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9. Sabedoria

O que é vacuidade?

As coisas são ocas de uma existência independente (ocas de algo que as deixe "ocas de algo que as deixe "por si só"), isto é, de uma essência.

Como e porque a nossa mente se engana?
Pela sua própria liberdade ela se esquece de sua liberdade e passa a operar de forma restrita.

Quais as diferenças entre ilusão, delusão, e maya.

Particularmente creio que o assunto samsara é muito mais de acordo com os ensinamentos do Buda do que o assunto nirvana. É compreendendo e dissolvendo a complicação que nirvana se manifesta. Compreender e "construir um nirvana" não funciona.

"Ilusão" é quando existe uma realidade subjacente. Ou seja, falamos em ilusão quando há uma realidade em contraposição. Nesse sentido, embora seja um termo filosoficamente válido, tem uso restrito no escopo budista.

"Delusão" é um termo muito mais sofisticado. A filosofia de Wittgenstein popularizou o sentido com que os budistas a utilizam no ocidente, muito embora alguns tradutores para o português ainda traduzam "delusion" como "ilusão". Delusão é um engano particular da cognição, não algo que não exista em contraposição a algo que exista, como no caso da ilusão.

O termo exato em sânscrito é "avidya", literalmente "não-visão", "cegueira". Muitas vezes esse termo é traduzido como "ignorância", mas isto também não ajuda muito a entender do que se trata.

Avidya é o primeiro elo entre os doze da chamada "originação interdependente", o aro mais externo do desenho da roda, ele é o "pecado original" em termos de budismo. Ainda assim, não há conceito que possa ser maniqueistamente demonizado no budismo. A ignorância só é possível devido a liberdade primordial. Lama Samten gosta de dizer que "se a natureza ilimitada não se manifestasse de forma limitada ela não seria realmente ilimitada, pois teria a limitação de não manifestar-se limitadamente." (ufa!)

Bem, como opera a delusão? Quando nos fixamos numa forma, não percebemos outras formas—surge um processo de escolha automático, diríamos "inconsciente", mas essa não é uma palavra da tradição budista. É uma escolha e uma separatividade, uma discriminação primordial. Então ao olharmos para um cubo simples desenhado no papel com traços, mostramos nosso processo delusório ao atribuir uma tridimensionalidade a algo que é apenas papel e tinta. Então nomeamos os vertices A e B,

cubo de Necker

Percebemos que se colocamos o vértice A na "frente", o vértice B surge "atrás". Mas facilmente podemos inverter o processo, colocando B na "frente" e A "atrás". O fato de vermos um cubo onde só há linhas, e enfim um tubo que emite elétrons, é uma delusão simples. Mas podemos ver que uma delusão "cega" outras possibilidades observando os vértices, se A e B estão juntos no mesmo plano, perdemos a delusão da tridimensionalidade do cubo. Se A está na frente, e percebemos a tridimensionalidade, B naturalmente vai estar atrás - ou vice-versa perdemos o vértice oposto. Ao vermos isso dessa forma, estamos "cegos" para outras possibilidades. Este é o processo de delusão.

Então a delusão é a maravilha que nos permite operar a discriminação dos fenômenos, e ao mesmo tempo é a desgraça de estarmos cegos a uns enquanto fascinados por outros.

Se existe uma atenção quanto a liberdade presente nas operações mentais delusivas, e simultaneamente a consciência de uma liberdade além das delusões, essa é uma realização verdadeiramente espiritual.

É importante perceber que a delusão não opera a nível intelectual ou emocional, opera a nível cognitivo. Por isso não adianta saber que o "eu" não existe inerentemente—é preciso penetrar na operação dessa delusão e percebê-la em funcionamento. Daí não geramos apego ou aversão, medo ou fascínio por esse "eu", apenas rimos e usufruímos a delusão como ela é, sem nos enganar.

É importante entender a diferença entre esses termos porque se dizemos que a dor é ilusória, isso é equivocado, já que ela é uma "ilusão real" para quem a sofre. Então a palavra "ilusão" encontra significados filosóficos indesejados nesse estilo. Já "delusão" explicita que é um engano meramente da experiência cognitiva.

"Maya" é uma palavra geralmente ligada a ilusão, e como há tradições não entendem efetivamente o processo da delusão, colocando uma realidade inerente em maya ou samsara, as vezes essa tradução seja correta fora do escopo budista—ou do mahayana pelo menos. A raiz do samsara e de maya como sinônimo de samsara é a delusão. Portanto não existe um samsara em si, apenas uma experiência de samsara ou uma percepção de samsara. Esse conhecimento é muito liberador, é a terceira nobre verdade que o Buda ensinou. (1. Há sofrimento; 2 - Este sofrimento é causado por delusão e seus filhos: marcas, carma, venenos, emoções aflitivas, perturbações em geral, nascimento e morte, "eu", etc; 3 - Já que há uma causa, o sofrimento pode ser eliminado; 4 - Há um caminho de oito passos para a eliminação do sofrimento.)

"Samsara" está numa categoria filosófica além dos extremos de ilusão e realidade, por isso o termo delusão é tão precioso, indicando que samsara é real, mas apenas do ponto de vista da mente confusa—não é uma realidade absoluta. Se dizemos que samsara é uma mera "ilusão", isso pode nos levar a crer que não é real sequer de uma forma relativa, e por isso as pessoas podem dar de cara na parede, dizendo que ela é uma "ilusão" e não é sólida. Isso pode levar também a crer que o samsara seja inescapável, porque afinal, ele, dito assim, existe de uma forma inerente. Esses dois extremos são heresias do ponto de vista budista. De fato o carma e todo o processo causal surgem no processo de delusão. Eventualmente na medida que o ser acredita-se separado e funcionando como uma entidade independente, nessa mesma medida ele está sujeito ao carma a que se fixou. O sofrimento é tão ilusório quanto a noção da existência inerente, mas do ponto de vista de um ser que acredita neste tipo de existência - ainda, funciona automaticamente dentro desta existência inerente ilusória, espontaneamente atribuindo realidade a ela - o sofrimento é muito real.

Assim, a única liberação possível é uma liberação não-causal, que salte além do processo delusivo primordial. Uma vez que esse processo primordial é de fato manifestação da própria luminosidade da mente, como já explicado acima, dizemos que a delusão primordial é o "não-reconhecimento da base", ou seja, o não-reconhecimento do estado de liberdade e o fascínio por estados particulares de desejo, forma e não-forma.

As marcas ou cicatrizes que formam a ilusão de um fluxo de consciência afetado pelas sensações, emoções sutis e grosseiras, conceitos, e nascimento envelhecimento e morte. Como a fonte das marcas é a delusão, a única forma de superar o sofrimento de todas estas aflições é o reconhecimento da base. Miraculosamente, essa base tem uma manifestação luminosa na forma de energia ou compaixão, que são as aparências de samsara e nirvana. Esta é a morada do Tathagatha.

Reconhecer a natureza livre de existência intrínseca dos fenômenos é a própria realização, e embora ela seja perfeitamente natural e permeie todas as esferas de compreensão, enquanto as delusões surgem, surgem as marcas e identidades que levam até o décimo segundo elo, que é o sofrimento do nascimento, envelhecimento e morte.

É nesse sentido o Buda diz que "não veio e não foi", porque não estava preso a uma identidade criada pela concepção arbitrária de uma existência inerente particular e separativa presa a um âmbito espaço-temporal.

Qualquer mérito dessa explicação acima é do Buda, de Wittgenstein e do Lama Samten. Qualquer confusão e mal-entendido advindo dela é responsabilidade meramente minha.

Posso dizer que avidia é "simplesmente" não lembrar da nossa Natureza de Buda?

Talvez melhor não. Avidia é não reconhecer a natureza búdica. Por certo aspecto, isso não é tão simples, porque isso implica uma infinidade de fatores — por exemplo, quando não reconhecemos a liberdade inerente, buscamos confirmações, segurança, felicidade, em coisas que não podem prover essas coisas. Então avidia é sofrimento.

Avidia implica formação de tempo, espaço, multiplicidade, unidade — muitos enganos cognitivos consecutivos que vem a causar a crença equivocada num eu que está presente num mundo, onde operam as emoções aflitivas.

Por outro lado, estritamente falando, está correto. Só que talvez conforto em meio a isso seja mais um dos aspectos de avidia — avidia possui uma energia de não-reconhecimento, um autorreforço, uma renitência. Não adianta se convencer superficialmente de que a Natureza de Buda está lá. É preciso obter um vislumbre vivencial além de avidia e seguir praticando a confiança e o contínuo reconhecimento desse vislumbre.

Como é possível compreender a realidade dentro de um sonho?

Não é necessário compreender: nenhuma compreensão obtível pode produzir satisfação verdadeira. Por isso se fala em "sabedoria transcendente", não é propriamente uma sabedoria, mas um reconhecimento imediato, empírico e completo, sem formulações e não-fabricado. Presente desde o princípio embora não evidenciado ainda, mas perfeitamente evidenciável.

A pessoa tem três formas de lidar com o sonho: não reconhecê-lo, acordar e sonhar com lucidez. A terceira forma é a superior.

Então quer dizer que nada existe de verdade, tudo é uma ilusão?

Existência ou não-existência não é o problema. O problema é tomar as coisas pelo que não são, reificá-las. Dar mais realidade do que elas possuem, ou vê-las distorcidas pelas emoções aflitivas. O essência das coisas é a vacuidade, o que não quer dizer que elas não existam. Elas existem como o arco-íris—temporário, gerado por causas e condições, insubstancial. Mas nós não as vemos como o arco-íris, nós damos solidez, nós as distorcemos e vemos como estáveis, gostamos e não gostamos delas, e temos medo e esperança com relação as coisas. As coisas sempre são do jeito que são, o problema é que nossos dispositivos cognitivos estão viciados. Eles projetam nas coisas valores e conceitos que causam sofrimento. As coisas são vazias desses valores e conceitos. Elas não existem como coisas que detém tais valores e conceitos. Por isso o modo de existência das coisas é como um sonho, o que não quer dizer que valha qualquer coisa, ou que seja adequado simplesmente ignorar o sonho. Valer qualquer coisa e ignorar o sonho são, também, atitudes que reificam o sonho—não simplesmente o reconhecem como sonho, algo que não tem solidez.

Então, não há saída para o sonho, mas o seu simples reconhecimento?

Um sonho nunca prendeu ninguém, é só um sonho! É porque não o reconhecemos que existe noção de prisão. É como uma corda enrolada no meio de uma sala escura, que tomamos por uma cobra. Se alguém acende a luz, nos acalmamos. Mas nunca existiu perigo em momento algum.

A realidade é melhor que o sonho?

A realidade é o mero reconhecimento do sonho como sonho, não é um outro sonho mais "real" do que esse. Não reconhecer o sonho como sonho é pior do que reconhecer.

O que há além do "sonho"?

A realidade da lucidez radiante e límpida, absolutamente livre, que nunca se perde nem mesmo em meio ao sonho.

O que significa "reificar"?

Dar solidez, atribuir substancialidade, tomar por real o que é aparente. Isto é, independizar o fenômeno, separá-lo, acreditá-lo em certa medida imutável ou permanente, acreditá-lo em certa medida mais do que um composto. P.e., usar o nome "mesa" para designar um objeto singular, estável e que existe por si só, sem depender de um observador. Isto é, o hábito principal da ignorância. Se não reificamos, há uma base de designação para o nome "mesa", mas ele não é singular, nem estável, nem existe independentemente. Tudo que ele é é nada mais do que uma "base de designação" (uma coisa a que se dá um nome) livre dessas características.

Você pode falar um pouco mais sobre mente deludida e mente lúcida?

A mente deludida é aquela que opera através de separatividade, dualidade e tendências habituais. Isto é, a mente dos seres comuns. A mente dos Budas, livre dessas características, operando na liberdade da completa expressão de toda a gama de possibilidades, sem se fixar a nada e aberta a tudo, é a mente lúcida.

Segundo a doutrina mahayana, a nossa mente natural e essencial é a mente lúcida, que através de um processo adventício de reificação sucessiva das aparências como duais e separativas, produz o hábito da mente deludida. Assim, a mente deludida não é a natureza verdadeira da mente, e sim a manifestação de uma condição temporária, que produz todas as 84.000 formas de doença e sofrimento.

O todo não seria melhor que a parte?

De forma alguma. O ensinamento budista diz claramente que a peculiaridade e a generalidade são ambos extremos. Nagarjuna nos aconselha a não cairmos em extremos de unidade, multiplicidade, dualidade e ausência.

Assim fixar-se ao todo ou a parte é de qualquer modo seguir tendências errôneas.

Ir além da dualidade é reconhecer que as polaridades são inseparáveis, como "tentar cortar o lado direito de uma barra"? Através da vacuidade, como o budismo vê o certo e o errado?

A ética é o que está de acordo com a realidade. A realidade é completamente boa. Então na não dualidade, não há errado. O errado surge da ignorância. Não ocorre de, ao superarmos a ignorância, integrarmos a ignorância ao que é real, assim o errado é o que é irreal, o errado é a dualidade.

Não dualidade significa o estado natural das coisas, a separação surge por causas adventícias, e uma percepção filtrada pelas emoções aflitivas. Sem emoções aflitivas, não há separação. Porque é errado martelar o próprio dedo? Porque não queremos sofrer dor. Da mesma forma é errado martelar outra pessoa, porque ela sente dor. Quando martelamos outra pessoa, isso é dual, e isso é equivocado, porque estamos vendo essa pessoa como separada. Isso é não-dualidade: não martelar os outros. E não porque isso é uma ordem do Buda, ou mesmo porque isso é o final de um raciocínio "no fundo eu e o outro somos o mesmo", mas porque, da mesma forma com a nossa mão nesse momento, nós vemos o outro orgânicamente, naturalmente, além dos conceitos, como parte de nós. Antes disso, podemos obedecer mandamentos ou raciocinar "no fundo somos o mesmo"—mas isso é um remendo, uma muleta. As vezes funciona, as vezes não. O resultado da prática budista é o corpo do Buda, inseparativo com todos os fenômenos, perfeitamente bom, e além dos extremos. Ele não é nem mesmo certo, ele é como é, além de certo e errado. Além não significa "abandonando" o certo e o errado, significa "nem mesmo fazendo sentido dizer" uma coisa assim.

Diz-se que, em verdade, tudo que vemos é a nossa própria mente. Quando um ser atinge a iluminação, a mente dele se funde com a mente dos outros seres? A mente dos seres é separada?

Essa afirmação é cittamatra. Os madhyamikas algumas vezes acusam dizendo que está havendo reificação da mente. Mas em termos de prática de meditação, ela é muito útil (essa afirmação).

A mente não se funde, a mente não é separada. Essas noções surgem por "máculas adventícias", isto é, por padrões de hábitos baseados em uma visão equivocada das coisas. As coisas nunca foram separadas.

Você poderia explicar melhor quando disse que a minha mente nunca está verdadeiramente separada de nenhum ser?

As noções de separação—ausência, unidade, dualidade e multiplicidade—são criadas pela mente, isto é, são uma falsidade. Elas são uma função da ignorância, isto é, a mente que não se reconhece.

Mas se a realidade é boa, por que há tanto sofrimento? Por que ha tantas catastrofes naturais? Não seria o "bom" um ponto de vista e não uma realidade em si?

É exatamente o contrário, bom é uma realidade, não um ponto de vista. Se o bem fosse um ponto de vista, ele não seria o bem. Sem objetividade não há ética.

O sofrimento ocorre no contexto do sonho, não da realidade. É evidente que não experenciamos a realidade, por isso sofremos—esse é o ensinamento budista. É evidente que o que chamamos de "real" não é o que eu e você tomamos por real. É o que um Buda toma por real. O que eu e você tomamos por real é uma bolha dentro de um sonho. E de fato, é cheio de sofrimento. Porque é cheio de sofrimento? Porque não é real. O Buda viu a realidade, por isso está além do sofrimento. Buda significa "aquele que acordou", acordou do quê? Do sofrimento. Acordou para quê? Para a realidade, onde não existe sofrimento. Por isso ele é capaz de compaixão por aqueles que ainda atribuem solidez a meras miragens—essa é a raiz do sofrimento, reificar as aparências, em especial a aparência de um "eu" independente.

Nossos pesadelos na noite nos deixam aflitos. Catástrofes nos deixam aflitos. Todas estas afliçõe surgem por darmos realidade a algo que não é real. Tendo um corpo, de um jeito ou de outro vamos morrer. Ao confiar nesse corpo como algo que produziria felicidade definitiva, vamos nos decepcionar—isto é sofrimento. Ver a realidade significa não atribuir como causa da minha felicidade coisas que não são causas de felicidade. Quais são as verdadeiras causas da felicidade? Ajudar os outros, em especial ajudar os outros a não reificarem as aparências. Dissipar a ignorância, nossa e dos outros, é o que leva à felicidade.

Então, ir além da dualidade não é reconhecer que não há certo e errado, mas ver que ambos são interdependentes? Se eu fizer coisas boas, coisas boas serão o resultado.

Não. Isso é muito antes de ir além da dualidade. Além da dualidade significa inseparatividade. Não é um além da dualidade dos meros conceitos, ou de alguns conceitos em particular. É essencialmente além da separatividade, isto é, a crença de que existe algum fenômeno separativo.

Algumas vezes se usa o termo não dualidade no budismo, mas alguns autores preferem traduzir por "coemergência". Inseparatividade é outra palavra. É um pouco diferente de interdependência, mas a interdependência só é possível por causa da não dualidade, coemergência, inseparatividade.

Algumas vezes se fala, meio que de forma "camponesa", "além do alto e do baixo", isto é, além de conceitos extremos. Isso não significa de forma alguma que esses conceitos não tem relevância. É um engano comum, devido ao comportamento inexplicável e iconoclasta de alguns mestres, se ouvir "ele está além do certo e do errado"—mas ele está além das projeções de um ser ignorante sobre o que é certo ou errado. Ele, sendo realizado, não faz coisas erradas. Aquilo que parece errado para nós, é certo para ele. E mais que isso, se ele é um ser realizado, é porque se coaduna com a realidade, e portanto, nós estamos errados e ele está certo. Então o certo dele é que é realmente certo. Não existe relativismo ou liberalidade em nenhuma forma de budismo. A pessoa não atinge a realização para obter a liberdade de cometer erros: ela se torna basicamente incapaz de cometer erros, se totalmente iluminada.

Como no exemplo que dei, nós (normalmente) não damos deliberadamente marretadas na própria mão, mas estamos muitas vezes dispostos a marretar os outros. Isso ocorre porque não vemos a realidade. Se vissemos a realidade, saberíamos que somos inseparativos, então da mesma forma que não surge o ímpeto de dar marretadas em si mesmo, não surge o ímpeto de marretar o outro. E, além disso, é possível reconhecer que há níveis ainda mais profundos de ignorância que o nosso, pois existem aqueles que tem o ímpeto de se auto marretar. A mesma compaixão que temos por alguém que prejudica a si mesmo, devemos ter por alguém que prejudica a outro—não dualidade é essencialmente ver ISTO, que não há diferença entre o meu sofrimento e o sofrimento do outro, entre a minha dissipação do sofrimento e a dissipação do sofrimento do outro, e assim por diante.

Não é uma carta branca para fazer o que dá na telha em nome de uma suposta realização mística.

Se todos os fenômenos são interdependentes, como os 5 skandas, de onde surge a liberdade do ser?

Do não-condicionado, do que é real, não é fenômeno, não é aparência.

Mas se a pergunta é "como pode haver liberdade com interdependência"—liberdade é interdependência! Só porque cada coisa que você faz afeta todos os outros e é afetada por todos os outros, isso não significa que não há liberdade. Há liberdade perante a noção de uma coisa separada. Separar é aprisionar.

Retorne ao índice. Envie suas perguntas, correções e sugestões para padma.dorje@gmail.com. Última alteração em 2012-03-13 16:47:49.


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