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língua icon Multa de R$ 0,10
Na editora em que trabalho, multa para quem cometer deslizes na fala. O dinheiro arrecadado comporá um fundo de emergência para a compra de guloseimas nos momentos em que o stress chega a um ponto culminante (o que ocorre pelo menos quatro dias por semana).

Ocorrências elencadas por enquanto, com base no que se ouve com freqüência entre as 6 paredes:

• palavrões de qualquer natureza;
• “para mim fazer...”;
• “para ti fazer...”;
gerundismo;
• “meia cansada” ou “meia qualquer coisa” (não sabemos se de fato ocorre);
• “com certeza” (em casos desnecessários e abusivos).

As expressões “tipo assim” e “né” foram cogitadas, mas chegou-se ao consenso de desconsiderá-las, pois não é objetivo da ação deixar todo mundo mudo.
02.10.2007 • 21:46 • comentários (2)

língua icon Medo de errar, de dizer bobagens ou do próprio trabalho que é escrever?

Se a aprendizagem da leitura leva anos, a da escrita é mais demorada ainda. Se juntar palavras é a tarefa mais vã e entanto as juntamos mal rompe a manhã, normalmente o fazemos com palavras faladas e dispersadas no tempo, e raramente as registramos na escrita.

Além da falta de tempo, normalmente há medos associados ao ato de escrever.

A grafia já não é o grande terror de quem escreve, tendo em vista os corretores ortográficos de texto que apontam os problemas. Com um pouco de atenção, é possível corrigir boa parte deles sem grande esforço.

As frases, estas sim costumam incomodar. Teimam em não sair no papel ou na tela do computador da forma como estão claras na cabeça e refletem o que pensamos. Ficam “capengas”, de “pé quebrado”, com algo faltando. Às vezes não temos nem vontade de ler o que escrevemos e difícil acreditar que o que foi escrito seja interessante para alguém.

Uma vez comentei com um professor de literatura, oriundo da área do jornalismo, sobre como eu me admirava da rapidez com que os jornalistas escreviam um texto – ainda que não fosse um primor lingüístico, articulavam em forma de escrita em poucos minutos ou horas o que eu demoraria horas para fazer. “É só prática!", foi a resposta dele. Não têm nada de especial, nada de melhor do que profissionais de outras áreas além do fato de escreverem com freqüência por exigência profissional. As palavras fluem de maneira muito mais fácil com a experiência. É como cantar – a entonação é alcançada com facilidade para quem conhece a técnica e tem prática.

A técnica, além da prática, ajuda muito. Saber como encontrar no próprio texto os problemas: as grafias erradas apontadas ou não pelo editor de texto; as discordâncias entre termos; as frases que, embora inteligíveis, estão fragmentadas ou longas demais; os “vícios de linguagem” e o uso de expressões que grudam na fala e que não são bem-vindas na escrita; as incoerências e os problemas de coesão textuais, que geram falta de continuidade de sentido e a desorganização das idéias e argumentos.

Além do desconhecimento da técnica, o não ter o que dizer e não saber como dizer faz muitos empacarem antes de começar. O que pode ser escrito que já não o foi? Isso, aliás, é o mais surpreendente do ato de escrita, ou melhor, de qualquer ato criativo humano: um mesmo assunto nunca é abordado de forma exatamente igual na escrita se ele foi de fato criado por seu autor. Pode haver textos muito parecidos, mas nunca iguais.

No ato de escrever organizamos o pensamento e transformamos o que pensamos para a linguagem escrita. Apesar do planejamento e projeto iniciais, o texto nunca acontece como prevemos. Novas idéias, diferentes palavras e construções se insurgem no meio da escrita – o texto toma rumos não-previstos. Escritores costumam dizer que os personagens ganham vida própria e há quem pense que algo meio sobrenatural, inspirado, fora do controle sobrevém a quem escreve um texto ficcional e literário. Entretanto, essa falta de controle não é diferente do que ocorre com qualquer outro tipo de texto, mesmo que seja uma simples redação escolar, um comentário ou uma narração de um fato. Às vezes escrevemos sobre algo que sabemos, mas que, com uma forma escrita, parece se tornar algo novo.

Os assuntos, as idéias, por sua vez, surgem com maior naturalidade e diversidade a quem escreve com mais freqüência. Tanto escritores como jornalistas costumam andar com um caderninho de anotações, e qualquer acontecimento banal pode ser pretexto para a elaboração de um texto. Como diz a palavra, o acontecimento é o “pré-texto” – basta anotá-lo e mais tarde desenvolvê-lo.

A pessoa que costuma escrever e que deseja transformar em escrita o que experiencia, por motivos de trabalho ou por desejo pessoal, começa a ter um olhar diferente diante da banalidade: no ponto do ônibus, uma pergunta banal com uma resposta não satisfatória pode ser tornar um texto; na televisão, a fala de um personagem ou de um apresentador de algum programa de auditório pode ser o mote para a redação de algumas linhas; um conto lido ou uma notícia de jornal pode ser a idéia para outro...

O mesmo fenômeno de geração de textos ocorre também com quem não escreve – produzem-se textos o tempo todos na mente de quem observa o mundo, mas o fato de não haver a intenção de registrá-los ou a falta de oportunidade de dividi-los com alguém em uma conversa faz com que desapareçam fugazmente. Às vezes os textos pensados reaparecem em uma conversa, em uma aula, em uma brincadeira, mas tendem a se perder de forma muito mais fácil do que se fossem registrados na escrita, mesmo que por meio de uma pequena anotação. Pablo Vilela comentou aqui no blog:
Pois sabe que com essa história de escrever a gente acaba ficando mais atento ao mundo!? Antes muita coisa me passava despercebida. Algumas eu até percebia, mas não dava a devida importância. Hoje, escrevendo e colecionando possíveis futuros comentários, o mundo parece ter sempre um detalhe a mais para me mostrar.
Perissé, em o Elogio da Leitura, cita o “Elogio da Calvície”, escrito por Sinésio de Cirene entre os séculos IV e V, que, segundo informações da Wikipedia, foi uma resposta ao “Elogio da cabeleira” de Dio Crisóstomo, do século II. Cita ainda o livro “Elogio do gordo”, publicado por François Coupry em 1989. É possível escrever sobre qualquer assunto. Quando começamos um texto, não sabemos como vamos acabá-lo, e os temas aparecem. Ao mesmo tempo, para escrever precisamos ler e pesquisar se quisermos ser precisos e evitar informações erradas.

Haja, contudo, tempo para tudo isso. Este é o argumento derradeiro: não há tempo para escrever; não há tempo para ler.

Felizmente ainda conseguimos tempo para tomar banho e escovar os dentes todos os dias. Conseguimos tempo até para comer e dormir – e se não o conseguirmos, algo em nosso corpo grita e somos obrigados a fazê-lo. Os orientais ligados a práticas meditativas costumam comentar que não entendem a dificuldade dos ocidentais para meditar, alegando que esquecem e não têm tempo. Perguntam-se eles sobre como não esquecemos ou arranjamos tempo para fazer a barba, maquiar o rosto, lavar as mãos, algo tão dispensável (ou indispensável) e rotineiro como meditar.

Escrever e ler podem também ser um direito inalienável ou uma obrigação em nossa vida, embora não chegue nunca o momento em que haverá tempo livre para isso.
26.08.2007 • 16:06 • comentários (1)

língua icon Com certeza, que situação!
Freqüentemente me pego respondendo a perguntas as quais se exige apenas uma resposta suficiente para manter a interação conversacional com a expressão “com certeza”. Um “Com certeza,” e uma explicação adicional é o suficiente para manter o diálogo sem esforço. Além disso, até mesmo em e-mails o “com certeza” aparece para confirmar e enfatizar o que estamos explicando. Praga que pega como bocejo se não estivermos atentos.

Tenho olhado a Ana Maria Brega de vez em quando, pois o único canal de TV que pega com qualidade na minha casa é a Globo. Ainda não contei, mas a expressão “Que situação!” é dita inúmeras vezes durante o programa tanto por ela quanto pelo fantoche papagaio. Serve para qualquer situação: complicada, constrangedora, engraçada, diferente, insolúvel... Como o bocejo, que segue sem explicação de por que contagia e costuma ser inconveniente, algumas expressões lingüísticas passam a contaminar o ambiente e a nós mesmos.
19.08.2007 • 14:52 • comentários (2)

língua icon mim, menas, meia
Concordo com as teses da sociolingüística sobre as variedades e os preconceitos lingüísticos e ajudo a explicitá-los e divulgá-los em sala de aula. Não costumo reparar na forma como as pessoas falam quanto a seus possíveis erros – todo mundo pensa que professor de português observa os defeitos da fala, assim como supostamente um psicólogo analisa os problemas de personalidade...

Acredito, contudo, que algumas normas na fala devem ser seguidas pelas pessoas cultas, considerando-se o grau de escolaridade como fator de cultura. Por isso, alguns “erros” têm doído em meus ouvidos:

“O diretor pediu para mim fazer o relatório.”
“Nós temos menas condições de enfrentar o mercado.”
“A aula foi meia fraca...”

Chama-me atenção o “mim” utilizado como sujeito da frase e reconheço que é uma estrutura difícil de perceber como um problema. Afinal, o “para” antes do mim praticamente força sua utilização. A necessidade de concordância da maioria dos termos da língua portuguesa também leva à flexão do “meio”, até porque, quando essa palavra é adjetivo, ela se flexiona. Mas ouvir professores universitários falarem “menas” sem ter preconceito é uma tarefa muito árdua.

Possivelmente quem fala assim não incorre em tais problemas na escrita, pois pensa nas regras quando escreve e reescreve. A fala, sem edição, não permite uma reflexão apropriada.

Como disse, não reparo nem corrijo. Mas como age um médico quando vê sinais claros de doenças em amigos e colegas? Recomenda um tratamento, suponho. Quanto ao psicólogo, não sei se comentaria os distúrbios... Um professor de português recomendar um maior cuidado com a fala é altamente constrangedor e não-aceitável, a menos que lhe peçam explicitamente.
12.12.2006 • 22:56 • comentários (7)

dia-a-dia icon Tia

Todo mundo fala em dia das mães, o que tem sua razão de ser, mas deveria haver um reconhecido dia da tia .

Tia é um parente muito agradável. Se você é mulher , a tia é aquela amigona que conversa sobre os seus problemas; se você é homem, a tia o protege da severidade de sua mãe.

A expressão “ficar para titia” precisa ser revista. O que poderia ser melhor do que ter um bebê ou criança sem a responsabilidade de ser mãe? Quando meu sobrinho nasceu, o Luciano, fiquei de fato para titia e foi uma curtição só! Éramos as paparicadeiras, como dizia meu pai. Eu, minha irmã e minha mãe ficávamos em volta do bebê até o momento do choro, quando o enviávamos para a minha cunhada, a mãe.

Minhas tias foram e são grandes, especialmente a tia Mari e a tia Isa (mas tiveram também papel importante na minha vidas as tias Regina, tia Zilda e tia Celita, sempre tão carinhosas e misteriosas).

Quando criança , queria ter tias tão malucas como as do livro “A vaca voadora”, de Edy Lima. Elas inventavam elixir de levitação e se envolviam em aventuras inimagináveis. Uma delas, a Aniceta, tinha morrido de rir! Bom, isso poderia ter acontecido com minha tia Mari, sempre com sua risada de orelha a orelha...

A tia Isa freqüentava festas elegantíssimas com seus vestidos lindíssimos (tenho um deles até hoje), na moda e vaidosa. A tia Mari me deixava quase sempre dormir com seu travesseiro de penas e um dos meus maiores prazeres era descascar o esmalte de suas unhas vermelhas antes de ela passar a acetona.

Batizávamos, eu e a tia Mari, todas as bonecas, e Janaína era o nome mais bonito – vontade de que todas as bonecas se chamassem Janaína. Era tão seguro aquele pequeno apartamento, com minhas tias e minha avó, onde eu brincava de balão ou com minha boneca de pano, no minúsculo corredor...

Havia dificuldades, como tentar acordar e levantar a tia Mari para ir para o trabalho sem que ela se atrasasse. Eu não entendia como podia ser tão difícil, e hoje sinto na pele a vontade de ficar mais um pouco na cama, sendo-me impossível às vezes sair dela na hora que desejaria.

O bom mesmo da tia é que ela nem sempre age como um adulto (o que a mãe e o pai têm de fazer), e então está sempre disposta, pelo menos nas férias e fins de semana, a participar de jogos e brincadeiras: canastra, War, banho de açude ou piscina, caminhadas no meio do mato. Ela também briga de igual para igual, e essa é a melhor parte! Ser infantil como o sobrinho mostra a sua fragilidade e que não pertence totalmente ao mundo dos adultos!

É uma pena não conviver mais tão próximo às minhas tias nos últimos anos. Quem dera eu seja querida pelo meu sobrinho como o são minhas tias por mim e meus irmãos.
30.11.2006 • 11:29 • comentários (4)

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