Caça aos erros
Depois de muito procrastinar, novamente não escrevi nada. Então pelo menos compartilho um texto sobre revisão que encontrei ao procurar uma crônica do Luís Fernando Veríssimo. É um bom exercício em uma aula de língua portuguesa e pretendo utilizá-lo na disciplina de Revisão de Textos que ministrarei em agosto.
Revisionismo
Os revisores só não dominam o mundo, porque ainda não deram-se conta do poder que tem. Revisores unidos poderiam acabar com a civilisação como nós lhe conhecemos, onde uma conspiração de revisores espalhava o terror pelo empastelamento e desestabilizava qualquer regime com acentos indevidos e pontuações maliciosas. Grandes jornais seriam levados a falencia por difamação invonluntária. A besteiras ininteligíveis seria reduzido decretos oficiais, ao invés de inteligíveis como são agora. Manuais de instrução militar sutilmente alterados (Espere 40 segundos antes de atirar a granada, etc.) e a juventude desencaminhada com cartilhas ambíguas seria dois exemplos do estrago que revisores mau-intencionados, atuando em conjunto, poderiam fazer a sociedade. E os efeitos de uma revisão subversiva na instrução medica é terrível demais para se contemplar. Mas nada disso se compara ao que os revisores podem fazer a reputação de um escritor.
Como o que sai impresso é o que eles querem, inapelavelmente, (ninguém revisa os revisores) eles são os verdadeiros autores do texto. Seu poder se manifesta de três maneiras: deixando passar erros de impressão, acrescentando erros ao texto onde não havia ou (esta é a mais ignóbil de todas) não corrigindo os erros de ortografia, concordância etc. do própio autor que o texto trás. É imperdoável que o autor não possa confiar no revisor como um trapesista confia no parceiro, para não deixar ele se estatelar no chão. É inadmissível que o autor tenha de aprender a escrever certo, a saber gramática - meu Deus, até a usar o pronome - em vez de contar com o revisor para salva-lo dele mesmo, e do ridículo. Eu não posso me queixar. Tenho sido protegido por revisores e - fora a ocasional vontade de reuni-los numa sala, trancar as portas e propor uma discussão sobre a colocação de vírgulas, até um acordo ou até a morte - não tenho grandes queixas. É verdade que não desafio eles. Nunca uso a palavra ônus num testo, por exemplo. E "carvalho" só em último caso. Nos damos bem. Mas sempre que começo a escrever penso no que um revisor dedicado a sabotagem poderia fazer comigo. Ou uma conspiração da classe poderia fazer com o mundo.
(Talvez a conspiração já exista. Se o texto acima saiu indecifrável, é cinal que ela está em curso. Se saiu sem um erro é mais suspeito ainda. Cinal que eles não temem mais o desmascaramento).
Luís Fernando Veríssimo Publicado no Digs. |