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Qual o problema com Alan Watts?

Muito antes de vir a conhecer o budismo pessoalmente e o praticar, principalmente por recomendação de personagens da contracultura, acabei lendo muito Alan Watts, e inclusive ouvindo algumas fitas K7 que importei a grande custo. Isso foi em 1991, bem antes da internet comercial no Brasil, e uns oito anos antes de arquivos de áudio se tornarem facilmente conseguíveis.

Dentre as muitas fontes problemáticas de coisas parecidas com budismo, não foi o pior que eu podia ter encontrado. Há autores muito problemáticos com que tive a sorte de não ter conexão alguma.

Quando enfim comecei a praticar o budismo, logo soube que Alan Watts não era a melhor fonte. Ainda assim, eu o achava extremamente eloquente, e talvez por alguns anos já como praticante repeti algumas de suas tiradas sobre o zen.

Há alguns anos comecei a estudar as várias distorções por que o budismo passou, e me aprofundei na problemática de D. T. Suzuki. Descobri então que Watts era dessa “escola”, com também um pé em outra fonte problemática de ensinamentos quasi-budistas, a teosofia. Ainda assim, Watts conferia certo peso acadêmico e contracultural ao que falava – a mim não me soava de forma alguma tão (esteticamente também) degradado quanto D. T. Suzuki ou a teosofia.

Ele realmente falava bem, com entonação e dicção dignas e inteligentes.

Então descobri a história da conexão de Alan Watts com Chögyam Trungpa Rinpoche.

Como eu, Trungpa a princípio parece ter ficado animado com a eloquência de Watts. De fato, não posso dizer que haja muita coisa equivocada no que ele diz. E se Rinpoche achou bom, ao ponto de dar máxima prioridade a, estando na mesma região em que Watts vivia, vir a encontrar o autor que tanto admirava, me senti menos estranhado.

Havia algum valor em sua obra, o que Trungpa, ele mesmo uma fonte sobre budismo além de qualquer dúvida, reconhecera.

Porém, o relato de alunos é que Rinpoche ficou muito desapontado com a superficialidade da prática de Watts. Watts era um confesso alcoolista (e com certeza justo Trungpa, dentre todas as pessoas, jamais o julgaria por isso), e nessa altura da vida havia abandonado o zen (ou a ideia de zen, já que ele nunca fora vinculado à tradição) para se tornar um pastor evangélico.

Ao dizer que a prática de Watts era superficial, Rinpoche não se referia à prática formal. A colocação de Watts no mundo, em contraposição ao que ele escreveu, simplesmente era de uma pessoa comum. Ele não tinha uma presença equivalente ao discurso. Ele só tinha eloquência, ele não havia integrado aqueles ensinamentos. E, se alguém como Trungpa se sentiu curioso para o conhecer, não devemos nos sentir culpados de ter admirado Watts. É de fato um aviso sobre a facilidade com que somos levados por meras palavras e certo carisma pessoal, mesmo quando não há nenhum darma vivo na pessoa.

Isso é perigoso, e estar cada vez mais ciente disso, é de grande ajuda.

Alan Watts, ainda assim, teve um grande mérito. Ele passou o último dia de sua vida com Chögyam Trungpa Rinpoche.

Ao saber da morte, Rinpoche eventualmente percebeu que a consciência de Watts estava em perigo, tendo se fixado ao escritório e alguns livros e objetos pessoais, e, portanto, se tornando um fantasma. Rinpoche coordenou seus alunos para efetuarem o exorcismo dessa fixação, assim libertando a consciência de Watts para um renascimento mais auspicioso, que possivelmente possibilitará a prática.


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