Plágio acadêmico
Por que os alunos fazem plágio?
A primeira resposta que me vem à mente é: preguiça. Com a obrigação de fazer um texto ou trabalho, o aluno copia ou manda alguém fazer. A idéia que está por trás do plágio ou da indústria de trabalhos acadêmicos é a de que os textos ou trabalhos são atividades a serem feitas para além do estudar. Estudar diz respeito a assistir à aula, fazer exercícios e ser aprovado em avaliações se houver. Isso deveria ser o suficiente para a aprendizagem, e o aluno considera que estas são suas únicas obrigações. Se o professor convida ou obriga a fazer mais do que isso, trata-se de “complicar” ou “dificultar” a vida do aluno.
O aluno não compreende, e talvez o professor também não saiba explicar, que o escrever leva à leitura e à pesquisa, e que isso é o próprio aprender e estudar. Escrever é a melhor forma de aprender. Quando muito, o aluno vê a importância da escrita que envolve anotações da fala do professor, cópias do quadro ou resumos de leituras. Elaborar, contudo, o seu próprio texto é demasiado para ele. Por que haveria de fazer isso? Por que tem de escrever? Não basta saber e conhecer?
O que está no cerne do plágio é o sentido que o aluno e a sociedade atribuem à escrita, que é associada a duas funções principais: registro e comunicação. Serve para registrar no papel a fala e serve para estabelecer interação entre pessoas que não estão presentes no mesmo tempo e/ou espaço.
Utilizada em contratos, em documentos, em narrativas de memórias, a escrita tem uma implicação de verdade. Vale o que está no papel – não o que foi dito (a menos que tenha sido registrado em áudio). Quando a fala não é possível ou suficiente, a escrita serve para comunicar e, além disso, tem o papel adicional de fazer lembrar.
Escrevem-se bilhetes para os empregados, para os familiares ou para a secretária. Escrevem-se também os textos cujo objetivo é instruir, divertir, provocar, encantar, interditar, ajudar... Independentemente dessas funções, o que tais textos fazem, em última instância, é registrar e comunicar. Ou seja: “dizem alguma coisa que precisa ser dita ou que valha a pena ser dita a alguém”. As funções de registrar e comunicar se sobrepõem.
No ensino, os textos também servem para registrar e comunicar. Registrar o que deve ser aprendido e dizer para o professor o que foi aprendido. O material didático tem a dupla função de registrar e dizer. Mas como é vista a escrita no texto ou trabalho acadêmico? Também tem a função de registro e comunicação. O texto ou trabalho serve para compilar o que foi aprendido e dizer ao professor isso.
A pergunta que o aluno se faz intimamente, ainda que não seja de forma consciente é: "Por que tem de fazer esta compilação elaborando seu próprio texto? Não basta ele reunir o que já foi escrito a respeito?" Levar ao professor as informações copiadas é uma forma de dizer o que sabe ou o que leu. Levando ao extremo tal raciocínio, não é isso que o professor faz? O professor não utiliza em sua aula e em sua fala o que leu e estudou, apenas transmitindo conhecimento produzido por outros? Por que o aluno tem de escrever e o professor não? O professor reproduz, mas ao aluno não é dado esse direito.
Então volto à idéia de que escrever é o próprio aprender e estudar. Se o aluno conseguisse se conscientizar de que ele aprende escrevendo e de que alguns aspectos do conhecimento só são aprendidos durante a escrita, talvez recorresse ao plágio com menos tranqüilidade e naturalidade. O aluno pensa: "Por que vou me dar ao trabalho de fazer este texto, artigo ou monografia se já houve quem falou sobre isso? Basta copiar ou pagar para que alguém compile as informações." As aulas da disciplina foram freqüentadas, os exercícios foram feitos, as avaliações realizadas. Um trabalho é algo extra que não tem sentido pedagógico.
Esta falta de sentido quanto ao processo leva o aluno a um impasse: “Se tenho que citar não apenas as idéias que copio literalmente, entre aspas, mas também as idéias apresentadas pelo autor, o que sobrará de meu no texto? É mais fácil fazer uma citação integral e anexar os artigos e livros consultados.” Fica difícil, para um aluno principiante na escrita com autoria, perceber que a organização e elaboração do texto é dele e que a apresentação e os comentários das citações também são dele. O aluno, devido à falta de experiência como leitor, tem dificuldade em entender que não basta, em uma revisão bibliográfica, por exemplo, elencar diferentes teorias e pesquisas – é necessário posicionar-se a respeito, articular o conhecimento. E nisso está o aprender e estudar. É na articulação do conhecimento por meio da escrita que ocorre a aprendizagem. Essa articulação resultará em elaboração do conhecimento, e não apenas em assimilação e eventual transmissão.
Outro fator que contribui para o plágio é a forma como são orientados os trabalhos e pesquisas escolares. Basta copiar de livros de didáticos e entregar o trabalho. Na minha época de estudante não era necessário nem citar de quais livros foi retirada a cópia das informações. Isso era o trabalho.
Lembro de fazer, na oitava série, um trabalho em grupo sobre os povos pré-colombianos. Pegamos alguns livros de história e começamos a redigir o texto. A todo momento eu interrompia quem estava ditando e quem estava escrevendo para perguntar: “Mas qual o sentido de Astecas? Não é preciso explicar onde eles viviam e descrever quem eram?” Outros termos específicos surgiam e eu queria que fossem explicados. Pediram para eu parar, pois seria impossível terminar o trabalho se tivéssemos que explicar tudo. E seguiram copiando, mesmo aquilo que não era compreensível.
Além dessa tradição escolar da cópia, o plágio também não era algo tão visado na academia. Não se exigia rigor nas citações e bastava informar de qualquer jeito os dados ou nem mesmo era necessário informar. Não eram citados, por exemplo, os autores de fotografias e imagens, a menos que fossem obras artísticas reconhecidas. Com a facilidade tecnológica de circulação de informações e com o aumento intenso delas, fez-se necessário organizar melhor as formas de remissão e citação para que sejam encontradas as fontes de forma mais fácil. Isso ocorre na academia, mas não ocorre no jornalismo, onde é possível reproduzir sem mencionar as fontes e ainda assim haver credibilidade (é certo, contudo, que isso depende do público leitor e do nível de credibilidade desejado).
Por outro lado, cada vez mais alguns setores da sociedade defendem a livre circulação de informações, idéias e obras artísticas. Dessa forma, muitos apóiam a pirataria como forma de democratizar o acesso ao conhecimento e à cultura. São contra os direitos autorais remunerados e às patentes científicas, alegando que para o bem coletivo tais idéias devem ser distribuídas gratuitamente. Eu concordo, e a lei brasileira de direitos autorais permite isso na medida em que “para fins de estudo” é podem ser reproduzidas passagens de obras. Entretanto, há o direito inalienável de autoria moral: “Art. 27. Os direitos morais do autor são inalienáveis e irrenunciáveis.” Isso significa dizer que, por mais que o autor venda os seus direitos autorais, ele deve ser sempre mencionado como autor em sua própria obra e quando for citado por outros. |