 |
No Panamá a tentativa de colocar a conversa de dez anos em dia
Na volta de Cuba, um dia no Panamá. Umas semanas antes tinha conseguido encontrar, pelo google, a Adriana, panamenha que foi minha colega na Letras na UFRGS e moradora da casa do estudante. Depois da emoção do reencontro por e-mail, o primeiro pedido: erva-mate e farofa. Estranhei o pedido da farofa, pois eu mesma nuca como — no máximo farinha de mandioca com churrasco. Era farofa para comer com feijão preto, que, segundo a Adriana, não tem o mesmo gosto sem.
A Adriana mora em Chiriqui, a 370 km da Cidade do Panamá, então havia poucas probabilidades de nos vermos. Gentilmente ela pediu a uma amiga que fizesse um tour comigo. No aeroporto do Panamá há muitas conexões de vôos para toda a América Central e Latina. Eu não sabia, mas diariamente muitas pessoas fazem o que eu tinha programado — passar o dia na cidade. Para entrar no país basta preencher uma ficha e pagar 5 dólares (no meu caso, brasileira, nem a taxa havia) e ter o certificado de vacina contra a febre amarela. Há um guichê no aeroporto que oferece tours pela cidade, saindo no final da manhã e voltando à tardinha. Para minha grande surpresa e emoção, a Adriana, a mãe e um amigo estavam me esperando.

Que pessoa especial é a Adriana! Passamos um dia incrível, e a conversa girou entre informações sobre o Panamá, a cultura indígena, lembranças do passado e notícias dos brasileiros e dela. A mãe e o amigo da Adriana nos largaram no ponto rodoviário — ônibus antigos e muito bonitos com entrada apenas pela porta da frente e fileiras de bancos compridos, separados por um corredor estreito entre eles. A Adriana perguntou o valor da passagem a uma senhora ao meu lado, que, muito simpática, me mostrou as moedas panamenhas (o dinheiro é o dólar, mas as moedas são em pesos, com fotos de presidentes e índios), disse que seus pais tinham ido a Cuba para tratamento médico e que pensava que éramos americanas (falávamos em português).
 No canal, chuva e ameaça do crocodilo. Descemos do ônibus na entrada do parque onde está o canal e imediatamente uma forte chuva de verão tropical (é o período do inverno e das chuvas lá) caiu. Ficamos totalmente molhadas, de torcer a roupa, e eu tinha que viajar para o Brasil à tardinha. Tinha na bolsa apenas um a camiseta que comprara no aeroporto de Cuba. O canal é muito bonito, uma impressionante obra humana — infelizmente naquele horário não havia nenhum navio entrando. Explicações sobre o canal (a Adriana levou catálogos turísticos e daria uma ótima guia). Depois ela me disse que no caminho que fizemos do portão do parque até a recepção há um rio com crocodilos, e que um pecador foi devorado por um deles há pouco tempo — por isso os panamenhos brincaram conosco de que o caminho era arriscado. Na verdade, prefiro acreditar que tenha sido apenas uma brincadeira...
Não vi muito a cidade, mas é muito bonita e grande — segundo a Adriana, há um boom de exploração imobiliária, ocasionado principalmente por americanos aposentados que vão investir lá e, conseqüentemente, muita degradação ambiental. Depois do canal fomos ao Panamá velho, que, apesar de muito bonito, é realmente velho e mal conservado, tendo apenas alguns prédios em boas condições. Não sei por que não tirei fotos das índias de quem comprei artesanatos — elas estavam vestidas com suas roupas e adereços tradicionais, muito bonitos. A Adriana já havia me dado um artesanato feito por elas, lindo. Almoço do dia, saboroso, em um restaurante com mesas na calçada.
Depois do almoço, compras. A quantidade e a qualidade dos artesanatos é incrível — bolsas, objetos em cerâmicas e feitos de semente, tudo muito colorido e bonito. Chapéus Panamá (ainda que os originais sejam feitos no Equador) por 10 dólares — comprei um para mim e outro para o Eduardo.

A Adriana tem ainda a mesma cara de menina de há dez anos, que ela atribui à boa alimentação. Segue alegre e maluquinha, muito, muito simpática e extrovertida e morre de saudades do Brasil. Trabalha com em uma instituição pública e está montando uma empresa de turismo ecológico em Chiriqui. No site da empresa, a descrição de que se na caminhada der uma fominha, é só falar com a Adriana. Continua falando muito bem o português, mas diz ela que já esqueceu muitas coisas — nada que umas boas conversas pelo Skype com o povo daqui não resolvam. Está namorando e tem que pensar se terá um filho. Há alguma chance de ela conseguir emprego em uma empresa brasileira — já pensaram se tivermos a visita dela em breve?

Fotos do Panamá e de Cuba aqui. |
| 08.11.2007 • 10:19 • comentários (5) |
|
Desmotorizados
Chega-se a uma idade em que ter um carro é indispensável. Normalmente aos 18 – para a maioria dos adolescentes de classe média ou alta. Alguns desavisados como eu, ou por não pertencerem à classe média ou alta, ou por terem se dedicado a outras aprendizagens que não dirigir, adentram os trinta ou mais anos sem ter um carro. A situação é grave. Se a pessoa morar em uma grande metrópole fará pouca diferença. Ela poderá utilizar metrôs ou ônibus de qualidade para se deslocar na cidade e sentirá falta de um carro apenas para viagens. Mas se o desavisado tiver a infelicidade de ser um desmotorizado numa pequena cidade, como Chapecó, terá de enfrentar alguns desafios:
• os olhares de surpresa ou curiosidade dos colegas de trabalho, que o consideram um alienígena. Além de ser algo muito incomum não ter um carro, há a situação desconfortável de terem de oferecer carona (o tema carona será um outro post);
• para as mulheres, é impossível ser perua sem ter um carro. Caminhar uma ou duas quadras com um sapato de bico fino não é para qualquer uma supermegaheroína – é necessário ter verdadeiros poderes sobrenaturais, começando pela levitação. Ademais, não amarrotar a roupa nem desfazer o cabelo em um ônibus ou esperando-o é impossível.
• só desmotorizados carregam volumes em espaços fechados (descobri isso recentemente!). Sacolas, pastas, livros, guarda-chuvas em dia de sol são levados a um restaurante ou consultório médico apenas por pessoas que não possuem carro. Encher a cadeira ao lado de bagulhos mostra que você anda a pé. Ou seja, um desmotorizado pode ser reconhecido pelo que carrega consigo.
Nem tudo são tristezas, porém. Quem anda de ônibus ou de metrô tem suas vantagens. Costumo dizer que se eu comprasse um carro ganharia de brinde certamente uns 4kg pelo menos de peso. Só quem não tem carro sabe o quanto caminha diariamente. Afinal, pegar um ônibus para andar apenas algumas quadras não vale a pena, mas quem tem um carro o tira da garagem. Além da elegância, a saúde do desmotorizado também agradece, pois exercícios fazem bem. Este é um argumento comum a favor de não possuir um carro, mas facilmente contestável, pois se a pessoa tiver um carro ganhará mais tempo e terá mais facilidade para realizar atividades físicas.
É justamente sobre o tempo ganho que quero falar. Ganho por quem anda de ônibus, e não por quem anda de carro. Exatamente isso: tempo que se ganha ao andar de ônibus.
Principalmente em cidades pequenas, no caso de ser necessário utilizar apenas uma linha de ônibus para se deslocar ao trabalho ou ao estudo, ganha-se muito tempo livre na viagem. Ficar de 20 a 30 minutos sem nada para fazer raramente é possível no dia-a dia. O ônibus é o único lugar em que nos damos ao direito de não fazer nada – o período reservado ao deslocamento é totalmente inútil. Dessa inutilidade surgem oportunidades interessantíssimas de despender o tempo:
- olhar pela janela;
- olhar as pessoas;
- dormir (uma conhecida costumava dizer: “O ônibus é o lugar em que durmo mais tranqüilamente, pois não me sinto culpada por não estar fazendo outra coisa.”);
- ler;
- escrever (alguns textos deste blog foram iniciados no ônibus, como o da lotação);
- escutar música;
- enviar mensagem de texto pelo celular (é o que mais faço);
- conversar;
- fazer anotações;
- rezar.
O princípio é exatamente esse: o tempo reservado ao ônibus ou ao metrô é um tempo totalmente nosso, que podemos utilizar da forma que desejarmos, sem pressões. Justamente da limitação do espaço e do tempo surge a liberdade de pensar e agir. |
| 29.10.2006 • 22:10 • comentários (6) |
|
Com outros olhos
O melhor meio de uma pessoa refletir sobre sua língua e cultura é deslocar-se: mudar de cidade, estado, região ou país. Infelizmente não tive ainda a oportunidade de morar fora do Brasil para o ver com “outros olhos”, de que tanto falam os que moram no exterior por algum tempo.
Em termos de língua, viver 500km longe de sua cidade natal é o suficiente não apenas para observar algumas diferenças nítidas, na fala principalmente, mas para sentir como a língua do dia-a-dia mexe com a gente. Conviver com as palavras e passar a utilizá-las não é o mesmo que tirar férias e se admirar com o jeito de falar dos nordestinos, dos cariocas ou dos manezinhos, por exemplo.
Morando em Chapecó (SC) há três anos, fui obrigada a mudar algumas expressões empregadas na minha fala: não espero mais ônibus na parada, e sim no ponto (ainda que esse termo não me agrade pelas associações que suscita). Aliás, não espero mais ônibus; espero lotação, ou “lotcha”, caso queira dar um ar mais informal e jovial à minha fala, aproximando-a da dos meus alunos.
Não subo mais lomba (e custei a me dar conta disso!). Depois de comentar duas a três vezes com uma colega sobre a vontade de realizar caminhadas próximo à universidade, com o porém de que havia lombas, percebi que ela simplesmente não estava me entendendo. Então chegamos à conclusão de que tinham subidas, ou ladeiras.
O mais triste, entretanto, é não poder pedir cacetinho na padaria. Pãozinho não é a mesma coisa... Até hoje não sei exatamente como me referir, pois a palavra pãozinho compreende outros tipos de pães (sovadinhos, doces, etc.), e pão francês ou pão d'água são termos mais abrangentes que pão de 50g. Felizmente aqui em Chapecó, pela proximidade com o Rio Grande do Sul, não o olham de cara feia ou assustada se ouvirem a palavra cacetinho no balcão, mas prefiro não arriscar. Quando vou a Porto Alegre, tenho o prazer de pronunciar com todos os fonemas: “Seis cacetinhos, por favor!", além do que eles são muito mais gostosos lá do que aqui. Que prazer tomar café com cacetinho e nata...
Ainda sobre a lotação, outro dia a Jake, colega da editora, contava sobre sua primeira experiência como motorista depois de tirar a carteira: o carro parou em uma subida [lomba para mim] com uma lotação atrás, pois ela estava com o freio-de-mão puxado e não sabia. Imaginei a cena, mas com um microônibus vermelho, como as lotações de Porto Alegre. Bem diferente dos ônibus municipais amarelos daqui. |
| 24.10.2006 • 10:58 • comentários (4) |
|
|
|