Revisor, por Juliane Kuhn
Pedi para as minhas colegas de trabalho revisoras darem um depoimento sobre a profissão na oficina de Revisão de Textos que estou ministrando para o curso de Letras.
A Juliane não pôde ir e escreveu este texto:
Se você sempre sonhou com uma profissão cheia de desafios, na qual cada dia se apresenta com um novo obstáculo a ser vencido, em que é preciso uma boa dose de racionalidade e uma consciência local bem estruturada, mas nunca foi muito chegado à selva nem à carreira militar, seus problemas acabaram!!! SEJA REVISOR!
Se você é um perfeccionista que adora caçar detalhes em tudo o que lê, tem coragem o suficiente para encarar verdadeiras matas virgens gramaticais, intuição lingüística aguçada para discernir entre expressões imbricadas da selva da Língua Portuguesa, não desperdice o seu talento. Há uma oportunidade única batendo em sua porta, abra ela agora e não tenha medo dos cobradores.
Se você tem algumas das características citadas acima, pode ser que você seja um portador deste mal e o mercado editorial precisa de pessoas com o seu faro lingüístico e sua capacidade de ler um texto além daquilo que o autor “quis dizer”. O revisor, diga-se de passagem, pode ser um dos poucos leitores reais de uma obra, ele a conhece profundamente e vê o seu desenvolvimento. Afinal, o revisor é aquele cara de coragem que realmente vai ler desde “a política agrária no noroeste do Piauí” até “as moléculas agentes no processo parasitológico dos cogumelos comestíveis da Ásia Menor”. Isso o delega um ramo de conhecimentos razoavelmente grande ou estritamente pequeno (dependendo de sua racionalidade lingüística). Entenda-se aqui o fato de somente ficar sabendo de algo, o revisor não é o especialista, neste caso, seu papel se inverteria e se tornaria o autor. Desta forma, o revisor tem muito mais desenvolvido o seu lado de lingüista do que de gramático. É neste ponto que surgem a diplomacia e a humildade de reconhecer o texto como o “filho de outrem”, o papel do revisor é fazer a “enfermeira que o prepara para o colo da mãe”. Portanto, não se pode ver o texto como algo sob o total domínio do revisor, ele não pode dar forma ao que já foi escrito, assim, esse profissional funciona apenas como uma passagem que leva ao leitor. Pode-se afirmar que o revisor é aquele que trabalha na surdina. O seu melhor resultado alcançado é o menos perceptível aos olhos dos outros. No entanto, esse resultado só poderá ser alcançado por aquele profissional que, longe de pensar que está pronto e que sabe o suficiente para olhar com superioridade para todo texto, procura ver a folha em sua frente como um caminho traçado por alguém que precisa de um “leve” auxílio e não necessariamente de rasuras indicando seus erros. Aristotelicamente falando, um bom revisor é como um bom escultor, ele não vê o texto como pedra bruta, mas como uma forma precisando de apenas algumas pinceladas.
Se você tem o perfil ideal para ser alguém sempre em busca de novos conhecimentos da língua e de temas variados, venha ser um revisor, o mercado editorial precisa de você!
P.S.: Para os aficionados por literatura sei bem que a expressão “o autor quis dizer” dói e ofende suas aspirações críticas literárias. No entanto, com o contato direto com o autor e suas insistências não dá para ler somente suas entrelinhas... Já que ele pode querer inserir uma nota para isso.
A Jake, além de empolgar a metade da turma para seguir a profissão, também escreveu no Sinal Vermelho a respeito.
Obrigada, meninas. |