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Fé e inserção do budismo tibetano no mundo moderno

(respostas dadas a uma revista)

O que é a fé para o budismo tibetano?

A palavra "fé" não existe em línguas orientais — não há uma tradução precisa —, e a experiência de fé varia muito. O budismo é uma religião em que a ideia de um criador ou ser absoluto não é aceita, e que encoraja um exame bastante racional de seus preceitos. Não adianta uma pessoa aceitar o que o Buda disse só porque o Buda disse — o próprio Buda, no Sutra dos Kalamas, explica que algo não deve ser aceito simplesmente porque alguém supostamente "especial" afirmou, mas sim porque se revela verdade na nossa experiência e através de nossa inferência racional.

Porém, isto não quer dizer que o aspecto emocional não exista, ou seja menos importante. No budismo tibetano muitas vezes se usa palavras como "devoção" e "bênção" — e sentir um anseio positivo e uma abertura com relação a nossos professores ajuda a entender melhor os ensinamentos. Ajuda de fato a examiná-los com carinho e aplicação. Isso é muito valorizado, e em muitos aspectos se assemelha ao que chamam de fé no cristianismo ou no ocidente de forma geral. Fé então ganha uma dimensão de simples positividade, com relação ao mundo e aos ensinamentos. Que pode muito bem ser manter uma atitude cética, mas de boa vontade e abertura. Essa boa vontade e abertura são deliberadamente cultivados, de fato. Num sentido último, fé é uma espécie de flexibilidade cognitiva e confiança na própria capacidade de discernimento, uma abertura ao que é positivo, a criação hábitos mentais menos rígidos e mais positivos.

Quais os caminhos atuais da fé na visão do Budismo Tibetano? (objetivos, número de praticantes, faixa etária, classe social, jovens praticando).

O budismo tibetano esteve em alta na mídia ocidental durante o fim dos anos noventa até a metade da década passada, e então começou a voltar para um lugar menos ressaltado. O budismo, de forma geral, tem 2600 anos, e há projetos de tradução em andamento nesse momento para línguas ocidentais. Em cerca de 200 anos provavelmente teremos o cânone básico do budismo tibetano (que é um dos maiores) em línguas ocidentais, embora não o português. A partir daí, e de um entendimento maior da tradição, que é profundamente distorcida tanto na visão acadêmica quanto na visão popular, é possível que o budismo já tenha uma forma própria assentada no ocidente. Os valores budistas ligados a interdependência (em contraponto à noção de que a natureza é uma criação) são vistos pelos budistas como particularmente importantes para a sustentabilidade do mundo, uma vez que este se encontra ameaçado por uma crise ambiental sem precedentes, sem falar em uma crescente desigualdade econômica, que gera tensões e vários tipos de sofrimento.

Porém, na medida em que as pessoas assumam esses valores de interconexão profunda, o budismo não se preocupa necessariamente com seu crescimento nominal, mas com sua influência sutil. Se outras tradições, como têm feito, assumirem ideais desse tipo, será o melhor para todos. O budismo não precisa crescer nominalmente, isso pode de fato até ser um problema — grandes centros budistas acabam se tornando quase como empresas, e muitas vezes perdem o foco e se tornam apenas entidades que administram fortunas.

Como é o relacionamento do Budismo Tibetano com outras religiões?

O budismo tem um histórico de bom relacionamento com outras tradições na Ásia — é possível dizer até que o budismo se relaciona melhor com outras tradições, historicamente, do que internamente (umas tradições budistas com as outras). O budismo fundou a primeira universidade, em Nalanda, no ano 600 — e esse título "universidade" é dado não só pelo número de alunos (10.000), mas pelo escopo dos estudos — que incluiam as inúmeras tradições espirituais da rica cultura indiana. Professores de outras tradições eram convidados a debater, e havia um intercâmbio intenso.

Hoje em dia ninguém espelha melhor os ideais de Nalanda do que Sua Santidade o Dalai Lama, que também trabalha incessantemente para eliminar disputas sectárias dentro do próprio budismo.

E com a ciência?

Novamente, no espírito de Nalanda, Sua Santidade dialoga incessantemente com cientistas, e já afirmou claramente que se a evidência científica refutar algo que está em textos budistas, o que deve ser aceito é a evidência, e não o texto — de acordo com o ensinamento do próprio Buda. Essa atitude, bem como os recentes estudos sobre a psicologia e neurofisiologia da meditação, colocam o budismo como a tradição espiritual que possivelmente melhor dialoga com a ciência hoje.

Como o Budismo Tibetano vê o futuro da fé? (adaptação aos novos tempos, crescimento/ou não da religião, crescimento de ateus, como as pessoas terão a percepção sobre a fé de maneira geral).

O budismo tibetano sem dúvida tem aspectos religiosos muito fortes, mas a palavra "religião" também não designa exatamente o que é o budismo em geral ou o budismo tibetano em particular. O budismo não cai exatamente sob as definições de ciência, religião ou filosofia — mas contém aspectos de cada coisa, sendo algo que o ocidente não sabe ainda bem rotular. Algumas pessoas dizem que o budismo é uma "força civilizatória", uma tendência de paz ou sustentabilidade, com base da interdependência, que busca beneficiar todo nicho que encontre — seja um indivíduo, seja toda uma cultura. Ele pode ser popularmente mais praticado como simples conexão emocional, mas ganha contornos empíricos e racionais claros quando aprofundado — e todas essas dimensões são importantes.

Além disso, como já dito, o budismo não aceita a noção de criador, e, portanto, estritamente, o budismo é ele mesmo ateísta! Claro, esse termo veio a designar certa forma de ceticismo materialista, e nesse caso o budismo não é ateísta. O materialismo é um desafio para o mundo porque ele está vinculado a perda de valores, epidemias de doença mental e simples infelicidade, e destruição ambiental. Então, embora a conexão emocional com uma religião talvez não seja possível ou desejável para todos, desafiar o materialismo é importante como questão de bem-estar e sobrevivência.

Caso a perspectiva de que somos apenas sacos de carne semi-robóticos que existem apenas para consumir não seja superada, não há futuro possível. Algumas pessoas sem dúvida se beneficiam de uma conexão emocional e de fé, e para isso as várias tradições, bem como o budismo, têm algo a oferecer. Mas além disso, no mundo de hoje é preciso também oferecer métodos empíricos e raciocínios claros — e a tradição budista, como tantas outras, tem todos esses aspectos: emocional, vivencial e racional. Talvez o budismo, que ainda é tão incipiente no ocidente, ainda possa fazer uma grande contribuição para a sustentabilidade do mundo.


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Jack Kerouac e o Budismo

"Já leu o livro Os Vagabundos do Dharma 'The Dharma Bums' de Jack Kerouac? Qual a ligação deste livro com o darma?" // Basicamente Kerouac se interessou pelo budismo por um período nos anos 50, até uns 5 anos antes de sua morte, no fim dos anos 60. O conhecimento de budismo dele era superficial, e um tanto distorcido. // Esse livro é da primeira fase de deslumbre dele em contato com alguns textos budistas -- ele não chegou a conhecer um professor ou ouvir uma palestra, ou fazer prática em grupo. // Allen Ginsberg, no entanto, lá pelos anos 70 finalmente veio a consolidar o entendimento do budismo e seguir um professor, se tornando alguém que tinha uma noção leiga, mas válida, do budismo, e um praticante. // Eu não tomaria Dharma Bums como indicador de qualquer coisa sobre o dharma, apenas um indicador do interesse de Kerouac e outros beats no assunto. Um dos personagens no livro é inspirado em Gary Snyder, que viveu um tempo no Japão e também é (está vivo) hoje um bom praticante e conhecedor (embora nos anos 50, seja difícil precisar exatamente o quanto ele já entendia, e ele foi sem dúvida caricaturado no livro de Kerouac.) // 3a. onda: A distorção dos descolados
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Prostrações

Uma explicação sobre a prática budista de refúgio em corpo.

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