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Gosto muito de histórias de revisores e de revisão. Não conheço muitas. Hoje encontrei esta, publicada em 26 de março de 1944 no jornal A Tribuna. Transcrevo algumas partes e destaco aspectos que me chamaram a atenção. Talvez as comente em outro momento.

Revisão e revisores de jornal

Por Cyro Lacerda

[...]

Desde os tempos de minha meninice, e lá se vão seis lustros bem puxados, que nutria pela revisão e revisores de jornal uma inexplicável admiração. E esta admiração mais se acentuava quando ouvia de meu pai, que também foi homem de imprensa, narrações interessantes a respeito de certos príncipes do jornalismo que iniciaram a carreira como simples revisores.

Predestinação ou quer que seja, o certo é que, chegando à adolescência, fui para um colégio de meninos pobres, como interno. As narrações que ouvira cristalizaram-se e não se apagaram jamais de minha lembrança. E, sonhando com ser um dia um revisor de jornal, dediquei-me ao estudo da Gramática e da História, conseguindo, depois de certo tempo, alguns conhecimentos que ultrapassavam as lindes do programa de ensino do colégio.

Os professores dessas matérias - e seus nomes me caem da pena envoltos num halo de respeito e de saudade - eram a princípio o dr. Artur Assis e Pedro Correia de Melo, aquele já falecido e este alto funcionário hoje do Banco de S. Paulo, os quais mais tarde cederam as respectivas cadeiras ao dr. Heliodoro Dematos e coronel A. Raposo de Almeida, ambos não mais pertencentes ao número dos vivos.

Esses professores, competentes e bondosos, me estimularam tanto quanto podiam, e eu, que não cessava de pensar em revisão de jornal, aproveitava sofregamente as sábias lições dos mestres, procurando além disso aperfeiçoar-me com a leitura metodizada de livros de Cândido de Figueiredo, Soares Barbosa, Carolina Micaelis de Vasconcelos, Gonçalves Viana e outros expoentes da boa linguagem portuguesa, além de escritores tidos e havidos como perfeitos dominadores do idioma.

Um belo dia saí do colégio, e numa fria manhã de junho de 1920, muito jovem ainda, ingressei na redação do extinto Jornal da Noite, onde, entre outras amizades, captei as de Mário Amazonas, capitão Sousa Filho, dr. Bastos Coelho, Luiz Correia Pais, Afonso Schmidt, Gomes dos Santos Neto.

Foi ali também que travei conhecimento com João da Silva Figueira, o nosso dinâmico chefe das oficinas, o qual, cheio de entusiasmo pela vida de jornal, e de mocidade, se esmerava em paginar o vespertino tão bem quanto o matutino, porque "mestre Figueira" empregava sua atividade em dois setores: à noite, na A Tribuna, e à tarde, no Jornal da Noite.

Comecei nesse jornal com modestas reportagens, sobressaindo a que fiz por ocasião da chegada a Santos do finado rei Alberto, da Bélgica. Três meses depois de provar o vinho agridoce do jornalismo, por indicação de Décio de Andrade, essa alma boníssima que há pouco tivemos a desventura de perder, entrava para a Revisão da A Tribuna, no lugar vago com a transferência, para a administração do grande órgão, de Jacinto Costa.

Era a materialização do meu sonho da meninice. Que ilusão, Senhor!

Lembro-me perfeitamente desse episódio, que marcou de maneira definitiva o rumo de minha existência.

Foi a 20 de agosto de 1920. Noite escura e chuvosa. Às 20 horas, que nesse tempo se dizia 8 da noite, apresentei-me, sem nenhum "pistolão", ao sr. M. Nascimento Júnior, que me recebeu com a bonomia que é um dos traços marcantes de sua personalidade de escol. Perguntou-me polidamente se havia já trabalhado em jornal, ao que respondi afirmativamente. Em seguida, determinou-me que fosse falar ao então chefe da Revisão, sr. Acácio Teixeira Botelho.

***

Numa sala pequena, sentados a uma mesa junto à parede, em frente, estavam dois homens, nos quais reconheci Roberto Miler e João Figueiredo, redatores da parte comercial e repartições. O chefe da Revisão, também sentado a outra mesa e cortando com enorme tesoura etiquetas para a remessa do jornal, endireitou os óculos, olhou em torno e fixando depois a vista em mim, perguntou-me o que desejava. Respondi-lhe que ia da parte do sr. Nascimento Júnior, a fim de ocupar o cargo de auxiliar da revisão, que estava vago.

- Muito bem, muito bem, meu rapaz! - exclamou o chefe. - Com que então - continuou - queres trabalhar aqui? Conheces já o mister de revisor?

- Talvez não tanto quanto o senhor desejaria, porém me esforçarei por fazer jus à sua indulgência - respondi.

- Está bem. A resposta não está má. Conheces o idioma?

- Mais ou menos.

- Isto de mais ou menos é muito vago, porém vá lá, vá lá... Podes sentar-te, pois vamos iniciar o serviço.


Realmente, pouco depois as provas tipográficas e de linotipia começaram a chegar, trazidas pelos auxiliares da estante, Caraboo e Santos.

Com paciência, o sr. Acácio, que era um ótimo chefe de revisão, pois conhecia a fundo os mistérios da boa linguagem portuguesa e era um grande admirador dos nossos clássicos, tais como Camilo, Castilho, Herculano, Vieira e outros, iniciou-me nos segredos do ofício.

Trabalhamos durante cinco anos juntos, sempre dentro da mais perfeita harmonia, respeitando-nos mutuamente, pois, além de chefe meticuloso e capaz, possuía o sr. Acácio Teixeira Botelho, malgrado certas maneiras um tanto bruscas, oriundas sem dúvida da insidiosa moléstia que lhe ia aos poucos minando o robusto organismo, um coração sentimental e um caráter leal, como que a identificar-lhe a genuína origem lusitana.

Com Acácio Botelho não só fiz o meu aprendizado, como também recolhi, através de instrutivas e amistosas palestras e discussões, um caudal de lições práticas que me habilitaram a exercer, sem receio, o árduo e penoso mister de revisor de jornal. Por isso, além de modesta homenagem à sua memória, consigno aqui, de público, minha imperecível gratidão ao chefe e amigo.

Saí depois da Revisão e ingressei na Redação, e o sr. Acácio ficou no seu posto, até que a morte o empolgou em suas garras. Nos meus primeiros tempos de revisor-auxiliar, tinha como companheiros Cristiano Teixeira e Acácio Augusto Borges, aquele filho e este sobrinho do saudoso chefe. Outros muitos rapazes passaram por essa escola de periodismo, chamada Revisão, olhada, infelizmente, com certo desdém por aqueles que sabem ser possível fazer de um revisor um bom redator, ao passo que nem sempre se transforma em bom revisor um redator...

Atualmente, a Revisão da A Tribuna conta com um pugilo de moços esforçados e inteligentes, cujos nomes declino com a simpatia a que fazem jus pelos bons serviços que prestam. São eles: Geraldo Ferrone, Elisiário Feijó Fernandes, Francisco Dupré de Lacerda, José E. Leopoldo e Silva, Carlos Henrique Klein, Hugo de Paiva, José Lupion Gião e João Barbosa Júnior.

***

A função de revisor, num jornal diário de responsabilidade, é sobremaneira espinhosa. É tão ingrata como, se me permitem a comparação, a de um agente da autoridade encarregado de fiscalizar a conduta do paisano na via pública. Tanto quanto este, quando se torna elemento perturbador da ordem e recalcitrante, a olhar de través e com ódio concentrado o polícia, assim também o redator de jornal desleixado e quiçá incompetente nutre invencível prevenção pelo revisor, que policia seus erros, emenda seus lapsos e corrige suas deficiências.

O mesmo, no entanto, não acontece com o redator competente e cumpridor de seus deveres, o qual chega a ter a delicadeza de solicitar à Revisão que de modo nenhum deixe passar sem emendar algum lapso originado pela pressa e angústia do tempo, pois sabe perfeitamente que "errare humanum est..."

O redator que torceu a vocação, entretanto, acha que não erra, que tudo quanto escreve está matematicamente certo, e que colocação de pronomes, separação correta de sentenças por vírgulas, ortografia etc., tudo isso não passa de baboseiras ou caturrices de filólogos. Desconhece, o coitado, a importância da vírgula no escrito. Não atina com o perigo da má distribuição desses sinais, chegando a dar sentido grotesco o seu deslocamento, como o exemplo que segue:

"O rapaz entrou na cabeça, um chapéu de palha nos pés, sapatos de verniz sobre a fronte, uma sombria nuvem na mão, uma bengala de ébano de cabo esculpido em seus olhos brilhantes, uma ameaça muda..."

Seria injúria aos leitores restabelecer em seu sentido normal essa frase disparatada, criada, de resto, expressamente para ser desfigurada pela deslocação das vírgulas. No entanto, conheço alguns redatores que, embora trabalhando na imprensa há décadas, pensam que a vírgula nas sentenças é um mero adorno, como esses sinaizinhos que os jovens elegantes costumam pintar em determinados sítios da face...

E todos os dias, o revisor, que geralmente é moço e sonhador, deixando, num gesto de suprema renúncia o aconchego do lar, a palestra com os amigos ou a diversão predileta, nos salões cheios de rumor e de luzes cambiantes, encaminha-se, indiferente às intempéries, para a sede do jornal, onde, na quietude de horas sonolentas, como sentinela avançada no seu posto de sacrifício, se dedica à tarefa anônima e sem glória de compor períodos sem sentido, de retirar pastéis, de melhorar a pontuação deslocada, de colocar corretamente pronomes, na certeza de que, se tudo sair na folha escorreito, sem falhas, os louvores serão para o redator que escreveu mal, à pressa, sem atenção... Ai, porém, se cochilou e deixou escapar o mais insignificante pastel: um mundo de reproches desabará sobre ele, esmagando-o de modo inexorável!...
23.07.2008 • 11:04 • comentários (7)


pablorev 30.07.08 • 18:22
Está famosa até do outro lado do Atlântico, hein? Olhe a foto e o link do seu blogue aí: http://tralapraki.blogspot.com/2008/07/tenho-um-apndice-entalado-entre-as.html
Depois leio a história do revisor com calma e comento.

Beijinhos,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

fabinca 31.07.08 • 12:40
Obrigada por avisar.
Fui correndo verificar se tinha citado a imagem direitinho.
Está no texto <i><A href="http://tzal.org/fabinca_post-Semear" target="_blank">Semear</A></i>.

joaomara 31.07.08 • 16:11
Gostei muito desta página. Gostei, linkei. Obrigado.
joao de miranda m.
tralapraki

fabinca 31.07.08 • 22:39
Fui verificar, bem entendido, se EU tinha citado corretamente a imagem, pois não era minha...
Fico honrada com os links e comentários.

pablorev 28.08.08 • 02:34
Voltando à ativa, agora com o fuso praticamente arrumado (depois de um mês vivendo em horário chinês), gostei demais do texto. Que lindo relato de paixão pela revisão de textos!
Você tem razão: é muito raro ouvir relatos sobre nossa profissão. Quando aparece algum, é emocionante.

Beijo,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

mihaelo 31.08.08 • 21:19
Olá Fabiana: Embora seja a primeira vez que escreva aqui, já tenho lido o teu blog há alguns meses, pois tem bons materiais que já utilizei em aula. Espero que esteja tudo bem contigo,apesar do texto mais recente um tanto sorumbático.A propósito de revisão recebi de um amigo a seguinte frase para pontuar com 2 possibilidades.Segue uma tarefa fácil: com vírgula pontue a frase de modo que primeiramente ela seja favorável aos homens e posteriormente pontue de modo que a frase torne-se favorável ás mulheres. "Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de joelhos á sua procura." Miguel

fabinca 31.08.08 • 21:34
Obrigada pelo carinho e pela audiência, Mihaelo.

Esta semana termino o segundo trabalho de uma disciplina do doutorado. Que bom que consegues aproveitar algo em aula. Então voltarei a escrever com mais freqüência.

Esta frase é um bom exemplo de como o revisor deve ter cuidado ao mexer com um sinal de pontuação.


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