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Páginas de lições II
Além de fazerem marketing social, as novelas agora têm de prestar contas ao Ministério Público quanto a “distorções”. O MPF recomendou ao diretor de “Páginas da Vida” que exiba cenas que mostrem punição às escolas que recusarem a matrícula de crianças com deficiências.
Caso a novela não apresente as cenas, deverá exibir “por três dias, junto aos créditos finais da novela, um texto esclarecendo que crianças e adolescentes com deficiência também têm direito inalienável de acesso às classes e escolas comuns da rede regular de ensino e que é dever dos pais e de seus responsáveis exigirem o cumprimento desse direito". Veja aqui.
A justificativa do MP para tal intervenção é a de que
“— o art. 221, da Constituição brasileira, dispõe que a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender aos princípios da preferência por finalidade educativas, informativas, de respeito aos valores éticos sociais da pessoa e da família, entre outros, assim, não poderia adotar abordagens que induzem a erro o telespectador sobre os direitos de crianças e adolescentes com deficiência;”
e
“— as emissoras de televisão são concessionárias de um serviço público federal, cabendo ao Ministério Público Federal, nos termos dos artigos 5º e 39 da Lei complementar 75//93 , “zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos da União, dos serviços de relevância pública e dos meios de comunicação social aos princípios, garantias, condições, direitos, deveres e vedações previstos na Constituição Federal e na lei, relativos à comunicação social”, bem como “exercer a defesa dos direitos constitucionais do cidadão, sempre que se cuidar de garantir-lhes o respeito pelos concessionários e permissionários de serviço público federal”. (Conforme está no site do Estadão).
Agora pergunto:
Quando um vilão não for preso ou não morrer, também deverá haver um alerta nos créditos finais de que os crimes cometidos por eles estão sujeitos à punição e que cabe aos cidadãos reivindicarem o direito (ou dever?) da sociedade de que sejam punidos?
Leia também Página de lições. |
| 26.02.2007 • 11:11 • comentários (0) |
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Páginas de lições
Independentemente das pesquisas de audiência da novela “Páginas da vida”, o comentário geral é de que nunca houve novela tão chata como esta. Duvido da afirmação, pois a memória de todos é curta e os fatos são filtrados ao longo do tempo, mas o que chama a atenção nesta novela mais do que em todas as outras é o seu caráter didático.
Já faz algum tempo que a Globo tem levado às novelas lições de saúde e comportamento – aprendemos sobre como lavar bebês recém-nascidos, sobre como é importante doar a medula óssea, sobre regras de etiqueta, sobre a importância da leitura e da cultura nacional... Tais ensinamentos, conhecidos como “marketing social”, se contraporiam ao caráter alienante de que as novelas são acusadas. Mas “Páginas da vida” supera todas as possibilidades didáticas, de ensinamento moral e/ou com caráter de auto-ajuda em alta intensidade e nível de explicitação.
Ninguém gosta de lição de moral o tempo todo. Uma obra de ficção não pode ter como função principal ensinar sobre a realidade. O autor de "Páginas da Vida", Manoel Carlos, declara que sua ficção aproxima-se o mais possível da realidade, o que poderia ser um ponto positivo – afinal ver parte do Brasil urbano retratada na tv é, no mínimo, bonito. Dessa forma, há a menina e sua mãe racista e diálogos sobre como isso é uma doença; pobreza na África e violência no Rio e diálogos sobre como isso é injusto; portador do HIV e diálogos sobre a necessidade de aceitar a doença; casal de adolescentes namorando e diálogos sobre...
Na verdade, uma obra de ficção pode ensinar muito mais se der margem para a ambigüidade e interpretação. Por exemplo, a cena em que a megera Marta chega em casa furiosa e ameaça bater em seu neto, Francisco. Não é preciso dizer que é errado bater em criança – basta o olhar de medo e impotência do menino, que possibilita interpretação ao telespectador. Apenas dessa forma a novela pode ensinar alguma coisa. O avô, Alex, chega, impede a violência e convida o menino para o quarto – não há sermões, não há aulinha sobre o respeito às crianças e o dever de protegê-las.
O mesmo ocorre com obras literárias. A função da literatura não é ensinar, embora o faça na dimensão de reflexão sobre a vida e as suas possibilidades. Na escola, contudo, principalmente nas séries iniciais, a “historinha” tem sempre um caráter moral ou didático. Abordar o tema da separação dos pais, da morte, da cooperação; ensinar as cores, as formas, os números. Os professores costumam “matar” os livros literários ao procurarem neles apenas características didáticas. Tal postura se relaciona a uma visão utilitarista e prática da vida e da escola – é preciso “servir” para alguma coisa. Então as crianças acham a escola chata, pois não estão a fim de aprender o tempo todo; os telespectadores mudam de canal e vão ver dramas românticos açucarados, que pelo menos os emocionam e divertem. |
| 23.02.2007 • 20:15 • comentários (0) |
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