Como facilitar a leitura
Livros com “como” no título são muito atraentes. Nós os compramos na tentativa de obter uma resposta sobre como ter um comportamento eficaz para obter bons resultados: como ler e escrever melhor, como conseguir um marido rico em trinta dias, como ter sucesso profissional e pessoal, como emagrecer ou engordar.
Afinal, se uma pessoa estuda um assunto durante anos a fio, por que não saberia criar uma fórmula prática que dê resultado na maioria das vezes? No início da faculdade, fiquei fascinada com a disciplina de Metodologia Científica. Um texto sobre técnicas de estudo orientava exatamente como estudar: reservar horas para o estudo, ler, fichar, reler. Tão simples! Eu fazia cópias dos textos para as disciplinas e pensava: é só lê-los e estudá-los, sem deixar para a última hora. Algo sempre acontecia (eu lia outras coisas que me interessava mais no momento) que o dia da aula chegava e lá estava eu correndo para dar conta da leitura e das atividades propostas pelo professor.
Entendo a dificuldade dos alunos em se organizar para estudar. A minha tarefa, como professora de português, é, teoricamente, mais simples: ensinar a ler e escrever melhor. Daí ter comprado o “Como facilitar a leitura”, de Lúcia Fulgêncio e Yara Liberato, da editora Contexto, há uns três anos, que, curiosamente, não consegui ler todo ainda. O livro trata das teorias cognitivas e textuais acerca da leitura e dos fatores ou problemas de legibilidade de um texto, especialmente de textos didáticos, que, caso não atendam às expectativas do leitor, serão um empecilho para a aprendizagem.
Tais questões são muito pertinentes – o leitor precisa entender e perceber, mesmo que de forma não totalmente consciente, os funcionamentos dos textos para conseguir lê-los. Entretanto, cada vez mais me pergunto se a leitura e a escrita não passam muito mais por aspectos subjetivos e afetivos do que por elementos técnicos. Alfabetizar e ensinar a decodificar é algo relativamente fácil, mas fazer alguém ser fluente no que lê, bem como ter capacidade de escrever textos que mostrem reflexão, é quase impossível. Aparentemente tudo começa pela escola que oferece textos “chatos” aos alunos. Mas o que faz um texto ser interessante? Uma revista em quadrinhos é interessante para todas as crianças? Como e quando ela passará dos textos em quadrinhos para a literatura infantil? Trata-se de uma gradação ou pode ser oferecida simultaneamente? Uma bula de remédio ou um rótulo de leite são interessantes para uma criança? O resto do conhecimento que ela tem que adquirir por meio da leitura, em livros e enciclopédias, é interessante? Se começamos pela leitura que dá prazer, vamos ter como referência apenas o prazer em toda a escolaridade ou haverá momentos para o trabalho cansativo e não tão agradável assim?
O que faz você ler ou fazer qualquer outra coisa? A satisfação ou a obrigação. Nos dois casos um resultado positivo esperado no futuro ou ainda no presente. Por que os professores, especialmente de português e de literatura, querem tanto inculcar aos outros a leitura e a escrita? A crença de que estas duas práticas fazem bem. Mas, assim como comer verduras e praticar exercícios podem ser atos que dão prazer e bons resultados, e dos quais todo mundo foge, da mesma forma ler e escrever também não são ações desejadas pela maioria das crianças ou adultos. Bom, talvez ensinar a ler e a escrever seja mais fácil do que ensinar a parar de fumar, e esta é a obrigação de um médico. Há muita técnicas, muitos “comos”, que se não passarem por um grande desejo e necessidade não terão resultados positivos.
 Esta imagem, apesar de nada ter a ver com o que escrevi, remete a um texto com este título e a partir do qual foi feito um vídeo para uma campanha de promoção da leitura. |