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Uma Estátua que Fala

Kongpo, a região da figura principal nessa história, é uma província tibetana ao sul cujo povo é conhecido mais pela compaixão do que pelo intelecto.

Jokhang em Lhasa é o mais sagrado templo do Tibete. Ali está a antiga e famosa estátua do Buda na forma de um príncipe, chamada Jowo Rinpoche (Precioso Senhor); ela foi trazida da China mais de mil anos atrás como parte do dote de uma princesa chinesa prometida ao rei do Tibete. Na tradição tibetana, é costume prostrar-se ao chão três vezes antes de entrar em um templo, ou na presença de um grande lama.

BEN DE KONGPO HÁ MUITO aspirava visitar o Jokhang e a mais sagrada estátua do Tibete. Enfim chegou o dia em que o intrépido peregrino colocou suas botas de viagem e partiu a pé para a distante Lhasa.

Quando Ben chegou, apenas caminhou pelas ruas maravilhado, pois ali, diante de seus olhos, estava a gloriosa Cidade dos Deuses... Que deleite! Na parte mais alta estava o Palácio Potala, onde vivia Senhor Chenrezig na forma do Dalai Lama, cercado por um infindável cordão de peregrinos circumambulando o palácio. Ali estava o palácio de verão do regente divino, Norbu Lingka — que vista para os olhos devotados de Ben! Ali, bem diante dele, estavam o Mosteiro Sera e o poderoso e inspirador Drepung — os dois maiores mosteiros do Tibete — onde a fé e o aprendizado reinavam inigualáveis por séculos. "Que sorte estar vivo!", pensou o cansado camponês.

Ele entrou o Jokhang, o templo central situado no coração de Lhasa como um diamante colocado no centro de um diadema. E ali estava! Enfim o grande sorridente Jowo Rinpoche, a lendária estátua do Buda, ali acima em sublime esplendor.

Prostrando-se diante da estátua com energia renovada, o cansado peregrino tirou seu capote empoeirado e removeu suas botas desgastadas, colocando-as no colo de Jowo por segurança. “Fique de olho nelas,” disse Kongpo Ben, antes de fazer suas obrigações rituais.

Enquanto Ben circumambulava o grande ícone dourado, encontrou filas de brilhantes lamparinas de manteiga arrumadas sobre o altar, juntamente com grandes filas dos bolos de cevada cônicos chamados tormas. Agradecendo o onisciente Buda por sua hospitalidade e aconchegado com a presença benevolente de Jowo, Ben começou a comer os bolos consagrados, mergulhando-os generosamente na manteiga derretida das lamparinas sagradas que iluminavam o templo.

Em troca dessa recepção inesperada, Ben decidiu convidar Jowo para jantar em sua humilde casa em Kongpo, imaginando que sua esposa certamente sacrificaria o mais gordo porco de seu chiqueiro — que sabia ele da doutrina compassiva não violenta do Senhor Buda? — e prepararia um vasto banquete para seu convidado de honra. O inocente camponês não tinha dúvida que Jowo Rinpoche aceitaria o convite.

Repentinamente, no meio do fervor de Kongpo Ben, a brilhante luz do sol inundou o altar: o velho corcunda que cuidava do templo havia chegado. A porta se abriu, como se por força própria... teria o encarregado sido magicamente invocado à cena do crime por alguma indignada força invisível?

Por um longo momento o venerável senhor ficou fitando as oferendas outrora tão bem arrumadas, agora totalmente em desordem, e os esfarrapados chapéu e botas recostados no colo dourado do Buda. Imaginem seu desespero!

O ultrajado monge imediatamente foi em direção às botas sujas do peregrino para arrancá-las dali, mas enquanto fazia isto, uma profunda voz de comando soou do sorridente Jowo, "Tire suas mãos daí! Estes são pertences do meu discípulo de Kongpo."

O velho monge tremeu de surpresa. O que podia dizer? Ordens são ordens, e aqueles que mandam também sabem obedecer.

Ele prostrou-se três vezes no chão de pedra perante a estátua e implorou perdão. Refletindo com muita fé nesse milagre do mais sagrado dos sagrados, ele saiu. Ben simplesmente continuou sua devoção, com a fé confirmada, e as botas fora de perigo.

Eventualmente Ben retornou a Kongpo. As notícias do milagre já havia chegado por lá; rumores de que a estátua de Jowo no templo central havia falado espalharam-se por todo o o Tibete central e setentrional. Mas nenhuma conexão entre este evento maravilhoso e o próprio Ben havia sido feita.

Sobre estes rumores, Ben simplesmente dizia, a quem quer que falasse sobre isso, "Não sabemos no que acreditar hoje em dia."

Diz-se que o Buda realmente aceitou o inocente convite de Ben para jantar. Um dia Ben teve uma visão da face dourada de Jowo entre algumas pedras no fundo de uma clara fonte perto de sua humilde casa. Ele tentou retirá-la da água, mas era muito pesada para ele. Quando Ben largou o sorridente Jowo, ele ficou preso na terra na forma de uma enorme pedra.

Até os dias de hoje os fiéis da remota Kongpo — muitos dos quais nunca foram até a longínqua Lhasa — ainda circumabulam e prostram-se àquela rocha sagrada. O templo central de Lhasa pode estar muito longe, mas eles sabem que o glorioso Jowo mora ali perto.





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