou mesmo se a palavra em português é usada em algum sentido inequívoco em algum lugar respeitado, dentro ou fora do contexto do darma. Não posso saber o que você está querendo dizer por essa palavra: só o que conheço da palavra "alquimia" são umas ilustrações bizarras e mumbo jumbo de cunho junguiano. Uma coisa é certa: essa coisa multi comparativa e de analogias desenfreadas, comum em certos segmentos místicos, não é muito encorajada por professores budistas.

Consta na biografia secreta de Nagarjuna que ele transformou uma montanha inteira em cobre e depois em ouro. Isso não trouxe benefício nenhum aos seres, então Avalokiteshvara precisou intervir e mandar ele parar com essa bobagem.

Em diversas tradições o nome de um ser tem uma ligação secreta com a essência desse ser. Existe algo do tipo no Budismo, de nomes serem muito importantes?

Há uma interdependência entre o nome e o objeto nomeado, portanto uma forma de gerar interdependência com o objeto, é através do nome. Buda, por exemplo, que significa "acordado", "lúcido".

Fórmulas escritas têm algum poder mágico no Budismo?

Depende do que a pessoa entende por mágico. Há interdependência entre mantras, o Buda e o recitador, por exemplo. Isso não é mágica.

Mas, olhando de fora, sem compreensão do que está sendo feito, um observador leigo pode interpretar mantras como encantações ou "spells".

Oráculos como o I Ching chinês, o Urim-Tumim hebraico ou análogos de outras culturas desempenham algum papel ou podem ter alguma utilidade no Budismo?

Pessoas que praticam o budismo não são impedidas de utilizá-los. Mipam Rinpoche, por outro lado, previa o futuro ouvindo a conversa de um grupo de mulheres. Outro mestre via o futuro no brilho do reflexo de sua unha. Então, a variedade é imensa. Todo fenômeno inclui todos os outros, então o meio hábil de sistemas de adivinhação é para seres relativamente comuns, não é uma característica propriamente budista, mas é bem comum.

Por outro lado, entre os seres presos no samsara, os deuses ou devas possuem uma capacidade limitada de ver o futuro, o que só aumenta seu sofrimento, porque acabam vendo que seus futuros renascimentos vão ser cheios de dificuldades — do "topo" do samsara eles só podem cair para os reinos inferiores, quando seu bom carma se esgota e a impermanência se interpõe. Então, dessa forma, adivinhação pode ser um meio hábil, mas também pode ser uma forma de aumentar o sofrimento.

Existe algum papel da astrologia no Budismo? É sabida ou especulada uma data exata em que o Buda nasceu?

Não sei da data do Buda. Os sistemas astrológicos budistas pertencem as culturas em que o budismo se desenvolveu. São elementos culturais, e não budistas — embora é fato de que muitos budistas tradicionais se utilizem deles como meios hábeis.

O Budismo é compatível com algum tipo de prática mágica?

Os meios hábeis são infindáveis. Por exemplo, se não adianta tentar convencer alguém que se acredita possuído por um demônio de que demônios são projeções da mente, então a atividade compassiva a fazer é um exorcismo.

Para os bodisatvas elevados, toda a atividade compassiva é um ilusionismo, porque eles estão agindo em meio ao sonho dos outros, enquanto eles mesmos não se enganam e permanecem lúcidos. Nesse sentido toda a atividade dos Budas e Bodisatvas é uma brincadeira com a ilusão, e portanto, um passe de mágica.

Como o budismo lida com as ciências ocultas da mente?

Creio que não exista esse conceito no budismo. A mente, no budismo, é como um diamante, que pode, e normalmente está, sujo. Porém, não há nada de verdadeiramente oculto, nem no diamante, nem na sujeira.

Quanto a feitiçaria, magia, adivinhação, essas coisas... bom, daí podem ser meios hábeis para ajudar os seres — mas não são propriamente coisas do escopo do budismo.

Os budistas acreditam em bruxaria?

Algumas vezes se usa essa palavra para descrever pessoas que tem poderes mágicos, e os usam por motivações egoístas ou aleatórias. Milarepa, o maior santo tibetano, por exemplo, aprendeu a produzir tempestades de granizo para se vingar de um tio. Ele assim fez desabar um prédio, matou 30 pessoas, além de ovelhas e iaques, e destruiu plantações. Depois ele se arrependeu e praticou o darma com muito esforço até a iluminação, naquela mesma vida.

Já outras formas de budismo não mencionam nada desse tipo. É algo cultural dos tibetanos, e talvez algumas outras culturas budistas. É totalmente possível praticar o budismo sem acreditar nessas coisas. E acho que, a não ser que você esteja sendo atacado por um bruxo ou bruxa, ou o seu próprio lama seja obcecado com isso, e assim isso acabe tendo relevância para sua vida, é até mesmo melhor não acreditar, e nem mesmo refletir muito sobre o assunto. É o que eu mesmo faço.

O Budismo diz alguma coisa sobre vampiros?

Não que eu saiba. Os tibetanos em geral algumas vezes acreditam em pés-grandes, garudas, dragões, nagas e uma série de seres mitológicos. Os nagas até podem ser considerados uma crença panbudista, mas em geral cada lugar tem os seus mitos, incorporados ou não a certos contextos de ensinamento.

No Budismo há alguma coisa sobre "almas gêmeas"?

Interdependência, só que as vezes, parece positiva e é negativa... então ocorrem muitos enganos.

No Budismo existe a ideia de realidades alternativas, comum na ficção científica?
Não é a mesma coisa que na ficção científica, porque "loka", mundo, não é reificado. Isto é, não é o que existe, mas o que parece. Por isso o uso frequente da palavra "sonho". É importante não reificar as aparências, tratá-las como se fossem coisas sólidas e duradouras.

No Lankavatara Sutra Buda diz "as coisas não são o que parecem, nem são qualquer outra coisa". Por isso o ensinamento budista da interdependência também é chamado de "vacuidade". Isso não quer dizer que "nada existe", mas que não existe algo independente. Para haver "realidade" como algo que alguém pode observar, separado, precisaria haver algo independente — talvez muitas coisas independentes. Nada, em lugar algum, é independente, segundo o budismo, daí que as coisas sejam vazias de si mesmas, mas "cheias" de todas as outras coisas, também vazias de si mesmas, mas cheias de todas as outras coisas, e assim por diante.

O budismo tibetano tem algo a ver com o reino secreto de Agartha?

Não, embora os conceitos nova era se apropriem do budismo, essa apropriação não é sustentada pelos praticantes budistas.

Porém, há de se dizer que em regiões montanhosas, em épocas sem GPS, vales e pequenas comunidades podiam ficar muito isolados — era o caso do Tibete inteiro, um país enorme, até a invasão chinesa em 1959 visto por apenas algumas centenas de estrangeiros. E foi o caso do Butão até, incrivelmente, a década de 90. Algumas vezes essas comunidades são oásis, particularmente para refugiados políticos. Então existe um sentido bem pragmático para certas ideias de terra pura — embora os ensinamentos estejam focados nos sentidos interno e secreto, que estão ligados ao tecido de sonho e não à geografia.

Essas ideias de terra oca eu achava bobas mesmo quando apareciam nas histórias do Tio Patinhas. Acho que ninguém em sã consciência acredita nisso desde a década de 10. 1910.

Qual é a posição do budismo acerca da possibilidade de existir vida em outros planetas?

Se eles fossem inteligentes, então eles também precisariam do darma. Se eles não fossem, então seriam como os outros objetos de compaixão — e já há tantos invisíveis, sutis, coexistindo em número inconcebível a cada 10 centímetros de espaço — , que mesmo pensar quinze ou vinte bilhões de anos-luz cheios deles não mudaria significativamente o escopo da compaixão.

Então um budista pode facilmente, com relação a isto, seguir a opinião vigente da ciência, e mesmo que porventura ela mude bastante com o passar do tempo, não muda muito o que importa: a prática de compaixão.

O mundo que pode ser explorado com instrumentos é apenas uma fração ínfima das projeções possíveis com que a mente ignorante pode se enganar.

A regressão a vidas passadas através de processo terapêutico (por relaxamento profundo induzido ou hipnose) oferece algo de particularmente benéfico ou danoso à prática?

Não é um método testado pelos budistas. Se for provado que não gera memórias falsas, não haverá problema. Porém, ao que tudo consta, memórias falsas são criadas. Então é contraproducente.

Qual é a relação entre Budismo e Cabala?

Creio que não exista relação.

Até que ponto o livro "Sidarta" do Hermann Hesse é baseado na vida do Buda?

Não tem quase nada a ver com o budismo ou a vida do Buda.

"Apenas no nirvana existe alegria, proporcionando a fuga duradoura, pois para se escapar da prisão é que a prisão foi feita." Jack Kerouac em sua biografia do Buda. Isto está de acordo com o ensinamento budista?

Não. A primeira parte, até a segunda vírgula, é compatível com o hinayana. A segunda parte contém elementos teístas — quem é que fez a prisão? É evidente que Kerouac misturava o budismo com seu cristianismo — ele acho chega a dizer isso com todas as palavras. E, naquela época, ele não tinha acesso a boas traduções e até mesmo a um professor que pudesse explicar o darma a ele. O Gary Snyder, o Alan Watts e o Ginsberg chegaram bem mais perto do budismo — mas os coloquei na ordem de ressalvas, ou pelo menos de minha preferência. O Kerouac, coitado, morreu antes de poder conhecer o Trungpa Rinpoche, e acho que nem chegou a conhecer o Shunryu Suzuki Roshi. E ele abandonou o budismo pelo cristianismo no fim de sua vida. Ele tem o mérito de ter gostado do Sutra do Diamante, na tradução do Goddard, que nem é tão ruim assim: mas é um texto impossível de entender sem um professor.

Falando sobre autores, quais você acha que mais deturparam o budismo?

Eu procuro ler o que é fidedigno, então eu não tenho um vasto conhecimento da literatura espúria que contenha a palavra "budismo". Ademais, para que gerar interdependência com esses nomes? Algumas vezes quando certos nomes surgem nas perguntas, eu simplesmente os edito: porque mencionar alguém a que não vale a pena nem dar publicidade ruim?

Até no Brasil nós já temos vários Lobsang Rampas. Dois autores que eu conheço pessoalmente, que escrevem supostamente sobre budismo, não têm nem um fiapo de conhecimento intelectual do assunto (e se tivessem, sem a prática, já seria um tanto desprezível em vista da boa literatura disponível). Nos dias de hoje, como Chagdud Rinpoche costumava dizer, uma em cada dez ou vinte pessoas se autointitula mestre em alguma coisa – e se não se autointitula, eu adicionaria, implica com sua atitude conhecer algo de que não tem base alguma. Daí esses “queridos” se multiplicarem.

Essas pessoas assistem uma ou duas palestras, leem material de terceira qualidade na internet (tal como o que eu escrevo), misturam com suas concepções errôneas e venenos mentais, e então publicam as coisas mais estapafúrdias, na maior cara de pau, como se conhecessem algo do budismo.

Em português livros de professores fidedignos que sejam bem traduzidos são uma raridade. Nós temos talvez 3 ou 4 professores que escrevem em português. Então a situação é bastante grave — embora a prateleira "budismo" na livraria esteja bem recheada, isso não é indicativo de qualidade. As pessoas que não leem em inglês as vezes não tem a mínima noção da limitação que é a qualidade e o volume de publicações em português (em qualquer campo, mas é bem verdade do budismo, em particular). Não existe hoje, na academia brasileira, nenhum professor que tenha uma noção melhor do que de artigo de enciclopédia sobre budismo. Mesmo os "orientalistas" não tem a menor noção. Na Europa e nos EUA já existem alguns ocidentais, praticantes ou não, que entendem algo de budismo dentro da academia — mas mesmo lá é um fenômeno de uns, no máximo, 30 anos para cá. Antes haviam algumas raras exceções, mas mesmo essas exceções, como Conze, têm uns poréms enormes.

Existem também aqueles professores escritores que, embora acurados, embora falem do darma com profundidade e correção, ainda assim não são boas conexões. Um intelecto preciso não quer dizer que essa pessoa seja fidedigna no sentido de não ser um charlatão, ou de não ser alguém que traiu seu próprio professor. Mas é muito mais comum encontrar livros imprecisos, até mesmo grosseiramente imprecisos, do que livros precisos que mesmo assim não são uma boa interdependência. Mas, sabe-se lá o que é pior. Um livro impreciso só vai prejudicar quem lê, um livro cuja compra patrocina uma "linhagem" que opera como a máfia, e até encomenda assassinatos (e isso existe, por incrível que pareça), daí, mesmo que externamente correto, é um carma muito pior.

Em inglês a situação é bem melhor, principalmente por causa das grandes editoras como a Wisdom, a Snow Lion, a Shambhala — eles não publicam porcaria. No Brasil, fora a Makara, do Chagdud Gonpa, não conheço outra editora em existência que, só pelo nome da editora, sejam garantidas as publicações.

Budistas têm hostilidade contra o Esoterismo?

Hostilidade creio que não. Mas com certeza, devido as muitas distorções inseridas nos ensinamentos budistas, cujas primeiras traduções foram cometidas por universalistas como os teósofos, e "nova era" em geral, é um tópico recorrente corrigir as noções errôneas introduzidas. Isso pode soar como hostilidade porque afeta diretamente muitas das doutrinas que as pessoas sustentam, e mais do que isso, sustentam como atreladas ao budismo.

Uma tradição que coloque dogmas acima da generosidade e da compaixão não serve para nada?

Se os dogmas forem contra a compaixão, então ela não só não serve para nada, mas é definitivamente um problema.

As coisas que não servem para nada em geral estão na categoria de não produzir benefício. Se não produz benefício, então é perda de tempo, o que é um malefício.

Nesse caso, se faz um favor em combater essas visões errôneas. No entanto, não há nenhuma grande tradição do mundo que o budismo não considere, de uma forma ou outra, benéfica. Creio que talvez algumas correntes menores da nova era ou do ocultismo, sem expressividade alguma, possam ser perda de tempo ou efetivamente maléficas. Nesse caso, dada a ausência de expressividade, seria ainda mais contraproducente combater algo assim do que deixar a "tonteria" mostrar-se a si própria como tonteria.

A eficácia do budismo não estará apenas na influência espiritual que vem desde o Buda até os praticantes de hoje, de geração em geração, como supostamente ocorre em outras "vias iniciáticas"?

Isso depende muito do que você quer dizer por "influência espiritual" e "outras vias iniciáticas". Infelizmente, fora do budismo não tive oportunidade de conhecer nenhuma "via iniciática" que tivesse uma linhagem com pelo menos alguma aparência de pureza. Com certeza elas existem no hinduísmo, por exemplo, mas eu nunca verifiquei pessoalmente — e como o hinduísmo é uma doutrina teísta, com certeza a "influência espiritual" tem um sentido totalmente diferente do budista.

Agora, linhagem é um conceito central ao budismo, seja de que forma for — porque é o que garante não só a preservação dos ensinamentos sem distorção, mas a preservação do controle de qualidade e dos meios de controle de qualidade (dos praticantes).

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