7.1. Shamata e vipassana
Por que a meditação é importante para a liberação, como esse processo ocorre nos praticantes? O que é shamata impura e pura?
A liberação é a ausência completa de emoções aflitivas, e iluminação é a liberação mais o revelar completo das qualidades naturais da mente.
Meditação é habituar-se, acostumar-se. Nos acostumamos com várias coisas, com a prática da virtude, por exemplo. Percebememos que podemos querer ser virtuosos, mas não temos poder sobre nossa mente. Ao criar um hábito mental de virtude através da prática formal coerente, torna-se cada vez mais fácil praticar a virtude. Ao percebermos que a raiz da felicidade é a virtude, e a raiz da virtude é uma mente cultivada, obediente, flexível—então percebemos a necessidade da prática formal.
Também a sabedoria, se queremos ver as coisas como elas são, precisamos refinar o instrumento epistêmico, que é a nossa mente. Nesse caso a meditação é como colocar uma câmera num tripé, regular o obturador, a exposição e a luz para tirar uma boa foto.
Reconhecer que estamos aprisionados pelos nossos hábitos e profundamente imersos em autoengano é a primeira etapa. Daí nos engajamos na prática formal que doma a mente, exatamente como se doma um animal selvagem—e também na prática que depura e regula o instrumento epistêmico, como alguém que regula uma câmera. Estas são as práticas de shamata, que deixam a mente focada, flexível (obediente) e nítida.
A prática de shamata começa com um objeto, o que é chamado de shamata impura. Depois, para uma ainda maior flexibilidade da mente, o objeto deve ser abandonado, e isto é shamata pura. Na shamata pura podem, ocasionalmente, naturalmente acontecer lampejos de reconhecimento do estado natural. Nesse caso a pessoa passa a cultivar diretamente o estado natural. Caso ela queira acelerar e garantir esse reconhecimento, ela se engaja nas diversas práticas de vipassana—que é como investigar ("tirar fotos" de) determinados objetos relevantes, tais como os agregados (forma, consciência, etc), ou a prática de koan, ou as práticas do estágio do desenvolvimento e consumação do vajrayana, ou certas práticas avançadas de mahamudra ou dzogchen.
De toda forma, o objetivo é o cultivo do próprio estado natural, que é livre de emoções aflitivas e manifesta naturalmente todas as qualidades. Quando o cultivo é desnecessário, porque o estado natural simplesmente é reconhecido como auto-ocorrente e incessante, atinge-se o não-atingir, o estado de não-meditação, que é a prática dos Budas.
É muito interessante perceber, logo nas primeiras meditações, o quão longe e o quão perto estamos de um Buda. Basta a pessoa começar a sentar, e se relacionar com um professor, que ela começa a ver claramente e até com um tanto de ironia, esse afastamente-proximidade. Sem cair nos extremos do eternalismo e niilismo, "ah, isto não dá, é muito difícil" ou "ah, isto não precisa, já está tudo pronto", ela simplesmente continua na prática, e toda vez que ela estiver prestes a desistir ou achar que está lá, ou bem próxima, é só ela conversar com o professor e voltar ao caminho do meio, livre dos extremos.
O que seria realizar ou atingir shamata?
Permanecer por pelo menos quatro horas ininterruptas sem distração, sem torpor ou agitação sutis—que são coisas que por si só levam alguns meses ou anos de prática para entender e perceber. Quando começamos a fazer shamata, demoramos normalmente algumas dezenas de sessões para reconhecer o torpor e agitação grosseiros e entender que perdemos o foco em alguns segundos. Ao praticar shamata, desenvolvemos progressivamente a clareza, estabilidade e vigor desse foco. Quando ele atinge um estado ideal, atingimos shamata, e então a prática de vipassana se torna uma possibilidade bem mais real.
Digamos que eu queira atingir o estado de shamata. O que você sugere que eu faça? Um retiro longo? Prática na vida cotidiana? Como, aqui no Brasil, posso tornar isso possível?
Procure um professor qualificado. Em geral, não se busca atingir shamata como um objetivo solto, mas sim como coadjuvante no caminho budista. Com certeza a prática começa com pouco tempo e prática regular e, essencialmente, para realizar shamata, vai ser necessário um retiro relativamente longo—mas isso após alguns anos transformando a prática a ponto dela ser produtiva em retiro.
Apenas com prática na vida cotidiana não vai ser possível realizar shamata, mas com certeza sem essa prática, não vai ser possível sequer a prática que leva a shamata.
Qualquer item desses é possível no Brasil, mas para quem quer realizar shamata, como alguém que quer ser vitorioso numa olimpíada, viajar é o menor dos problemas—se for necessário viajar.
Quantos anos demora pra uma pessoa realizar shamata?
Isso depende muito do carma individual, a pessoa já pode ter praticado muito em vidas passadas, por exemplo. Alan Wallace fala em 50.000 horas, em média, de prática. Praticando 12 horas por dia, dá uns 12 anos de retiro. Ou duas horas por dia, todos os dias, mais um retiro de um mês por ano, todos os anos, de 11 horas de prática por dia, por 50 anos. Porém, é bom lembrar que Shamata não é uma prática essencial para se atingir a iluminação.
Qual a diferença entre shamata impura e chamata pura?
Shamata impura é com foco em um objeto, shamata pura é o mero repousar da mente em foco, sem objeto.
E Vipassana?
É como você usa esse foco, isto é, em certas investigações que vão levar ao reconhecimento da vacuidade.
Qual a diferença entre shamata pura e vipassana? Sempre que leio sobre vipassana me parece o mesmo que shamata pura.
Não são a mesma prática. Há formas de vipassana, por exemplo, o estado do desenvolvimento no vajrayana, que você faz com base em shamata impura. O estado de consumação, por outro lado, é uma prática vipassana que você faz com base em shamata pura.
Shamata, pura ou impura, é apenas uma prática construída, preliminar. Quando você obtém o estado de shamata, sendo ele puro ou impuro, a partir dele você pratica o "insight penetrante" na natureza das coisas. No caso da shamata impura, na natureza de um fenômeno particular, no caso de shamata pura, a natureza incondicionada da mente e da realidade, que faz da shamata pura uma preliminar para prajnaparamita, mahamudra e dzogchen. Há mais de um método também para chegar em shamata (ao menos quatro horas ininterruptas, a palavra se refere ao resultado da prática, não à prática) pura ou impura. Nós em geral chamamos o método para chegar em shamata de shamata (seja ele impuro ou puro), mas deveríamos dizer "estou praticando o método para atingir shamata", ao invés de "praticando shamata", que é o resultado da prática. Nesse sentido, shamata impuro é muitas vezes uma preliminar para shamata puro, embora algumas pessoas possam praticar a forma pura para obter shamata, isto é, não necessariamente usar a shamata impura como uma preliminar de shamata pura. Algumas pessoas também não precisam usar nenhum tipo de prática de alcançar shamata para penetrar em vipassana, mas isso é bem raro. São pessoas que possivelmente treinaram em shamata em vidas passadas, ou que tem os canais abertos por questões cármicas (bom mérito em excesso).
A prática de shamata é pré-budista em ambos os casos (pura, impura). A prática de vipassana é propriamente budista, e é ela que permite o reconhecimento da vacuidade. A prática de shamata pura pode produzir, por exemplo, o mero renascimento no reino dos deuses da não-forma, ou até mesmo no reino animal. Enquanto que a shamata impura pode ser usada até mesmo para praticar não-virtude, como dar um tiro certeiro na caça. Usar a realização em shamata (pura, impura) na direção do dharma do Buda é praticar as inúmeras formas de práticas sabedoria (vipassana) com base nessa estabilidade (com objeto, sem objeto particular). Mas, do nosso ponto de vista, podemos considerar a realização de shamata impura tão rara, mesmo ela, que é um objetivo bastante nobre. Em torno de 50.000 horas de meditação são necessárias, para a maioria das pessoas.
Ainda não ficou clara pra mim a diferença entre shamata pura e vipassana.
Shamata pura é shamata sem objeto. Vipassana é a meditação que produz sabedoria, reconhecimento da vacuidade. Uma pessoa com luminosidade, clareza e estabilidade e sem um foco específico não necessariamente reconhece a natureza da realidade. Pode acontecer espontaneamente, em alguns praticantes—e essa prática seria chamada vipassana, quando houvesse o reconhecimento. Para a maioria de nós, com luminosidade, claridade e estabilidade, sem um objeto, ainda assim é preciso um método adicional, que abandona a fixação nessas três qualidades—que podem levar a renascimento no reino do desejo, forma e não forma—e leva ao reconhecimento da natureza da mente. Praticar alguma vipassana também não requer necessariamente shamata. Uma pessoa que tenha mérito, sem nem mesmo praticar shamata, quanto mais realizar, pode receber uma instrução essencial e penetrar uma prática de vipassana diretamente. Chama-se liberação sem meditação.
Uma pessoa pode praticar vipassana a partir de shamata impura também. Por exemplo, se o objeto de sua shamata é o seu corpo, ela pode vir a reconhecer a vacuidade do corpo através da prática de vipassana com o objeto que se tornou estável na prática de shamata. A maior parte das práticas de vipassana ensinadas são embasadas num objeto—você começa reconhecendo a vacuidade de um objeto. Depois você pode vir a reconhecer a vacuidade de outro objeto, e assim por diante. A vipassana no hinayana vai produzir o reconhecimento da ausência de um eu, a vacuidade de uma pessoa. É uma pequena vacuidade, uma pequena sabedoria. Outras práticas de vipassana embasadas no mahayana vão produzir sabedoria no sentido mahayana: vacuidade de todos os fenômenos. Mas a pessoa não precisa começar a prática com a ausência de objeto, ela pode fazer com o objeto e daí abandonar o objeto e ficar só com o foco. Então quando ela se engaja no reconhecimento da realidade, vacuidade, aí chamamos essa prática de vipassana. Enquanto estamos falando de manter a mente em paz, estável e acordada—com grande nitidez—isso é apenas shamata. .
Quais são os 10 estágios da meditação?
São 9 estágios para atingir shamata e um estágio de união de shamata com vipassana. 1. colocar o foco no objeto, sem continuidade; 2. foco com alguma continuidade; 3. capacidade de retornar ao foco perdido imediatamente; 4. estabilidade no foco com torpor e agitação sutis; 5. com torpor extremamente sutil pela fixação no objeto; 6. com agitação extremamente sutil, uma "coceira" para abandonar o objeto; 7. esforço na estabilidade completa, sem nem mesmo perturbação extremamente sutil; 8. estabilidade completa com pouco esforço; 9. estabilidade completa sem esforço: estado de shamata; 10. união com vipassana.
Sem um professor, as três primeiras etapas são bastante difíceis de entender e aplicar, e as demais etapas são basicamente impossíveis de se implementar.
Sobre vipassana: Como posso reconhecer a vacuidade através de uma análise? A experiência de vacuidade não é reconhecida somente em um estado de não mente, de pura compenetração?
Muitas vezes começa-se estudando a vacuidade de um ponto de vista intelectual, então a pessoa parte para a investigação empírica, através da meditação. Existem métodos e ensinamentos que são aplicados em prática, após a pessoa ter alcançado shamata (um mente calma e focada sem distração por algo como quatro horas ininterruptas). O reconhecimento direto da vacuidade também é um cultivo.
No zen algumas vezes se usa a expressão não-mente, mas eu não sei o que isso quer dizer, e nunca ouvi ensinamentos sobre isso. Pode ser que seja algo como shamata pura, sem foco particular. Pode ser que seja a experiência de não-dualidade do reconhecimento ininterrupto da vacuidade, o resultado da prática de vipassana. "Pura compenetração" não sei o que é. No zen a investigação intelectual não é o foco, mas há métodos variados, e principalmente o relacionamento com o professor. A prática de zazen pode ser uma forma de vipassana, ou pode ser shamata pura ou impura. Isso vai da capacidade da pessoa e do tipo de ensinamento. Koans são uma prática vipassana também, mas nem todas as formas de zen utilizam koans.
A meditação analítica é a mesma vipassana?
Pode ser forma de vipassana. Através de shamata, a pessoa pode destrinchar um fenômeno qualquer (seu corpo, seu sentido de gustação, um objeto no campo visual, algo assim) e, não encontrando nenhuma base inerente no objeto, ele reconhece a vacuidade. Se for um processo meramente intelectual, com uma base epistêmica empírica muito instável e sem muita nitidez, o resultado é um reconhecimento intelectual da vacuidade—o que ajuda, mas é uma espécie de remendo. Se há uma base através de shamata, e o reconhecimento é totalmente empírico, sendo que por "análise" se está referindo a observar o objeto diretamente em todas as suas facetas, e reduzindo cada uma ao reconhecimento da vacuidade, nesse caso pode haver uma realização da vacuidade. A palavra "análise" é ambígua, portanto. Pode-se chamar ambas as coisas de vipassana, no entanto, sem realização de shamata, vipassana é, no final das contas, um remendo temporário. Ou pode-se escolher chamar de vipassana apenas a prática que produz a realização de vipassana, a sabedoria, e portanto análise no sentido empírico.
Qual a relação entre shamata e vipassana e o nobre caminho óctuplo?
Shamata é uma prática ligada essencialmente ao sexto passo, e vipassana ligada ao sétimo passo; o que não quer dizer que a pessoa precise atingir perfeição nos cinco passos anteriores, ela precisa ter uma prática suficiente dos passos anteriores de forma a poder sustentar alguma prática de shamata.
Quais são os seis superconhecimentos? Como consegui-los?
São poderes mágicos tais como a lembrança de vidas passadas, ler a mente dos outros, poderes mágicos em geral, ver e ouvir coisas distantes no tempo e no espaço, e dissipar as contaminações da mente. Obtém-se tais poderes através da prática de shamata. Eles são úteis para se poder ensinar o dharma. Não é necessário acreditar neles para praticar o budismo, e eles não são o objetivo principal da prática, então não importam muito.
Não acredito que alguém possa levitar enquanto medita (já me disseram isso em uma grupo budista). Procede que os budistas tenham crenças como esta?
Quando você sonha de noite você pode voar? Então seu problema não é o ceticismo, mas acreditar demais nessa realidade como sólida e nada mais do que um sonho.
Por outro lado, o objetivo da prática não é fazer um ato estraordinário específico, mas o ato extraordinário que está acima de todos: reconhecer o sonho como um sonho.
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