Cozido não se come; cru não existe: o que é, o que é?
Charada infantil que ilustra os contextos lingüísticos e os pressupostos que criamos a partir deles.
Para responder, pensamos imediatamente em algum tipo de alimento intragável e não conseguimos sair deste campo semântico: frutas (que são comidas cruas), cereais (que precisam ser cozidos), legumes (alguns crus, outros cozidos), carnes (cozidas para serem comidas, mas existem cruas).
Se imaginarmos que a resposta não esteja no campo dos alimentos, temos dificuldade de aceitar dentro da acepção do termo “cozido” algo que não seja para comer. Uma possibilidade seria pensar que “cozido” se refere a “coser”, já que provavelmente apenas ouvimos a charada, e não a vimos transcrita, mas costurar nada tem a ver com comer, o que invalidaria a charada.
“Cozido” sugere alimento. Se não é um alimento, o que pode ser? O que alguém cozinha para não comer? Uma charada, para funcionar, deve ter uma resposta bem familiar e corriqueira – não pode ser, por exemplo, um composto químico processado a 1000 graus, cujo nome ninguém conhece.
Poderiam ser roupas fervidas, mas elas existem cruas...; poderiam ser plantas ou quaisquer elementos submetidos ao cozimento, mas também existem crus...
Aparece aqui uma terceira noção sobre o verbo “cozinhar”: mistura de ingredientes que resulta em um novo produto.
Mais fácil agora. Não é algo (um elemento apenas) que de cru passe a cozido, e sim algo que é feito por meio do cozimento, mas que não é comestível.
Matou a charada?
 Imagem retirada do blog Scrapbook by SP. |