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O Pseudo-budismo do Rudra “Osho”

Há muitos professores que soam budistas, mas que ensinam visões errôneas1Visões errôneas são ideologias e ideias que levam a maior dificuldade na aplicação do treinamento da mente e a simplesmente mais sofrimento para si próprio e para os outros. de acordo com o darma. Há outros que apenas ensinam versões diluídas, que se tornam distrações perante o que poderia vir a se tornar uma prática coesa dos ensinamentos do Buda. O que também é uma grande infelicidade.

O recente documentário sobre o Osho/Rajneesh causou alguma controvérsia. Aqueles que viam qualidades nesse professor consideram que sua principal regente e administradora infelizmente o traiu e causou uma série de confusões e crimes. Ele mesmo, para alguns, segue “perfeito”, pelo menos em letra. O documentário é bastante bem feito e imparcial. Porém, basta entender rudimentos do budismo para ver que o ensinamento de Osho2Este título é concedido a grandes professores do Zen Budismo, e Osho apenas se autointitulou dessa forma, algo que não ocorre na tradição budista, onde títulos são sempre conferidos por outros mestres e pela comunidade, e não pela própria pessoa. Títulos conferidos pela própria pessoa a si mesma são, é óbvio, inerentemente fajutos., mesmo sem entrar nas confusões e crimes perpetrados, sempre foi absolutamente incompatível com o que o Buda ensinou.

Há algumas semelhanças superficiais. Por exemplo, Osho é bom em copiar certa atitude radical e aparentemente transgressora dos ensinamentos budistas. (Que aliás, é de fato uma peculiaridade do budismo na Ásia, embora algo dessa atitude também ocorra no taoísmo.)

Isso, no entanto, não é novidade. Os transcendentalistas e o movimento Beat já vinham aplicando esse “marketing budista” do espírito independente por pelo menos 100 anos. E formas distorcidas de budismo com essa veia “revolucionária” ou “libertária” existiam desde que os românticos alemães haviam se apropriado do zen.3Há uma série de textos meus sobre o assunto.

Osho parece de fato ter criado um produto com o que sugou de várias tradições do subcontinente indiano, misturando essa sopa envenenada com o capitalismo mais básico, e o que quer que estivesse em voga na mente dos alunos a prospectar. Com que propósito ele fez isso? Difícil de dizer, mas provavelmente o de ser uma pessoa poderosa e viver bem, o que não é propriamente uma motivação espiritual. Pode não ter sido sempre assim, ou não ter começado assim, mas é evidente que, pelo descontrole que se produziu na própria comunidade, havia algo bem podre naquele reino. E possivelmente começava com o líder.

A ideia central de que a espiritualidade pode existir em meio ao luxo e ao poder é efetivamente algo presente no tantra budista e hindu. No entanto essas tradições são embasadas não no capitalismo, mas numa forte base ética tradicional (da cultura mesmo) e em votos bastante estritos. Um grande professor budista já falecido costumava dizer que Osho foi um “quebrador de samaya” – isto é, alguém que rompe compromissos tântricos, a forma mais séria de compromisso. Uma quebra que leva ao pior resultado possível, a transformação num “Rudra”, ou uma forma petrificada do ego, cheia de discurso espiritual sobre como “ir além do ego”. Isso não é algo incomum, de fato, o tantra é considerado um sistema perigoso e foi sempre abusado e mal utilizado por muitas pessoas.

A pessoa não deveria nem beber da mesma água ou partilhar uma refeição, ou sentir o cheiro do perfume, de um quebrador de samaya, sobre o risco de prejudicar a própria prática, particularmente se a pessoa é um aspirante ao tantra.

Assim, quando você é um praticante do budismo, particularmente do budismo tibetano (que em sua totalidade tem raízes tântricas), e vê alguém defendendo o Osho, e você entende tanto o que o Osho fez quanto o que você pratica, você se afasta dali o mais rápido possível. Se você é um praticante do tantra, uma pessoa que defende o Osho pessoa é simplesmente um objeto de compaixão, e uma fonte de contaminação para sua prática. Você não entra em contato sem usar máscara e aquele macacão de proteção com que se trabalha com material radioativo! O que os tantras ensinam, literalmente, é que se você já tem uma prática, e houver um traço que seja de controvérsia com relação a um guru, você não deve se aproximar.

Para que se colocar em perigo dessa forma?

Ademais, Sua Santidade o Dalai Lama considera que o enfraquecimento da tradição budista na Índia, que levou a sua destruição em sucessivas invasões muçulmanas perto do ano 1000, se deve, espiritualmente, ao fato do tantra ter sido distorcido e ensinado muito abertamente, se tornando fonte de reprovação pública por parte do establishment tradicional muçulmano e hindu (não tântrico). Ademais, o aspecto secreto do tantra é enfatizado por todos os professores genuínos.

Não é de surpreender, no entanto, considerando a operação de “tablóide de fofoca tântrica” que Osho operou, que o termo “tantra” tenha a conotação de “sexualidade espiritual” devido exatamente a esse movimento. Pergunte a qualquer pessoa ignorante e a palavra “tantra” estará ligada, “top of mind”, a anúncios de massagistas e livros do Osho. Esse é o legado que ele deixou para o termo “tantra” em nossa cultura. Isso por si só é de uma degeneração sem fim, uma vez que, embora o tantra utilize mesmo forte simbolismo sexual (e de violência, esse é um aspecto que Osho ignorou em seus livros, o que, considerando assassinatos e pessoas andando armadas em seus centros pode facilmente mostrar que ele tomou o tantra errônea e literalmente também em outros sentidos, embora não tenha escrito a respeito), há muita teoria e prática desvinculada disso, tanto no budismo quanto no hinduísmo.

Considerando isso, uma pessoa seriamente interessada no tantra acharia o que do Osho mesmo? A maioria das pessoas que eu vejo defendendo Osho está envolvida no mesmo tipo de distorção dos ensinamentos tântricos em que ele se engajou. E tem que entrar num escafandro para chegar perto deles e não sentir o cheiro da quebra de samaya.

E o tantra não é só imagens ou simbolismo ligados a sexualidade e violência, mas o que fazer? Osho pisoteou o nome da tradição, e isso vai levar muito tempo para corrigir, se é que algum dia vai ser corrigido.
Sua Santidade o Dalai Lama é um professor tântrico, um dos maiores professores vivos do tantra. Você vê ele promulgando sexo e armas por aí?

Independente da motivação de Osho, no entanto, apenas ao analisar seus textos, o que vemos é uma espiritualidade, que como muita coisa no movimento de autoajuda, visa agradar hábitos e tendências do leitor. Ninguém lê um texto budista sem ficar desconfortável, porque sempre os ensinamentos apontam um descompasso entre o que acreditamos e o que é real. Porém, em Osho e na maioria da pseudo-espiritualidade e autoajuda, o que ocorre é uma confirmação de tudo que o leitor já acha – um mínimo denominador comum da espiritualidade de boteco média do clichê de maconheiro iletrado –, adicionado de algumas epifanias fabricadas, ao estilo de “puxa, eu não tinha pensado nisso”, mas no fundo, era exatamente o que você sempre achou.

Qual o resultado? Pessoas justificadas em sua arrogância, como Sheela. Sheela não é um fenômeno bizarro ou extremo naquele ambiente. Ela estava usando o poder que Osho havia lhe concedido, do jeito que Osho ensinava. Passe por cima dos outros. Ser canalha é ser espiritual. Ganhar dinheiro e gozar o sexo do jeito que for é sempre espiritual, nem pense duas vezes, vá em frente. Você é livre para dopar mendigos, e usar as pessoas como quiser, porque afinal de contas, você é uma espécie de super-homem nietzscheano espiritual. Ou pelo menos o “super-homem nietzschiano do leitor desavisado de Nietzsche”, que também é o mesmo leitor de Osho, diga-se de passagem – aquela pessoa sem cultura, sem critério, sem prática espiritual coerente.

“Mas ele me levou ao darma” se ouve de alguns. Ora, mau carma seu ter começado por aí. Agora que você superou essa cachaça, não fique nisso.

Da mesma forma que outros divulgadores, talvez menos daninhos, como Eckart Tolle, Jung, D. T. Suzuki, Krishnamurti, Alan Watts, está na ora de focar no darma mesmo, e não nessas tentativas distorcidas.
Temos professores genuínos, mais conteúdo fidedigno do que esses próprios autores puderam eles mesmos chegar a entrar em contato. Porque vamos ficar presos nessas tentativas fracassadas de entender o budismo? Ou pior, em professores que deram tão errado quanto Osho?



1. ^ Visões errôneas são ideologias e ideias que levam a maior dificuldade na aplicação do treinamento da mente e a simplesmente mais sofrimento para si próprio e para os outros.

2. ^ Este título é concedido a grandes professores do Zen Budismo, e Osho apenas se autointitulou dessa forma, algo que não ocorre na tradição budista, onde títulos são sempre conferidos por outros mestres e pela comunidade, e não pela própria pessoa. Títulos conferidos pela própria pessoa a si mesma são, é óbvio, inerentemente fajutos.

3. ^ Há uma série de textos meus sobre o assunto.


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