Mondar
Uma das dificuldades das pessoas em ler literatura de um século atrás ou mesmo de ler em língua estrangeira é o vocabulário. Topamos com uma palavra e não conseguimos ir à frente sem entender o significado dela. Para ser um leitor eficiente é importante também aprender a “pular palavras” em vez de ler linearmente.
No contexto da frase e do parágrafo é possível entender a palavra desconhecida, mesmo que continuemos sem uma definição exata para ela. Isso não serve, é claro, para leituras mais aprofundadas de um texto e também não serve para quem quer adquirir vocabulário. Se um destes dois objetivos estiver em questão, é necessário parar, verificar a palavra no dicionário e analisar as opções de significado em relação ao que foi empregado no texto que estamos lendo. Neste caso um dicionário eletrônico é muito mais rápido e prático. Desde que tenho dicionários no meu computador, o pobre Aurélio, já tão desgastado, não sai mais da estante.
Confesso que ainda tenho um certo prazer físico em folhear dicionários e procurar vagarosamente uma palavra para identificar suas acepções ou usos, mas só o faço na editora em que trabalho, pois não há edições eletrônicas no computador e, mesmo se houvesse, há um computador apenas para 4 revisores. É um bom motivo para fazer uma pausa, levantar da cadeira, consultar os dois dicionários, refletir sobre o quanto divergem e depois voltar a revisar.
Quando estava na graduação, estagiava em uma escola particular corrigindo redações de alunos. A equipe era composta de mais ou menos seis estagiários e, embora recebêssemos por 20 horas trabalhadas, cumpríamos apenas 12h na escola. Se não houvesse redações para corrigir, ficávamos lá estudando ou fazendo outra coisa. Um dia perguntei para uma colega o que ela estava procurando no dicionário. E ela:
— Nada, estou só lendo!
Diante da minha surpresa, ela disse que era bom ler o dicionário de vez em quando. Nunca havia me ocorrido isso. Nem mesmo gramáticas eu lia, e só fui ficar mais amiga delas depois de formada.
Hoje, continuando a leitura do Prefácio Interessantíssimo, deparei-me com a seguinte frase:
Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. Se não estivesse diante do computador, teria bastante resistência a pegar um dicionário para descobrir que "mondar", segundo o Houaiss, é: • verbo Regionalismo: Portugal.
transitivo direto 1 arrancar (ervas daninhas que nascem entre os cereais e não os deixam medrar)
transitivo direto 2 cortar (ramos secos ou supérfluos de árvores, arbustos etc.)
transitivo direto 3 rever e corrigir (texto)
Etimologia lat. mundo,as,ávi,átum,áre 'limpar, purificar'; f.hist. sXV mondallas> Sempre tive a sensação de que revisar um texto é limpá-lo de sujeiras e “ervas daninhas”, algo como uma catar galhos secos e papéis de bala na grama. Pois aí está o verbo “mondar” para me ajudar a visualizar mais claramente esta idéia.

Eu não quero que vás à monda Eu não quero que vás mondar Eu não quero que o teu pai diga Que casaste comigo p´ra trabalhar. Imagem e versos retirados daqui. |