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Budismo Tibetano no Ocidente: Está Funcionando?

Uma entrevista com Alan Wallace por Brian Hodel

Parte I: Uma Avaliação Crítica

Brian Hodel: Que adaptações os professores tibetanos fizeram para acomodar a crescente comunidade ocidental budista, formada principalmente de leigos — pessoas com trabalhos, famílias, rotinas ocidentais?

Alan Wallace: Na Ásia — Índia, Nepal, Sikkim e Butão, por exemplo — não vejo grande alteração no conteúdo apresentado aos ocidentais, apesar do formato variar em alguns casos. Por exemplo, na Library of Tibetan Works and Archives em Dharamsala, desde 1971 excelentes cadeiras sobre Budismo Tibetano têm sido lecionadas por eruditos tibetanos altamente qualificados, e apesar do formato ser alterado em alguns casos para estudantes ocidentais, os ensinamentos permanecem completamente genuínos e tradicionais.

Dessa mesma forma, desde o fim dos anos 60 ou começo dos 70, quando lamas concederam ensinamentos públicos na Ásia, apesar de direcionados principalmente para a comunidade tibetana, sempre foram abertos aos ocidentais — a menos que os ensinamentos fossem de um tipo muito avançado, como ensinamentos tântricos, por exemplo. Mesmo nestes casos, se os ocidentais fossem qualificados, tivessem as iniciações necessárias, ou se seus próprios lamas os encorajassem a participar, eram bem-vindos. No sul da Índia há um bom número de mosteiros de todas as quatro linhagens, acredito que o tipo de treinamento que é oferecido ali é bem aberto aos ocidentais. Esta é a situação na Ásia.

Agora, com relação ao resto do mundo. Nestes casos, quando lamas tibetanos oferecem ensinamentos de dharma, obviamente que suas platéias são principalmente compostas por ocidentais. Então o formato é alterado porque estes lamas geralmente estão em turnê.

É comum que concedam seminários de fins de semana, ou palestras de apenas uma noite. Em alguns casos permanecem num lugar por um tempo mais longo e organizam um retiro de uma ou duas semanas. Mas, na maior parte dos casos, esse é o maior tempo disponível. Há também alguns lamas residentes em seus próprios centros, onde um treinamento mais sustentado é fornecido.

B.H.: Ao julgar pelos anúncios que vemos, parece haver uma enorme variedade de ensinamentos oferecidos ao público. Na configuração monástica ao menos os ensinamentos seguem uma ordem coerente. Os lamas em turnê tentam apresentar seus ensinamentos em um contexto? Ou é mais como um pregador que escolhe o assunto que acha apropriado para um domingo em particular?

A.W.: No ocidente é muito comum que um lama passe por uma cidade e dê alguns ensinamentos de fim-de-semana sobre alguma prática Vajrayana — Dzogchen, Mahamudra, algum tipo de prática de deidade como Kalachakra, ou guru yoga. O que falta aqui em grande parte dos casos é o contexto aprofundado, o contexto de fé, o contexto de uma comunidade espiritual madura. Os ensinamentos em si mesmos, apesar de perfeitamente tradicionais, estão sendo introduzidos num contexto radicalmente não-tradicional. Acredito que isto em muitas ocasiões leva a terríveis mal-entendidos, muito conflito, desconforto, confusão e sofrimento desnecessários.

Lembro de um caso do fim dos anos 70, alguns grandes lamas vieram a este país e deram ensinamentos avançados. Um grupo de ocidentais na platéia, jovens de ambos os sexos, ficaram muito entusiasmados por estes lamas que estavam dando ensinamentos em conjunto. Vários deles decidiram tomar ordenação monástica ali mesmo naquele momento. E foram ordenados na ocasião. Vários deles tomaram a ordenação sem qualquer contexto, sem mosteiro, abade, nenhum tutor que lhes ensinasse os votos e os ajudasse a assimilar e aplicar os votos na vida cotidiana. Acredito que a grande maioria, se não todos naquele grupo, eventualmente retornaram seus votos. Não havia contexto para que aplicassem aquilo. Saíram dali com pouquíssimo entendimento do passo que haviam tomando.

Vivemos numa sociedade profundamente não-monástica e não-contemplativa. Adotar estas profundas e esotéricas práticas contemplativas e o estilo monástico de vida sem um contexto adequado é altamente problemático. Não estou certo de que este ponto tenha sido suficientemente abordado por muitos lamas que estão basicamente vivendo na Ásia e ocasionalmente fazem turnê no ocidente por algumas semanas. Pressentem que já que o que estão oferecendo é tradicional, o que esteja sendo recebido o seja numa forma tradicional. Mas em muitos casos não é assim.

B.H.: Você está dizendo que este grupo de lamas que deu os votos de ordenação não estava ciente de que estas pessoas não tinham contexto algum?

A.W.: É difícil acreditar que não estivessem cientes, era bastante óbvio. Então qual seria a razão dos lamas concederem ordenação e ensinamentos avançados de meditação? Ouvi alguns lamas dizerem, "estou semeando a terra, é melhor que as pessoas sejam expostas ao budismo imperfeitamente do que não serem expostas." Então, usando uma parábola do Novo Testamento, alguns grãos caem nas pedras e são comidos pelos pássaros e alguns caem em solo fértil e dão frutos. Pode até ser uma proporção muito pequena das pessoas que assiste os ensinamento, mas em alguns de fato foram semeadas sementes do que viria a ser uma prática constante e nutritiva que completamente madura trará benefício a si e aos outros. Quanto aos que caíram nas pedras, a razão dos lamas, como ouvi de alguns deles, é que ao menos estas pessoas foram expostas ao Dharma.

Porque isso se dá assim? Porque apresentam estes ensinamentos quando poderiam estar apenas dando ensinamentos básicos sobre as Dez Não-Virtudes, as qualidades das Três Jóias ou carma? Acredito que, simplificando, seja porque se os lamas se mantivessem confinados a ensinar apenas tais tópicos, poucas pessoas viriam. Antes de sair em turnê os lamas geralmente perguntam que tipo de ensinamentos os ocidentais gostariam de ter, e a resposta é na maior parte dos casos um pedido por ensinamentos avançados, digamos sobre Dzogchen ou Mahamudra. Por compaixão e pelo desejo de realizar os desejos de outros, muitos lamas aceitam ensinar desta forma. Talvez suas razões estejam em acreditar que as pessoas provavelmente sejam mais beneficiadas ao ouvir algo em que realmente se interessam, do que ao ouvir ensinamentos valiosos, mas nos quais não tem interesse — provavelmente nem mesmo viriam aos ensinamentos neste último caso.

Então temos uma situação comercial de fornecimento e demanda, muito diferente da situação na Ásia. No ocidente os ensinamentos são anunciados e lucro é obtido. Então, queiramos ou não, surge um aspecto comercial na maior parte dos casos. E mesmo se o lama tem patrocinadores abastados que cuidam de suas necessidades, ainda assim alguém tem que pagar pelas despesas de viagem e pelo local onde o ensinamento vai ser dado. Então aqui temos os altos e baixos da situação no ocidente.

B.H.: Neste ponto não há a questão dos estudantes estarem deixando-se levar pelo ego? Posso pedir ensinamentos elevados porque quero atingir a realização o mais rápido possível. Mas que valor têm ensinamentos mais sofisticados se ainda não entendi o básico? Esta é uma crítica que ouvi de muitos lamas a respeito de dar ensinamentos Dzogchen aos ocidentais sem preparação. Isto não é algo como jogar sementes diretamente nas pedras?

A.W.: Na minha experiência, lamas que concedem estes ensinamentos muito avançados enfatizam fortemente as práticas e ensinamento de fundação. Por exemplo, o Dalai Lama concedeu várias vezes os ensinamentos de Kalachakra no ocidente, mas sempre antecede o ritual esotérico com vários dias de ensinamentos de fundação.

Outro de meus professores, Gyatrul Rinpoche, muitas vezes ensinou a respeito de Mahamudra e Dzogchen, mas volta e meia relembra incisivamente: "Sim, estes são ensinamentos profundos. Sim, seria muito bom que vocês fizessem a prática. Ainda assim, nunca esqueçam dos ensinamentos de fundação. São eles os que, num futuro previsível, muito mais provavelmente causarão transformações evidentes, melhorias em suas mentes e vidas." Gyatrul Rinpoche ensina neste país há duas décadas e ainda enfatiza as práticas de fundação. Ainda assim algumas vezes os estudantes reclamam que já ouviram estes ensinamentos e não querem mais ouvi-los. Em muitos casos, mesmo que estes estudantes não tenham realizado efetivamente os ensinamentos de fundação na prática, eles já os ouviram e mais ou menos entenderam intelectualmente. Então, devido à familiaridade, perdem interesse nestes ensinamentos, não desejam mais praticá-los, anseiam por algo novo, algo profundo, algo que prometa efetivar o tipo de transformação espiritual que ainda não obtiveram.

Como Gyatrul Rinpoche muitas vezes comentou, não é que os lamas não queiram que ouçamos ou pratiquemos os ensinamentos avançados. Eles apenas não querem que nós o façamos em lugar das práticas de fundação. Ao nos distrairmos seguindo ensinamentos mais avançados sem realmente nos beneficiarmos deles, e enquanto isso, nos distanciando das práticas mais básicas, enfim ficamos sem qualquer tipo de benefício. O conselho que sempre ouvi e que abracei é que precisamos manter os pés firmes no chão com os ensinamentos de fundação, e alcançar os céus com os ensinamentos mais avançados. Só então teremos uma situação em que ganhamos em ambos os casos. Os lamas de todas as quatro linhagens enfatizam o mesmo ponto.

B.H.: Uma das maiores diferenças que parecem surgir no que você está dizendo é que no oriente — no Tibete, Índia, Nepal, etc. — tanto os tibetanos quanto alguns ocidentais estão primeiro assegurando a fundação, e só então movendo-se progressivamente para os ensinamentos mais elevados. Mas aqui muitos estudantes ocidentais obtém os ensinamentos avançados bem no princípio, mas finalmente encontram-se na situação que têm que voltar e realizar os ensinamentos de fundação na prática. Enfim, esta situação é contraproducente?

A.W.: Certamente que pode ser!

B.H.: Então gastamos muito tempo em ensinamentos avançados e finalmente descobrimos que temos que voltar e fazer o que nos pediram para fazer em primeiro lugar. Isto realmente não soa muito eficiente.

A.W.: No geral, não acho que haja muita eficiência na forma em que os ensinamentos estão sendo ensinados ou praticados no ocidente, mesmo considerando que nós, membros de uma sociedade consumista, uma sociedade orientada para os negócios, em geral priorizemos a eficiência. Aqui temos outra grande diferença entre o ensinamentos e a prática do Budismo Tibetano na Ásia em oposição ao ocidente. Se vivemos em alguma das maiores cidades do ocidente, provavelmente temos vários lamas de diferentes linhagens passando por nossa cidade aos fins de semana. Se assistimos ensinamentos e iniciações de qualquer lama que venha a nossa cidade, nossa exposição ao budismo se torna aleatória. É como ir a um bufê. Pegamos o que quer que esteja disponível, mas não há uma ordem, uma continuidade, nenhum desenvolvimento progressivo. Novamente: é muito pouco eficiente.

E, claro, isto se considerarmos apenas o Budismo Tibetano. Sem nem mesmo contar outros ensinamentos que vem a nossa cidade, como por exemplo Budismo Theravada, Zen Budismo, ou de outras tradições diferentes como Sufismo, Hinduísmo — e uma grande variedade de professores nova era. Todos eles apresentando suas mercadorias espirituais — talvez com motivação muito boa, algumas vezes talvez sem essa motivação. Vivemos numa sociedade consumista onde há mais acesso as tradições espirituais do mundo do que qualquer sociedade já teve na história registrada.

É claro que o resultado disto é uma falta de continuidade, devida em parte a uma falta de paciência. Como membros de uma sociedade consumista, queremos resultados rápidos. Isto é parte do que consideramos ser eficiente. Se vamos a um ensinamento, queremos ver resultados num fim de semana, ou em ao menos uma semana! Alguns professores estão dispostos a servir este tipo de mentalidade. Vi anúncios de eventos do Budismo Tibetano que soam realmente como extravagâncias da  Madison Avenue.

O problema disto é que alguns lamas com quem falei as vezes consideram os ocidentais — com algumas boas exceções — impacientes, superficiais e inconstantes. Na sociedade tibetana, a inconstância é considerada um dos piores vícios, enquanto a confiabilidade, a lealdade e a perseverança são muito estimadas. Devido a isso, alguns dos melhores lamas estão até mesmo se recusando a vir ao ocidente, porque acreditam que estariam gastando melhor seu tempo ensinando tibetanos na Ásia, ou simplesmente entrando em retiro e meditando. Alguns estão sentindo — dada a brevidade e preciosidade da vida humana — que doar tempo a pessoas tão inconstantes e com tão pouca fé é um certo desperdício.


Parte II — Possíveis Soluções

B.H.: Antes você falou sobre alguns dos problemas que surgem da maneira "bufê" em que os ensinamentos do Budismo Tibetano têm chegado ao ocidente, particularmente quanto à ineficiência desse formato. Considerando nossa sociedade individualista e o fato de que o comercialismo está agora em alta, não haveria também um risco de que alguns daqueles interessados no Budismo Tibetano, ou no caminho espiritual em geral, concluirão que podem escolher quaisquer práticas que apreciem, inventando suas próprias e singulares "escadarias para o paraíso"?

A.W.: Há este perigo, mas creio que existe um equilíbrio há ser estabelecido. Vamos focar primeiro os dois extremos. Um extremo é o que você sugeriu agora, individualismo: "Sei o que é melhor para mim! Escolherei o que gosto." Isto é como um garoto indo a um restaurante e dizendo, "só quero o que é gostoso."

O problema subjacente deste extremo é que, afinal de contas, estamos nos aproximando do Dharma porque não estamos iluminados, não porque já estejamos iluminados. Se não estamos iluminados, isso quer dizer que estamos deludidos. Este é o ponto central do Budismo. Então uma pessoa ignorante e deludida diz, "me coloco acima da tradição com todas suas estratégias testadas e seqüências de práticas elaboradas que têm sido oferecidas através das gerações por seres iluminados." Aqui está um extremo. Alguns podem se beneficiar um pouco ao seguirem neste estilo, mas outros podem realmente se machucar, ou ao menos perder tempo.

Aqui há outro extremo, e este é o dogmatismo que está radicalmente alienado das experiências reais das pessoas com a prática do Dharma. Os tibetanos ao longo das gerações elaboraram estratégias, ensinamentos, rituais e seqüências de práticas que foram projetadas para tibetanos. Eles não simplesmente copiaram o Budismo Indiano. Tenho grande confiança de que tenham mantido o cerne, a essência do Budismo Indiano, mas a tradição deles também modificou-se a si própria ao longo dos séculos para melhor se adaptar à mentalidade, ao ambiente, e aos costumes tibetanos. Enfim, a prova final está "no gosto do pudim", porque o que de fato se deu foram gerações consecutivas de grandes adeptos tibetanos. Indo do tempo de Padmasambhava, Milarepa, Tsongkhapa, até o século vinte — funcionou!

E assim, com este sucesso, é possível concluir que, já que funcionou para os tibetanos, nós americanos devamos tomar sua tradição, os ensinamentos  puros, exatamente como foram ensinados no Tibete, e introduzi-los em Los Angeles ou Nova Iorque. Mas a razão pela qual estes ensinamentos são considerados  puros é que eles  funcionaram no Tibete. O teste é: eles ainda funcionam? Estes mesmos ensinamentos, no mesmo formato, sem adaptações para o ocidente, transplantados para a Europa ou a América, ignorando a diferença do contexto cultural, eventualmente não acabariam causando rigidez, fundamentalismo, dogmatismo, e enfim talvez mesmo negligenciando a simples verificação de que de fato estejam produzindo o mesmo tipo de efeitos maravilhosos e transformações nos praticantes ocidentais como de fato produziram nos praticantes tibetanos.

Se os ensinamentos não trazem o mesmo benefício — se depois de trinta ou quarenta anos de budismo tibetano no ocidente não houver aqui pessoas ascendendo pelo caminho da iluminação, alcançando shamatha, vipashyana, bodhichitta genuína, as quatro iogas do Mahamudra, e os dois estágios do Dzogchen — então temos que nos perguntar: Os ensinamentos que funcionaram para os tibetanos são igualmente efetivos para os ocidentais? Temos, neste momento, adeptos ocidentais comparáveis aos vinte e cinco principais discípulos de Padmasambhava?

Até agora os lamas tibetanos percebem que seus discípulos ocidentais, aparentemente engajados nas mesmas práticas que seus discípulos tibetanos, não estão obtendo realizações comparáveis. Então devemos levantar várias questões: Como estes ensinamentos e práticas precisam ser modificados em seu formato, na sua seqüência, no seu contexto? Até que ponto as teorias precisam dialogar com as visões de mundo ocidentais? Isto é algo que relativamente poucos lamas tibetanos estão fazendo de forma significativa — poucos trazem a apresentação das visões, meditação, e forma de vida budistas para um diálogo com as visões científicas, religiosas, filosóficas, e os valores e estilo de vida ocidentais.

Enfim, temos aqui uma civilização. Vir para cá como se não houvesse civilização nenhuma, como se estivéssemos apenas largando os ensinamentos numa  tabula rasa cultural, não é razoável. Este é o outro extremo, cujos proponentes declaram, "Nós temos os ensinamentos puros!" e nem mesmo percebem se estes ditos "ensinamentos puros" estão realmente produzindo bons resultados, ou se estão apenas produzindo um bando de fundamentalistas rígidos, arrogantes e elitistas, que dizem apenas "nosso caminho é o único!" Na proporção em que isto seja o que está ocorrendo no ocidente, me parece uma forma muito rápida de transformar o budismo numa peça de museu ou algo pior.

Estes são os dois extremos, o que então há entre eles? Acredito que há uma solução, e ela está num diálogo próximo e respeitoso com os adeptos tibetanos — lamas, eruditos, contemplativos, etc. Se eles ainda não conhecem o ocidente, devemos tentar informá-los sobre seu destino, que tipo de visões de mundo e valores e estilos de vida são usuais por aqui. E, por ouro lado, onde surgir resistência ao receber ensinamentos tibetanos tradicionais, tentar compreender porque há resistência, examinar se estes ensinamentos podem ser modificados, ou se os ocidentais precisam de fato algum ensinamento preliminar antes de se engajar nos ensinamentos mais tradicionais. Realmente nos leva a sermos criativos.

Antes das transformações radicais causadas pela invasão Chinesa de 1949, as mudanças na sociedade tibetana eram bem mais lentas do que no ocidente moderno. Lá tinham uma tradição espiritual que gerara um número significativo de contemplativos e eruditos realizados, portanto não havia necessidade de inovar dramaticamente. Nessa situação, sem dúvida deveríamos enfatizar a preservação da tradição, não a inovação. Mas neste momento, em que o contexto social muda tão dramática e rapidamente para os tibetanos que vivem na Ásia, sem mencionar o budismo aqui no ocidente, é preciso haver mais equilíbrio dosado entre a preservação e a adaptação inteligente. Este é um tempo para diálogo próximo e respeitoso entre tibetanos e ocidentais.

B.H.: Os lamas tibetanos no ocidente comentam sobre isso, questionam se os ensinamentos têm sido efetivos?

A.W.: Estou certo de que há certos professores, tanto lamas tibetanos quanto professores ocidentais de budismo, que dão atenção a isto. Mas não ouvi a questão ser discutida abertamente ainda. De certa forma é um ponto delicado. Se os estudantes não estão obtendo profundo benefício de sua prática budista da forma que lhes é ensinada de acordo com a tradição tibetana, geralmente lhes é dito simplesmente que o defeito está neles, não nos ensinamentos, que são puros e infalíveis. A alternativa não é concluir que o dharma do Buda tenha defeitos, mas perguntar-se: Dentro da vasta gama de práticas ensinadas pelo Buda e posteriormente pelos adeptos indianos e tibetanos, quais práticas e seqüências de prática devem ser enfatizadas pelos estudantes ocidentais de forma que sejam efetivamente benéficas?

Para solucionar esta questão, precisamos reintroduzir um forte elemento empírico e pragmático, o que está perfeitamente de acordo com os próprios ensinamentos do Buda. Este elemento é: o que realmente nos ajuda a purificar nossa mente de forma que as aflições mentais sejam atenuadas, que achemos maior contentamento, maior serenidade, maior sabedoria, e maior compaixão? O que realmente funciona?

B.H.: Com relação ao um diálogo ocidente-oriente que possa passar por cima destes vãos que você mencionou, os seminários Mind and Life, nos quais S.S. o Dalai Lama e alguns outros lamas se engajaram com eminentes cientistas e filósofos ocidentais, seriam uma boa trilha para os tibetanos aprenderem sobre a mente e o contexto cultural ocidentais? [nota, estas conferências acontecem regularmente quase todos os anos desde 1987.]

A.W.: Sim, elas são! Nestas conferências, nas quais tive o privilégio de servir de tradutor, nos reunimos com alguns dos melhores cientistas e eruditos que o ocidente tem a oferecer. Ler os relatórios destes encontros é uma forma dos tibetanos aprenderem sobre alguns dos aspectos mais sutis, intelectualmente desafiadores, interessantes, e informativos, não somente a respeito da mente ocidental, mas das descobertas da mente ocidental. Destas conferências surgiu a iniciativa de iniciar educação científica nos mosteiros budistas no sul da Índia, o que agora está acontecendo. Ler sobre estas conferências também é uma excelente oportunidade não somente para os ocidentais aprenderem algo sobre alguns dos aspectos mais sutis e profundos do budismo tibetano, mas também para os lamas tibetanos e outros tibetanos aprenderem sobre o que está acontecendo no ocidente.

Acredito que são extremamente importantes para os budistas asiáticos mais jovens — não só no tibete, mas os tibetanos em diáspora, mongóis e outros budistas de todas as partes. O budismo está neste momento em grande perigo de ser visto pela geração mais jovem como algo antiquado, irrealista, pouco prático. O budismo é muito rico para ser descartado dessa forma em apenas uma geração.

B.H.: Certa vez você disse que é essencial para a saúde de uma religião, especificamente do budismo, continuamente produzir contemplativos professionais — aqueles totalmente dedicados à vida contemplativa. Porque isto é importante?

AW.: O Dalai Lama comentou uma ocasião que no Budismo são ditas coisas extraordinárias a respeito dos potenciais da consciência humana, realizações que têm sido alcançadas pelos contemplativos do passado — como shamatha, vipashyana, bodhichitta, insights profundos em Mahamudra e Dzogchen, uma vasta variedade de siddhis mundanos, e a iluminação completa em si — o "grande siddhi." O Dalai Lama comparou estas descrições ao papel-moeda, que vale algo apenas se as pessoas confiam que haja um padrão-ouro por trás dele. O "padrão-ouro" do papel-moeda de tais relatos budistas são pessoas em nossa geração que tenham atingido estados similares de realização.

Mesmo se há somente um décimo de um porcento da população que atinge realização de tal profundidade, isso significa que temos ao menos alguns indivíduos em cada geração que atingiram o padrão-ouro dos ensinamentos. Bem, se houver meia dúzia de pessoas numa comunidade budista em um determinado momento que possam caminhar através de paredes, voar, levitar, e que então quando morrerem, dissiparem-se num corpo de arco-íris, isto seria realmente impressionante! Então para inspirar estas realizações, precisamos de pessoas que sejam exemplos vivos. Não temos muitos exemplos de ocidentais — podemos mesmo nos perguntar se há algum — que tenham atingido algum destes estados muito elevados de realização. Enquanto os lamas mais velhos morrem, podemos até nos perguntar se há, neste momento, contemplativos asiáticos que tenham alcançado estes estados de realização. Se não for o caso, nosso papel-moeda vai começar a parecer cada vez mais uma moeda desvalorizada.

Para manter a integridade dos ensinamentos budistas, precisamos tanto de eruditos quanto de contemplativos profissionais — aqueles que se devotam tempo integral, com motivação pura, ao estudo e prática meditativa constante. Não somente por alguns meses, mas pela vida inteira. E o público leigo precisa dedicar-se a patrocinar monges, freiras e praticantes leigos sérios que desejem assumir um compromisso desse tipo. Este tem sido um elemento chave no florescimento do budismo na Ásia, e seria um erro pensar que ele florescerá no ocidente sem um compromisso similar da parte dos professores, estudantes, e da comunidade budista em geral por aqui.

 

Traduzido por Padma Dorje em 01/01/2001, que todos os seres possam se beneficiar.




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