contain  multitudes  •  por  Padma  Dorje  •  fundado  em  2003
contain  multitudes
Home > Budismo > Traduções > Contos de um Vagabundo Iluminado > Lamas Anônimos

Lamas Anônimos

O Mosteiro Dodrup Chen está na região pouco povoada de Golok em Kham. Foi um dos principais centros para a prática dos ensinamentos dzogchen do onisciente Jigmé Lingpa, o Longchen Nyingthig (Essência da Grande Perfeição). Jigmé Gyalway Nyugu e o primeiro Dodrup Chen Rinpoche foram os principais discípulos de Jigmé Lingpa; o discípulo deles, por sua vez, foi Patrul Rinpoche.

Mestres poderosos, realizados na prática da ioga de transferência de consciência, chamada Phowa, podem conduzir a essência de um ser humano falecido através da abertura no topo da cabeça, permitindo ao morto renascer nos campos-de-budas, que são paraísos ou Terras Puras. No momento da transferência, algumas manifestações externas, bem como algumas internas, geralmente ocorrem; estas são sinais do sucesso do empreendimento.

UM DIA UMA VELHA SENHORA JAZIA morta na cama. Os parentes enlutados viram três vagabundos passando - um velho, um homem de meia-idade e um jovem. Como o trio esfarrapado estava vestido em cores que lembravam os robes vermelho-escuros da ordem Budista, foram chamados - talvez fossem iogues errantes que, sendo pagos, poderiam executar os ritos apropriados para a falecida.

O chefe da família, um camponês, perguntou respeitosamente: "Podem ajudar nossa mãe falecida? Não há monges por aqui. Faremos oferendas".

O mendigo mais velho respondeu: "Não precisamos de oferendas, somente comida. Faremos o que for necessário para enviar sua velha mãe para os campos-de-budas". Os três começaram a preparar os bolos de centeio chamados tormas em preparação para os rituais Nyingthig que iriam realizar.

Os membros da família perceberam que os três esfarrapados pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Os mendigos falavam dos abençoados campos-de-budas como se conhecedores íntimos destas esferas sublimes. Surpresa, a família manteve-se em silêncio e reuniu farinha de centeio, água, manteiga, grãos, incenso, e tudo o mais que os homens pediam. Sua falecida mãe teria um funeral digno!

"Quem poderia imaginar que esses pobres errantes viriam nos ajudar assim?", a família exclamava, satisfeita com sua boa sorte inesperada. "Ao menos eles sabem preparar um belo espetáculo disso tudo!"

O mais jovem dos iogues agachava-se perto da fogueira, moldando as tormas para oferenda com mãos hábeis. A filha da casa, ao fazer suas tarefas de cozinha, tropeçou nele. Ela rudemente mandou-o sair do caminho, tratando-o com desrespeito, como se fosse um mendigo qualquer.

"Se lamas de verdade estivessem por aqui", a jovem mulher pensava para si, "eu não teria que conviver com estes três vagabundos. De qualquer forma, pelo menos eles sabem fazer um espetáculo ao realizar ritos funerais."

O jovem lama entendeu exatamente o que se passava por sua cabeça. Sorrindo benevolente e permanecendo em silêncio, ele completou sua humilde tarefa. Logo todas as preparações estavam terminadas.

Quando os três iogues começaram seu rito, um incrível silêncio preencheu o recinto. Um arco-íris apareceu acima da casa e, ao mesmo tempo, alguns cabelos caíram da cabeça do cadáver. Um calombo apareceu na sua abertura da coroa, do qual o princípio da consciência ejetou-se e transferiu-se para os campos-de-budas. A família inteira ficou assombrada. Nunca haviam esperado resultados tão dramáticos!

"Vocês realizaram um milagre!", o camponês exclamou. "Por gratidão, oferecemos três cavalos e um iaque para a viagem."

O mais jovem dos lamas falou diretamente: "Não queremos nada com cavalos, iaques e outros animais de carga. Três cavalos são somente três cavalos de problemas! Também não precisamos de nenhuma outra oferenda por fazer este serviço pela falecida. Mesmo que nos oferecessem todas suas posses, o que iríamos querer com elas?".

O dono da casa polidamente convidou-os para ficar e orar ali por três meses, três semanas, ou ao menos três dias. Então ele respeitosamente perguntou ao jovem lama quem suas companhias eram de fato, pois ficou óbvio que estes não eram três viajantes comuns.

O jovem lama respondeu: "Já ouviram falar do sucessor ilustre de Jigmé Lingpa, Dodrup Chen Rinpoche?".

O camponês ficou boquiaberto. Hesitante, ele aventurou-se a perguntar o nome do outro venerável lama. "Este é o renomado mestre dzogchen Jigmé Gyalway Nyugu em pessoa", disse o jovem lama, não mencionando seu próprio nome.

Instantaneamente, a família prostrou-se no chão de terra, implorando perdão por sua ignorância. Relutantes em deixar partir tão santa companhia, eles acompanharam os lamas a pé por um dia.

O jovem lama era ninguém mais do que o vagabundo iluminado Patrul Rinpoche, cujos escritos originais e impecável integridade nos inspiram ainda hoje.





Se você vê mérito nos tópicos tratados, divulgue — comente e partilhe nas redes sociais. É uma prática de generosidade que ajuda na minha própria prática de generosidade de produzir e disponibilizar esse conteúdo. Outras formas de ajudar.
tzal.org é produzido por
Padma Dorje.

e-mail

boletim informativo

Tendrel: conexões auspiciosas
canal no YouTube




Banco do Brasil (001)
ag 3.240-9 cc 123.017-4



Sugestões de patronagem recorrente (mensal):








todo conteúdo, design e programação por Eduardo Pinheiro, 2003-2019
(exceto onde esteja explicitamente indicado de outra forma)
Licença Creative CommonsEste obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

Por favor, quando divulgar algo deste site, evite copiar o conteúdo todo de um texto; escolha um trecho de um ou dois parágrafos e coloque um link. O material aqui é revisado constantemente, e páginas repetidas na internet perdem ranking perante o Google (a sua e a minha).

https://tzal.org/lamas-anonimos/