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Quem Pensa Diferente Vale Mesmo a Pena?

O argumento de que devemos “sair das bolhas” e estar abertos a discutir com quem pensa diferente é, muitas vezes, uma falácia.

Podemos estabelecer três critérios simples: 1) em que pé estamos? 2) vai adiantar? 3) vale o tempo empregado?

O primeiro ponto diz respeito ao nível do interlocutor. Ele está repassando os mesmos argumentos que você considerava idiotas na pré-escola, ou algo do tipo? Ele demonstra um mínimo de coerência, ou apenas está repetindo propaganda? Você tem certeza que está falando com um ser humano, e não um troll ou bot? Se por acaso você sabe se tratar de um ser humano, ele se porta como um, ou se porta como um troll ou bot?

O segundo ponto diz respeito à receptividade. Esta pessoa (em potencial) realmente está disposta a dialogar, ou ela está presa num loop de suas próprias ideias, ou de propaganda? Essa pessoa tem um mínimo de coerência, coesão, amor-próprio e ética para participar do universo do discurso? Você está acatando conversar com essa pessoa por pena, ou porque você não suporta ver alguém falando bobagem, e sente uma necessidade exasperada de dar uma de Jesus e salvar “o mundo daquela ignorância”? O mais provável é que isso não seja produtivo para ninguém.

O que nos leva ao terceiro ponto, caso o interlocutor esteja apenas levemente confuso, ou o que ele fale seja minimamente novo ou interessante, ele é alguém que pode realmente ajudar você ou que você pode ajudar? Não há, neste momento, outras pessoas melhor posicionadas para o uso do tempo mútuo?

Um critério mais amplo diria que, se as três condições não são simultaneamente satisfeitas, talvez seja o caso de não engajar. O critério mais estrito colocaria simplesmente a não satisfação de uma única condição como suficiente para alocar os recursos de atenção em outra atividade. Use de acordo com sua disponibilidade, porém, inevitavelmente um critério é necessário.

Ah, mas e a questão das bolhas? Ora, as bolhas são uma questão epistemológica, antes de tudo. Caso a pessoa treine em desenvolver curiosidade, ela não precisa ser exposta continuamente a ataques ou dúvidas quanto a seu modo de pensar para haver uma renovação. Nosso problema é falta de critérios, tanto para ignorar quanto para aceitar ou rejeitar algo, não de acesso a informações diversas. Temos, efetivamente, excesso de estímulos e informação — o que precisamos é de mais critério, não mais vozes nos atirando de lá para cá.

Também provavelmente não é o caso de que agora você resolva ser alguma espécie de Gandhi ou Madre Teresa, altruisticamente penetrando nos leprosários da deficiência cultural. Você realmente quer beneficiar essas pessoas? Dê exemplo, fomente boas ideias onde puder. Simplesmente dar corda para mané na internet não é compaixão – não ajuda nem você, nem o mané.

Caso você esteja aturando vários manés, provavelmente isto se dá seja por um impulso de salvador, ou pelo impulso mais baixo de mostrar que alguém está errado, o que é uma espécie de baixa autoestima, na qual você precisa se relacionar com alguém que você corrige. Talvez você tenha caído no discurso do lugar comum em que qualquer diálogo é válido e enriquecedor, não importa o quão infrutífero, circular, insalubre e até mesmo abusivo ele seja. Você pode acreditar que não quer excluir as pessoas por pensarem diferente. Porém, ninguém pode discordar de que não há nada de errado em ter critérios e saber usar o tempo da melhor forma. E, hoje em dia, sempre vai haver montanhas de pessoas tremendamente erradas na internet, dispostas a qualquer momento a entrar num treta qualquer com você: ora, podemos até desconfiar deles serem bots russos ou propagandistas pagos, ou, no mínimo, pessoas de carne e osso que foram subrepticiamente cooptados por ideologias absurdas e se tornaram zumbis intelectuais, que, contaminados por vírus meméticos, propagam sua rigidez intelectual com o uso da mesma força de repetição que os convenceu — essas coisas estão mesmo por aí nos rondando aos montes.

Culturalmente, também não é adequado dar trela para discurso perdido. Isso simplesmente aumenta a sobrevivência desse discurso. Claro, isso não significa que não estudamos o nazismo, ou a frenologia, ou o criacionismo — sabemos que eles existem e conhecemos suas ameaças. Apenas não damos a eles um lugar na mesa dos adultos. Com o tempo, pelo simples fato desses assuntos serem colocados em seu lugar, a associação entre o que ainda está em pauta e o universo do discurso saudável (possível, polido, enriquecedor) se torna natural. Não é saudável novamente discutir a validade da frenologia, como se nada, nunca, ficasse sedimentado, e todas as ideias possíveis fossem para sempre válidas como objeto de exame. De outra forma, estamos justificando o injustificável e tolerando a intolerância, estamos valorizando interlocutorers com modos de discurso que efetivamente não merecem qualquer consideração. A primeira coisa que você vai ouvir dessas pessoas é que você as está censurando, mas você não é uma instituição pública, e assim não é capaz de censura. Você é apenas capaz — idealmente — de fazer a triagem pela qual, de fato, você é efetivamente responsável, como suposto pensador: o que vale meu curto tempo nessa terra.

Não se envergonhe de podar sua árvore de amigos nas redes sociais. Pense que cada contato desafortunado está tirando seu tempo de qualidade com contatos afortunados. Quer conhecer quem pensa diferente? Não procure entender o pensamento oposto pelos piores exemplos, busque a literatura de qualidade na área. Ela não existe? Provavelmente é por um bom motivo.


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