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O uso do termo “oriental”: o politicamente correto e o budismo



Cena de Indiana Jones no Templo da Perdição (1984), filme que reproduz, mas que também se pode dizer em certa medida satiriza, certos elementos da visão orientalista popular em folhetim do início do século. Os seguidores de Kali arrancam os corações dos humanos sacrificados em seu nome, os indianos comem cérebros de macaco (servidos na cabeça), e assim por diante.

A tradição budista é, desde o Buda, eminentemente voltada para a característica plástica da mente. Isto é, para todos os budistas, a mente pode ser treinada, e o treinamento da mente envolve atividades de corpo, fala e mente.

Por exemplo, a prática de meditação envolve uma postura do corpo, o silêncio e certa atitude ou atividade mental (ou mesmo a não atividade deliberada). A prática de fazer o altar e prostrar envolve certos movimentos com o corpo, a recitação de certas orações e mantras, e a visualização de certos elementos. E assim por diante. Esses treinamentos são deliberadamente dispostos para efetuar mudanças nos padrões habituais da mente.

É preciso frisar isso logo ao início da discussão, uma vez que os argumentos contra o que algumas vezes é reconhecido como “politicamente correto” passam, invariavelmente, por noções eternalistas, isto é, uma essência hipostasiada, seja na forma de caráter ou de constituição do status quo no mundo, que não seria alterável por terminologias. Os críticos da ideia de que devemos modificar certas formas no uso da linguagem dizem que a linguagem não tem poder sobre o mundo — no entanto, na visão budista, a o uso da linguagem tem poder sobre a mente, e a mente tem poder sobre o mundo: todos os fenômenos são interdependentes, inclusive os linguísticos. De forma que essa discussão, no contexto budista, tem uma textura totalmente diferente.

Para as noções de carma e interdependência, no budismo, o cuidado com o uso das palavras é algo que pode transformar nossa mente, e transformando nossa mente, transformar a cultura. O budismo é assim, eminentemente vinculado à ideia de que podemos e devemos alterar nosso vocabulário de acordo com causas e condições que tendam a diminuir o impacto negativo e aumentar o impacto positivo — bem como ir além destas categorias para a natureza sem essência do Buda.

É claro que, nessas tentativas de transformar a mente e o mundo, podem efetivamente acontecer exageros. Mas a ideia básica de buscar usar a fala da melhor forma possível é algo que se coaduna muito com o budismo.

Observemos então o panorama mundial do uso do termo “oriente”, que está em disciplinas tais como “orientalismo” e a ideia de “filosofia oriental” — termos ainda correntes no Brasil.

Nos EUA o trabalho de Edward Said Orientalism causou muito impacto ainda nos anos 1970. Neste livro o termo é descrito como associado a uma visão eurocentrista e colonialista que mistura muitas culturas extremamente diversas, do norte da África até o Japão.

Com uma diversidade de motivações associadas ao imperialismo cultural, que vão desde a ridicularização até o fetiche, centenas ou milhares de culturas não europeias, não americanas e não ligadas a boa parte da África e Oceania foram forçosamente agrupadas sob uma série de preconceitos — alguns não tão diretos como os que o filme com Indiana Jones retrata, mas igualmente preconceitos. Na visão corrente estadunidense, é reconhecido que esses preconceitos são reificados e fortificados pelo uso contínuo do uso de termos tais como “ocidente” e “oriente”.

Assim, não é hoje considerado respeitoso referir-se a um asiático ou árabe como “oriental”. Não chega a ser um termo pejorativo, mas é considerado um termo carregado de preconceito. A ideia de que “oriente” designa apenas um espaço geográfico é também simplesmente incorreta, uma vez que estas terras podem ser mais facilmente aproximadas como estando ao oeste da Europa, mas ao leste do Havaí.

Para um Europeu, e apenas para um Europeu, ainda faz certo sentido geográfico falar em “oriente”. É um uso inerentemente eurocêntrico — com as universidades buscando diversidade e trabalhando numa cultura cada vez mais globalizada, não faz nem sentido referir-se ao “oriente” como se a produção intelectual ainda hoje tivesse um locus europeu. Mesmo quando produzida na europa por europeus, a colaboração mundial e multi-étnica em qualquer âmbito não só é desejável e comum, mas a própria produção de um conhecimento localizado ou localizável já é necessariamente mau vista — com bons motivos. Por isso mesmo, esta terminologia, devido a seu histórico colonialista, de preconceitos e de reunião arbitrária de tantas culturas tão diversas sob um único epíteto, segue inadequada mesmo para um europeu.

A Inglaterra, responsável pela maior parte do colonialismo na Ásia e países árabes, paulatinamente segue o exemplo estadunidense de evitar o termo “oriente”. Enquanto isso, na Europa continental o uso segue relativamente não desafiado, e o Brasil ao que parece evita a mudança sob a ótica de não se filiar ao colonizador mais corrente (EUA) em detrimento do colonizador estabelecido pela história (Europa).

De toda forma, para nós que nos interessamos no budismo, cabe cada vez mais estar ciente e evitar o termo, tanto pelo seu teor vago quanto por seu passado colonialista.

Em particular, a ideia sórdida de “filosofia oriental”, que associa dois termos eurocentristas e colonialistas, deveria se restringir ao pensamento asiático que foi influenciado e diretamente tentou o diálogo com a academia europeia — e nada mais do que isso. Isto é, apenas à Escola de Kyoto, no Japão do início do século passado, com toda sua associação ao fascismo.

No caso de estudiosos do budismo, o ramo de estudos budistas pode ser chamado exatamente dessa forma. Para praticantes, o uso correto é o termo “darma”, o Darma do Buda. Termos como “budologia”, que espelham uma disciplina da filosofia ligada aos gregos e à religião abrahâmica, deveriam obviamente ser evitados. No caso de estudos mais amplos do pensamento asiático ou do pensamento de cultura semita, é mais adequado usar termos como “pensamento indiano” ou “estudos árabes”, e no caso mais específico coisas como “pensamento urdu”, ou “estudos berberes”.

De outra forma, não só desrespeitamos as origens étnicas dessas culturas e formas de pensar e viver, mas perpetramos o sincretismo de forma arbitrária e unilateral, continuando e ajudando a constituir o processo de imperialismo cultural. E, no caso do budismo, também fortalecemos a visão de um budismo étnico e cultural, em detrimento de uma prática possível e adequada a, potencialmente, qualquer um — independente de origem étnica, ou mesmo de familiaridade com outras culturas, ou a suposta capacidade de se adaptar a nichos culturais.

Por um lado, o respeito para com a origem étnica e os elementos culturais do budismo faz parte do processo de adaptação, tanto como entender que não há uma “mente ocidental” que careça de um “budismo brasileiro”.

Por muito tempo eu mesmo me acostumei a contrapor visão ocidental á visão oriental, mas ultimamente tenho conseguido repensar a situação, e assim todas as ocorrências de “pensamento ocidental” e outros adjetivamentos similares se mostram facilmente trocáveis, com vantagens, por “pensamento hegemônico”, “visão globalista contemporânea” ou “perspectiva moderna” — enquanto que o que eu gostaria de dizer como “oriental” frequentemente se mostra muito mais vantajosamente explicitado como “cultura budista”, “ensinamento do Buda”, “budismo de raiz étnica” ou “visão tradicional budista” (uma vez que geralmente só estou falando do budismo mesmo).

Apresento essa nota e recomendação para as pessoas que escrevem sobre o assunto, e particularmente para a academia, um tanto porque sinto muita vergonha alheia do que vejo por aí.


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