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Distorções Comuns

Quais são as distorções mais comuns quando um brasileiro busca praticar o darma?

achar que o objetivo da meditação seja esvaziar a mente e não pensar em nada.1Acho surpreendente que esse seja um dos pontos mais discutidos quando a mensagem é repostada em fóruns. Mestre Dogen claramente disse "meditar é pensar além de pensar e não pensar", e no budismo tibetano, um treinamento na ausência de conteúdos mentais é causa de renascimentos pouco-auspiciosos, como animal, por exemplo. A não conceitualidade da meditação não é uma simples ausência de conteúdos, um não pensar que é apenas um "branco mental", e sim um estado de inteligência vívida que não tem fixações. Sobre o assunto escrevi em Além dos conceitos: o intelecto visto como obstáculo.

acreditar que os ensinamentos sejam explicações (sobre a realidade, sobre como as coisas de fato são) e não um método para ir do sofrimento à liberdade.

dar muita importância ao contexto histórico (muitas vezes ao mesmo tempo em que paradoxalmente se dá pouca importância ao aspecto formal), tratar o o darma como um evento social e cultural apenas.

acreditar que é suficiente ler sobre budismo e tentar praticar sozinho (não levar a sério o refúgio na sanga).

acreditar que não há problema em estudar o darma aleatoriamente, ou de acordo meramente com desígnios e inclinações pessoais.

achar que o professor é dispensável.

qualificar o professor por carisma, número de alunos ou sucesso como empreendedor, e não por conexão pura com a linhagem e autenticidade dos ensinamentos.

acreditar que renúncia significa cortar a relação com as pessoas ou ser indiferente para com elas.

achar que compaixão leva a uma espécie de passividade para com quem nos prejudica (uma pessoa compassiva seria sempre "passada para trás", ou feita de boba).

achar que todo monge é um professor do darma, que todo lama é monge, e coisas desse tipo (confundir títulos hierárquicos dentro de uma organização, ordenação tomada através de votos perante a sanga e ordenação pela linhagem através da realização).2Sobre isto escrevi em Hierarquia e estilos de vida

achar que se pode simplesmente "escolher" qual linhagem se segue, ou mesmo que prática se faz ou que ensinamento se aceita, como se fosse um produto num supermercado que avaliamos prós e contras e levamos para o caixa — sem entender que este são processos de relacionamento com a sanga, e não decisões unilaterais, mesmo porque dependem muito de conexões e possibilidades cármicas que podemos possuir ou não.

acreditar que o eu é algo a ser destruído; o eu nunca existiu, senão como uma convenção sem referência correspondente (uma coisa definida, separada, tangível ou intangível, concreta ou abstrata) que intensamente tomamos como real por força de hábito. Apego ao eu é o problema, o eu é apenas uma convenção sem referente, entre ilusões que se encontram.3Toco lateralmente no assunto em Filosofia da linguagem ocidental e vacuidade budista

achar que iluminação é apenas uma espécie de êxtase.

achar que "samsara" é um mundo inerentemente existente ("este mundo", ou ainda, o trabalho, os filhos, a festa, ou "o universo" dos físicos — e raramente o centro de darma ou uma montanha isolada por exemplo), e não uma experiência.

achar que os reinos são meras metáforas, reificando o reino humano como inerentemente existente — ou, no extremo oposto, acreditar na existência inerente do reino humano ou de todos os reinos.4Discorro sobre o tema em Seriam os reinos budistas apenas metáforas.

achar que o budismo promove algum tipo de liberalidade ou relativismo, ou se engajar numa forma moralista de budismo, onde a ética por obediência a regras está acima da ética por sabedoria.

acreditar que os diversos níveis de ensinamentos são incompatíveis, ou achar que não há níveis de ensinamentos. Confundir os níveis de ensinamentos e usar subterfúgios da interpretação com base no entendimento absoluto para desconsiderar problemas relativos ("se perder na visão").

em algumas formas de budismo tratar as práticas e ensinamentos como uma "escolinha", na qual se procura atingir o mais rápido possível a "pós-graduação".

achar que noções de renascimento superam por si só o medo da morte.

achar que renascer necessariamente é uma boa coisa.

achar que carma é linear, que carma é destino (alguém prejudicando outro ser estaria "ajudando aquele ser a experimentar seu carma"), que existem "senhores do carma", confundir carma com culpa.

achar que o tempo de prática ou de estudo que um determinado praticante necessariamente implique que ele seja um bom praticante.

achar que os títulos, roupas ou posto que um praticante possui ou exibe necessariamente impliquem que ele seja um bom praticante.

buscar o darma como quem se filia a um clube (apenas uma atividade social a mais), ou buscar o budismo para ganhar um título, ou roupas, ou posto.

esperar uma cobrança para efetuar oferendas em dinheiro ou trabalho (e pior, a cobrança é feita, numa dupla distorção que passa a ser circular).

esperar que o darma venha até você — não achar necessário viajar, mesmo dentro do próprio Brasil, para ir atrás de ensinamentos — e esperar que uma "filial" seja instalada em sua cidade, por iniciativa da "central" (e pior, mesmo sem uma sanga existir, numa dupla distorção, a "central" produzir um templo e ficar esperando uma sanga se formar — sendo que a sanga que faz o templo, não vice-versa).

tratar o professor como amigo, terapeuta ou pai (embora o professor possa usar essa conexão para nos tocar de alguma forma, devemos paulatinamente entender o papel do professor e nos posicionarmos de acordo, e não descansar nessas atitudes).

esperar que os budistas sejam santos e realizados e (naturalmente) decepcionar-se ao encontrar com eles.

esperar que todos os budistas pratiquem desapego ao estilo monástico mais despojado, não entender que a prática do desapego pode ocorrer em meio aos objetos dos sentidos, e que, portanto, mesmo alguém muito próspero e mesmo ostentador, ou alguém com claros defeitos aparentes, por exemplo, pode ser um bom praticante de desapego (o que ficaria evidente quando não sofresse com a natural impermanência de seus supostos objetos de apego).

esperar que as pessoas na sanga sejam agradáveis (ou pior, achar que você pode ser desagradável porque todos ali deveriam ser bons praticantes de paciência).

usar o templo/sala como clube para encontrar amigos (ou mesmo namorado(a)s).

tomar os retiros como apenas ou necessariamente um momento de descansar da vida atribulada (muitas vezes eles são mais intensos e cansativos do que nossa vida cotidiana).

procurar o budismo para vencer o estresse ou ficar mais saudável — tratar o budismo como uma mera forma de terapia (embora possa ser uma porta de entrada, é preciso amadurecer esta pseudoconexão e transformá-la numa conexão de fato).

procurar no budismo explicações sobre o "sentido da vida" ou a "natureza da realidade" (em geral, se essa for a atitude, apenas surgirão mais dúvidas — a atitude com relação ao darma é reconhecer a doença verdadeira, o sofrimento da experiência cíclica, e buscar o darma como remédio, não como explicação).

decepcionar-se por não ser proselitizado.

Este texto foi escrito em 2001 e levemente adaptado com o passar dos anos.



1. ^ Acho surpreendente que esse seja um dos pontos mais discutidos quando a mensagem é repostada em fóruns. Mestre Dogen claramente disse "meditar é pensar além de pensar e não pensar", e no budismo tibetano, um treinamento na ausência de conteúdos mentais é causa de renascimentos pouco-auspiciosos, como animal, por exemplo. A não conceitualidade da meditação não é uma simples ausência de conteúdos, um não pensar que é apenas um "branco mental", e sim um estado de inteligência vívida que não tem fixações. Sobre o assunto escrevi em Além dos conceitos: o intelecto visto como obstáculo.

2. ^ Sobre isto escrevi em Hierarquia e estilos de vida

3. ^ Toco lateralmente no assunto em Filosofia da linguagem ocidental e vacuidade budista

4. ^ Discorro sobre o tema em Seriam os reinos budistas apenas metáforas.


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