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dia-a-dia icon O repouso das coisas
Um texto precisa dormir, nós precisamos dormir, o tempo precisa passar – com distância se vê mais claramente o que no calor do momento parece tão grande ou tão pequeno. Da mesma forma, o valor de um texto só pode ser verificado depois que ele jaz e dormita por um tempo, exposto ao público ou não. Se, depois de muitos anos, um texto ainda vale a pena ser lido, como a crônica de Martha Medeiros, que tem o título deste post, publicada no jornal Zero Hora em 18 de julho de 1999, é porque seu repouso foi reparador, e as orelhas/olheiras resultantes do revolver-se durante o sono não o afetaram. As grandes amizades também funcionam assim. Só permanecem aquelas cujos vai-e-vem permitem que nãos se percam, esquecidas em algum lugar da memória.

Não gosto de escrever um texto e mandá-lo imediatamente para a redação do jornal. Escrevo com certa folga de tempo, para que eu possa deixar o texto dormir um sono reparador antes de jogá-lo às feras.

Assim como as pessoas, certas coisas precisam descansar para se recompor. No caso do texto, é fundamental para mim esquecê-lo por um pequeno período. Quando volto a pôr os olhos nele, horas ou dias depois, consigo detectar melhor suas falhas, repetições ou parágrafos confusos; é a hora da faxina, de limpar o que está sobrando, e só então liberá-lo para o seu destino. Lamento pelos vestibulandos, que não podem apelar para esse recurso, escrevendo contra o relógio suas redações, sem chance de revisá-las com a cabeça fresca.

O repouso das coisas é cada vez mais raro nesse mundo onde todos estão atrasados para alguma coisa. Diariamente, temos que decidir, optar e cumprir prazos para ontem, se muita chance de deixar as resoluções tirarem umas soneca antes de serem efetivadas. Fica assim prejudicada a clareza necessária para detectar nossos erros e acertos.

No calor de uma discussão, levamos a sério todas as abordagens que nos dizem, passando rapidamente para o contra-ataque e assim dinamitando a relação. Se pudéssemos levar nossa mágoa pra cama e com ela dormir, acordaríamos no outro dia enxergando-a sem maquiagem e no tamanho que ela realmente tem: miúda diante de coisas mais importantes do que as palavras rudes que, na noite anterior, escaparam sem querer.

Um sim dito às pressas, um não que foi verbalizado por medo, um silêncio onde deveria haver um argumento: vacilos póstumos. Pudéssemos botar para dormir nossas dúvidas, acordaríamos mais sábios e menos impetuosos. Mesmo as paixões velozes merecem um certo resguardo, uma espiada mais distanciada, para ver onde estamos nos metendo. Cadê tempo, porém, para o afastamento necessário de nós mesmos, para melhor no enxergar?

A realidade não permite tais romantismos. Vence quem toma decisões rápidas, caso de cirurgiões, artilheiros, policiais, motoristas. Fica cada vez mais difícil contar até 10 antes de tomar uma atitude. Sorte a minha que posso me dar o luxo de trabalhar e viver com relativa calma, deixar esse texto dormir na escuridão do computador desligado e só amanhã acender a luz, fazer nele alguns afagos e apertar, finalmente, a tecla send. Como cantava Gal Costa, “a vida não é mais do que o ato de a gente ficar/no ar/antes de mergulhar”.

MEDEIROS, Martha. O repouso das coisas. In: Zero Hora, Porto Alegre, 18 jul. 1999.

09.11.2007 • 10:14 • comentários (3)
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mauiza 12.11.07 • 13:10
Ah, fora que eu concordo plenamente com o texto!
Recentemente tenho me policiado para fazer várias coisas com calma, esperar, depois voltar lá e ver como está, fazer de novo... isso inclui também textos obviamente.
Até porque quando estou escrevendo escrevendo uma redação por exemplo, mesmo com o tempo me maltratando, eu geralmente acabo mudando várias coisas as vezes mais de duas vezes... Imagine então tendo tempo, sempre dá para melhorar, ou achar erros supérfluos que poderiam ser fatais, como no caso que eu citei no meu outro post.
Bom, agooora acho que é isso...
Bj :D

mauiza 12.11.07 • 13:05
Amei o(s) texto(s).
E me lembrei de algo, é um ponto de vista bem diferente, mas acho que este texto explica um pouco como várias pessoas sentem-se melhores "conversando" por meio de programas de bate-papo.
No trecho: No calor de uma discussão, levamos a sério todas as abordagens que nos dizem, passando rapidamente para o contra-ataque... ...Se pudéssemos levar nossa mágoa pra cama e com ela dormir, acordaríamos no outro dia enxergando-a sem maquiagem e no tamanho que ela realmente tem: miúda...
Conseguimos fazer essa adaptação, como me referi antes, sob um ponto de vista diferente...
Bem, de repente este é um assunto para tu fazeres outro texto.
Espero que eu tenha conseguido me expressar o suficiente.
(rs) Beijinhos.

fabinca 12.11.07 • 19:08
Ih! Não entendi... Quem sabe tu faz um texto e coloca lá no teu blog? Um bom tema para um exercício de redação para o vestiba...

Bjs!

ps.: vou te contratar como comentarista oficial do blog.


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