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Budismo e Segredo

Para o budismo theravada o Buda teria concedido a maior e mais importante parte de seus ensinamentos de forma pública. Afinal, porque o Buda esconderia as instruções liberadoras dos seres? Seria uma extrema falta de compaixão da parte do Buda ele segregar informações de segmentos da sanga. No entanto, no budismo mahayana, o entendimento dos meios hábeis do Buda se dá no exato contexto de um tratamento médico: os remédios (ensinamentos) possuem peculiaridades, eles podem servir a uma vasta gama de condições, ou a apenas uma condição muita específica; eles podem até mesmo ser bastante perigosos, isto é, terem muitos possíveis efeitos colaterais, interações medicamentosas problemáticas, e contraindicações, ou serem suficientemente inócuos e gerais ao ponto de poderem ser expostos em público sem grandes problemas.

Há um livro sobre o Sutra do Coração (a forma mais condensada do ensinamento sobre a vacuidade, o texto central da maioria das escolas mahayana) chamado “The Heart-Attack Sutra”, isto é, o Sutra do Ataque do Coração, porque efetivamente, embora esse coração aí no título signifique “cerne” ou “essência” (do ensinamento sobre vacuidade), consta que os monges do hinayana1“Hinayana” é um termo utilizado pelo mahayana para designar certas formas de darma mais antigo ou atitudes que podem surgir em praticantes contemporâneos que o mahayana diretamente critica. Theravada é uma forma de darma antigo que sobrevive contemporaneamente. Não são a mesma coisa, embora partilhem pelo menos boa parte do cânone, e muitas vezes sejam confundidos. Chamar o theravada de hinayana necessariamente envolve algum nível de critica por si só, e é assim é naturalmente tomado como ofensa pelos praticantes theravada. passaram mal, sofreram ataques cardíacos, ao ouvir sobre a vacuidade dos próprios ensinamentos do Buda. Isto é, para alguns alunos, o ensinamento sobre a vacuidade foi assustador ao ponto de causar um efeito orgânico terrível. Digamos que um enfoque mais gradual fosse provavelmente mais hábil num caso em que os ensinamentos causem tal grau de perturbação.

E porque esses ensinamentos eram tão perturbadores? Bem, a maioria, ou melhor dizendo, todos os ensinamentos (incluindo aí os do hinayana) possuem algum grau de “explosão” de nossas concepções arraigadas. O que nos impede de reconhecer nosso estado natural, nossa verdadeira natureza, são concepções arbitrárias e hábitos embasados nessas concepções, que, segundo os ensinamentos, carregamos e reificamos ao longo de muitas vidas. A prática budista visa exatamente desconstruir ou dissolver estas artificialidades, como limpar um bloco de minério grosseiro, revelando um diamante a lapidar de forma que cada face reflita perfeitamente todas as outras. Se de início usamos uma ferramenta de corte para lapidação, feita de outros diamantes, enquanto a pedra ainda se encontra encoberta por lodo grosseiro, não sabemos nem bem onde cortar — sem falar de que sujamos a lâmina, e nem mesmo limpamos verdadeiramente a pedra. É só quando a pedra está bastante limpa que, estudando a peça, podemos saber como maximizar a superfície de reflexão de cada faceta, em termos de ângulo, tamanho e formato, para que a peça funcione bem como um todo. Caso comecemos cortando muito fundo, podemos perder parte da peça, ou simplesmente nossos cortes desinformados passam a introduzir novas variáveis dentro do que seria a melhor lapidação final.

No caso da vida de um praticante, cada elemento biográfico, cada ruga e cicatriz em nossa face, é uma interdependência a ser considerada, e uma futura possível base de uma “marca de Buda”, isto é, aquilo que vai possivelmente inspirar outros a realizar o que eles percebem como digno de realizar. Nossa prática visa abandonar tudo que precise ser abandonado, e, dessa forma desnudos, naturalmente cada elemento se torna um repositório das bênçãos da linhagem.

Pois bem, no mahayana temos uma boa quantidade de ensinamentos e textos que foram supostamente concedidos em assembleias mais restritas. Essa também é parte da justificação do mahayana perante o theravada, que argumenta possuir os textos mais antigos e autênticos. O mahayana diz “bom, os ensinamentos que o Buda deu em nosso contexto não eram tão públicos”, afinal o Buda não queria matar as pessoas do coração, ou prejudicar o caminho espiritual delas introduzindo noções e práticas que elas poderiam utilizar equivocadamente. O theravada nega a existência ou necessidade desse tipo de distinção (de ensinamentos públicos e privados), ainda que, é claro, aceite que certos ensinamentos são mais indicados para certas pessoas ou temperamentos em determinados momentos, e que, enfim, exista uma multiplicidade e variedade nos ensinamentos e em suas aplicações, variando de acordo com circunstâncias. O vajrayana eleva a classificação dos ensinamentos a um nível de laboratório bioquímico — há uma intensificação gradual da complexidade quanto a "engenharia" da aplicação dos ensinamentos enquanto vamos do hinayana até o vajrayana, passando pelo mahayana. Pode haver ensinamentos desenhados e executados para o uso de um único ser, o Buda é capaz dessa compaixão. Alguns desses ensinamentos bastante específicos podem ser danosos para a grande maioria das pessoas, e em alguns casos, danosos até mesmo para o próprio ser para quem foram desenhados, caso aplicados no momento errado.

O vajrayana afirma que esse tipo de laboratório de manipulação produz medicamentos extremamente poderosos e eficazes, mas bastante perigosos, no sentido de que eles algumas vezes requerem exames laboratoriais constantes (convívio com a sanga, entrevistas com gurus), e um uso muito criterioso. Eles podem facilmente se tornar venenos se combinados com outros medicamentos, ou se aplicados incorretamente.

Mas, além da intensidade, o vajrayana eleva o segredo no budismo a outro patamar de sentido. Todos os elementos do vajrayana são descritos nos níveis externo, interno e secreto — secreto querendo dizer essencial. Em particular, nossa própria natureza, em nosso estado usual, não iluminado, é dita “secreta”. As três portas, do corpo, fala e mente, são, secretamente, desde o tempo sem princípio, como as do Buda, ou inseparáveis das do Buda (e do guru). Revelar o segredo é então se iluminar. E o vajrayana opera o tempo todo com um segredo revelado, isto é, já somos Budas — a prática é exibir esse segredo. Mas exibir esse segredo não é simplesmente passar a esperar que os outros nos tratem como Budas porque nos dizemos Budas. (O mais correto seria, pelo contrário, servir aos outros como se fossemos Budas, desde já.) E seria extremamente grosseiro revelar um segredo que não se conhece: se dizer Buda sem realmente ser e se ver, intimamente, como um Buda. O segredo é em primeiro lugar secreto para nós mesmos. O vajrayana é um treinamento de se autorrevelar esse segredo, mas o próprio segredo é utilizado como método. Proclamar o rugido do leão é chamar os Maras para batalha: estamos realmente prontos? Ser compassivo consigo mesmo é ocultar a prática, manter uma vida de praticante secreto, não falar dos ensinamentos ou de sua conexão com o darma. Ensinar, se necessário for, apenas por exemplo. E, quando falar, manter o selo do segredo. Quem tem a senha penetra na mandala.

Isto é utilizado como um motivador pessoal e social, porque nossa curiosidade, quando é cheia de frescor e totalmente livre de maldade, é a própria fonte de nossa autodescoberta e autorrealização. Tudo no vajrayana exige discrição. O material de prática, textos, instrumentos etc., deve ser mantido, em certa medida, oculto. Algumas coisas você não mostra nem para o amigo da sanga. O melhor é nunca exibir nada, e, se perguntado, responder sinceramente e de acordo com a circunstância, dentro do possível. Nunca se revela que iniciações se tomou, quantos retiros fez, quantos mantras se recitou. Sonhos, só se conta os muito mundanos — aqueles nos quais recebemos ensinamentos etc., mantemos para nós mesmos, ou falamos para o guru, se ele estiver disponível para nos ouvir e não formos incomodá-lo com bobagens.

De um ponto de vista histórico e social, podemos pensar em perseguições religiosas, e com certeza vale manter as práticas dentro de um escopo de discrição também por isso. Mas mais ainda, manter a discrição nos protege de, num nível interno, nos envolvermos com orgulho e inveja, maquinações sobre o que os outros acham de nós, por exemplo. Em outras palavras, a discrição e o low profile nos ajudam a não ficarmos tão presos em tagarelice mental.

Num nível secreto, o segredo é “autossecreto”, o que não diz muito, apenas que meramente falar ou ler sobre ele não “o revela”. Algumas vezes isso é usado como desculpa para liberar certos textos “pode ler, é autossecreto”, isto é, um texto que não seria recomendado acaba sendo lido por alguém que não foi propriamente examinado como tendo um bom momento, uma boa interdependência, com aquele texto. Muitas vezes isso não leva a problema algum, porque a pessoa não tem aquelas experiências de meditação e efetivamente não consegue conectar (“entender”) o que está lendo com nada na vida dela. Porém, e aí o perígo, é quando a pessoa acha que entende. Nesse caso ela pode desenvolver visões errôneas e o texto pode se tornar um obstáculo para a própria realização espiritual que ela supostamente anseia.


1. ^ “Hinayana” é um termo utilizado pelo mahayana para designar certas formas de darma mais antigo ou atitudes que podem surgir em praticantes contemporâneos que o mahayana diretamente critica. Theravada é uma forma de darma antigo que sobrevive contemporaneamente. Não são a mesma coisa, embora partilhem pelo menos boa parte do cânone, e muitas vezes sejam confundidos. Chamar o theravada de hinayana necessariamente envolve algum nível de critica por si só, e é assim é naturalmente tomado como ofensa pelos praticantes theravada.




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