Upagupta Encontra o Malvado
Upagupta, o quarto patriarca (detentor da linhagem e hierarca espiritual) da ordem budista, era o filho de um fiel devoto hindu vendedor de incenso. Upagupta é reconhecido como aquele que finalmente derrotou Mara, a encarnação do mal, a quem o próprio Buda havia subjugado sob a Árvore Bodhi ao atingir a iluminação. Mara, sendo a personificação do mal, é dotado de poderes mágicos.Upagupta foi convertido pelo terceiro patriarca, Sanavasika, durante um debate no meio do Rio Ganges, enquanto ambos os sábios estavam cruzando em direções opostas - um acontecimento certamente muito simbólico. Upagupta foi ordenado após perder o debate; uma semana mais tarde, através de intensiva prática de meditação, ele atingiu o estado de arhat, ou santidade. Ele tornou-se conhecido como o principal professor em Mathura, na Índia setentrional, onde o Taj Mahal foi construído.
UM DIA UPAGUPTA ESTAVA ENSINANDO uma grande multidão em Mathura quando Mara, o Malvado, fez chover arroz sobre toda a população como uma maldição. Muitas pessoas fugiram apressadas da reunião; outras correram para ver o que estava acontecendo.
No dia seguinte, Mara através de magia fez chover roupas sobre a cidade, e muitas outras pessoas abandonaram a reunião do dharma de forma a pegar algumas. E nos dias subsequentes aconteceram chuvas de prata, ouro, e dos sete tipos de jóias, até que não havia quase mais ninguém para assistir a pregação de Upagupta.
No sexto dia do discurso do patriarca, Mara, juntamente com sua esposa e filhas, tomaram a forma de belíssimos cantores e dançarinos celestiais e formaram uma trupe de trinta e seis artistas cantando maravilhosas canções enquanto desfilavam pelas ruas da cidade. Dessa forma ninguém permaneceu na reunião budista, exceto alguns anciões ordenados na ordem. Finalmente o próprio arhat Upagupta foi até a cidade ver o que estava acontecendo.
O patriarca imediatamente entendeu o que estava ocorrendo. A multidão maravilhada adormecia sob as trapaças do Malvado, fascinada com os deleites fabulosos perante seus olhos.
O próprio Upagupta louvou a divina trupe e pendurou uma guirlanda de flores em seus pescoços. Imediatamente o Malvado e seu séquito transformaram-se em velhos mendigos decrépitos vestidos em farrapos e com carcaças putrefatas de cães pendendo de seus pescoços. As pessoas não aguentaram o fedor da carne podre e sairam enojadas. Por mais que tentasse, Mara não conseguir fazer nada para reestabelecer seu poder sobre as aparências; sentiu-se completamente humilhado.
Então o patriarca Upagupta intimou Mara, o Malvado, dizendo, "Ó horrível encarnação da escuridão, porque enganastes meus seguidores? Gostarias que eles ficassem assim como tu és?"
O Mara subjugado sentiu-se completamente perdido. Grunhindo sob o poderoso mestre budista, ele implorou que o compassivo arhat liberasse tanto ele quanto sua família de suas aflições e que os colocasse de uma vez por todas no caminho da moralidade e da liberdade.
O bondoso velho Upagupta sorriu caridosamente. Ele concordou em liberá-los todos sob a única condição que prometessem nunca mais prejudicar os seguidores do Buda, incluindo todos aqueles que no futuro teriam a boa sorte de praticar os ensinamentos budistas. Mara e sua família tomaram o voto solene sob pena de morte.
Então Mara e todos seu séquito foram restaurados às suas formas semidivinas. O Malvado disse, "Nos dias do passado eu ataquei o Grande Compassivo com toda minha magia enquanto ele meditava sob a árvore Bodhi, ainda assim ele permaneceu imóvel. Tu, porém, nos ataste violentamente logo que fizemos uma pequena piada com essas pessoas - que tipo de budista tu és?" Assim Mara engrandeceu o patriarca Upagupta.
Implacavelmente, Upagupta respondeu que ele mesmo havia apenas percebido o Dharmakaya, ou a natureza absoluta sem forma do Buda, mas que nunca teve a boa sorte de ver a forma física do Buda, o Rupakaya, com cuja visão o Malvado Mara houvera sido abençoado.
Portanto, ele continuou, se Mara podia, através de seus prodigiosos poderes sobrenaturais, mostrar a Upagupta a própria forma corpórea do Buda, o patriarca budista abençoaria e liberaria Mara e todos os seus seguidores dos fortes ventos de carma negativo que os sopravam como fossem folhas secas através dos reinos infernais da existência.
Mara instantaneamente transformou sua aparência física na do próprio Buda Sakyamuni, brilhante com uma luminosidade de arco-íris. O arhat Upagupta, cheio de reverência, prostrou-se três vezes enquanto entoava a tríplice oração de refúgio: "Me refugio no Buda, no Darma e na Sanga."
Ao deparar-se com tal veneração pela verdade absoluta e ao caminho que leva a ela, Mara foi incapaz de manter suas próprias delusões e portanto perdeu o poder da ilusão. Caindo inconsciente, ele desapareceu, e seus amigos o seguiram.
Todoas as pessoas de Mathura encheram-se de maravilha e devoção. Quando Upagupta pregou o sublime dharma naquela noite, ele ainda brilhava com sua recente experiência, e naquela mesma véspera do sexto dia das maquinações de Mara, dezenas de milhares de pessoas perceberam a natureza da realidade definitiva e foram liberadas das aflições da experiência condicionada.
Desta forma, Upagupta subjugou Mara ao encontrar a forma do próprio senhor Buda, e o Malvado não foi mais capaz de obstruir o inequívoco caminho para a liberdade e onisciência seguido pelos budistas.
