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Estudo de O Farol da Certeza de Mipam


01. Vídeo O Farol da Certeza de Mipam

A visão minoritária se torna hegemônica

Mipam Rinpoche compôs “O Farol da Certeza” (ངེས་ཤེས་ སྒྲོན་མེ་ Ngeshe Dronme, Wylie nges shes sgron me) aos 9 anos de idade, com a intenção de esclarecer pontos polêmicos na disputa entre principalmente a tradição gelug e a nyingma.

O que acontecia no séc. XIX era uma decadência grande das instituições de ensino “escolástico” nyingma, que nunca, a bem da verdade, foram tão boas, porque a tradição historicamente nunca se focou tanto no estudo sistemático.

Devido ao grande sucesso (merecido) dos ensinamentos de Tsongkhapa, o fundador da tradição gelug, o poderio político, econômico e militar dessa tradição, em alguns momentos, agiu de forma sectária e suprimiu visões dissidentes.

Muito embora a visão gelug seja diferente da apresentada pelas outras tradições sarma (kagyu, sakya e jonang), e certamente diferente da visão nyingma — sendo portanto historicamente minoritária —, devido a suas qualidades espirituais e seu sucesso mundano, as tradições historicamente diversas começaram a sofrer um processo de colonialismo intelectual por parte da gelug, formando uma hegemonia.

Dessa forma, professores nyingma inadvertidade estavam repassando o que eram na verdade versões gelug dos ensinamentos.

Isso é relevante para nós como praticantes do budismo tibetano na modernidade porque esse processo colonizador e hegemonizante dos ensinamentos gelug seguiu para a academia no ocidente. Devido a suas boas qualidades verdadeiras, e ao fato de por serem focados no estudo dialogarem bem com a academia, visões historicamente não minoritárias acabaram sendo menosprezadas pelos tradutores e editores, e acabaram se tornando visões minoritárias na prática.

Como praticantes nyingma (ou kagyu, ou sakya, ou jonang) o melhor é desenvolver a visão que está de acordo com esses ensinamentos. É importante entender a posição gelug, até mesmo para saber diferenciar do que se está praticando.

Sutra e Tantra

A mais popular tentativa de refutação de Tsongkhapa, efetuada por um Lama Sakya chamado Gorampa, foi acertadamente criticada pelos gelug por usar tantras como justificação para pontos de sutras.

Embora a visão dos tantras seja considerada superior (por todas as tradições tibetanas — em que sentido exatamente é um dos pontos em disputa a serem tratados adiante), a justificação e garantia dos textos tântricos é seu embasamento na literatura básica do budismo que são os sutras. Um tantra só pode adicionar perspectivas que estejam de acordo com os ensinamentos fundamentais do budismo. Assim, os tantras não servem para resolver polêmicas que surgem no escopo do sutra, e ao que parece Gorampa cometeu esse erro, ainda que os tantras a que ele tenha se referido sejam também aceitos pela tradição gelug.

Mipam portanto, aos nove anos de idade, decide justificar os pontos polêmicos dessa disputa unicamente com apelo ao sutra. Dessa forma, ele explica “O Farol da Certeza" como a coalescência de aparência e vacuidade, sutra e tantra.

As sete questões

As sete polêmicas ou pontos disputados nesse texto, de acordo com o sabche (sumário estruturado) são

1. A visão é estabelecida de acordo com qual das duas negações? (negação implicativa, de identidade ou negação não implicativa, de existência.)

2. Os arhats atingem a realização dos dois tipos de ausência de essência (dos fenômenos e do eu)? (o mahayana tradicionalmente afirma que os arhats atingem apenas ausência de essência de um eu)

3. A meditação envolve se fixar a um objeto? (o objeto de vipassana uma ideação de negação não implicativa)

4. Devemos fazer meditação analítica (vipassana) ou meditação de estabilização na tranquilidade (shamatha)?

5. Qual dos dois escopos é mais importante? O relativo ou o absoluto?

6. Que objeto as várias percepções têm em comum?

7. O Caminho do Meio (Madhyamaka) tem uma posição ou não?

 

02. Vídeo Primeiras questões sobre o estudo do farol da certeza

1. Esse texto não deveria ser restrito, por falar de dzogchen?

O texto é considerado, pela maioria dos professores, de estudo aberto, por não explicar como se realiza práticas seja do vajrayana, seja do dzogchen.

2. Será que é bom nesse momento do darma no Brasil, com tantos iniciantes, tratar de um texto tão complicado?

“Não há águas rasas na filosofia”. Algumas pessoas trabalham bem com coisas difíceis de saída, outras preferem um enfoque mais gradual. Este estudo é para as primeiras

3. A questão do termo “coalescência”.

O termo coalescência parece indicar uma mistura de duas coisas diferentes que se tornam uma, então pode ser que não se aplique ao sentido exato do que Mipam está tratando no texto.

4. A questão das expressões “verdade relativa” e “verdade absoluta”.

Verdade é o valor de uma proposição, portanto não pode ser relativa. O que se quer dizer por “verdade” no darma nesse contexto não é proposicional, e sim a extensão de sentido “fatos”. De toda forma, melhor usar duas realidades ou dois âmbitos ou aspectos da realidade.


03. Vídeo A lâmpada determinadora

nges shes (nges pa, shes pa) dronmé.

A relação entre determinação intelectual e reconhecimento direto. A perspectiva não dual que une determinação intelectual (da ausência de existência “inerente” — mais discussão sobre essas aspas adiante) e experiência direta.

Seis etapas comuns a todas as tradições tibetanas

1. Ouvir o darma

2. Refletir sobre o darma

3. Refinar o entendimento através do debate e de dirimir dúvidas

4. Certeza

5. Shamatha e vipassana alternadamente, foco em shamatha

6. União de shamatha e vipassana


04. Vídeo Os dois olhos de um intelecto bem treinado

Introdução

0.1.1.2.1.1.11Esse é o primeiro verso do texto, o número é relativo ao sumário estruturado;

“Aprisionada na rede da dúvida, nossa mente
é liberada pela luz de Mañjuvajra,
Que penetra em nosso coração como certeza profunda.
Eu de fato tenho fé nos olhos que vêem o caminho excelente!

0.1.1.2.1.1.2.
Oh, certeza preciosa,
Você nos conecta com a natureza profunda das coisas;
Sem você, permanecemos enredados e confusos
nessa rede da ilusão samsárica.

0.1.1.2.1.1.3
O desenvolvimento da confiança pela certeza
nos darmas de base, caminho e fruição,
E o ser incitado à fé pelo seu estudo2O tradutor aponta que literalmente o tibetano diz “ouvir sobre elas”, mas que isso representa o estudo do darma em geral.
São como o caminho autêntico e seu reflexo.


0.1.1.2.1.2.1
A fama da lua do darma maravilhoso3Refere-se a Chandrakirti (“Famoso como a lua”) e Dharmakirti (“Famoso como o darma”), que representam o ápice da epistemologia no sentido definitivo e convencional, respectivamente.
Surge em conjunto com a luz da fala elegante
No vasto céu dos ensinamentos do Buda,
Derrotando a escuridão pesada da dúvida.

0.1.1.2.1.2.2.
A cognição válida que examina as convencionalidades
É impecável no que diz respeito ao que aceitar ou rejeitar.
Especificamente, o corpo textual sobre a cognição válida
É a única forma de obter confiança
No professor e no ensinamento, e
o Caminho do Meio do Veículo Supremo
Elucida a cognição válida imaculada
do raciocínio definitivo que determina a natureza das coisas.
[As duas cognições válidas enfatizadas por] estes dois [sistemas]4Embora as palavras do verso surgiram que rnam pa gnyis se refira aos corpos textuais de Pramāṇa and Mādhyamika — o que é reiterado pelo comentário de Kunzang Palden — o comentário de Troshul Jamdor (KJ) sugere que estas palavras também se referem às linhagens exegéticas de Asaṅga and Nāgārjuna (“profounda”, zab e “vasta” rgya che), e que as duas formas de cognição válida se referem ao paradigma duplo da teoria de duas realidades de Mipam. Cf. KJ 0.1.1.2.1.2.2–3.

0.1.1.2.1.2.3
São os olhos de sabedoria de um intelecto bem treinado.
Homenagem aos seres iluminados que
permanecem no caminho ensinado pelo professor
sem desviar-se!”

 

05. Vídeo Como um insignificante como eu poderia responder tais questões?

0.1.1.2.2.1.1
Enquanto o sábio refletia assim,
Um medicante que passava por ali
Fez sete perguntas de forma
a examinar seu intelecto de forma crítica:

0.1.1.2.2.1.2
“Qual é o sentido de ser um erudito
e apenas repetir as palavras dos outros?
Conceda uma resposta rápida a essas questões
de acordo com seu próprio entendimento,
e assim seu grande conhecimento será evidente.

0.1.1.2.2.1.3
Embora alguns extendam a tromba de elefante de seu aprendizado,
O darma profundo, como a água em um poço, não é experimentado;
Ainda assim eles esperam se tornar eruditos famosos
como plebeus enamorados por uma rainha.

0.1.1.2.2.1.4
De acordo com qual das duas negações se explica a visão?5མེད་དགག་ (Wyl. med dgag): negação existencial (tradução preferida aqui), também negação não afirmativa (Jeffrey Hopkins, Padmakara), negação não implicativa (Rangjung Yeshe), negação direta (Ives Waldo), negação desqualificada, negação total, negação simples (Richard Barron) negação explícita, negação absoluta. (“Não há gato”.)

མ་ཡིན་དགག་ (Wyl. ma yin dgag): negação identitária (tradução preferida aqui), também negação afirmativa (Jeffrey Hopkins, Padmakara), negação implicativa (Rangjung Yeshe), negação indireta (Ives Waldo), negação qualificada, negação provisória (Richard Barron), negação predicamentada (THD). (“Não é um gato”.)

Os arhats realizam os dois tipos de ausência de essência?6Do eu e dos darmas (fenômenos).
A meditação envolve apreensão modal?7A apreensão de características, particularmente a apreensão de uma ausência de existência independente.
Devemos fazer meditação analítica ou de estabilização?8Vipassana ou shamatha.
Qual das duas realidades é mais importante?9Relativa e definitiva.
Qual é o objeto comum das diversas percepções?
O Caminho do Meio tem uma posição ou não?


0.1.1.2.2.1.5.1
Desta forma, começando com o tópico da vacuidade,
Dê respostas fundamentadas na razão,
Sem contradizer as escrituras,
Para essas sete questões profundas!

0.1.1.2.2.1.5.2
Mesmo pressionados pelas lanças serrilhadas
de cem mil argumentos sofisticados,
Essas questões ainda não foram penetradas.
Como um raio, que sua comprida língua de pândita derrube
estes pontos difíceis, que confundiram até os maiores!”


0.1.1.2.2.2.1
Assim incitado pelo intelecto,
O vento da fala vacilou um pouco,
E isso atingiu o coração do sábio
tal como uma montanha nos ventos dos fins dos tempos.
Depois de se manter em disciplina incomum10brtul zhugs, empenho disciplinado: a tradução comum “disciplina ióguica” é bastante insatisfatória. Algumas vezes também é traduzida como “conduta destemida”, “postura tântrica”, “comportamento desembaraçado” etc., e se refere a vários tipos de comportamentos pouco convencionais em que praticantes tântricos avançados podem se engajar em certos momentos de seus treinamentos de forma a avançar seu desenvolvimento espiritual e treinar na repouso na natureza das coisas. A definição no bod rgya tshig mdzod chen mo é: “para derrotar o comportamento comum, penetramos a área de comportamento incomum” (tha mal rang ga ba’i spyod pa brtul nas thun min gyi spyod pa’i gnas la zhugs pa’o. Isto é, se disciplinar para não se comportar de formas comuns, e assim se engajar em comportamentos não convencionais. Do dung dkar tshig mdzod chen mo: “se disciplinar para acabar com o comportamento normal autocentrado ao se engajar em comportamento especial” tha mal rang ga ba ci ‘dod du byed pa’i spyod pa brtul ba’am mjug sgril te thun mong ma yin pa'i spyod pa’i gnas la zhugs pa’o. Thomas Sherab Drime por um instante, ele exclamou:

0.1.1.2.2.2.2.
“Ai de mim! Se mesmo passando por centenas de testes difíceis,
E analizados vez após vez,
Os fogos dos grandes intelectos queimaram cada vez a maiores alturas,
E ainda assim não foram refinados a um estado sem faltas,
Como explicaria algo assim uma pessoa insignificante como eu,

0.1.1.2.2.2.3
de inteligência fraca,
e que não estudou por muito tempo?”

0.1.1.2.2.2.4
Então, enquanto lamentava-se assim à Mañjughoṣa,
Pelo que parecia ser o poder místico deste
Uma luz nasceu na mente do sábio.
Nesse momento, enquanto obtinha alguma autoconfiança,
Raciocinou de forma analítica de acordo com as escrituras eloquentes, e então começou a exposição.


06. Vídeo A expansão luminosa: definitivo e convencional

07. Vídeo As polêmicas da vacuidade

08. Vídeo Quem é dono da vacuidade?

1.1.
Os Gendenpas dizem que a visão é uma negação existencial;
Outros dizem que é uma negação identitária.

1.2.1
Qual é a nossa própria visão na tradição da tradução antiga11Ngagyur, isto é, nyingma.?

1.2.2.1.
No estado da grande união,
Depois de fazer um julgamento negativo de “não existência”,
Que outra coisa, tal como uma vacuidade exclusiva,
Ou algo que não é [aquilo que é negado],
Poderia estar implicado em seu lugar?
As duas coisas são apenas designadas pelo intelecto, e,
no sentido definitivo, nenhuma delas é aceita.
Esta é a realidade original além do intelecto,
Que é livre tanto de negação quanto de prova.

1.2.2.2.1
Porém, caso você pergunte sobre como a vacuidade é determinada,
Então é apenas uma negação existencial.
Tanto a Índia do glorioso Chandrakirti
quanto o Tibete de Rongzon Chozang
Com uma só voz e uma única intenção
Estabeleceram a grande vacuidade da pureza primordial.

1.2.2.2.2
Uma vez que estes darmas são primordialmente puros,
Ou porque são originalmente desprovidos de realidade intrínseca,
Eles não surgem em qualquer das duas realidades;
E assim, porque encasquetar com a expressão “não existentes”?

1.3.1.1.1.
No lugar de um pilar, primordialmente puro,
Não há absolutamente nada que não seja vazio.
Caso você não o negue dizendo, “Não há pilar algum”,
O que significa dizer que “o pilar não existe”?

09. Vídeo Vacuidade é só o começo

10. Vídeo Luz imaculada

11. Vídeo A grande união

No Luz Imaculada (comentário de Troshul Jamdor), há duas citações referentes ao verso 1.2.2.1:

“Com natureza da vacuidade, luminosidade e estado desperto,
Dotada de grandes nuvens de qualidades indivisíveis,
Espontaneamente presente e naturalmente pura como o sol,
Primordialmente livre de máculas que sejam diferenciáveis [dele]:
Assim é o darmata primordialmente puro e luminoso.” Longchenpa

“Neste sistema, todos os darmas são completamente reconhecidos como bem semelhantes a ilusões. Tendo assimilado isso completamente, nossa mente não fica mais deludida pelo poder das aparências, e não é capaz de manifestar construções mentais. Não se aceita, abandona, hesita ou faz esforço. Assim, essa realização final da natureza das coisas tal como ilusões é estabelecida pela realização da inseparabilidade das duas verdades.” Rongzonpa

E uma citação no comentário do verso 1.2.2.2.1:

“Ao contrário da tradição Mādhyamika, os Yogācārins vêem a realidade definitiva como sendo existente [por que para eles é sujeita a atributos], e eles não aplicam uma negação absoluta à imputação (parikalpita, kun brtags)12Pettit prefere “imaginação”., dizendo, “é totalmente não existente”; eles dizem que “uma realidade definitiva estebelecida como uma negação não estabelece o caminho do meio”. Assim, já que os objetos da cognição (shes bya) são vazios de imputação (kun brtags), negamos em absoluto o [status de] ser [que é sujeito a atributos] e a existência de características identificadoras intrínsecas, então não há nada deixado como uma base indicada [como o referente da imputação].” Rongzonpa

Essas três citações estabelecem a unidade da prasangika de Chandrakirti com o que é ensinado na tradição nyingma (representada principalmente por Ronzongpa, o que é clarificado por essa última citação).

Curiosamente, a colocação famosa de alguns que se afirmam Prasangikas “o pilar é vazio de existência própria, mas não é vazio de pilar”, os caracteriza justamente com o mesmo entendimento, segundo Rongzonpa, dos yogachara, que fracassa em estabelecer o definitivo de acordo com (nominalmente) todas as tradições tibetanas.

A relação entre svatantrika, yogachara, shentong e “pilar não é vazio de pilar” vai seguir no texto.


e do comentário a 1.2.2.2.2

“...o fato de que todos os darmas são vazios de natureza própria ou vazios de essência é afirmado pelas escrituras e comentários. Da mesma forma, já que isso é estabelecido por raciocínio válido, embora a tradição nyingma do mantra secreto exponha a vacuidade intrínseca (rang tong), não é a mesma ‘vacuidade intrínsica’ da dicotomia ‘vacuidade extrínsica vs. vacuidade intrínseca’. Essa diferenciação surge nos sistemas filosóficos das novas tradições do mantrayana, de forma que a asserção de [vacuidade intrínseca de acordo com as novas escolas] é de algum modo incompatível com a realidade das duas verdades integradas. Nesse respeito, há algumas diferenças [entre os proponentes da vacuidade intrínseca nas tradições novas e nós mesmos] com relação ao segundo e terceiro giro da roda do darma, na medida em que são postulados como definitivo ou expediente, se as intenções dos dois desbravadores são combinadas ou não, ou se as duas cognições validadoras devem ser igualmente enfatizadas ou não, etc”


12. Vídeo Vacuidade e didática da vacuidade

1.3.1.1.1. [As falhas na justificação através do uso da expressão “existência verdadeira”]
No lugar de um pilar, primordialmente puro,
Não há absolutamente nada que não seja vazio.
Caso você não o negue dizendo, “Não há pilar algum”,
O que significa dizer que “o pilar não existe”?

1.3.1.1.2.1 [dizer isso é negação identitária, mesmo quando se afirma existencial]
A vacuidade que é a negação do pilar
E uma aparência como sobra
Não se encaixam como “vazio” e “não vazio” numa união;
É apenas como enredar fios brancos e pretos.

1.3.1.1.2.2 [dizer isso é uma forma de vacuidade extrínseca (shentong)]
Dizer “um pilar não é vazio de pilar”
ou “darmata é vazio de ser um pilar”
é postular uma base de vacuidade, postular algo que não é vazio.
Estas são vacuidades extrínsecas verbais e ontológicas.

1.3.1.1.2.3 [contradiz escrituras e raciocínio]
Que dor! Se isso não for vazio disso mesmo,
A base vazia não é vazia, e então fica sobrando.
Isto contradiz tanto a escritura quanto o raciocínio—
“a forma é vazia de forma!”


13. Vídeo O exame da igualdade e da diferença

1.3.1.2.1.1 [Refutação pelo exame de igualdade e diferença]
Considere um pilar e a existência verdadeira de um pilar.
Se elas são uma só, então refutar uma é refutar a outra.
Se elas são diferentes, ao refutar uma existência verdadeira
que não é o pilar, o pilar
Que não é vazio de si mesmo se tornaria imune à análise.

1.3.1.2.1.2.1 [A resposta a essa crítica]
“Uma vez que a existência verdadeira não é encontrada,
não há necessidade de debater diferença ou igualdade”—

1.3.1.2.1.2.2 [A refutação da crítica]
Mesmo a existência verdadeira não existindo,
os indivíduos ainda apreendem vasos como verdadeiramente existentes.
Então, com exceção de um vaso não vazio
O que há para estabelecer como não existente?
E você acha que determinou a aparência do negandum!

1.3.1.2.1.3
Ensinar vacuidade aplicando algum qualificador
tal como “existência verdadeira” ao negandum
É claro bem conhecido nos textos Svatantrika.
Mas no contexto de analisar a realidade definitiva,
Qual é a vantagem de aplicá-lo?

1.3.1.2.2.1 [As falhas na justificação através do uso da expressão “não é vazio de si mesmo”]
Considerando que se é vazio, então mesmo enganadoramente
Um pilar será não existente,
Você tenta evitar a interpretação incorreta do termo [“não existente”]
Mas isso por si só é uma grande contradição.

14. Vídeo O uso do intelecto no budismo

15. Vídeo Reconhecer isso é maravilhoso

1.3.1.2.2.1 [As falhas na justificação através do uso da expressão “não é vazio de si mesmo”]
Considerando que se é vazio, então mesmo enganadoramente
Um pilar será não existente,
Você tenta evitar a interpretação incorreta do termo [“não existente”]
Mas isso por si só é uma grande contradição.

1.3.1.2.2.2.1
Mas você não está satisfeito de dizer simplesmente,
“Um pilar existe em termos de um engano”
Por que então dizer “Não é vazio de si mesmo”?

1.3.1.2.2.2.2.1 [contradição por não serem a mesma coisa]
Você pode dizer “O sentido dessas expressões é o mesmo”,
Mas não é assim; “Um pilar existe” e
“Há um pilar no pilar” são afirmações diferentes.
Esta última afirmação significa “Algo depende de algo”—
E é isso que no fim das contas você acaba afirmando.

1.3.1.2.2.2.2.2 [a afirmação não é razoável em termos de nenhuma das duas realidades]
Se em um sentido definitivo um pilar não é percebido,
Como é que um pilar não seria vazio de pilar?
Ao dizer “Um ‘pilar pilar’ [existe] em termos de um engano”
Você está apenas confuso, usando a mesma palavra duas vezes.

1.3.1.2.2.2.2.3 [“vacuidade intrínseca” e “não ser vazio de si mesmo” são contraditórias uma a outra]
Caso não seja vazio de si mesmo,
Então enquanto existe por si mesmo, deve ser vazio de outra coisa.
Se o negando não é outra coisa,
Isso contradiz a afirmação de que não é vazio de si mesmo.

1.3.2. [vacuidade extrínseca do que é enganoso ou do que é definitivo são ambas negadas]

1.3.2.1 [não vão produzir renúncia ou realização]
Falando em termos gerais, vacuidade extrínseca
não necessariamente se qualifica como vacuidade.
Embora uma vaca não exista num cavalo,
Como a partir disso se poderia estabelecer a vacuidade do cavalo?
Ao ver o cavalo, que bem ou mal
Isso causaria a vaca?

1.3.2.2 [a união de aparência e vacuidade, que transcende a mente estreita, é impossível]
Assim, um nirvana não vazio e
um samsara aparente não são adequados para serem darma e darmata
Aqui não pode haver união de aparência e vacuidade
Ou igualdade de paz e existência cíclica.

1.3.2.3 [se fosse o caso, todo mundo facilmente atingiria realização]
“A lua na água não é a lua no céu”—
Se você acha que a vacuidade de ser da lua no céu
e a aparência de lua na água
são a união de forma e vacuidade,
Aí a realização da união seria fácil para qualquer um.

1.3.2.4 [não seria adequado para grandes seres louvar essa perspectiva]
Todo mundo sabe que uma vaca não é um cavalo;
Eles vêem diretamente a aparência da vaca.
Por que o Mahatma teria dito,
“Reconhecer isso é maravilhoso”?

16. Vídeo Vacuidade extrínseca e negação implicativa

17. Vídeo União na não elaboração

18. Vídeo Atingir a bonança

1.4.1
Portanto, em nosso próprio sistema,
Caso examinemos a lua na água, aquela lua
Não é encontrada de forma alguma, e de fato não existe;
Quando a aparência da lua na água se evidencia,
ela é negada ainda que apareça.
[Ela é negada enquanto algo que parece, isto é, uma lua verdadeiramente existente.]

1.4.2.1
Vacuidade e existência são contraditórias
na mente de uma pessoa comum.
Mas aqui, essa união evidente é dita “maravilhosa”;
O louvor do sábio se dá com palavras de surpresa!

1.4.2.2
Caso examinemos pelo lado da vacuidade,
Já que absolutamente nenhuma coisa não é não vazia,13“Todas as coisas são vazias” é o jeito direto de dizer isso, porém aqui parece ser frisada a dupla negação, a negação não é afirmativa — na qual não se afirma uma coisa para lhe dar um atributo: vazio; mas sim em que não se afirma coisa alguma que não essa negação que não afirma.
Podemos simplesmente dizer que todas as coisas “não existem”.

1.4.2.3.1
Mas essa não existência não é autossuficiente,
uma vez que surge desobstruidamente como aparência.
E essa aparência também não é autossuficiente,
uma vez que subjaz numa grande vacuidade sem fundamento.

1.4.2.3.2
Ali, distinções tais como “isso é vazio daquilo”,
Ou “Aquilo é vazio disso,”
Ou “isso é vacuidade e aquilo é aparência,”
Jamais são encontradas;

1.4.2.3.3
Quando desenvolve confiança interior nisso,
Aquele que examina não será frustrado
Por análise descabida,
Mas irá atingir a bonança — que fantástico!

19. Vídeo Veículos dos ouvintes e dos solitários

20. Vídeo A crença e apego ao eu como base do sofrimento

2.1.1.1
Alguns dizem que os arhats shravaka e pratyekabuda
Não realizam a ausência de eu dos fenômenos.

2.1.1.2.1
Na medida em que o eu que é a apreensão
dos agregados como o mero “eu” não é eliminado,
Isso é a causa das aflições mentais não serem abandonadas

2.1.1.2.2
O eu que é uma designação feita
Com respeito aos agregados é o objeto
da apreensão inata de um eu. E também dos vasos, etc.
Fora não serem as mesmas coisas, as bases da vacuidade
não diferem em seus modos de vacuidade;
Uma vez que pessoas e fenômenos são,
as duas coisas, vazias de sustentação intrínseca.

2.1.1.2.3
Assim, isso é provado pela escritura e pelo raciocínio,
Ir além disso e dizer que
“Shravakas e pratyekabudas não realizam a vacuidade”
é só uma opinião.

2.1.2.1
Desse ponto, alguns tiram conclusões sem fundamento e dizem que
Os caminhos de visão dos três veículos são o mesmo
E que não há distinções nos níveis de realização.
Eles interpretam o Prajnaparamita e mantra, todo o sutra e o tantra,
como textos de sentido expediente.


21. Vídeo Um gole do espaço

2.1.2.2.1
Nestas interpretações, quando aqueles que já passaram por caminhos inferiores
Alcançam o caminho da visão no mahayana, e assim por diante
Haveria problemas, tais como não ter o que renunciar;
Pelo raciocínio, o prejuízo deles seria incorrigível.

2.1.2.2.2
Além disso, ao ter realizado o que precisa ser realizado,
Eles dizem que ao renunciar o que precisa ser renunciado,
[É necessário que se] alie [a prática com acumulações —
[Mas isso significa que] não há realização, o que contradiz a afirmação de haver realização.
Afirmar que o sol nascente depende de mais alguma coisa
para superar a escuridão — que esquisito!

2.1.2.2.3.1
Alguns dizem que os shravakas e pratyekabudas realizam a vacuidade
Dos cinco agregados de seu próprio contínuo de experiência,
Mas que não realizam a ausência de essência dos outros fenômenos

2.1.1.2.3.2
Caso alguém realize a vacuidade dos cinco agregados,
Então, com a exceção de fenômenos não compostos [como o espaço ou a cessação (nirvana)],
que outro darma ficaria de fora?

2.2.1.1
Qual é a posição de nossa própria tradição?
O autocomentário do glorioso Chandrakirti
Diz que de forma fazer abandonar os obscurecimentos, os budas
Ensinam a ausência de eu pessoal aos shravakas e pratyekabudas,
E que de forma a fazer abandonar obscurecimentos cognitivos, eles ensinam
aos bodisatvas como realizar a ausência de essência dos fenômenos.

2.2.1.2
“Bem, então o que se quer dizer
que tanto os shravakas quanto os pratyekabudas
têm realização da vacuidade?”

2.2.1.3.
Com o fim de abandonar as aflições mentais
Os shravakas e pratyekabudas meditam na ausência de eu pessoal;
Mas “Eles não meditam na inteireza da ausência de essência
de todos os fenômenos” — é isso que ensina [nossa tradição]

2.2.2
Longchen Rabjam disse que embora no passado
Mestres de tradições antigas tenham disputado
Se [tais classes de praticantes] realizaram ou não [as duas formas de ausência de eu],
Nossa própria posição é que, não importa quais tipos de shravakas e pratyekabudas
Tenham surgido no passado e atingido o estado de arhat
Eles não se liberaram sem
realizar a vacuidade da ausência do eu que é
a apreensão dos agregados.
Mas apenas ter essa realização não significa
que eles atingiram a ausência de eu de forma completa.
Da mesma forma que o espaço dentro de uma semente de gergelim
É comida por um verme,
[A realização deles] é reconhecida como uma ausência de eu inferior.
Então, para usar palavras que refutam a menor [das duas realizações]
Se diz que “eles não realizam a vacuidade”
Essa explicação é excelente e extremamente eloquente,
Não há nada melhor do que ela.

2.2.3.1
Por exemplo, caso alguém beba um único gole
Dá água de um grande lago,
Não se pode dizer que não bebeu o lago.
Uma vez que eles vem a ausência de eu do mero “eu”,
Que é um fenômeno entre outros, é dito que
os shravakas e pratyekabudas reconhecem a vacuidade.
Mas da mesma forma que ao beber um único gole não
se bebeu o lago inteiro
uma vez que eles não realizam a natureza de todos os conhecíveis
como sendo vacuidade, é dito que eles não reconhecem a ausência de eu perfeitamente.


22. Vídeo Quem falou em ausência de eu?

23. Vídeo Se vale tudo, não vale nada

2.2.3.2.1
Caso alguém reconheça a vacuidade de uma única coisa,
Como não poderia reconhecer a vacuidade de todas as outras coisas?

2.2.3.2.2.1.1
Caso, de acordo com as escrituras o raciocínio e as instruções essenciais,
Essa pessoa examinasse as coisas, claro que a reconheceriam.
Mas, na sua maioria, aqueles a quem virão a ser
shravakas e pratyekabuddhas
Se fixam a ausência de eu das pessoas,
E assim é difícil para eles realizar os demais extremos [do catuskoti]
Da mesma forma que aqueles que analisam um vaso
Podem acabar afirmando que suas partes indivisíveis existem substancialmente.

2.2.3.2.2.1.2
Caso a mente que realiza [a ausência de eu]
Depois de analisar o vaso também fisse
analisar partículas indivisíveis, seria razoável que reconhecessem [sua vacuidade];
Mas geralmente eles não realizam essa vacuidade.

2.2.3.2.2.1.3
Embora bases grosseiras e átomos pareçam contraditórios,
Já que [os shravakas e pratyekabuddhas] em sua maior parte não possuem
Escrituras que tratam disso, não possuem esses modos de raciocínio e as instruções essenciais correspondentes,
Eles praticam sistemas que não as contradizem

2.2.3.2.2.1.4
Da mesma forma, os seguidores do sistema cittamatra
não aceitam a existência de objetos externos,
Então porque eles não aceitam também a não existência do sujeito?
Por que um svatantrika não utilizaria o raciocínio que estabelece
A ausência de verdade última para compreender o não estabelecimento
convencional das características intrínsecas (rang mtsham)
Então, para você todo mundo é um prasangika!
Como os shravakas e pratyekabuddhas poderiam denegrir o mahayana
[caso fossem prasangikas]?

2.2.3.2.2.2
Assim, embora a natureza de uma coisa
Seja também a natureza de todas as coisas,
Na medida em que as causas e condições externas e internas
Não estejam completas, a realização virá gradualmente.


24. Vídeo 10 mil éons perdido no nirvana

2.2.3.2.2.3.1
Em geral, aqueles com mentes aguçadas atingem a realização por si só,
enquanto que os embotados
Não necessariamente atingem a realização imediatamente.

2.2.3.2.2.3.2
Em algum ponto, a realização é inevitável;
Ao fim de dez mil éons, se diz,
O arhat acorda do estado de cessação,
e entra no caminho mahayana.

2.2.3.2.2.4.1.1
Para permanecer apropriadamente no caminho Mahayana,
É preciso cultivar a si mesmo por um éon incomensurável.
Então porque não seria possível para
os shravakas e pratyekabuddhas, que se esforçam por sua própria felicidade,
realizar todas as formas de ausência do eu
ao longo desses [dez] mil éons [que eles passam em cessação]?

2.2.3.2.2.4.1.2
Não é o caso que aqueles que atingiram os bhumis
gradualmente clarificam e aperfeiçoam sua realização?

2.2.3.2.2.4.2
Com a ajuda das acumulações,
modos infinitos de raciocínio, bodicita,
A conduta que [se segue a isso], e a dedicação perfeita—
Quando essas condições estão completas, é certo
que se atinge a realização,
Da mesma forma que o conhecimento dos meios hábeis é uma condição
para a rápida realização no caminho do mantra.


25. Vídeo Estabelecendo o veículo único

2.3.1.1
Mesmo caso já se tenha abandonado noções de um eu permanente,
Ocorre apreensão instintiva de um “eu” com relação aos agregados.
Assim [é dito], “[Enquanto houver] apreensão dos agregados,
haverá apreensão do ‘eu’” — esta afirmação [do Ratnavali (Guirlanda Preciosa de Nagarjuna)]

2.3.1.2
Significa que, na medida em que uma base de designação for imputada aos agregados,
E à mente que os apreende,
As causas para a designação de um eu estarão completas,
E como resultado disso, não haverá cessação da apreensão de um eu.

2.3.2
Assim, mesmo se um eu permanente fosse abandonado,
Uma vez que o objeto em relação ao qual a designação de eu
é instintivamente aplicada não é eliminado,
Nada poderia opor a ocorrência de apreensão de eu.

Assim, no contexto de abandonar aflições mentais,
A afirmação “É preciso reconhecer os agregados e assim por diante como vazios”
Não é o sentido da passagem [no Ratnavali]
Esse sentido foi explicado dessa forma por Chandrakirti:

2.3.3.1
Caso alguém reconheça a mera designação de “eu”,
Isso é suficiente para acabar com a apreensão do “eu”.
Embora alguém não saiba que a corda não existe,
Ao ver a ausência de cobra, a apreensão de cobra cessa.

2.3.3.2
Enfim, se alguém realiza os dois tipos de ausência de eu.
A talidade de todos os fenômenos é única,
E a forma de reconhecer essa talidade é a mesma,
Assim Nagarjuna e seu filho Chandrakirti expuseram
Uma linha de raciocínio que estabelece o resultado de um veículo único.

2.3.3.3
Caso, como a sua escola diz, os shravakas e pratyekabuddhas
já tivessem reconhecido a realidade, como essa linha de raciocínio
poderia estabelecer um veículo único?
É só uma afirmação.

2.3.3.4.1
Aqui, a sabedoria primordial da união
Que reconhece o definitivo
É exatamente idêntica à talidade;
Todos os seres sublimes se direcionam a ela, e nela penetram.

2.3.3.4.2
Assim, ao compreender bem esse sistema,
os sistemas de Nagarjuna e Asanga são como
a combinação de melado e mel;
uma pessoa faminta os digere com facilidade.

2.3.3.4.3
De outra forma, como ocorre com a comida imprópria,
É possível sentir o desconforto do câncer se produzindo.
Ao ser esfaqueado e fincado com cem lanças afiadas
de escritura e raciocínio, só o que surge é medo.


26. Vídeo Arhats e bodisatvas


27. Vídeo É melhor meditar com ou sem objeto?


28. Vídeo Nada apreender certo e errado

3.1
Quando ao se engajar na prática principal da visão,
Alguns dizem que não se deve apreender nada.
O sentido de “não apreender nada”

3.2.1.1
Pode ser bem compreendido, ou equivocadamente.

3.2.1.2.1.1
A primeira [forma de entender]
É livre da elaboração dos quatro extremos.
Pois na sabedoria dos seres sublimes,
nada parece subsistir.
Dessa forma, a fixação a características [apreensão modal] naturalmente cessa;
É como olhar para um céu vazio e luminoso.

3.2.1.2.1.2
A segunda é o sistema da “não mente” de Hashang:
Apenas permitir que a mente relaxe numa ausência livre de análise
e sem o aspecto de claridade do discernimento penetrante.
Assim o praticante segue um ser ordinário, como uma pedra nas profundezas do oceano.

3.2.1.2.1.3.1
Por exemplo, embora ambos digam que “não há nada”,
O madhyamika vê que não há nada em verdade,
enquanto o outro apenas imagina a ausência de forma;
Da mesma forma aqui, embora as palavras pareçam as mesmas,
os sentidos são tão diferentes quanto o céu e a terra.


29. Vídeo Meditação não analítica

30. Vídeo Ironia na não elaboração

31. Vídeo Zazen no budismo tibetano?

32. Vídeo É bem comum entender errado

3.2.1.2.1.3.2.1
Portanto, se na ausência de elaboração dos quatro extremos,
Não se apreende nenhum dos quatro extremos,
Se está além dos quatro extremos, e a apreensão modal se dissipa;
Uma vez que não surge, dizemos que não há apreensão modal.

3.2.1.2.1.3.2.2
Caso alguns idiotas pensem que “já que não há apreensão modal,
desde o princípio se deve relaxar e não se fixar a nada”—
Então, uma vez que todos os seres já estão bem relaxados no seu estado comum,
vagando a esmo nos três mundos do samsara,
Não há razão para encorajá-los ou lembrá-los!

3.2.1.2.2.1
Alguns podem dizer, “Reconhecemos a natureza da mente,”
sem real entendimento; Ao se reconhecer o definitivo,
é preciso sem dúvida realizar a ausência de existência verdadeira.
Que “aparências deludidas sejam uma coisa, e eu outra”
É algo óbvio e não requer nenhuma meditação.


33. Vídeo Não encontrar não tem fim

3.2.1.2.2.2.1.1.1
Você pode dizer, “Ao examinar a cor, forma origem, cessação
E assim por diante, da mente, nada é visto;
Isso é realização da vacuidade.”

3.2.1.2.2.2.1.1.2.1
Este sistema de ensinamento é extremamente profundo,
Porém, também nele há grandes erros que se pode cometer;
Uma vez que a mente não tem forma,
É impossível que alguém veja sua cor, etc.

3.2.1.2.2.2.1.1.2.2
Assim, é um grande erro pensar que ao apenas não ver essas coisas
Seria o mesmo que ser apresentado a vacuidade.
Ao se examinar a própria cabeça de centenas de jeitos diferentes,
Os chifres de um ruminante nunca serão encontrados.

3.2.1.2.2.2.1.1.2.3
Dizer que não ver algo é reconhecer sua vacuidade —
Isso não seria fácil para qualquer um?


34. Vídeo Apreensão modal, o que é, para que serve?

35. Vídeo Usar a mente não é reconhecer a mente

3.2.1.2.2.2.1.2
Portanto, se através dessa análise racional
Se reconhece precisamente a natureza das coisas,
Se reconhecerá profundamente a irrealidade essencial
Da mente ilusória, que é como uma ilusão.
Então, exatamente como ao fitar diretamente o espaço,
Se obterá certeza profunda sobre a natureza da própria mente.
Que embora em movimento, é vazia.

3.2.1.2.2.2.2.1.1
Você pergunta, “Bem, então, essa sua mente —
É não existente, como o espaço,
Ou ela tem uma cognição separada?”

3.2.1.2.2.2.2.1.2
Como a mente vibrante que todos possuímos
Não descansa um momento sequer, certamente todos diriam
que há alguma forma de cognição.
Assim, você diz que a mente,
Que não é existente e tampouco é inexistente,
É o darmakaya luminoso.
Embora ele não tenha estudado muito,
uma pessoa que afirma introduzir a natureza da mente
Pensa que isso é um ensinamento ao estilo de
“Conhecendo-se a um libera-se a todos”

3.2.1.2.2.2.2.2.1
O ensinamento de “não é existente e tampouco é inexistente” na Grande Perfeição
É a liberdade dos quatro extremos da elaboração.
Caso você examine a mente com cuidado,
Não se pode dizer que exista,
E tampouco se pode dizer que não exista.

3.2.1.2.2.2.2.2.2.1
Mas, de fato, sua mente não vai além
dos dois extremos de existência e não existência,
e nem mesmo ao extremo onde não é existente e tampouco é inexistente.
Você está só mantendo um pensando sobre a mente na base
de ela ser “não existente e tampouco inexistente”

3.2.1.2.2.2.2.2.2.2
Fora o nome, ao se falar das coisas dessa forma,
isso não é em nada diferente do “eu inconcebível” do apóstata.


36. Vídeo Análise, apreensão e não elaboração

3.2.1.2.2.2.3.1
A mente e os darmas que não são a mente
São determinados como irreais, e nesta base
as aparências surgem como relatividade,
Que está além do pensamento e da expressão de “existência” e “não existência”
Este é o ponto crucial da liberdade da elaboração dos quatro extremos.
Que não tem um ponto focal e tudo permeia.

3.2.1.2.2.2.3.2
[Porém] apenas dizer “isto é livre de existência e não existência”
É colocar um alvo perante a mente.
Na dependência dessa apreensão de eu e outros como entidades reais,
Entramos continuamente no rio do samsara.

3.2.2.1.1.1
O antídodo que dá fim a tudo isso é a
apreensão modal da ausência de eu.
Caso não se entenda a forma pela qual a ausência se dá,
Simplesmente postular não existência não ajuda em nada;
Caso você confunda uma corda com uma cobra,
Não ajuda em nada pensar “Não há cobra alguma”;
Mas se você reconhece como ela não existe, ela simplesmente desaparece.

3.2.2.1.1.2.1
Assim, ao ter reconhecido a vacuidade por meio da análise,
não se deve ficar satisfeito com apenas a análise,
Uma vez que o hábito de se apegar a entidades reais vem do princípio sem princípio,
Você deve meditar vez após vez com a apreensão modal.

3.2.2.1.1.2.2
Ao meditar na ausência de eu a visão de um eu
se desenraiza, e por isso ela foi exortada como necessária
por muitos sábios reconhecedores da verdade que praticaram muito.

3.2.2.1.1.2.3.
Como essa é a entrada segura para os iniciantes,
dizer que a apreensão modal deve ser abandonada
Desde o princípio é um rumor disseminado por Mara.


37. Vídeo Refinando a meditação


38. Vídeo O farol da não fixação

3.2.2.1.2.1
Quando você obtém certeza excepcional na ausência de verdade
Induzida por essa apreensão modal,
A própria apreensão de não existência
não é a natureza final das coisas,
Portanto, medite na grande vacuidade livre de elaboração,
Livre de ambivalência conceitual.

3.2.2.1.2.2
Quando você realmente compreende a ausência de verdade,
A vacuidade surge como relatividade,
Sem apreensão seja por forma, seja por vacuidade.
Isto é digno de confiança da mesma forma que o
Ouro refinado pelo fogo.

3.2.2.1.2.3
Embora essa questão extremamente profunda
Tenha sido reconhecida pelo esforço persistente
Dos grandes iogues eruditos da Índia e do Tibete,
Meus pêsames para aqueles idiotas que acham que ela
pode ser reconhecida num instante — estão minados de dúvidas!

3.2.2.2.1
Na prática principal da absorção,
Os fenômenos reais e potenciais, saṃsāra and nirvāṇa,
Estão além da existência e da não existência. Se na natureza das coisas
A existência e a não existência não são estabelecidas em lugar algum,
A apreensão enviesada [não é nada além] elaboração conceitual.
Assim, quando analisando de forma racional,
Não se vê nada estabelecido em lugar algum;
Dessa forma, como poderia surgir apreensão?

3.2.2.2.2
Porém, se você analiza a natureza da liberdade
Perante os quatro extremos de elaboração, a certeza é obtida.
A partir desse discernimento penetrante, a sabedoria luminosa
autossurgida se torna brilhante como um farol.

3.2.2.2.2
Seu oposto — a noite escura dos
quatro extremos dos intelectos inferiores —

3.2.2.2.3
É desenraizada por esse mesmo antídoto;
Assim, quando se medita a respeito dela, a certeza surge.

 


39. Vídeo A visão além da visão

3.2.3.1.1
O espaço fundamental além do intelecto em que
as elaborações dos quatro extremos são instantaneamente eliminadas
É difícil de reconhecer de uma vez só
do nível de uma pessoa comum.

3.2.3.1.2
O sistema de estudo e reflexão
Serve para a eliminação das elaborações dos quatro extremos passo a passo.
Na medida em que nos acostumamos com ele,
Cada vez mais cresce a certeza;
Nosso intelecto, que faz com que a reificação equivocada se dissipe,
se amplia como a lua crescente.

3.2.3.2
A visão infundada que não apreende a nada
Não produz a confiança de que
nenhuma entidade real é estabelecida em qualquer lugar;
E assim, ela não é capaz de remover os obscurecimentos.

3.2.3.3.1
Assim, da mesma forma que a partir da fumaça se infere que há fogo,
A diferença entre essas meditações
É conhecida pelo restante da razão entre as máculas abandonadas e a realização obtida.

3.2.3.3.2.1
A meditação do idiota comum
Não é uma causa para abandonar as máculas ou a realização.
Uma vez que é um obstáculo para a produção de boas qualidades,
É como passar o chá no coador —
O aprendizado escritural e a realização passam,
Enquanto que as perturbações emocionais se acumulam.
Em particular, a confiança em causa e efeito fica diminuída.

3.2.3.3.2.2.1
Caso alguém tenha os olhos da visão autêntica,
O aprendizado a partir das escrituras, a experiência e a realização fulguram.
Por virtude de reconhecer a vacuidade,
a confiança na verdade relativa infalível de causa e efeito
Aumenta cada vez mais, e as perturbações emocionais diminuem.

3.2.3.3.2.2.2
Com o samādhi que permanece unifocadamente
No estado da certeza induzida pela análise,
O sentido último é visto pela ausência de visão (particular).

3.2.3.3.2.2.3
Não se sucumbe a nenhum objeto particular de visão
E claro, não se apreende nada.
Como o paladar de um mudo ao provar o melado,
A confiança cresce no iogue que a cultiva,
mas não pode ser produzida apenas por análise.

 


Materiais de estudo (todos em inglês)

Mipham's Beacon of Certainty (a tradução de John Whitney Pettit na amazon.com.br).

Journey to Certainty: The Quintessence of the Dzogchen View: An Exploration of Mipham's Be0acon of Certainty (livro de Anyen Rinpoche na amazon.com.br).



1. ^ Esse é o primeiro verso do texto, o número é relativo ao sumário estruturado;

2. ^ O tradutor aponta que literalmente o tibetano diz “ouvir sobre elas”, mas que isso representa o estudo do darma em geral.

3. ^ Refere-se a Chandrakirti (“Famoso como a lua”) e Dharmakirti (“Famoso como o darma”), que representam o ápice da epistemologia no sentido definitivo e convencional, respectivamente.

4. ^ Embora as palavras do verso surgiram que rnam pa gnyis se refira aos corpos textuais de Pramāṇa and Mādhyamika — o que é reiterado pelo comentário de Kunzang Palden — o comentário de Troshul Jamdor (KJ) sugere que estas palavras também se referem às linhagens exegéticas de Asaṅga and Nāgārjuna (“profounda”, zab e “vasta” rgya che), e que as duas formas de cognição válida se referem ao paradigma duplo da teoria de duas realidades de Mipam. Cf. KJ 0.1.1.2.1.2.2–3.

5. ^ མེད་དགག་ (Wyl. med dgag): negação existencial (tradução preferida aqui), também negação não afirmativa (Jeffrey Hopkins, Padmakara), negação não implicativa (Rangjung Yeshe), negação direta (Ives Waldo), negação desqualificada, negação total, negação simples (Richard Barron) negação explícita, negação absoluta. (“Não há gato”.)

མ་ཡིན་དགག་ (Wyl. ma yin dgag): negação identitária (tradução preferida aqui), também negação afirmativa (Jeffrey Hopkins, Padmakara), negação implicativa (Rangjung Yeshe), negação indireta (Ives Waldo), negação qualificada, negação provisória (Richard Barron), negação predicamentada (THD). (“Não é um gato”.)

6. ^ Do eu e dos darmas (fenômenos).

7. ^ A apreensão de características, particularmente a apreensão de uma ausência de existência independente.

8. ^ Vipassana ou shamatha.

9. ^ Relativa e definitiva.

10. ^ brtul zhugs, empenho disciplinado: a tradução comum “disciplina ióguica” é bastante insatisfatória. Algumas vezes também é traduzida como “conduta destemida”, “postura tântrica”, “comportamento desembaraçado” etc., e se refere a vários tipos de comportamentos pouco convencionais em que praticantes tântricos avançados podem se engajar em certos momentos de seus treinamentos de forma a avançar seu desenvolvimento espiritual e treinar na repouso na natureza das coisas. A definição no bod rgya tshig mdzod chen mo é: “para derrotar o comportamento comum, penetramos a área de comportamento incomum” (tha mal rang ga ba’i spyod pa brtul nas thun min gyi spyod pa’i gnas la zhugs pa’o. Isto é, se disciplinar para não se comportar de formas comuns, e assim se engajar em comportamentos não convencionais. Do dung dkar tshig mdzod chen mo: “se disciplinar para acabar com o comportamento normal autocentrado ao se engajar em comportamento especial” tha mal rang ga ba ci ‘dod du byed pa’i spyod pa brtul ba’am mjug sgril te thun mong ma yin pa'i spyod pa’i gnas la zhugs pa’o. Thomas Sherab Drime

11. ^ Ngagyur, isto é, nyingma.

12. ^ Pettit prefere “imaginação”.

13. ^ “Todas as coisas são vazias” é o jeito direto de dizer isso, porém aqui parece ser frisada a dupla negação, a negação não é afirmativa — na qual não se afirma uma coisa para lhe dar um atributo: vazio; mas sim em que não se afirma coisa alguma que não essa negação que não afirma.


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