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Acabei de fazer uma choradeira aqui na editora, quando a Jake publicou o texto abaixo — sobre a minha mudança para Florianópolis — no blog dela.
Que saudade vou sentir de todos da editora!
Ela vai revisar as ondas...
Ela não tem cara de professora, de mestre, de revisora e de quase doutora. Mas ela é. Na primeira vez que a vi, usava uma saia jeans, sandália vermelha e blusa amarela. Professora, ela? E era. E veio trabalhar na mesa ao lado da minha. E veio para me ensinar a ser uma chata das palavras. E conseguiu.
Este blog é dela também; é ela quem me cobra que eu escreva. E cobra que eu escreva coisas que valham a pena ser lidas.
E ela vai ler este texto e me perguntar assim: “Não é você quem odeia que comecem as frases com ‘E’?”.
Agora ela vai revisar as ondas. Vai tirar a sandália vermelha para andar na areia. Vai para a capital. Para lá ela vai levar um pouquinho de sotaque de cada lugar em que morou. Vai revisar outros textos, falar com outras pessoas. Dela aqui, em mim, ela deixa a chatice, de que me orgulho, e a qual prometo cultivar.
Tenho certeza de que sentirei falta das sandálias vermelhas e do óculos de professora. Também da cobrança, do incentivo e das aulinhas de português.
A capital receberá feliz as sandálias vermelhas, a caneta vermelha e os dois gatos dela. Ela receberá das ondas a mesma calma que nos transmitia quando as impressoras pareciam explodir e os prazos nos sufocar. A ela sorte, sucesso e muito mar; é isto que desejo. Do tamanho do mar é o quanto tenho a agradecer a ela. Felicidades naquela “cidade horrível”, Fabiana!
• Estou estudando inglês com uma gramática publicada em Portugal em 1989. Surpreende-me os vários exemplos com o verbo “smoke”. Fumar era considerado algo natural e corriqueiro como “eat”, “drink”, “sleep”. Lembro também que nos livros escolares de inglês havia exemplos com o verbo “fumar
• Vi poucos episódios de Mad Men, mas é possível ficar tonto só de ver tanta fumaça. Mulheres grávidas fumando. Os homens fumam todo o tempo no escritório. Em qualquer lugar. No primeiro episódio acabaram de descobrir que o cigarro pode fazer mal, e o impasse está em continuar fazendo campanhas de cigarro sem dizer isso.
• É incrível que tão recentemente no Brasil as propagandas de cigarros na TV tenham sido proibidas há tão pouco tempo e que somente no ano 2000 se proibiu em outros meios. Como será que as pessoas escolhem agora o status que querem ter pelo cigarro que fumam? Ainda está no ar o glamour de algumas marcas, mas em breve podem ser esquecidas.
• Eu tinha um pouco menos de 10 anos quando foi proibido o cigarro em ônibus. As pessoas achavam um absurdo. Então seria proibido fumar no transporte público – se era público como proibir? E só no ano passado se proibiu o cigarro nas instituições públicas federais. Tiraram-se as caixinhas de areia dos corredores da Ufsc, por exemplo. Também não mais as vi na Unochapecó.
• Meu pai fumava. E ria dos amigos que, influenciados pelas notícias de que fumar faz mal e, segundo ele, dominados pelas esposas, deixavam de fumar. Em um ano-novo, na noite do dia 31, colocou dois cigarros na estante, que lá permaneceram por meses ou anos. Nunca mais fumou desde então. Ninguém riu dele.
• Eu estava na sétima série e a campanha antitabagista já era muito forte. Havia cartazes nas escolas. Eu fiz um desenho com um homem sendo queimado por cigarros que penetravam em seu corpo (nada a ver com as torturas da ditadura – o homem estava vestido).
• Estes dias fiquei sabendo que uma amiga fumou durante suas duas gestações. O marido era médico – eles tinham consciência dos malefícios, mas ela não parou. Na minha família, mesmo tendo bem menos conhecimento, fizemos uma tia nossa parar de fumar quando estava grávida – talvez olhássemos mais televisão do que a minha amiga...
• Nas viagens longas de ônibus não é incomum que alguém fume no banheiro. Então o motorista pára o ônibus para advertir o mal-educado. Certa vez um homem, ao sentir o cheiro de cigarro, foi até o banheiro do ônibus e segurou a porta. Lá ficou por horas enquanto o fumante se desesperava achando que estava trancado. Ele deve ter pensado duas vezes antes de fumar novamente num ônibus.
• Apenas no início deste ano a França aboliu o fumo em cafeterias e ambientes fechados. Quem gosta de fumar acha café e cigarro uma combinação perfeita.
• Uma nova lei estadual de São Paulo propõe que o fumo seja proibido em qualquer ambiente fechado e que não haja mais áreas para fumantes. Por incrível que pareça, mesmo os fumantes aprovam a lei, e entre os não-fumantes o apoio é de 81% dos brasileiros.
• No ano passado disse para uma colega fumante o chavão que quase sempre repetia: “Está se matando aos pouquinhos.” (Reconheço que a frase é muito antipática e tenho tentado não mais repeti-la.) Então ela perguntou se eu conhecia alguém que tivesse morrido de câncer do pulmão por causa do cigarro. Não me ocorreu na hora, mas o pai do Eduardo, que não pude conhecer, morreu aos 33 anos de idade por este motivo. Ela ficou feliz com a minha falta de resposta. Alguns meses depois uma amiga dela, que tinha câncer no pulmão e que só parou de fumar no estágio terminal da doença, faleceu. Não sei se a minha colega ainda faz esta pergunta às pessoas.
• A bagana é a pior sujeira de qualquer praia ou jardim. Se um copinho de plástico, papel de bala ou qualquer outra porcaria são jogados no chão, é possível catar e limpar. Mas alguém conseguiria limpar as baganas de cigarro da praia? Só se filtrasse toda a areia.
• As imagens impressas nas propagandas de cigarros ficarão mais fortes ainda do que antes. Sempre é possível escondê-las em uma cigarreira, mas a quem o fumante está enganando?
Enquanto não volto a escrever
Não sei por que o Eduardo indicou este vídeo para mim. Possivelmente porque ele gostou muito do jogo de Tetris com a mobília.
De qualquer forma, ilustra um pouco o motivo pelo qual não escrevo há quase três meses neste blog.
Mel de abelha
Não é para imitar o Cadê o revisor, mas desde criança tenho a compulsão de ler os rótulos dos produtos que estão na mesa durante as refeições. Hoje foi o do pote de mel.
Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Como é natural, seu complexo vitamínico e de sais minerais, fermentos e ácidos é integralmente assimilado pelo organismo humano. A sua fácil digestão faz com que se transforme imediatamente em energia, penetrando na corrente sangüínea.
O mel, tem também as qualidades da enzima, pois, ativa a função de várias glândulas.
O mel é ótimo contra as intoxicações produzidas pelo álcool, fumo e poluição. O mel ativa grandemente as funções do cálcio e do fósforo.
Informações do rótulo do pote de mel.
O que mais se destaca no texto, além do uso do chavão inicial, é o emprego de vírgulas para indicar pausas e, conseqüentemente, separando elementos sintaticamente relacionados e complementares. Na escola todos aprendemos que a vírgula indica a pausa, o ponto-e-vírgula uma pausa média, e ponto uma pausa maior. De fato, se lermos um texto em voz alta, devemos obedecer a essa sinalização para dar uma melhor entonação à leitura; entretanto, e isso quase nenhum professor explica, nem todas as pausas da fala são representadas na escrita. Aliás, a escrita não é uma transcrição da fala, e as frases escritas não têm a mesma estrutura sintática que as da fala, o que faz com que a pontuação tenha uma função própria apenas na escrita.
No texto do meu café da manhã, as vírgulas possivelmente foram utilizadas por meio do critério da pausa na leitura. O que o redator não percebeu e que depois de “mel” e “pois”, mesmo havendo a pausa, tais vírgulas estão erradas porque separam, no primeiro caso, o sujeito do verbo e, no segundo caso, a conjunção explicativa da oração que introduz.
Não há uma explicação, exceto de falta de espaço, para, das três frases que começam com “O mel”, as duas últimas terem ficado juntas em um parágrafo e a primeira separada. Além de ser questionável esta repetição da mesma estrutura sintática, o que torna o texto monótono, mesmo para quem o lê durante o café da manhã, poderiam ser feitos três itens introduzidos pelo subtítulo como “Os benefícios do mel”, por exemplo.
Os produtos da nossa mesa precisam ser gostosos, nutritivos e proporcionar uma boa leitura.
O repouso das coisas
Um texto precisa dormir, nós precisamos dormir, o tempo precisa passar – com distância se vê mais claramente o que no calor do momento parece tão grande ou tão pequeno. Da mesma forma, o valor de um texto só pode ser verificado depois que ele jaz e dormita por um tempo, exposto ao público ou não. Se, depois de muitos anos, um texto ainda vale a pena ser lido, como a crônica de Martha Medeiros, que tem o título deste post, publicada no jornal Zero Hora em 18 de julho de 1999, é porque seu repouso foi reparador, e as orelhas/olheiras resultantes do revolver-se durante o sono não o afetaram. As grandes amizades também funcionam assim. Só permanecem aquelas cujos vai-e-vem permitem que nãos se percam, esquecidas em algum lugar da memória.
Não gosto de escrever um texto e mandá-lo imediatamente para a redação do jornal. Escrevo com certa folga de tempo, para que eu possa deixar o texto dormir um sono reparador antes de jogá-lo às feras.
Assim como as pessoas, certas coisas precisam descansar para se recompor. No caso do texto, é fundamental para mim esquecê-lo por um pequeno período. Quando volto a pôr os olhos nele, horas ou dias depois, consigo detectar melhor suas falhas, repetições ou parágrafos confusos; é a hora da faxina, de limpar o que está sobrando, e só então liberá-lo para o seu destino. Lamento pelos vestibulandos, que não podem apelar para esse recurso, escrevendo contra o relógio suas redações, sem chance de revisá-las com a cabeça fresca.
O repouso das coisas é cada vez mais raro nesse mundo onde todos estão atrasados para alguma coisa. Diariamente, temos que decidir, optar e cumprir prazos para ontem, se muita chance de deixar as resoluções tirarem umas soneca antes de serem efetivadas. Fica assim prejudicada a clareza necessária para detectar nossos erros e acertos.
No calor de uma discussão, levamos a sério todas as abordagens que nos dizem, passando rapidamente para o contra-ataque e assim dinamitando a relação. Se pudéssemos levar nossa mágoa pra cama e com ela dormir, acordaríamos no outro dia enxergando-a sem maquiagem e no tamanho que ela realmente tem: miúda diante de coisas mais importantes do que as palavras rudes que, na noite anterior, escaparam sem querer.
Um sim dito às pressas, um não que foi verbalizado por medo, um silêncio onde deveria haver um argumento: vacilos póstumos. Pudéssemos botar para dormir nossas dúvidas, acordaríamos mais sábios e menos impetuosos. Mesmo as paixões velozes merecem um certo resguardo, uma espiada mais distanciada, para ver onde estamos nos metendo. Cadê tempo, porém, para o afastamento necessário de nós mesmos, para melhor no enxergar?
A realidade não permite tais romantismos. Vence quem toma decisões rápidas, caso de cirurgiões, artilheiros, policiais, motoristas. Fica cada vez mais difícil contar até 10 antes de tomar uma atitude. Sorte a minha que posso me dar o luxo de trabalhar e viver com relativa calma, deixar esse texto dormir na escuridão do computador desligado e só amanhã acender a luz, fazer nele alguns afagos e apertar, finalmente, a tecla send. Como cantava Gal Costa, “a vida não é mais do que o ato de a gente ficar/no ar/antes de mergulhar”.
MEDEIROS, Martha. O repouso das coisas. In: Zero Hora, Porto Alegre, 18 jul. 1999.