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Força própria vs. força do outro

Li que, dependendo da escola, ou se chega a iluminação pela própria prática, pelo esforço próprio, ou pela bênção de um Buda. Como é isso?

Esse é um problema próprio do budismo japonês, esse tipo de discussão não chegou a acontecer no budismo indiano, tibetano, ou mesmo do Sul da Ásia.

A ideia, lá no Japão, é que haveriam escolas que frisam o esforço da própria pessoa (ainda que tenham professores e budas, e patriarcas, e textos) e escolas que frisam os votos de alguém como Buda Amitaba (ainda que tenham prática de algum tipo, algum tipo de oração ou esforço, e toda a estrutura normal de professores, instituições, etc.)

Assim, há um longo debate sobre isso, mas é exclusividade do budismo japonês. Essa discussão parece ser bem importante no Japão por cerca de 500, talvez 800 anos. No resto do budismo, ninguém ouviu falar nisso.

Na visão que está nos sutras mahayana mesmo, aceitos por todas as escolas japonesas e tibetanas, não há separação verdadeira entre budas e seres sencientes. Essa separação é meramente aparente. Faz parte da ignorância, a realidade não é assim. Na realidade, não há essa separação. Quando dizemos "natureza de buda", isso não é algo dentro ou fora. Buda Amitaba não é um ser em algum lugar lá longe, uma terra pura vermelha — ou pelo menos não apenas. Ele é também, e talvez de forma mais importante, o nosso próprio voto e impulso de beneficiar os outros.

Não vemos assim nesse momento porque, basicamente, somos burros. Então, talvez no Japão eles não tenham lido direito, ou talvez seja uma coisa específica do temperamento japonês. Como não pratico budismo japonês, não tenho como saber.

Parece mais um motivo para o zen brigar com a terra pura. Como eu pratico budismo tibetano, não tenho nada a ver com isso.

Então, Buda Amitaba está além de ser força própria ou força do outro (jiriki e tarike em japonês). Também a prática de meditação, que parece ser um esforço próprio tão grande. Sem refúgio no Buda, ela só vai produzir resultados mundanos. Então, sob certo sentido, em certa medida, Buda Amitaba é força própria, e meditação (e a prática das paramitas) é força do outro. É importante entender isso, não há separação verdadeira.

A questão força do outro vs força própria é meio assim como a pergunta "você já bateu na sua mulher hoje?" Se você responde que não, então ainda vai bater. Então a pergunta é capciosa, tem uma maldade dentro. Essa questão da força própria e força do outro tem também uma maldade dentro, mais propriamente, uma ignorância. Não estou dizendo que essa ignorância denigre o budismo japonês. Nós que praticamos budismo com outras origens étnicas e outras histórias certamente temos nossas próprias ignorâncias e discussões bobas, mas essa ignorância em particular foi fomentada por lá.

Na internet do Brasil ainda tem gente muito preocupada com isso, mesmo tendo acesso há tantos professores contemporâneos que claramente explicam a inseparatividade contida nos sutras mahayana, e como prática e realização, absoluto e relativo, dual e não dual, podem e precisam ser integrados.

A iluminação é a remoção de tudo que impede reconhecer a inseparatividade, que é a natureza real das coisas. Aí se alguém quer dizer se a a iluminação é a natureza real das coisas, ou a remoção que permite ver isso, embora isso sempre esteja presente, então se vai ver que não tem muita diferença.

Como meio hábil, sim, em todas as escolas: uma pessoa que esteja fazendo muito esforço, de forma rígida, inflexível, pode ser aconselhada a se focar nas qualidades do Buda. Uma pessoa que seja muito relaxada, pode ser aconselhada a se focar no processo de remoção. No fim, as duas coisas são inseparativas, mas em casos específicos, no treinamento, a pessoa pode ser aconselhada a se esforçar menos, mais, ou se focar mais ou menos nas próprias qualidades ou nas qualidades dos outros, inclusive budas. Isso tudo varia das dificuldades próprias da pessoas e nada tem a ver com o status real das coisas o que realmente faz um Buda, que é a própria inseparatividade.

No budismo tibetano, mesmo o guru é visto como uma expressão do seu próprio mérito, da sua própria "força". Você só é capaz de ver um Buda no seu professor porque o seu próprio "buda interno" é muito forte. Esse é o espelho, símbolo crucial no budismo tibetano. O primeiro sinal da natureza de buda, segundo o budismo tibetano, é encontrar um professor externo. Isto é, o que aparece como externo é o primeiro indício de que você está se relacionando bem com o Buda interno. No final, não há separação alguma. Por isso que chama "guru ioga". União com o guru, inseparatividade com o guru.

Mesma coisa com refúgio ou encontrar o Buda Sakyamuni. Isso não se deve a ação dele. Isso se deve ao nosso mérito. A ação dele é totalmente imparcial, então o fato de eu gostar do Buda e meu porteiro não estar nem aí para o Buda, depende totalmente dele e de mim, e nada do Buda Sakyamuni. O Theravada parece, superficialmente, frisar a força própria, mas não se faz nada sem refúgio.

A pessoa pode pensar "mas eu só ouço o Buda, e aplico o que parece bom, testo, e então tudo depende de mim". Mas o que faz ela poder ouvir o buda e entender, e conseguir colocar em prática? Esse mérito e disposição que ele tem é esse "buda embrionário" querendo se manifestar. Se ela não tivesse isso, não tivesse revelado um pouco disso, nenhuma prática ou entendimento faria sentido ou poderia revelar qualquer coisa. Revelar o que, também, nesse caso? O exemplo do Buda Sakyamuni é crucial em todas as linhagens. Isso é "força do outro".

"Mas eu tiro minhas próprias conclusões!" As conclusões de uma pessoa não são apenas as conclusões próprias dela. Alguém só entende o ensinamento da perspectiva da sabedoria, que é a perspectiva do Buda. Enquanto alguém estiver na perspectiva de curioso, querendo entender algo por "esforço próprio", como se fosse um ser independente, nada no darma vai fazer sentido algum.

Algumas vezes o pessoal fica um pouco na semântica cristã, de "salvação", de não querer pensar o Buda como um elemento externo que vem nos socorrer. Mas tudo que nos socorre não é nada mais que nosso mérito, e nosso mérito, depois que tomamos refúgio, não é nada mais do que o mérito do próprio Buda. Assim, caso ajude alguém pensar em termos de salvação, isso também é um meio hábil disponível no budismo. Porém, como tudo, há uma inseparatividade. A pessoa precisa estar aberta a ser salva. E o que é a prática senão revelar a natureza de Buda, que está além totalmente além dos conceitos de força própria e força do outro?

E sim, o esforço dos outros nunca é suficiente, se fosse, todos estariam iluminados — já que se os Budas existem, e pudessem praticar por nós, já estaria tudo resolvido. A bênção dos Budas é sem limitações, mas de forma geral é preciso fazer esforço para se conectar com ela, devido a nossos obscurecimentos.

Novamente, todos os budas estão além da dicotomia "externo e interno" ou "dual e não dual" ou "eu e outro". Todos eles.


Isso é comum a todo o mahayana, sinceramente não entendo porque os japoneses gostam tanto dessa discussão. Será que eles traduziram mal os sutras? Acho que não. E é claro que mesmo no Japão há um caminho do meio com relação a força própria e força do outro.


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