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5.3. Homossexualismo

O budismo tem alguma opinião sobre homosexualismo? Por favor, dê uma resposta concisa.

Se a pessoa é um monge, ela deve se abster de todas as relações sexuais de qualquer tipo. Se a pessoa é leiga, ela deve seguir as normas de sua comunidade, ou de seu professor. Há alguns casais homossexuais na sanga com que pratico.

Qual a posição do budismo sobre a homossexualidade?

Monges não devem se engajar em qualquer ação sexual. Porém, na medida em que tiverem atração pelo mesmo sexo, serão homossexuais. "Homossexuais não praticantes", poorque não devem fazer qualquer tipo de sexo. Com relação ao desejo pelo mesmo ou por outro sexo, não há diferença alguma. Ambos são problemas e obstáculos para a vida do monge.

Com relação a leigos, vai de acordo com a cultura onde esse leigo está imerso. Em culturas onde a homossexualidade é vista como um problema, apenas o fato do leigo estar em desacordo com o que é socialmente aceitável pode trazer tensões desnecessárias e problemas para este leigo. Se ele vai conseguir praticar ou não em meio a essas tensões, depende só dele. Em todo o caso, seu refúgio no Buda deve ser mais forte do que qualquer de suas inclinações. Se uma pessoa tem muito desejo por sorvete, e não por buchada de bode, ela não pergunta ao Buda se o budismo vai permitir que ela continue preferindo e usufruindo de sorvete. Ela percebe que isso é apenas uma inclinação, e que a fonte de refúgio não são nossas inclinações, mas o caminho do Buda.

Em culturas onde a homossexualidade é relativamente aceita, os problemas são semelhantes aos dos heterossexuais.

Tradicionalmente, o contato sexual com a boca ou o ânus, e também masturbação, são tidos como não-virtudes. Mas isso pode ser mais ou menos levado a sério de acordo com sua comunidade e com o seu professor. No final, é a sua experiência, com relação ao que é daninho ou não é daninho, que vai determinar sua conduta ética. O seu professor pode também ajudar a definir o que é aceito ou não. Resta lembrar que estes problemas também afetam heterossexuais, e que não há nenhum tipo de condenação com relação ao amor entre duas pessoas, do mesmo ou de diferente gênero.

No ocidente é muito comum vermos casais homossexuais praticando o budismo.

É possível um homossexual se tornar iluminado?

Isso já aconteceu, pelo menos um dos 84 mahasiddhas de Chimpu era homossexual. Embora isso fique subentendido no texto e não esteja dito de forma direta, é a interpretação que qualquer professor budista atual daria.

O homossexual que supostamente alcançou a iluminação mencionado por você era um homossexual “praticante” ou vivia em castidade?

O mahasiddha não era um monge. Por outro lado, pensando melhor a respeito, embora ele fosse um homossexual no caminho, ele não poderia ser um "Buda homossexual". Isso porque o homossexualismo é uma propensão, um hábito. As doutrinas eternalistas vão querer dizer que uma pessoa "é" alguma coisa. Mas, segundo o budismo, todos nós já fomos todas as coisas, inclusive homossexuais, e hoje talvez alguns de nós não somos mais, nessa vida. Isso algumas vezes ofende algumas pessoas, porque em geral se acredita que alguém "é" alguma coisa. No máximo a pessoa está, e um Buda nem mesmo "está", para si próprio.

Um Buda não tem preferência de gênero, e se ele se engaja em atividade sexual, é só para trazer benefício aos seres. Kukuripa, outro mahasiddha, tinha uma cadela por namorada, e seu amor por ela foi parte da prática espiritual que o levou a iluminação. O mahasiddha gay tinha um namorado também, mesmo depois de iluminado. Mas ele de forma alguma estava preso ao arco-íris do sonho, que é totalmente impermanente. Em outras palavras, não existe Buda com inclinações pessoais, apenas inclinações em nome das necessidades dos seres. Portanto, tornou-se um display para ensinar pessoas com a mesma inclinação, para dar um exemplo para elas, mas não algo que ele mantinha como um "eu".

Da mesma forma, se diz que o bodisatva Manjushri se manifestou como uma mulher para seduzir um homem e dar um ensinamento. Se o gênero ou a preferência sexual são hábitos mais ou menos arraigados um que o outro, isso é difícil dizer. Mas, de toda forma, são meros adornos num Buda—o que significa que ele só manifesta qualquer coisa que ele manifesta, pelo outro, e não por algo que ele possui em si como característica sua—o Buda é vazio, portanto ele não pode ser inerentemente gay. Aliás, não só o Buda, mas nenhum de nós.

Isso tem uma implicação que horrorizaria muitos gays e a maioria dos que erguem a bandeira gay. Não que seja desejável, bom ou correto—mas alguém pode deliberadamente, segundo o budismo, deixar de ser qualquer coisa, inclusive homossexual. É preciso dizer isso não porque, repito, seja algo louvável de qualquer forma uma "terapia" que promova uma mudança, mas porque a vacuidade, e a impermanência, são realidades. Vamos colocar em outros termos: alguém pode também deliberadamente se tornar homossexual, mesmo que isso não surja naturalmente. É só criar os hábitos.

Do ponto de vista de uma identificação do eu com um hábito, a heterossexualidade é tão ruim como o homossexualidade. Apenas apego e desejo, em sua maior parte egoísta. É extremamente difícil, em qualquer dos mundos, praticar a virtude—não é impossível, mas é difícil. O homossexualismo tem um carma adicional, não tanto nesses tempos, mas ainda em certa medida, de ser uma propensão que não segue o que os outro esperam, em geral, da pessoa—daí o sofrimento, algumas vezes tanta tensão até a pessoa assumir para si própria e para os outros essa propensão sua. Mas isso de forma alguma é motivo de recriminação com relação a alguém, é apenas para lembrar que, se há maior dificuldade, essa propensão foi criada, possui interdependência, com uma causa não-virtuosa—ainda que seja por algum egoísmo, ainda que seja por uma mera identificação do eu. O que não quer dizer que as propensões de heterossexuais não levem também ao sofrimento. Todas as propensões são sofrimento. Com certeza há homossexuais que sofrem menos com sua homossexualidade do que heterossexuais sofrem com sua heterossexualidade—eu diria que é mais raro—mas essa é uma mera circunstância—e que com certeza todos que possuem uma propensão, sofrem com ela, independente de que tipo de propensão seja.

No entanto, mesmo praticantes antigos gays que eu conheço tem dificuldade em compreender suas propensões (um termo técnico, outra propensão é o que nos fez nos conectar com a língua portuguesa e nascer num país onde ela é falada, por exemplo) como impermanentes. Por isso as propensões, principalmente se reificadas, são um obstáculo a iluminação, porque há tamanha identificação do eu com algo. Eu SOU isso, ou aquilo, não vai produzir a iluminação da pessoa.

Vejo uma grande mobilização da parte de alguns religiosos para que o projeto de lei que criminaliza a homofobia não seja aprovado. O que pensa a respeito?

Duas respostas; o estado, sendo laico, deve usar apenas critérios laicos, não religiosos, para suas leis (inclusive aborto, que muitas vezes é justificado com a crença quase religiosa na capacidade da ciência atual em medir ou detectar consciência, sendo que não há sequer uma boa definição científica para essa palavra).

A segunda resposta é a de que as inclinações pessoais de alguém que digam respeito somente a si mesmo (boas ou más), não devem dizer respeito a lei. Crimes com motivação ideológica não precisam receber mais atenção do que crimes com motivação de ganância ou negligência. Mas essa não necessariamente é a visão budista. Nos assuntos que não dizem respeito ao budismo, a visão budista é a que se estabelecer nos meios civis. Isto é, o budismo apenas obedece as leis, desde que elas não firam explicitamente preceitos budistas, e não se ocupa de formular leis ou alterar leis que não digam explicitamente respeito a pontos essenciais da doutrina budista.

Se houvesse um jeito de eliminar crimes com motivação homofóbica, ou qualquer outro, o budismo seria completamente a favor. O que estamos falando, no entando, é como o budismo deveria tratar de uma legislação, e isso está fora, naturalmente, de seu escopo.

Se o budismo determinasse leis, ele estaria acreditando que existe uma fonte espiritual que poderia ditar como as relações humanas deveriam acontecer—mas o budismo não acredita em coisas desse tipo. O Buda sempre explicou o método para vermos por nós mesmos o que é melhor e o que deve ser feito—ele até deu um croqui, mas deixou bem claro que era necessário vermos por nós mesmos, e não apenas ouvir dele.

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