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Particular
Alunas conversando paralelamente enquanto há uma interpretação coletiva de um texto em aula.
— Quer falar algo, fulana?
— Não, não era sobre a aula.
O tititi continua.
— Algum comentário, fulana?
— Se não quer participar, por favor não converse.
— Não estou atrapalhando!
— Você não está tendo uma aula particular para poder fazer o que quer. Temos uma turma aqui – o trabalho é coletivo.
— Estou sim. Eu estou pagando para estudar numa universidade particular!
Como era aula de língua portuguesa, deveria ter dado como tema de pesquisa as diferentes acepções da palavra particular:Particular adjetivo de dois gêneros
2 próprio ou de uso exclusivo de alguém; privativo, privado Ex.:
6 Rubrica: termo jurídico. que pertence ao indivíduo, pessoa natural ou jurídica, na ordem privada, p.opos. ao que se relaciona com o que é inerente à ordem pública (Dicionário eletrônico Houaiss). Fiquei muito nervosa para simplesmente encerrar o assunto e dizer para a querida aluna procurar um “amansa-burro”.
Cenas como esta, antes restritas ao ensino fundamental e médio, são cada vez mais comuns na universidade. Trata-se do novo aluno que costuma estar chegando à nova universidade brasileira. E o professor tem que estar sendo um novo professor para estar preparando o novo aluno para o novo conhecimento que ele precisa estar sabendo para estar autuando profissionalmente.
Como eu já tenho uma mentalidade de velha desde criança...
 Imagem retirada daqui. |
| 05.10.2008 • 10:55 • comentários (1) |
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Mondar
Uma das dificuldades das pessoas em ler literatura de um século atrás ou mesmo de ler em língua estrangeira é o vocabulário. Topamos com uma palavra e não conseguimos ir à frente sem entender o significado dela. Para ser um leitor eficiente é importante também aprender a “pular palavras” em vez de ler linearmente.
No contexto da frase e do parágrafo é possível entender a palavra desconhecida, mesmo que continuemos sem uma definição exata para ela. Isso não serve, é claro, para leituras mais aprofundadas de um texto e também não serve para quem quer adquirir vocabulário. Se um destes dois objetivos estiver em questão, é necessário parar, verificar a palavra no dicionário e analisar as opções de significado em relação ao que foi empregado no texto que estamos lendo. Neste caso um dicionário eletrônico é muito mais rápido e prático. Desde que tenho dicionários no meu computador, o pobre Aurélio, já tão desgastado, não sai mais da estante.
Confesso que ainda tenho um certo prazer físico em folhear dicionários e procurar vagarosamente uma palavra para identificar suas acepções ou usos, mas só o faço na editora em que trabalho, pois não há edições eletrônicas no computador e, mesmo se houvesse, há um computador apenas para 4 revisores. É um bom motivo para fazer uma pausa, levantar da cadeira, consultar os dois dicionários, refletir sobre o quanto divergem e depois voltar a revisar.
Quando estava na graduação, estagiava em uma escola particular corrigindo redações de alunos. A equipe era composta de mais ou menos seis estagiários e, embora recebêssemos por 20 horas trabalhadas, cumpríamos apenas 12h na escola. Se não houvesse redações para corrigir, ficávamos lá estudando ou fazendo outra coisa. Um dia perguntei para uma colega o que ela estava procurando no dicionário. E ela:
— Nada, estou só lendo!
Diante da minha surpresa, ela disse que era bom ler o dicionário de vez em quando. Nunca havia me ocorrido isso. Nem mesmo gramáticas eu lia, e só fui ficar mais amiga delas depois de formada.
Hoje, continuando a leitura do Prefácio Interessantíssimo, deparei-me com a seguinte frase:
Arte é mondar mais tarde o poema de repetições fastientas, de sentimentalidades românticas, de pormenores inúteis ou inexpressivos. Se não estivesse diante do computador, teria bastante resistência a pegar um dicionário para descobrir que "mondar", segundo o Houaiss, é: • verbo Regionalismo: Portugal.
transitivo direto 1 arrancar (ervas daninhas que nascem entre os cereais e não os deixam medrar)
transitivo direto 2 cortar (ramos secos ou supérfluos de árvores, arbustos etc.)
transitivo direto 3 rever e corrigir (texto)
Etimologia lat. mundo,as,ávi,átum,áre 'limpar, purificar'; f.hist. sXV mondallas> Sempre tive a sensação de que revisar um texto é limpá-lo de sujeiras e “ervas daninhas”, algo como uma catar galhos secos e papéis de bala na grama. Pois aí está o verbo “mondar” para me ajudar a visualizar mais claramente esta idéia.

Eu não quero que vás à monda Eu não quero que vás mondar Eu não quero que o teu pai diga Que casaste comigo p´ra trabalhar. Imagem e versos retirados daqui. |
| 29.09.2008 • 10:45 • comentários (0) |
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Completude de a a zzz
Esta crônica do Luis Fernando Verissimo vale, senão por outros motivos, por me ajudar a nunca mais esquecer a pronúncia do Houaiss: “deve lembrar vários mineiros se espantando ao mesmo tempo”. O nome e o homem têm origem libanesa.
A comparação entre dicionários e constituições (ambos divertidos, instrutivos e ficcionais) também é bastante profícua, mas os dicionários têm um grau de aplicabilidade bem maior.
Completude de ‘a’ a ‘zzz’
Quando lhe perguntaram que obra ele gostaria de ter escrito, Jorge Luis Borges (diz a lenda) respondeu: ‘A décima primeira edição da Enciclopédia Britânica.’ Mas ninguém ainda teve a idéia - bom, talvez o Borges sim - de escrever um dicionário como se escreve um romance. Ou um romance em forma de dicionário, inventando verbetes e aproveitando as definições para desenvolver um enredo, atribuindo exemplos do uso da palavra a personagens recorrentes. Tipo: ‘falbetim s.m. objeto cônico usado em jogos amorosos, citado por Moura quando interpelou Celina no terraço depois da festa do Ademar (ver bizizi) e disse: ‘Não minta! Vi o falbetim no quarto’, fazendo-a corar e...’
Um dicionário assim, inventado e com diálogos em seqüência, ficaria mais parecido com o Aurelião, pois o Houaiss não dá exemplos e não cita ninguém.
Mas, talvez para compensar a falta de literatura alheia, é mais rechechê (ver abaixo) do que o Aurelião, como na sua primeira definição de saudade:
‘sentimento mais ou menos melancólico de incompletude’ -, o que nos leva, claro, a uma busca frenética à letra I, na secreta e maldosa esperança de que não conste incompletude. Consta. Sei que já houve reclamações, mas incompletude é um sentimento que ninguém pode ter depois de folhear o Houaiss, ou apenas, como eu fiz, pular, criticamente, de a a zzz. Só pelo peso dá para ver que não falta nada.
Sim, de a a zzz. O último verbete do Houaiss - depois de zwingliano referente ao zwinglianismo pregado pelo suíço Ulrich Zwingli, que provavelmente também envolvia objetos cônicos (e é o último verbete do Aurelião, pelo menos da edição que eu tenho), zwitterion e zwitteriônico, termos da química, e z-zero (bóson neutro, felizmente) - é zzz, ‘cujo emprego mais comum’, diz o Houaiss, ‘é interjetivo, p. ex., em legendas de histórias em quadrinhos’.
Zzz está no novo dicionário porque é o ruído que as pessoas e os animais fazem nos quadrinhos quando estão dormindo. O que me fez procurar argh, ruído de irritação, bleargh, ruído de vômito, cof, cof, ruído de tosse, grrr, ruído de raiva, paft ou paf ou pof, ruídos de soco, também dos quadrinhos. Sem sucesso.
Bang, ruído de tiro ou explosão, tem, e o seu abrasileiramento bangue, e bangue-bangue como sinônimo de faroeste. Mas por que outras convenções interjetivas não tiveram a mesma consideração de zzz? Desconfio que os três zês entraram no fim de improviso e por charme, um pouco como garis sambando atrás da escola luxuosa que passou, e que acabam sendo a coisa mais memorável do desfile. Ou um toque final de simpática frivolidade para mostrar que os autores também têm senso de humor e que pode haver mais riso num dicionário do que o quá-quá-quá entre quapóia e quáquer. Ou apenas uma provocação com o principal concorrente, que jamais se lembraria de listar zzz como palavra. Uma brilhatura para deixar o Aurelião fazendo grrrr.
Mineirices - A comparação com uma escola de samba não é vestidão (ver abaixo). O Houaiss (cuja pronúncia certa, segundo o Joaquim Ferreira dos Santos, deve lembrar vários mineiros se espantando ao mesmo tempo) é um luxo. Capas, papel, projeto gráfico - tudo de primeiro grupo. Como deve ser, porque um dicionário é como uma constituição. Ao mesmo tempo, um guia prático do que pode e do que não pode, um livro de instruções para o entendimento social e a solenização da experiência comum de uma nação, no caso, a experiência da mesma língua.
Portanto, além da impressão de completude, um dicionário precisa dar uma impressão de monumentalidade. Mesmo que, como a constituição, ele também saia em versões de bolso e em CDs, precisa ter uma versão oficial com peso, durabilidade e grandiosidade - nada, enfim, para se ler na cama sem o risco de afundar o esterno. E o Houaiss tem esse aspecto solene de algo que chegou para ficar - ao contrário das constituições brasileiras, que têm a solenidade mas não têm a permanência.
Um dicionário tem outras coisas em comum com uma constituição.
Discute-se o que deve estar na constituição e o que deve ser regulado por fora, e é a mesma discussão sobre que palavras merecem ser ‘oficializadas’ num dicionário, ou quando um estrangeirismo, um neologismo ou uma gíria podem sair da clandestinidade e ser enquadrados nas leis da língua. A gíria, principalmente, é um problema. Encontrar uma gíria que caiu em desuso e continua no dicionário (como ‘brasa’ usado como elogio) provoca o mesmo sentimento mais ou menos melancólico de encontrar artigos na constituição brasileira como os que estabelecem o limite dos juros e o que um salário mínimo deve valer - o sentimento de brasilitude (ver abaixo).
Nos dicionários, como nas constituições, há coisas que a gente nem imagina que existam. E os dois estão cheios de regras inaplicáveis e palavras difíceis significando nada.
Eu preferiria tipos um pouco maiores, mas isso é porque os meus olhos - para ficar só nos órgãos da cabeça - não funcionam mais como antigamente. Mas está muito bonito o Houaissão. E devidamente monumental.
Poderia haver um Dicionário Reivindicativo da Língua Portuguesa, não com todas as palavras que existem, mas com palavras que não existem e deveriam existir. Como as que usei acima, rechechê (elaborado, prolixo, um pouco preciosista, como em zzz, disse Celina, comentanto o discurso rechechê do conde Álvaro), vestidão (gíria, significando descabido, inadequado, exagerado) e brasilitude (o mesmo que brasilidade, mas no mau sentido). E coisas como flanfo, que, se existisse, seria claramente o nome de sujeirinha no umbigo.
Fica a idéia, Feith.
Luis Fernando Verissimo Publicado em O Estado de S. Paulo, disponível no Observatório da Imprensa, 8/09/2001. |
| 25.06.2008 • 09:41 • comentários (3) |
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