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O budismo é um caminho espiritual?

O Darma do Buda é de tal diversidade e vastidão que, como um todo ou em seu escopo final, elude todas as tentativas de categorização. Quando os europeus primeiro o encontraram, o classificaram superficialmente e de pronto o enfiaram no saco de gatos das outras religiões do mundo, agrupadas pelos vieses e critérios próprios das tradições abraâmicas ou de seus críticos. Com essa comparação injusta e imprecisa, cheios de empáfia branca, lhe atribuíram o nome deselegante e cacofônico pelo qual é hoje mais conhecido (e ao qual mesmo o autor do presente artigo acha difícil escapar): “budismo”. Mas este “budismo” não foi só transformado em mais uma das “grandes religiões”, a ele lhe foram atribuídas várias outras características do discurso comum da erudição colonialista, tais como os termos transcendente, metafísico, filosófico e espiritual. Neste artigo destrincharei o viés etnocêntrico e profundamente impreciso da aplicação desses termos ao Darma do Buda.

A classificação técnica, antropológica, e mais ampla de “religião” pode bem se aplicar ao budismo, uma vez que o budismo ele próprio se viu muitas vezes admirado pelos estudiosos, e na posição de um dos formadores desses critérios. Ora, se há ritos (outra palavra carregada), se há uma coesão social em torno a um sistema de crenças relativamente ancestral, é difícil não chamar de “religião”. É por isso que, quando queremos criticar um fenômeno mais jovem, como, digamos, a psicanálise, o marxismo, ou fanboys da Apple, usamos elementos próprios como o fervor dos aderentes e as estruturas de proselitismo e “lavagem cerebral” para sarcasticamente os chamarmos de “religiões”.

Entre o que ocorre na prática dos populares ao longo dos milênios e o entendimento técnico dos ensinamentos do Buda como estudados pelos especialistas autóctones sempre houve, é verdade, bastante diferença. Se a vivência popular da tradição é hoje sequestrada pelo sincretismo com as crenças do homem branco, sejam elas as mais modernas (ciência) ou as mais antigas (religiões abrahâmicas e pensamento greco-romano), a visão dos especialistas, principalmente quando eles precisam usar línguas europeias, também não escapa de ser determinada por certos entendimentos exóticos.

É por isso que Dzongsar Khyentse Rinpoche afirma que termos como “compaixão” e “reencarnação”, tão comuns no discurso de qualquer budista que use línguas europeias, precisam ser cada vez mais encarados como vestígios coloniais. Se não examinamos os vieses a partir dos quais os tradutores antigos usaram esses termos, corremos o risco de perder aspectos de nossa tradição para as distorções produzidas pelo processo natural de adaptação do Darma a outras culturas.

É o que ocorre também quando tentamos precisar o Darma como uma religião, filosofia ou ciência. Cada uma dessas categorias certamente engloba aspectos que o Darma efetivamente possui. O aspecto devocional, social e ritualístico, a escolástica e o pensamento estruturado nas tradições de polêmica e debates, bem como o aspecto empírico e experimental da prescrição de práticas e exame direto dos fenômenos internos, externos e absconsos – todas essas coisas o Darma possui. E, ainda assim, a caracterização certeira nesta ou naquela tipificação, de modo a nos permitir relaxar com o vocabulário e os entendimentos que dominamos, sem grande desafio ou nuança, tem se mostrado ao longo do tempo bastante perigosa para a preservação dos ensinamentos do Buda.

Termos como “espiritual” ou “caminho espiritual”, – ainda mais neutros que “religião”, e, acima de tudo, ainda mais aceitáveis na perspectiva rasteira do descolamento ultramoderno das instituições religiosas, sempre vistas com desconfiança desde o início do iluminismo – embora prevalentes no discurso budista, realmente se aplicam ao Darma do Buda?

Há duas crenças principais atreladas ao uso do termo “espiritual”, ainda que uma delas seja bem mais comum que a outra. Ainda assim, devido ao fato do budismo ter formas facilmente confundíveis com o segundo conjunto de crenças, será necessário tratar das duas.

A mais comum é o dualismo, presente na maior parte das doutrinas estudadas e praticadas do cristianismo e das outras religiões abrahâmicas como vividas, criticadas, estudadas e praticadas em nossos dias, e daí ser de interesse. A menos comum é uma forma de monismo hoje pouco popular, em que a única substância realmente existente seria a “substância espiritual”, e o que chamamos de matéria, uma mera falta de entendimento ou subcategorização imprecisa dessa substância primeira, um “epifenômeno”. Essa posição metafísica monista é muitas vezes chamada de idealismo, embora tenha mais de um sabor no entendimento filosófico europeu ao longo dos séculos, e tenha aderentes em formas rarefeitas de panteísmos e outras crenças monistas derivativas.

O budismo é confundido com o idealismo porque muitas de suas formas ao longo dos séculos, em especial a escola yogachara, foram acusadas de propor o ensinamento de “apenas mente”, isto é, a única coisa que realmente existiria seria a mente. No caso, em traduções francesas, ou mesmo no português mais castiço, mente e espírito são a exata mesma coisa. O fato de que o locus central da mente, no budismo, em termos do corpo humano, seja no peito, e não na cabeça, complica ainda mais essa interpretação. No seu extremo, pessoas que ouvem coisas como “apenas mente”, passam a acreditar no pensamento mágico proposto por certas seitas da nova era, em que você só não tem uma Ferrari porque não a desejou forte o suficiente (um reinvenção pseudoespiritualista e ainda mais cruel da meritocracia da mão invisível), ou num solipsismo que acaba também sendo sintoma psiquiátrico, em que o que existe é algo como um cinema que se descortina perante os olhos, projetado de algum ponto no centro da cabeça. Nenhuma dessas coisas tem a ver com o Darma do Buda.

O sentido próprio da yogachara, pesquisas mais recentes mostram, é uma fenomenologia própria dos meditadores, em que o aspecto inteligível das coisas é uma projeção, sem compromisso ontológico nenhum com o aspecto não inteligível. Para o meditador “tudo é mente” porque o que ele pode mudar, o que faz sentido considerar, é o que ele projeta – e que é um elemento muito maior do que o que normalmente achamos que as coisas são. Mas isso não tem implicação ontológica de nenhum tipo – não afirma existência ou inexistência de uma mente, ela segue “vazia” –, e daí “fenomenológica”, já que trata apenas de aparência, e não da verdadeira natureza das coisas.

O monismo idealista, no entanto, segue sendo empurrado goela abaixo dos budistas, que ao longo dos séculos tanto se esforçaram para não ser identificados com as tradições monistas hindus, suas oponentes tradicionais. Não é preciso se esforçar muito para encontrar um brasileiro na internet falando em nome do budismo como se afirmasse uma consciência absoluta ao estilo panteísta, caindo assim no extremo do eternalismo – coisa que nenhum budista autêntico na história do budismo aceitaria.

Obviamente, ao usar o termo “espiritualidade”, em geral nos vemos em contraposição com aquela outra crença hegemônica entre os não religiosos, e hoje confundida com a posição científica, o monismo fisicalista, ou materialismo. O budismo é, mais raramente, proposto como uma visão fisicalista em suas distorções mais radicais (ao estilo de “budismo sem crenças”), mas esse sequestro dos ensinamentos proposto por alguns cientificistas desinformados não cairá no escopo do presente exame. Se um “caminho espiritual” é agora visto como uma terapia com fins delimitados e mensuráveis, e com respaldo científico, até mesmo os materialistas reconheceriam nisto uma contradição em termos. Ou, é claro, condescendentemente permitiriam o termo com seu único uso possível no discurso educado, com a bonança superiora de quem permite uma criança aceitar os presentes dos pais como se fossem do Papai Noel. E aí “caminho espiritual” acaba não sendo nada mais do que ficar mais calminho fazendo Mindfulness, marca registrada.

Também é importante frisar que, ao dizer que o budismo não é dualista, aqui não estamos desafiando o theravadim que encontra problema com o “não dualismo” presente em alguns sutras mahayana e em todo vajrayana. Essa disputa se dá por outros argumentos, e em outro escopo que o dualismo espiritual/material. O Buda claramente afirmou no Cânone Páli que a questão de se corpo e mente sejam distintos ou a mesma coisa é um dos exames que “não dá em nada”, e que não deve ser empreendido1 Majjhima Nikaya 63 e 72.. Assim, o theravadim se obriga a estar de acordo com o entendimento do caminho do meio mahayanista, em que nenhuma das duas respostas ao que o filósofo europeu chama de “problema difícil” é recomendada, e em que a própria empreitada é abandonada como perda de tempo precioso para quem deseja efetivamente superar o samsara. Isto é, nem o monismo, e tampouco o dualismo, são vistos pelo Buda como sequer casos dignos de exame. Se o theravadim prefere evitar chamar isto de “não dualismo”, é sua prerrogativa – o mahayanista sempre soube que seu não dualismo nunca esteve neste escopo. Só permanece crucial avisar quanto à confusão do não dualismo com uma das formas de monismo, que é um erro bastante comum nessas supostas refutações do não dualismo budista, e que definitivamente não se aplica em nenhum dos casos. Em outras palavras, nenhuma forma de budismo aceita (ou rejeita)2Isso se coaduna com uma posição fenomenológica, em que, enquanto prática – isto é, sem compromisso ontológico –, se fala coisas como “apenas mente”, e se pensa as coisas de forma dual, com fins relativos e em prescrição adventícia. a dicotomia espiritual/material, o não dualismo budista nunca deixa alguma possibilidade de monismo como seu rastro. O que os mahayanistas chamam de não dualidade não está nem mesmo no escopo metafísico da questão de substância, ser, entidade ou existência.

Quando o budismo é visto como um caminho espiritual, normalmente salienta-se o lugar comum do monge de pés descalços, além do materialismo grosseiro de prazeres, bens e status social. Tudo bem até aí, mas o que ocorre quando grandes professores budistas usam e abusam do termo “espiritual”? Como em suas raízes o budismo é radicalmente crítico quanto aos fins espirituais usuais, surge o termo “materialismo espiritual”. Aqui não só o materialismo pouco disfarçado daqueles que buscam virgens celestiais ou estar ao lado do senhor no paraíso é escancarado, como mesmo os estados meditativos mais abstratos e sutis são criticados como potenciais distrações e obstáculos. O que é confundido com o termo nirvana ou moksha por muitos, é visto como apenas uma materialidade sutil, um engano com cara de espiritualidade. Embora Trungpa Rinpoche tenha popularizado o termo nos anos 1970 em seu livro clássico, Além do Materialismo Espiritual, a ideia é comum e está presente em todo o budismo. O Buda já no Cânone Páli fala dos “grilhões de ouro” que a prática “espiritual” do altruísmo e daquela bondade espiritualista genérica, sem sabedoria, podem criar. Se você apenas praticar virtude, ou se você apenas praticar meditação – sem sabedoria, sem o reconhecimento da verdadeira natureza das coisas – você só produz o resultado infeliz de renascer como um deus de longa vida, e assim perde muito tempo no que não é nada mais do que samsara com glitter. Todo mundo no budismo entende que essas “espiritualidades” são claramente mundanas.

E no vajrayana mesmo a simplicidade e pobreza estereotipadas no budismo são vistos como potenciais para materialismo espiritual e orgulho. Como afirma o Buda no Sutra Que Corta o Diamante, não é possível reconhecer o Tathagata por nenhuma indicação condicionada, externa ou interna. Nem mesmo a aparência sorridente e despojada de um monge de moralidade ilibada. Isso não quer dizer que o oposto indique qualquer coisa, é claro.

E isso se estende a vários outros entendimentos aparentemente avançados, até mesmo aos “quatro dhyanas da não forma”, estados meditativos profundíssimos, que, se confundimos com o resultado final, apenas se tornam obstáculos. Entre eles há um estado em que a pessoa panteisticamente se identifica com tudo, e outro em que ela está além de estar consciente ou inconsciente. “Realizações” que a nova era e o esoterismo de botequim aceitariam felizes como a mais brilhante cereja de seu bolo espiritual de confusão.

O que o budismo foca, acima de tudo, é nesse termo que foi traduzido ao português com certa flexibilidade, no título do célebre livro de Trungpa Rinpoche, o “além”. Aqui precisamos pausar e pensar fundo essa tradução.

O título original é “Cutting Through Spiritual Materialism”, esse cutting through, cortar completamente, transpassar, é muitas vezes uma tradução de uma das meditações avançadas no budismo tibetano. Quando o entendemos propriamente, não haveria risco em usar os termos “transcendência” ou “além”. Porém, estes termos possuem conotações populares dentro do teísmo. O além é para onde vão os mortos, e o transcender mais comum é justamente o das coisas materiais pelas coisas espirituais.

Mesmo nas doutrinas mais doutas do teísmo, transcendência e imanência são duas formas de falar da criação, uma monista e outra dualista. Se o budismo “está além” de monismo e dualismo, material e espiritual, que tipo de transcendência é essa? Se não há criador, não há preocupação com essa transcendência ou essa imanência. Qualquer um que leia um texto vajrayana vai ficar profundamente confuso com o fato de a não dualidade estar sendo afirmada de coisas externas, e o absoluto ser apresentado na especificidade de uma deidade verde segurando um porrete. É exatamente porque o Darma do Buda está além de imanência e transcendência, interior e exterior, que o vajrayana usa todas as ignorâncias possíveis como meio hábil para seu “conhecendo um, libera todos”. Não há nem como manter uma mente verdadeiramente ignorante perante um texto vajrayana, uma vez que elas anulam umas às outras em paradoxos de arco-íris.

E se estamos falando de transcender como apenas irracionalidade, um transcender dos conceitos, para você sentir mais direto “e não ficar tão nerd assim nos conceitos, cara, vamos fumar um juntos”, aí é só mais um “la garantia soy yo”. A mais comum e abundante estratégia dos charlatões.

O transpassar, irromper, cortar completamente, significa justamente “estar além dos extremos”, e não só dos extremos intelectuais que classificam e reificam substâncias e caminhos, e até mesmo estados meditativos extremamente sutis. Esse estar além dos extremos é a outra margem, a margem da liberação. Sem a confusão das visões usuais e a mistificação desnecessária, esse é “o além”, a transcendência, o “espiritual”, no budismo. Porém, GATE do mantra do Prajnaparamita é um verbo no imperativo: vai, vai de uma vez. A outra margem não é um além substancial como o reino ectoplásmico dos mortos, ou a transcendência dualista, na qual Deus não faz parte de sua criação. O transpassar, enquanto prática, não é e não pode ser metafísico.

Dentre os termos pouco compreendidos da filosofia, esse é talvez o mais premiado. Justamente, o termo que, para muitos, caracteriza a filosofia. A filosofia primeira. E, de fato, se não é metafísico, vai ser o que? Ciência natural, como antigamente se falava, “física”.

No tradicionalismo e na filosofia perene, esotéricos combativos e críticos do mesmo esoterismo de boteco que ironicamente, no fundo ou até escancaradamente, é exatamente o mesmo que praticam, e que por algum motivo fascista ou outro se tornaram populares no Brasil nas últimas décadas, metafísica é tudo aquilo meio inescrutável, que assusta seu primo, e é profundo e misterioso demais para você entender, já que você está de fora do clubinho ao estilo maçom de quem faz o branding do mistério. Esse acabou sendo um pouco o mesmo uso popular, ou entre acadêmicos fora da filosofia, e que é mais precisamente o que a tradução do termo para o latim imediatamente nos suscita: o sobrenatural. Algo que nos sugere apertos de mão secretos, o oriente exótico da salada de chinoiserie da teosofia, ou sessões com parentes mortos à luz de lâmpadas de Edison, ou caça-fantasmas e ufólogos de plantão.

É, no entanto, um termo bastardo, aplicado por algum bibliotecário que não sabia decidir onde classificar as obras aristotélicas que vinham, justamente, “depois da natureza”, isto é, das ciências naturais, isto é, da física como ela era entendida pelos antigos. Meta-ta-física: os livros ou capítulos que vinham depois das ciências naturais. O que havia ali? Um pouco de “teologia”, causas primeiras, um pouco de “ontologia”, substâncias fundamentais – essas preocupações pré-socráticas todas que ainda ocupavam os gregos enquanto engatinhavam na arte de sistematizar o pensamento.

Alma e espírito são aqui coisas que justamente “animam” os animais. Quando eles estão mortos, eles são como uma pedra ou em nada muito distintos de qualquer matéria orgânica inerte, quando eles se mexem por aí, quando são “animados”, eles possuem uma coisa que, ao morrer eles aparentemente perdem. Não algo que uma pessoa moderna, que já usou um relógio ou computador, ou algo assim, vá substancializar. Sabemos que uma peça desgastar ou quebrar, ou faltar corda, são motivos intrínsecos ao relógio para ele parar de “animar-se”, não precisamos que o ele perca uma propriedade além da tautológica: a propriedade de funcionar. Num mundo que entende conceitos como “entropia”, não há como substancializar essa perda.

É por isso que o budismo é tão pouco compreendido quando fala de reencarnação, ou bardos, e as pessoas acham que se está identificando substâncias inescrutáveis, como um metafísico dualista faria, ou o realista ingênuo dono da padaria naturalmente faz. Ou, o reverso disso, quando há tentativas de higienizar o Darma e produzir algo palatável ao homem branco vestido de jaleco branco, que é alguém que acredita no monismo fisicalista, e assim pratica a mesma metafísica que supõe rejeitar.

Sim, porque se o budismo nega o fantasma na máquina, ele também não reifica a máquina que parece restar de nenhuma forma substancialista. A máquina acaba sendo nada mais é que um sonho sem sonhador, totalmente dependente de causas e condições, e portanto, em nada algo essencial ou substancial, ou “verdadeiramente existente”. Para uma coisa existir, num sentido ontológico ou metafísico, ela necessariamente não pode depender. Se ela depende, por mais que nosso hábito seja o de atribuir, através de um nome e um uso (uma função), uma existência e reificar essa existência (e por isso somos ignorantes), tudo isso ocorre num processo idêntico ao mais diáfano tecido de sonho, e como disse Nagarjuna, “nada em lugar algum jamais sequer surgiu” (isto é, nada existe num sentido maior que uma existência condicionada, e nada foi ou pode ser criado).

Substancializar, fazer metafísica, pressupor mistérios: hábitos e tendências mentais, obscurecimentos intelectuais. O que ocorre é que o Darma do Buda efetivamente não se coaduna ao pensamento de outros modos – nenhum deles – e, ao mesmo tempo, que dialoga com nosso senso comum, também não sucumbe a ele.

É aqui que, além da crítica, precisamos acessar o sentido próprio do Darma do Buda. Nossa ânsia é, após filtrá-lo desses desentendimentos todos, lhe precisar uma nova terminologia, e assim, o entender e poder classificar como algo inteligível. E aqui nos deparamos com a escorregadia estratégia budista por excelência, que é não assumir nenhum tipo de irracionalidade, enquanto não aceita nenhuma racionalidade particular apresentada ou apresentável.

E é isso mesmo. A característica essencial do Darma enquanto transmissão verbal é ele não partir do essencialismo. E o próprio não essencialismo que lhe caracteriza, a partir disso, não ser ele também essencializado ou caracterizado. O Darma é assim efetivamente radical, e não pode ser apreendido por uma mentalidade que deseje domá-lo à intelectualidade habitual obscurecida pelos padrões das aflições mentais e toda a proliferação do samsara – isso inclui a academia, o laboratório e até mesmo o lugar de culto. É por isso que o Darma se recusa a ser mais uma escola filosófica que se permite ser escrutinizada de fora, e então dissecada e exposta num museu de história natural do pensamento.

Nosso pensamento multicultural, que exige tolerância por toda a diversidade, em sua grande benevolência, também não permite o entendimento do Darma. Quando o Darma se torna um fenômeno cultural, uma ideia que pessoas praticam como outras ideias, e todos se respeitam nisso, o Darma não é visto. O que é visto é um mero ersatz-darma que preserva o status quo do universalismo woke. E alguém aqui ou em nome do Darma está advogando intolerância? De forma alguma, só o Darma permite a verdadeira tolerância de entender que todas as formas de pensamento são igualmente toleráveis exatamente porque são todas elas falsas em essência. Sem a metafísica, não há a polícia da metafísica e o cassetete da metafísica. Não há a bota na cara da metafísica.

É essa liberdade que chamamos de Darma, ele só é “do Buda”, porque ele primeiro o expôs dessa forma – e embora outras tradições algumas vezes tentem imitar, ninguém até hoje conseguiu fazer tão bem quanto os budistas, ou pelo menos, certos budistas.

A raiz do fascismo é a metafísica. É ela que permite essencializar imigrantes e acreditar no espírito de uma nação, ou tradição espiritual em detrimento de outras. Enquanto há metafísica, a visão ontologista em que há seres e coisas determinados por-si-só, e se tolera o outro como se tolera guetos de drogados ou insetos na casa de praia. Há uma tensão inerente na multiculturalidade que não reconhece que a visão superior é a ausência de visão particular, e sim que apenas decreta todas as visões particulares como igualmente aceitáveis.

Quando um desinformado ouve um argumento contra a metafísica, no entanto, ele pensa que é contra duendes e a favor do materialismo fisicalista. O materialismo fisicalista, enquanto uma forma de monismo, é ele próprio uma crença metafísica. E, falando em fascismo, a exploração da terra e a cultura de estupro só são efetivos porque o monismo fisicalista nos coloca na posição de sacos de matéria amorfa objetificando outros sacos de matéria amorfa. Pensar as coisas dessa forma, é o argumento do Darma, não tem apenas consequências intelectuais – os hábitos criados pela metafísica são a fonte dos sofrimentos, já que a raiz de todas as visões errôneas é não reconhecer a vacuidade, e reificar a substancialidade. É daí que brotam todas as outras emoções aflitivas, e todo o sofrimento do mundo.

Não é curioso que o termo, tão límpido, e em sua raiz, tão inocente – tão ligado a tradições espirituais por que temos tanta estima, pelo menos num sentido filosófico – seja o próprio Mefistófeles? Como a crença gnóstica raiz, em que o messias é a serpente, que ensinou o que aceitar e o que rejeitar, o Darma do Buda inverte o valor da espiritualidade ordinária, que é mero materialismo disfarçado de espiritualidade. E não poderia ser diferente, porque na medida em que promovemos essa dicotomia, na medida em que ignoramos o apelo do Buda para não nos engajarmos em metafísica, geramos visões errôneas e produzimos sofrimento no mundo.

Da mesma forma, embora seja difícil fugir de terminologias como filosófico, espiritual ou transcendente, é importante apropriar e ressignificar esses termos – como em grande medida, já fazemos com o termo “mente” nos círculos budistas. Então, em vez do darma ser cooptado por entendimentos invasores, nós é que apropriamos flexivelmente a terminologia das pessoas comuns. Afinal de contas, elas não são conhecidas por sua precisão terminológica. O problema disso é que demanda uns séculos.

Veja também:
Metafísica espiritual budista?, vídeo no Canal Tendrel mais ou menos baseado neste texto.

Budismo e colonialismo, vídeo no Canal Tendrel.

Budismo idealista, prós e contras, vídeo no Canal Tendrel.

A dicotomia material/espiritual faz sentido no budismo?, vídeo no Canal Tendrel.

O que é “natural” para o budismo?, vídeo no Canal Tendrel.

Sugestão de termo: “nontologia”, texto de Padma Dorje em tzal.org.

Distorções do darma, links para textos e vídeos adicionais sobre o assunto.

Metafísica, links para textos e vídeos adicionais sobre o assunto.

Materialismo, links para textos e vídeos adicionais sobre o assunto.

Universalismo, links para textos e vídeos adicionais sobre o assunto.



1. ^ Majjhima Nikaya 63 e 72.

2. ^ Isso se coaduna com uma posição fenomenológica, em que, enquanto prática – isto é, sem compromisso ontológico –, se fala coisas como “apenas mente”, e se pensa as coisas de forma dual, com fins relativos e em prescrição adventícia.


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