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Chuva de Flores

CERTA VEZ PATRUL RINPOCHE ENSINOU o Tantra da Essência Secreta perto de sua caverna em Upper Doe. Entre seus discípulos estava um nômade idoso. Atravessando o rio no seu iaque todas as manhãs, ele voltava para casa toda noite.

Um dia uma chuva torrencial fez o rio transbordar. Apesar disso, o devoto ancião tentou cruzá-lo. Carregado pela forte correnteza, ele afogou-se. Alguns nativos carregaram seu corpo pela colina até Patrul.

"Ah-zi! Pobre senhor!", Patrul exclamou. "Ele morreu por seu desejo de receber ensinamentos. Devemos orar e fazer profundas aspirações para seu desenvolvimento futuro." O cadáver jazia no chão perante o mestre compassivo. A mulher e os parentes do velho lamentavam-se ruidosamente. No Tibete oriental, a morte por afogamento é considerada especialmente de mau agouro, já que os nômades acreditam que quem morre assim renasce nos planos inferiores da existência.

"Por favor, proteja-o com sua compaixão infalível!", a angustiada viúva implorava repetidas vezes a Patrul, lamentando-se e chorando. "Livre-o dos tormentos do inferno." Acompanhado por sua assembléia de discípulos, Patrul começou a cantar a prática de Phowa, que transfere a consciência do morto para os reinos mais altos na direção da liberdade e iluminação.

Um chuvisco gentil, que os tibetanos peculiarmente chamam de "chuva de flores", começou a cair, e delicadas nuvens nas cores do arco-íris começaram a formar-se. Olhando para o céu e depois para o cadáver, Patrul começou a gargalhar repentinamente, deixando a recitação inacabada. Os monges e lamas reunidos completaram o ritual sozinhos, mas ninguém ousou questionar Patrul.

Alguns dias depois, um discípulo respeitosamente perguntou: "Rinpoche, todos sabem que amabilidade e compaixão são os principais focos de sua meditação. Porque gargalhaste quando aquele velho nômade morreu?".

Patrul respondeu: "Aquele senhor era realmente digno de compaixão. Mas algo esquisito aconteceu ali".

"O que aconteceu?", o discípulo perguntou.

"Sentindo grande pena, orei para que renascesse num reino de deleites; instantaneamente o vi renascendo como um ser celestial no Paraíso dos Trinta e Três Deuses. Por gratidão pelo meu ensinamento do "Tantra da Essência Secreta", ele sorriu e lançou uma chuva de flores divinas sobre nós.

"Olhei para o cadáver enrugado de cabelos brancos em frente e para todos os parentes soluçando com medo do inferno - e não pude agüentar. Pensei para mim mesmo: 'Isto realmente é a ilusão de samsara!'. Então pensei: 'Vendo-me rir, estas pessoas pensam que eu sou estranho; vendo-as chorar, quando o velho homem já virou um ser celestial, penso que elas são estranhas. Isto também é a ilusão de samsara!'".


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