Tenho “negado” o acordo ortográfico desde o início. Estava na faculdade, em 1992, quando esta história começou a tomar forma. Na época nem quis me inteirar muito – meus professores eram contra; todo mundo era contra – e, de qualquer forma parecia que a idéia não iria vingar. Quase vinte anos depois aqui está ele, virando notícia e na iminência de ser assinado. Os especialistas não foram consultados, a população não se importa, os professores de português talvez esperem um “biquinho” a mais para dar aula, embora eu ache que é muito mais necessário dar aula da grafia vigente, que continuará, no Brasil, sendo a mesma em 99,05% das palavras.
A jornalista Silvane, uma ex-aluna, me procurou para uma entrevista sobre o acordo. Ela trabalha na revista
Flash Vip, de Chapecó.
Como as alterações serão incorporadas? Este será um processo gradual?Não me parece claro no acordo como serão implantadas as mudanças. Não está previsto nenhum tipo de "moratória" ou período de transição oficialmente. Entretanto, cada país pode se organizar a fim de implantar as mudanças de forma gradativa. Embora eu tenha lido algumas notícias que falam em dois ou três anos de transição, não encontrei informações objetivas e oficiais a respeito do prazo de implantação.
Na sua opinião, qual a principal mudança prevista pelo acordo?As mudanças na grafia não são tão relevantes assim, pois a grafia geralmente não interfere muito nos aspectos semânticos (de sentido) e pragmáticos (de uso) da língua. O importante é que, ao se escrever um texto, a grafia esteja correta, ou seja, dentro das normas. Um texto em que a grafia diverge da que é apontada em lei será marcado pelo erro ou pela anormalidade. Desta forma, não há entre as mudanças (que são poucas, pois, segundo informação do
MEC, atingem apenas 0,5% das palavras no Brasil) uma mais significativa do que a outra, pois até mesmo no que se refere à abolição dos acentos diferenciais (que servem para evitar a ambigüidade) será necessário apenas que, ao escrever, a pessoa utilize outros recursos para evitar ambigüidade na frase. O impacto global das mudanças, com o fato de todas as publicações ficarem desatualizadas quanto à grafia é que a grande questão, e não cada uma delas. De qualquer forma, posso citar duas que me incomodam mais: a retirada do acento em “pára” e a abolição do trema. A sensação que tenho é que o “pára” sem acento não terá a mesma força... O trema sinaliza a pronúncia do “u” nos e, depois de alguns anos, sempre que tivermos dúvidas sobre a pronúncia oficial teremos de consultar algum material especializado, em vez de consultar um simples dicionário como hoje, para verificar se o “u” é ou não pronunciado.
É realmente um meio de unificação? Se faz necessário?O acordo não unificará a língua. As variações lingüísticas entre as regiões do Brasil e entre os países de língua portuguesa dizem respeito a emprego do vocabulário, estrutura das frases e pronúncia, entre outras. Por mais que a grafia seja a mesma, o jeito de falar e de escrever o idioma continuará sendo muito diferente, causando às vezes impossibilidades de entendimento e comunicação.
No período de convivência como os trabalhos acadêmicos serão avaliados? Provavelmente os professores serão flexíveis em relação à incorporação das mudanças, apesar de exigirem os trabalhos conforme as novas normas. Independentemente do acordo, os alunos, de todos os níveis de ensino, já costumam apresentar problemas de grafia em seus trabalhos. Cabe aos alunos conhecerem não apenas a nova grafia, mas a atual.
O que mais muda na questão do ensino?Os professores terão de conhecer o acordo para atualizar a sua escrita e exigir a nova grafia dos alunos. Como não são muitas mudanças, não será difícil. O aspecto do ensino que será mais atingido é o que diz respeito ao acervo de livros de bibliotecas. De um momento para outro, todos os livros de todas as bibliotecas brasileiras estarão automaticamente desatualizados quanto à grafia. Ainda que isso não intervenha nada em relação ao conteúdo e ao sentido do que está escrito nos livros, mesmo assim se tornarão livros datados, ou seja, de "antes do acordo". Estes livros continuarão a ser utilizados normalmente, mas haverá livros de antes e de depois do acordo. É importante lembrar também que sabemos a grafia correta das palavras muito mais em função de uma “memória visual”, pois lembramos como as palavras são escritas, do que em função de conhecer as regras de ortografia. Por isso, a tendência de todos que foram alfabetizados com a grafia vigente e que lêem textos com esta grafia desde que aprenderam a ler é a de que às vezes se esqueçam das novas regras. Isso pode ocorrer mesmo com professores, que eventualmente terão dúvidas quanto à grafia correta. Até hoje encontramos pessoas alfabetizadas antes da última mudança ortográfica no Brasil, em 1971, que acentuam “êrro”, “sôbre”, “segrêdo”, “fôr”, “tôdas”, por exemplo, ou que tem dúvidas quanto a colocar ou não acento nestas palavras (o acento diferencial de timbre – aberto e fechado – foi abolido no Brasil com a lei de 1971, restando apenas alguns acentos diferenciais que envolvem o sentido da palavra, como em “pôde/pode”, “pôr/por”, “pêra/pera”, entre outros). Isso também pode ocorrer com os professores, que precisarão estar atentos à nova grafia, em vez de confiar apenas na “memória visual”. Para se ter um idéia, basta procurar em casa aqueles livros que pertenceram a uma parente mais velho, no tempo de escola. Não são muitas as mudanças que ocorreram, mas quando lemos estes livros eles nos parecem antiguíssimos. Um livro de 1972, com a grafia vigente, não parecerá tão velho e estranho quanto um de 1970, publicado com a grafia antiga.
Portugal tem mostrado bastante
resistência ao acordo. No Brasil, a população em geral, aparentemente, não se importa muito, ou pensam que será mais uma lei para ser descumprida. Aí que se enganam: embora ninguém seja preso por infringir as regras ortográficas, ela é uma lei cumprida ao pé da letra pela maioria dos veículos de comunicação, empresas e pessoas que têm uma reputação a zelar. Sempre há um leitor “policial” para cobrar a regra a qualquer momento, que aplica uma multa, no mínimo, moral.
Para ter uma idéia do que já aconteceu na grafia brasileira:
História da ortografia do português.
Gostei
deste texto do tradutor português João Roque Dias, que localizei por meio do termo
arcodista. Mostra de forma clara por que o acordo não vai unificar nada.