3.2. Emoções aflitivas
A maioria das pessoas crê que são as situações externas que despertam as emoções, porém isso é um engano, pois as emoções, tanto positivas, quanto negativas, são geradas a partir do nosso interior?
Nas pessoas infantis, isto é, a maioria de nós, os eventos externos tem poder sobre os eventos internos. Nas pessoas que praticam, o oposto ocorre, e isto se deve aos méritos e a prática de compaixão.
O que são emoções inúteis? Toda emoção não é legítima?
Sob um aspecto, pode-se dizer que todas as emoções são dukkha, insatisfação. Porém, em geral também chamamos de emoções coisas como compaixão, alegria e amor. Portanto as emoções úteis são aquelas que beneficiam a você e aos outros seres, como a compaixão (desejar que você e os outros não sofram) ou o amor (desejar que você e os outros sejam felizes).
Dá para usar as emoções aflitivas (apego e raiva por exemplo) de forma benéfica?
Não, pode haver benefício em reconhecê-las, ver sua natureza pura, reconhecer a energia como mera energia—mas não há nenhum benefício possivel nas emoções aflitivas elas mesmas, totalmente vinculadas com a emoção aflitiva base da ignorância e do não-reconhecimento. Quando não há essa emoção aflitiva base, a ignorância, daí é equivocado chamá-las de "emoções aflitivas" ou mesmo "apego" ou "raiva"—daí elas são as sabedorias correspondentes, no caso dessas emoções, "sabedoria discriminativa" e "sabedoria como a de um espelho".
Como posso combater o sentimento da inveja?
O antídoto da inveja é o regozijo pelo mérito dos outros. Desta forma é possível partilhar dos méritos. Portanto, de forma analítica, a pessoa reconhece que é contraproducente para si mesma vivenciar a vitória dos outros com amargor, assim ela se dispõe a reconhecer quando os venenos e emoções aflitivas surgem e tentar evitá-los.
Como com todos as outras emoções aflitivas, a prática consiste em transformar hábitos arraigados através do treinamento da mente. Treinar a mente significa prestar atenção aos acontecimentos mentais e aplicar antídotos, particularmente sem esmorecer perante o reconhecimento de que os venenos seguem aparecendo, e que muitas vezes não somos capazes de lidar com eles adequadamente. Reconhecemos e lidamos o melhor possível, sem desanimar, e então paulatinamente hábitos negativos podem ser transformados em hábitos positivos—tais como o regozijo pelo mérito alheio.
No nível vajrayana, certa vez um lama me ensinou que a emoção aflitiva da inveja é exatamente a inteligência que reconhece o melhor mestre. A nossa estratégia usual deludida é olhar comparativamente, e esse olho com relação as realizações dos outros, em si só, é neutro. Quando esse olho vem acompanhado de uma visão errônea, então se produz inveja, sofrimento, e assim por diante. Quando esse olho vem acompanhado da visão mais elevada, ele é o reconhecimento das qualidades do Buda, o regozijo e o louvor sobre as qualidades do Buda. Num caso pensamos "quem esse Buda pensa que é? Ele deveria ser como eu", e no segundo caso pensamos "que inspirador! Que eu eventualmente seja como ele."
O Budismo tem algum ensinamento especial sobre a inveja, a que sentimos quanto aos outros e a que os outros sentem quanto a nós?
Sim, para o budismo a inveja que os outros sentem de nós é um mero objeto de compaixão. Essa inveja não tem poder sobre o que quer que seja, ao contrário do que o pensamento popular, especialmente nop Brasil, pode nos levar a crer.
Já nossa própria inveja é extremamente daninha. Os três métodos para lidar com qualquer emoção aflitiva são sempre 1) evitar o objeto; 2) produzir um antídoto; 3) transmutar a emoção em sabedoria. Elas vão em gradação de capacidade, isto é, os seres de maior capacidade praticam a última, os de capacidade intermediária a segunda, e os seres de pouca capacidade, a primeira. Os antídotos para a inveja são o contentamento com a nossa própria situação e o regozijo pela felicidade alheia, seja de que tipo for. Pode parecer estranho que uma pessoa venha a aplicar um antídoto, que é exatamente o sentimento oposto que lhe vem naturalmente—mas é exatamente essa a prática, e a transmutação é parecida—isto é, a própria emoção aflitiva lembra você da prática. Ao reconhecê-la, você lembra de regozijar com as qualidades. Irritantemente, e liberadoramente, a energia da inveja é a mente estratégica, brilhante, que reconhece a qualidade dos outros. É ela que produz um grande mestre, porque é essa mente estratégica que reconhece as qualidades no mestre. A única coisa que você retira da inveja é a ignorância, isto é, a noção de eu e outro. Quando essas qualidades são um reconhecimento da própria liberdade da mente, além de eu e outro, o regozijo é possível, e então você abandona o seu próprio alvo, isto é, aquilo que produz esse atrito, essa incomodação interna. E quanto mais você se incomoda, mais agudamente você pode transformar isso em regozijo. Você tem essa mente capaz de louvor, capaz de reconhecer as qualidades do outro, capaz de entender o carma, e a sua própria aparente falta de mérito perante a do outro. E então você abandona totalmente a mente comparativa e repousa sem conceitos. Toda vez que a mente comparativa vier novamente, você transforma em regozijo, em louvor, em entendimento sobre o carma, e assim por diante. Assim a inveja constamentemente lembra você do Buda, o mais invejável dos seres, a quem você não consegue nem mesmo invejar, porque não consegue vislumbrar a profundidade das qualidades dele.
Como combater o ciúmes?
É uma emoção aflitiva composta de várias outras. Então todos os antídotos: compaixão, equanimidade, regozijo, alegria—e, talvez principalmente, reflexão sobre a impermanência e sobre como todas as relações baseadas em emoções aflitivas tais como o apego são insatisfatórias.
Como treinar o desapego?
Você medita na insatisfatoriedade inerente em todas as coisas. O apego é uma distorção da realidade: você acredita que aquele objeto vai lhe dar felicidade confiável, é essa confiança sem base que você coloca no objeto que chamamos de "apego". Nós sofremos porque nossas expectativas (que são absurdas em primeiro lugar, mas não reconhecemos isto) são naturalmente frustradas.
O objeto pode ser desde a coisa mais trivial e grosseira, como sorvete de chocolate, até coisas realmente complicadas, como ideologias, e mesmo estados equivocados de meditação, ou estados de meditação positivos, mas nos quais nos fixamos e atribuimos expectativas irreais.
Ao refletir sobre a insatisfatoriedade dos objetos de apego, naturalmente diminuimos nossas expectativas, e então não só podemos usufruir desses objetos melhor, temos mais liberdade e sofremos menos.
Apego ao darma não é tão ruim quanto qualquer outro tipo de apego?
Não, é infinitamente melhor. O apego por si próprio é o pior apego, depois o apego pelos outros é bem melhor do que este. E o apego pelo dharma é o melhor de todos—porque certamente o dharma vai ter as ferramentas para dissipar o apego. É a diferença entre tentar saciar a sede com água doce ou água salgada.
Mas, você não precisa ter apego pelo dharma. O melhor é praticar sem apego. Só que, se você for ter apego, melhor ter os apegos melhores.
Apego aos preceitos budistas é menos ruim do que outros tipos de apego?
Se você trocar preceitos por ensinamentos, fica melhor—preceitos são normalmente classificados como os ítens de ética prescritiva, em outras palavras, preceitos são os votos, dos quais existem os mais variados. Por exemplo "não matar". Os ensinamentos, por outro lado, incluem os preceitos e tudo mais que é expresso em termos do budismo.
Sim, é bem melhor que todos os outros apegos, até mesmo que o apego ao bem-estar dos seres—porque não existe noção de ensinamento budista que não leve ao bem-estar dos seres. Porém, mesmo esses apegos são desnecessários. É possível praticar bem, e, aliás, pratica-se melhor sem qualquer apego—tanto ao budismo quanto ao bem dos seres. Agora, se a pessoa for escolher entre um apego qualquer e o apego pelos ensinamentos e pelo bem dos seres, é claro que ela deve escolher os últimos.
Achar-se mais virtuoso do que outros é desvirtude?
Desvirtude é quando se prejudica outro ser em corpo ou fala—e quando se planeja ou mantém má vontade contra outro em mente.
Ter orgulho causa muitas não-virtudes, mas em si não é uma não-virtude. Não que seja bom, só que tecnicamente é uma emoção aflitiva, não uma não-virtude.
Achar-se mais virtuoso que os outros em geral é uma forma de orgulho. Achar-se mais virtuoso do que alguém, gerar compaixão, e produzir equanimidade (refletir o quão semelhante a circunstância é, mesmo que num dado momento pareçamos estar melhores do que o outro, e como na base somos semelhantes mesmo com essa diferença circunstancial) não é sequer não-virtuoso, se for verdade.
Qual a natureza da raiva?
Com um professor qualificado você aprende métodos para ver diretamente essa natureza. Qualquer explicação sobre o sabor doce do açúcar é fútil.
A explicação que é útil é a de que a raiva não é boa para você nem para os outros, e que é possível treinar a mente para diminuir seu impacto ou evitar completamente a emoção aflitiva. Isso vai ajudar você também na prática de reconhecer a natureza da raiva, porque você vai obter certo distanciamento e assim vai poder observá-la, quando receber as instruções.
Ouvi que o medo é um reflexo da raiva. Pode explicar isso melhor?
Medo é uma forma de raiva que se foca na auto-proteção. Quando nos sentimos poderosos, temos raiva, quando nos sentimos fracos, sentimos medo—mas é o mesmo sentimento: olhar para o outro como uma ameaça. Mais precisamente, como essencialmente uma ameaça. Ao negar a natureza búdica ao outro, e ao fato de que ele está assumindo um papel negativo temporariamente, reificamos uma postura e um modo de relacionamento com os outros que vai invariavelmente produzir situações semelhantes vez após vez. A atitude correta é reconhecer três coisas: nossa própria mente, em no que ela se engana, e no que ela está sendo levada por emoções pelas quais não tem controle; o outro como Buda em potencial; o outro como um objeto de compaixão porque não revelou sua natureza búdica e age, temporariamente, dominado pelos seus venenos—assim como nós. Reconhecendo essas três coisas como de uma só natureza, podemos agir com clareza, sem hesitação, sem eliminar a própria dignidade ou a do outro. Em qualquer caso, consigamos ou não evitar que o outro aja negativamente, se nós não agimos negativamente e mantemos essa atitude, tudo que pode ser perdido é o que pode ser perdido, o que é perdível em primeiro lugar, e no máximo purificamos carma. O que não perdemos é nossa dignidade básica, e com certeza avançamos na direção de evitar sofrimentos futuros, para nós mesmos ou para os outros.
Além disso, nosso medo, por si só, é ignorante. Ele não sabe se o outro é ou não uma ameaça, ele toma o outro por uma ameaça. Quando somos tomados pela emoção aflitiva, reificamos um mundo de ameaça, nos tornamos paranóicos, e isso, mais do que tudo, nos transforma em verdadeiras vítimas. Quando o medo surge, é hora de olhar a própria mente—sem reificação, surge o destemor, que não é uma coragem idiota, fabricada com base num otimismo vão, e sim a ausência de fixação, e a confiança numa natureza que não estão vinculada a causas e condições.
Os grandes iogues praticam em locais assustadores, em meio a seres assustadores, e oferecem tudo que pode ser oferecido, tudo que é temporário: posses, glórias, o próprio corpo,. Tudo é oferecido aos demônios da fixação na dualidade, com o voto de que eles não mais pratiquem o mal. Quando tudo se dissolve, o que resta? Tudo aquilo que não é dissolvível, não é roubável, não é humilhável: nossa luminosidade radiante, a dignidade básica do estado desperto.
Para o budismo agressividade, raiva e violência são a mesma coisa? A primeira não nos ajuda a sobreviver?
Sim, são a mesma coisa.
Com relação à sobrevivência, há dois aspectos.
O primeiro é que biologia não dita moral. Sobreviver não é um objetivo final, pelo menos não para quem olha por um viés humanista, muito menos para quem olha por um viés espiritual. O que gosto de citar sempre é que se o evolucionismo fosse fonte de moralidade, teríamos que aplaudir o estuprador que engravida sua vítima. Afinal, ele fez mais uma tentativa de preservar seu DNA. Como somos seres humanos, e não simples escravos do nosso material genético, nós damos valor ao que os outros pensam e sentem. Estrapolando isso, chegamos a conclusão que obter boas condições para este corpo é um objetivo trivial, secundário. Se não temos um objetivo maior, a prática espiritual ou o desenvolvimento da virtude, tomar nosso corpo como um fim em si mesmo nos levaria ao hedonismo. E o hedonismo não produz nenhuma satisfação verdadeira ou duradoura.
Em segundo lugar, é extremamente duvidoso que a agressividade tenha alguma vantagem geral evolucionariamente falando. Alguma vantagem, em algum nicho, ela tem. Por exemplo, no inferno, todos os seres acham que a agressividade tem um grande valor evolucionário, e é o único jeito de sobreviver. Nascer nesse âmbito é bastante ruim por esse motivo—ainda mais do que pelo fato de que você sofre constantemente. O pior sofrimento é valorizar a agressividade como seu modo de sobrevivencia. Seres mais felizes valorizam a cooperação como modo de sobrevivência.
Dois pontos equivocados portanto: valorizar a sobrevivência, e valorizar a agressividade como valor de sobrevivência.
Ademais, sem agressividade somos muito mais fortes e capazes de ser duros e diretos. A agressividade basicamente mostra que estamos famintos, com dor, com medo—eu vou controlar você para obter o que eu quero. Sendo objetivos com nossa situação e a situação do outro, construímos uma relação e um mundo que não está embasado na lei da selva. E quando a lei da selva vem até nós, pelo nosso carma passado, então existe lucidez e clareza para fazer o melhor, e não somos simplesmente levados pelas nossas emoções.
Um mestre realizado pode ficar bravo? Sentir ira?
Um mestre com certa realização, mas que não tenha superado os venenos mentais, isto é, que não tenha a realização equivalente a de um arhat, pode ainda recair em emoções aflitivas grosseiras.
Já um mestre que seja um arhat ou um bodisatva de oitavo nível não tem mais emoções aflitivas. Nesse caso ele não recai mais na atitude de ativamente desejar o mal para os outros.
Algumas vezes a compaixão é dita "irada", quando ela tem por foco a destruição da negatividade. Isso nada tem a ver com ficar bravo ou ter raiva. Isso tem a ver com desejar o bem do outro ao ponto de ser capaz de agir com energia para evitar que o outro se prejudique ou prejudique a outrém. É o oposto da agressividade, mas a expressão externa pode parecer, a alguém que não entende a atividade, como a expressão ou atitude de alguém com raiva. No entanto, fora a aparência que um desavisado pode confundir, são 100% diferentes.
O que é moha e porque é prejudicial?
Preguiça, procrastinação. É prejudicial porque você não faz nada de bom para você ou para os outros, e assim perde muito tempo, que é um tempo precioso, em particular se você tem conexão com o dharma ou ao menos um renascimento humano.
A indiferença não é um tipo de agressividade? Ou é menos ruim?
Indiferença é um tipo de ignorância. Pode ser agressão passiva também. Mas a indiferença é com certeza uma forma de emoção aflitiva.
Alguém que é ator e interpreta personagens que apresentam emoções aflitivas (mtas vezes utilizando suas próprias "emoções escondidas para isso") está gerando mau carma?
É perigoso na medida em que a pessoa treina em hábitos não conducentes à virtude e à felicidade, mas é possível exibir qualquer emoção ou atitude e manter a mente livre. A arte, como a tecnologia, pode ser vinculada ou usada de acordo com a virtude ou não. E ela pode ser absorvida de acordo com a virtude ou não. Por isso a liberdade (o poder deliberativo, o não seguir/acumular tendências habituais) é muito mais o cerne da ética do que a prescrição. Em outras palavras, você não pratica com o intuito de não matar alguém, um alguém que você nem sabe se vai ou não aparecer, um objeto indefinido. Você pratica para obter liberdade perante seus impulsos e tendências habituais.
De forma geral, embora a possibilidade da prática de virtude e treinamento em hábitos conducivos a virtude possa ocorrer em virtualmente qualquer contexto, dependendo da capacidade da pessoa, ele raramente ocorre. A maior parte dos atores e a maior parte do entretenimento arte produzidos são mistos, neutros ou negativos. Raramente são totalmente positivos. Da mesma forma que nossa fala em geral também. Emoções inúteis que nos fazem perder tempo.
Se a pessoa tem um foco na virtude, no entanto, ela só precisa se afastar das atividades que ela não consegue trazer para o âmbito da virtude. Grandes praticantes não desperdiçam coisa alguma, e encontram a virtude ou a possibilidade de virtude até mesmo nas mais degradantes e difíceis condições, que dirá em condições frívolas ou de mero divertimento.
Torcer para um time de futebol não gera, de maneira bastante irracional, emoções perturbadoras e consequentemente carma ruim?
De forma geral, creio que sim. Mas é possível que um praticante consiga integrar até mesmo isso.
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