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O Velho Mani

Uma roda de orações, ou roda mani, é uma roda cheia de incontáveis mantras e inscrições enroladas na direção dos ponteiros do relógio ao redor de um eixo central. Algumas rodas de oração são pequeninas, como piões; outras são enormes, enchendo uma sala inteira. As giramos segurando seus raios e caminhando em torno dela. Outras são colocadas em córregos ou cachoeiras, de forma a aproveitar a energia natural e espalhar bênçãos pela terra. Os fiéis acreditam que girar estas rodas ou dependurar bandeiras de oração ao vento realiza o significado das orações.

A província tibetana de Kham é semelhante ao velho-oeste norte-americano. As pessoas de Kham são grandes cavaleiros, apreciam todos que montam regularmente, e amam seus cavalos. Até cerca de um século atrás Kham era dividido em dezenas de reinos menores, cada um com seu próprio exército, formado por alistamento obrigatório.

CERTA VEZ UM velho no longínquo Kham Oriental era conhecido como Velho Mani pois, dia e noite, era encontrado girando sua pequena roda de orações caseira. A roda era preenchida com o mantra da Grande Compaixão, Om Mani Peme Hum. O Velho Mani vivia com seu filho e seu belo cavalo. O filho era a alegria da vida do velho; o orgulho e alegria do filho eram o cavalo.

A esposa do velho, depois de uma vida longa de virtude e serviço, já há muito tempo havia se ido para renascimentos mais afortunados. Pai e filho viviam livres de grandes necessidades ou vontades, em um entre vários casebres de pedra próximos a um rio na extremidade da planície.

Um dia uma das éguas do velho fugiu. Os vizinhos lamentaram a perda do único bem material do velho, mas o resignado ele apenas continuava girando sua roda de orações recitando "Om Mani Peme Hum," o mantra nacional do Tibete. A quem quer que expressasse condolências ou tocasse no assunto, ele simplesmente dizia, "Agradeça sempre a tudo. Quem pode dizer o que é bom ou mal? Veremos mais adiante..."

Depois de muitos dias a aquele ser equino maravilhoso retornou, e trouxe com ele um par de cavalos selvagens. O velho e seu filho os treinaram. Então todos no vilarejo cantaram celebrando a sorte inexperada do velho. Com apenas um sorriso humilde acima de sua roda de orações disse, "Estou grato... mas quem pode saber? Veremos mais adiante."

Então, enquanto cavalgava um dos cavalos selvagens, o filho do velho mani caiu e quebrou gravemente a perna. Alguns vizinhos o carregaram até a casa, amaldiçoando o cavalo e lamentando o destino do jovem. Mas o velho, sentado ao lado do leito de seu amado filho, apenas continuou girando sua roda de orações e suavemente murmurando o gentil mantra da Grande Compaixão do Senhor Chenrezig. Ele nem reclamava nem respondia às brincadeiras ao destino, mas simplesmente acenava a cabeça gentil, reiterando o que havia dito antes. "O Buda é bom; estou grato pela vida de meu filho. Veremos mais adiante."

Na outra semana oficiais militares apareceram, procurando por jovens para uma guerra em andamento na fronteira. Todos os rapazes locais foram imediatamente alistados, exceto o acamado filho do Velho Mani. Então os vizinhos congratularam o velho por sua grande sorte, atribuindo sua causa ao bom carma acumulado pela incessante roda e aos constantes mantras em seus lábios enrugados. Ele sorriu e não disse nada.

Um dia, quando pai e filho estavam observando seus belos cavalos pastando na pradaria, o velho taciturno repentinamente começou a cantar:

A vida segue em círculos, para cima e para baixo como um moinho;
Nossas vidas são como pás deste moinho, esvaziadas e preenchidas
Repetidas vezes.
Como a argila do oleiro, nossas existências físicas
São moldadas uma após a outra.

As formas são quebradas e restituídas muitas vezes,
O baixo será alto, o alto cairá;
A escuridão dará lugar a clareza, e os ricos um dia tudo perderão.

Se tu, meu filho, fosses uma criança extraordinária,
Para um mosteiro como tulku eles iam te levar.
Se fosses inteligente demais, filho,
Estarias agrilhoado às disputas dos outros trabalhando à mesa como um burocrata.

Um cavalo é apenas um cavalo de problemas.
A riqueza é boa,
Mas perde o sabor muito rápido,
E, no fim, pode ser uma carga, uma fonte de disputas.

Ninguém sabe que carma nos espera,
Mas o que cultivamos agora será colhido
Nas próximas vidas; isto é certo.
Portanto seja bom com todos,
E não tenha preconceitos,
Baseados em ilusões sobre perdas e ganhos.

Não tenha nem medo nem esperança, nem expectativa nem ansiedade;
Agradeça a tudo, o que quer que tenhas.
Aceite tudo; aceite a todos; e siga
o ensinamento infalível do Buda.
Seja simples e despreocupado, permaneça naturalmente relaxado
E em paz.

Podes atirar flechas ao céu, se assim quiseres,
Mas elas inevitavelmente cairão na terra, meu filho.

Enquanto cantava, as bandeiras de oração dançavam ao vento, e a roda mani ancestral, cheia de centenas de milhares de mantras escritos à mão, continuava girando. Então o velho ficou em silêncio.





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