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2.1. Formas de budismo

Quantas formas de budismo existem?

Centenas, talvez milhares. Além do mais, há mais de um jeito de categorizar as formas de budismo.

Se falamos do budismo pelo seu teor cultural, pela sua arte e suas idiossincrasias étnicas, então nos referimos a tradições, como budismo tibetano ou budismo japonês.

Se nos referimos a um ramo numa árvore cujo tronco é o Buda e os inúmeros galhos são alunos e alunos de alunos, estamos falando de linhagens, como theravada, soto zen e nyingma.

Se estamos nos referindo a diferenças entre pontos de vista filosóficos, então falamos de escolas. Algumas escolas são linhagens diversas também — e as tradições vez que outra tem predileção por algumas escolas. Normalmente as escolas se referem ao período clássico de debates na Índia medieval, onde se ouve nomes como cittamatra e madhyamaka.

Se estamos nos referindo a formas diversas que o próprio Buda usou para ensinar, então estamos falando de veículos, uma mesma tradição, linhagem ou escola pode conter ensinamentos de mais de um veículo. O yogatantra é um veículo, bem como o mahayana.

A tradição tibetana nyingma, por exemplo, ensina de acordo com a madhyamaka — embora, segundo Sua Santidade o Dalai Lama, alguma terminologia nos roteiros de meditação tenha um sabor cittamatra. Ela divide o ensinamento do Buda em nove veículos, que podem ser resumidos em três: hinayana, mahayana e vajrayana. Nyingma quer dizer "antiga tradução", e eles foram chamados assim em retrospecto pelos professores budistas no Tibete que fizeram novas viagens a índia e se engajaram em novas traduções de textos indianos.

Da mesma forma o soto zen japonês é essencialmente embasado na yogachara, embora ocasionalmente possa se falar em algum tipo de madhyamaka. Ele divide o ensinamento do Buda em dois veículos, hinayana e mahayana.

Quais as escolas do budismo?

O budismo possui 2600 anos de história, e já no seu início uma grande diversidade de formas de apresentação dos ensinamentos se formou. As primeiras classificações já falam em 18 escolas, mas as diversas escolas contam números diferentes, chegando até ao dobro disso — alguns poucos séculos após a morte do Buda.

Durante os dois mil anos posteriores, esse número só aumentou, com a diversidade cultural de cada país que recebeu os ensinamentos budistas. Numa cidade grande como São Paulo podemos contar representantes de algumas dezenas de escolas do sul da Ásia, japonesas, tibetanas, coreanas, chinesas. Eu, que não sou um grande estudioso, e nem sei nenhuma língua asiática, poderia citar, de cabeça, mais de 100 nomes de escolas budistas, sem grande dificuldade.

A situação fica um pouco mais complexa porque algumas escolas não sobrevivem, e outras escolas são atribuídas posteriormente: isto é, os historiadores budistas olham para o passado, e ao classificar diferentes posições filosóficas, utilizam terminologias com que passam a identificar grupos de textos ou praticantes. É muito comum também uma escola se autodenominar de uma forma e ser chamada por outro nome em outras escolas.

Essa diversidade foi encorajada pelo próprio Buda, e embora algumas vezes resulte em sectarismo e momentos de amargor entre praticantes e grupos, em geral ela é considerada uma riqueza, como um grande banquete, onde não somos forçados a comer algo que nos desagrada, mas há alimento que agrade a qualquer um.

Como eu sei qual Professor ou linhagem é melhor para mim?

Você examina o professor cuidadosamente. Mas é um problema só, porque a linhagem é a do seu professor. Então você não precisa escolher uma linhagem. Você tem um professor e você será da linhagem dele.

Qual a diferença do budismo de linha tibetana para outra linha?

Só conheço um pouquinho das práticas de algumas linhagens nyingma, e tive um contato relâmpago com kagyu, gelug e sakya, de forma que não posso falar dessas outras formas tibetanas. Aliás, só recebi ensinamentos de lamas de duas linhagem kagyu, e visitei rapidamente o centro de uma terceira forma por duas vezes. A kagyu sozinha possui dezenas de formas diferentes, então realmente minha experiência é algo muito superficial dentro do budismo tibetano.

Fora do budismo tibetano tive também um contato muito rápido com alguns mestres da forma soto do budismo japonês, e também bastante rápido com o son (zen) coreano, mais similar ao rinzai japonês. Debati com theravadins pela internet, mas nunca nem mesmo assisti uma prática. Entrei em templos c'han e terra pura, mas nunca assisti sequer uma prática nem conheci bem um professor dessas tradições, nem mesmo pela internet.

Assim, como meu conhecimento é bastante limitado, eu só posso dizer que os tibetanos compilaram um vasto cânone — eles possivelmente possuem mais textos budistas que qualquer outra tradição. Assim há muitas formas tibetanas, e dentro de uma forma, há muitos modos de praticar. É frequente que um mesmo professor ensine dezenas de métodos. Existe até mesmo uma complexa e longa taxonomia de formas de expor os ensinamentos e de diferentes práticas. Assim como se fosse um mapa extremamente complexo.

Externamente, tudo é diferente. Arte, cores, sons. Até mesmo algo no comportamento externo dos praticantes — que são de culturas diferentes, ou de formas diferentes de uma mesma cultura — ou mesmo são apenas diferentes uns dos outros.

Para ser budismo, no entanto, é preciso que tenha os quatro pilares: 1) entender a impermanência de todas as coisas compostas; 2) entender a vacuidade ao menos do eu; 4) entender que todas as aflições mentais produzem sofrimento 3) entender que o nirvana, além dos extremos, é possível;

Em geral o que leva a pessoa a se conectar com um grupo de praticantes e um professor específico é o que leva essa pessoa a se identificar com a linhagem — o seu próprio carma positivo (no caso de uma linhagem pura e excelente), e o seu próprio carma negativo (no caso de uma linhagem não tão pura e não tão excelente). Mas a pureza e a excelência só podem ser comprovadas após anos de prática e a obtenção de ao menos alguns resultados.

Existem inimizades e hostilidades mútuas entre diferentes formas do Budismo como existem entre as seitas da maioria das outras religiões?

Sim, ao longo da história houve muita tensão, e chegaram a haver episódios dignos de vergonha.

No entanto a diversidade de formas de budismo existe em função do próprio ensinamento do Buda. Muitas vezes os ensinamentos são comparados a remédios. Então não precisamos tomar a farmácia inteira, mas apenas aquilo que serve para nos curar dos nossos males particulares, idiossincráticos. Cada cultura e cada pessoa tem inclinações diferentes, e portanto métodos diferentes são utilizados. Da mesma forma que uma farmacopeia, pode acontecer até mesmo de interações medicamentosas não serem recomendadas, e assim por diante.

O sectarismo com certeza existe, mas a diversidade é maior do que o sectarismo e representa a riqueza do ensinamento budista.

Qual a diferença entre mahayana, hinayana, vajrayana? Porque o vajrayana é considerado o melhor de todos?

O Buda ensinou o darma que foi ouvido de acordo com a capacidade dos seres a serem domados. Seres com muito autointeresse se focam no caminho da liberação individual, o hinayana. O pensamento é "eu não vou conseguir ajudar os outros mesmo, então vou ajudar a mim mesmo". O Buda não se recusou a ensinar para quem tinha essa perspectiva, pelo contrário, ele apresentou um caminho que estava de acordo com as limitações dos ouvintes.

Depois o mahayana é ouvido por aqueles que tem a coragem de trabalhar sem cessar pela liberação de todos os seres.

Em termos de visão, o vajrayana não é mais elevado que o mahayana: eles partilham essa mesma perspectiva. Por outro lado, o vajrayana possui métodos ditos "extraordinários" para atingir esses fins. Esses métodos são essencialmente o guru ioga (união com a intenção iluminada do guru), a prática de sadhana (levar as instruções do guru a cabo) e a confiança no resultado como já estando presente, sem falha de continuidade, desde o princípio sem princípio. Através dos métodos extraordinários que se embasam na guru ioga, o resultado é mais rápido. O interesse em o resultado ser mais rápido não é só o fato de que é melhor para nós, mas essencialmente porque o benefício para os outros é atingido mais rápido também.

O hinayana é a direção correta, o mahayana é a vastidão corajosa e o vajrayana a intensidade luminosa. Você não abandona os veículos menores nos veículos maiores, tudo que é feito nos veículos maiores é sem contradição com os veículos menores. O oposto não é verdade: o mahayana pode estranhar o vajrayana, e o hinayana pode estranhar tanto o mahayana quanto o vajrayana, porque aquelas perspectivas não existem ali e podem não ser entendidas.

Qual a principal diferença entre o budismo mahayana e o hinayana?

"Maha" significa grande, "hina" significa estreito. A ideia de "yanas" é mahayana, portanto muitas vezes quando se fala "hinayana" esta é uma crítica mahayana: ninguém dirá praticar o hinayana (a não ser que seja humilde e sincero, e na forma de confissão - na incapacidade de praticar algo mais amplo). De outra forma, pode acontecer que diga que a ideia de yanas é algo que não pertence a sua tradição, mesmo dentro do budismo.

É o caso do theravada, que alguns classificam como hinayana. Isso é visto como uma crítica ou ofensa pelos theravadins, já que para eles o mahayana é uma invenção posterior: mesmo as escolas que o mahayana criticava como hinayana não existem mais. Na verdade é injusto classificar uma tradição de "hina", já que esta é uma nomenclatura essencialmente mahayana, embora alguns mestres tenham cometido este erro. O mahayana é tanto uma tradição quanto um veículo, e aqui se faz a confusão. O mahayana chama a si próprio de mahayana, e algumas vezes na história chamou outras escolas de hinayana — como uma crítica muitas vezes talvez bastante correta, intuo eu. Porém é inadequado hoje em dia rotular generalizadamente o que quer que seja. Assim a ideia dos veículos fica muito mais próxima do autoexame, de aperfeiçoar a própria prática, do que propriamente de identificar tradições, linhagens, ou escolas budistas.

É preciso entender que as diferenças entre as formas de budismo são muito complexas. Se dão em termos de tradição, que está ligada ao formato cultural ou costumes locais de um povo, ou mesmo de um único mosteiro. Também em termos de linhagens, que significa uma linha discipular do Buda até hoje, de mestre para discípulo, assim por diante — estas formam uma árvore, porque a maioria dos mestres, inclusive o Buda, tem mais de um discípulo, a quem ensinam métodos diferentes. Há escolas, que estão ligadas a tradição no que diz respeito ao uso de nomenclaturas, mas que também tornam-se mais específicas no que diz respeito a certos dogmas ou doutrinas filosóficas particulares, a formas de apresentação dos ensinamentos e nível de refinamento intelectual. Enfim há os yanas, que são um conceito ligado apenas a algumas escolas. Por exemplo, a linhagem nyingma, de tradição tibetana, utiliza conceitos das escolas yogachara e madhyamaka, dando ênfase ao madhyamaka, e expondo o ensinamento em nove yanas (duas hina, uma maha e seis vajra). Já o Zen, de tradição chinesa, japonesa ou coreana, utiliza conceitos das escolas yogachara e madhyamaka, dando ênfase (na minha interpretação pessoal) a yogachara, expondo o ensinamento em duas yanas. Assim por diante.

Porém cada professor dará sua própria versão, e mesmo estas classificações são um artifício cheio de armadilhas — não há uma forma padronizada de se referir a estas diferenças.

Ainda assim é preciso entender que a prática hinayana é muito comum entre os que praticam, que são raros. A maioria pratica veículos não espirituais. Entre estes veículos não espirituais, temos os que tem uma aparência espiritual e os que são literalmente mundanos. Entre os literalmente mundanos estão o hedonismo, o pragmatismo etc. Não há noção de liberação e os seres buscam a felicidade de forma mais ou menos aleatória, em objetos externos — poder, fama, prazer, influência, comida, sexo, abrigo, e até mesmo na violência ou na fuga. Entre os de aparência espiritual, que são bem mais perigosos, estão o niilismo, o eternalismo, e a busca por estados meditativos particulares, poderes mágicos etc. Estes não praticam sequer o hinayana. Para praticar o hinayana é preciso entender a insatisfatoriedade da experiência cíclica e buscar liberação. Isso é atingido por acúmulo de mérito e sabedoria. O mérito é acumulado através do não prejudicar, a moralidade, e a sabedoria é acumulada através da meditação. A bondade, o amor e a compaixão são praticados como meios para este fim.

Então, no escopo do mahayana, tudo que está no hinayana precisa necessariamente estar presente, caso contrário, não há mahayana. Mas além desta perspectiva da insatisfatoriedade da experiência cíclica, além da busca pela efetiva liberação, e do acúmulo de mérito e sabedoria através de moralidade, compaixão e treinamento da mente, há destemor. A compaixão do hinayana é estreita, ela visa produzir a liberação de um ser. A compaixão do mahayana é destemida, toma sobre si o sofrimento de todos os seres, para atingir a liberação de uma forma não separativa, sem excluir ninguém. Neste escopo de destemor, a moralidade e o treinamento da mente são também extremamente mais eficazes.

Para o vajrayana, porém, além de tudo que há no hinayana e no mahayana precisar estar presente, é necessário, além disso, encontrar um mestre completamente iluminado face a face.

Qual a diferença entre sutra e tantra?

São dois tipos de texto, o sutra é um diálogo de um Buda (em particular do Buda histórico, o Buda Shakyamuni) com um aluno ou vários alunos. São os textos básicos do hinayana e do mahayana. Os tantras são os textos principais do vajrayana, e eles não são o registro (supostamente) histórico de um diálogo com o Buda, mas algumas vezes o diálogo atemporal da natureza de Buda com o mundo convencional, e descrevem muitas outras coisas — normalmente eles são a base das sadhanas (roteiros de prática, métodos de atingir a iluminação), e algumas vezes contém sadhanas ou indicações de sadhanas. Os tantra são os textos raiz do vajrayana.

Para Tsongkhapa, a diferença essencial entre mahayana (a tradição do sutra) e vajrayana (a tradição do tantra) é no uso de “meios hábeis”. O sutra procura antídotos para os aflições mentais, e o tantra consegue usar as próprias aflições como combustível para a prática. Para o mestre gelug, em termos de visão (grande vacuidade de todos os fenômenos), as duas yanas são iguais, em termos de como esse resultado é atualizado, existe uma superioridade do lado do vajrayana com os tais “meios hábeis”, por sua grande diversidade de formas de prática e de atualizar a sabedoria, e a confiança no resultado como estando presente desde o princípio e assim superando a noção de “antídotos”.

Para Jamgon Mipam, a diferença entre sutra e tantra diz respeito a meios e visão, isto é, sabedoria. Para Mipam, há uma visão particular, e superior, do tantra, que diz respeito à pureza inerente, e a natureza imanente da sabedoria.

 

A tradição hinayana reconhece o Sutra do Coração? A vacuidade faz parte da doutrina hinayana?

O Sutra do Coração (cujo nome quer dizer "Coração da Sabedoria", no sentido de núcleo, essência, da sabedoria) é um texto do veículo mahayana. E não é aceito como um ensinamento do Buda pelo hinayana, ainda assim, grande parte dos praticantes hinayana não acredita que haja algo de profundamente errado com o Sutra do Coração, pelo menos em certa interpretação. Existe vacuidade no hinayana, vacuidade "pequena", do eu. Não existe "grande" vacuidade, vacuidade dos fenômenos.

O que é o "veículo secreto", como foi criado pelo Buda? Todas as linhagens do budismo tibetano tem a presença do tantra e veículo secreto?

Tantra, mantra secreto e vajrayana são a mesma coisa. O Buda ensinou de acordo com as necessidades e capacidades dos seres. Para os seres sem capacidade de entender certos aspectos dos ensinamentos, eles são "secretos". Eles são secretos tanto porque a pessoa não é capaz de entender, quanto porque, se forem explicados no momento inadequado, criam conceitos errôneos que se tornam obstáculos ao entendimento correto — e portanto causam mais mal do que bem.

O Buda ensinava em todos os níveis simultaneamente, e de acordo com o acúmen dos ouvintes, eles ouviam os veículos correspondentes.

Quais as diferenças entre a linhagem Nyingma e a Zen?

O vajrayana em geral, e a tradição tibetana em particular — incluindo aí nyingma e outras tradições — se foca numa diversidade de métodos, adequados à grande diversidade de necessidades dos seres.

O zen, chinês (c'han), coreano, tailandês ou japonês, em geral focam-se num conjunto mais restrito de práticas, em geral a meditação em silêncio (dhyana, de onde vem o termo "zen"), mas também algumas poucas outras, como a prática com koans, que são formas sofisticadas de debate, e uma série de disciplinas estéticas como arranjo de flores e cerimônia do chá etc.

A especificidade da tradição nyingma com relação a outras tradições tibetanas é a prática da "grande perfeição", dzogchen. Alguns professores comparam o zen com essa prática. O que me parece é que, no sentido último, as práticas de reconhecimento da vacuidade do mahayana, mahamudra, dzogchen e zen repousam, de fato, sob uma mesma natureza. Porém, os enfoques são com certeza diversos. Em outras palavras, essas práticas tem um mesmo objetivo ou resultado, mas não são o mesmo método para atingir esse resultado.

Uma diferença essencial entre o zen e o dzogchen seria, por exemplo, a ausência de práticas preliminares externas e internas no primeiro. Isso faria com que a grande maioria dos praticantes zen estivessem mantendo apenas a aparência de uma prática sofisticada, sem de fato estarem praticando a partir do resultado, "sentando como um Buda". Por outro lado, poderia-se argumentar que a melhor prática preliminar parte da inexistência de dúvida com relação ao próprio caminho, e que portanto, o zen unifica prática preliminar e prática principal.

O que ocorre no fundo é que uma pessoa precisaria de uma vasta experiência em ambas as tradições para poder fazer uma comparação — e mesmo nesse caso essa comparação diria respeito apenas a essa experiência, por mais vasta que fosse.

Nós essencialmente praticamos aquilo que conseguimos praticar, que está disponível para nós, e que nos é palatável, de acordo com nossas inclinações pessoais e padrões de hábito. Então esse tipo de comparação pode ser completamente fútil. É exatamente como preferir o vermelho do que o preto: não é algo que está sob nosso controle. Dizer qual é o tom exato do vermelho, qual é a sua frequência de luz, que tipos de resultados psicológicos produz, como desbota e se combina ou não com quais cores, não vai nos ajudar a escolher entre uma cor e outra, porque o nosso carma é que prefere ou não prefere cada uma das respostas possíveis. Como a pessoa vai ser isenta sem ter feito a prática que supostamente vai lhe permitir certa isenção, que vai liberar os preconceitos, ir além das inclinações? Como ela vai escolher que caminho leva ao livre-arbítrio?

Quando o sectarismo surge, o vajrayana diz que o zen é, na melhor das hipóteses, mahayana — mas algumas vezes chega a chamar de hinayana, ou até mesmo acusar (talvez com procedência, em outro caso, porque ninguém está livre de distorções) o zen de tendências niilistas (como no debate clássico em que Hashang Mahayana perdeu para Kamalashila a oportunidade de abrir uma "franquia" zen no Tibete, logo na introdução do darma naquele país). Como mahayana ou hinayana, o zen, embora inferior ao vajrayana, seria visto como uma louvável doutrina do senhor Buda.

Por outro lado, quando a visão sectária e limitada surge no zen, os meios hábeis do vajrayana são todos classificados, diga-se de passagem mais de acordo com a visão secular, cientificista e materialista moderna, do que de acordo com o zen tradicional praticado na Ásia, como rituais um tanto bobos e desnecessários.

O importante é ter confiança no próprio professor e levar a prática que ele propõe até o final, a iluminação. De resto, nós não estamos na posição de julgar a prática dos outros, nem mesmo em nossa própria sanga, que dirá em outras sangas — que dirá de praticantes de outras formas de budismo, que dirá em outras religiões. Então uma atitude de respeito e admiração deve ser natural por qualquer um que se esforce na virtude e na prática espiritual.

O que é theravada?

É uma tradição budista do sul da ásia, especialmente do Sri Lanka. Eles utilizam o cânone Páli, que alguns consideram as escrituras mais antigas e ortodoxas do budismo. Embora provavelmente sejam mesmo, as mais antigas fontes ainda preservadas destes textos são do ano 800 ou 900, enquanto no mahayana (que geralmente é considerado um desenvolvimento posterior pelos historiadores) curiosamente há fontes primárias preservadas de até o ano 200. Os theravadins se focam nos três treinamentos: disciplina, meditação e insight (sabedoria).

Alguns professores algumas vezes chamam o theravada de hinayana, o que é tomado como ofensivo, já que basicamente se está dizendo que os theravadins são limitados, e de alguma forma egoístas. Também é incorreto, já que o que foi historicamente identificado como escolas hinayana não inclui o theravada, que é uma subramificação de uma delas, todas extintas hoje. Porém, o cânone Páli, por não conter sutras mahayana, estritamente falando, não poderia ser outra coisa que não o cânone do hinayana.

O problema é que a separação em veículos tem duas vertentes, ambas corroboradas pela história e pelos textos: uma sectária, onde a superioridade dos ensinamentos do mahayana era demonstrada em comparação a ensinamentos inferiores, e outra meramente classificatória, isto é, nada no cânone Páli é negado, e de fato, são os textos fundamentais do budismo — aqueles que são aceitos por todas as formas de budismo. Porém o termo "hina", estreito, tende mais para a primeira vertente, e os professores contemporâneos algumas vezes estão usando o termo "veículo fundamental" ou "veículo base" para se referir ao cânone Páli.

Porque os theravada só consideram o 1º giro da roda do Darma?

Esse "porque" é difícil de entender. Por um lado, eles não aceitam certos textos como tradicionais, por outro lado, eles não tem noção de giros da roda do darma. Da visão deles, o resto é invenção, algumas vezes boa invenção, algumas vezes nem muito boa assim.

Agora, o segundo giro descreve bem aqueles que apenas aceitariam o primeiro giro, então isso é previsto nas escrituras do segundo giro. Então, se você aceita vários giros, você inclui o theravada, mas se você apenas aceita um giro, daí fica difícil aceitar os outros como budistas.

O que é Budismo de Nitiren Daishonin?

Nichiren é um professor budista japonês, considerado um patriarca, e um Buda, por dezenas de escolas japonesas. Ele pregou que os ensinamentos do Buda Sakyamuni estavam ultrapassados e que o único ensinamento a seguir seria um sutra mahayana (que nem é tão enfatizado em outras tradições mahayana) o "Sutra do Lótus". Algumas formas de budismo Nichiren se focam em apenas recitar o nome desse sutra, em japonês, muitas vezes com o objetivo de meramente facilitar as coisas da vida. Outras escolas Nichiren fazem prática budista genuína, mesmo que um tanto unifocada nesses ensinamentos. Algumas delas consideram mal todas as outras escolas budistas, especialmente as que não reconhecem Nichiren como um segundo Buda. Algumas formas de Nichiren chegaram ao Brasil com os imigrantes japoneses. Os japoneses também trouxeram uma meia dúzia de escolas Terra Pura e Zen.

Os Budistas do Japão, do Tibete e do sul da Ásia se reencontraram no séc XX, algumas vezes no ocidente, mais de 1000 ou 1200 anos depois de se separarem na índia. Muitas vezes estas escolas estão ocupadas de sectarismos milenares próprios a sua cultura, e não tem nem mesmo capacidade de avaliar a prática ou os textos de uma tradição em outra língua. Eu, particularmente, senti alguma atração pelo zen — que existe na China, na Coréia, no Vietnã e no Japão. Claro que tenho conexão com Buda Amitaba, mas mesmo assim a Terra Pura japonesa é ininteligível para mim.

A informação que tenho é que algumas escolas Nichiren podem ser consideradas budismo genuíno. Mas talvez as formas mais populares no Brasil não sejam. O que não quer dizer que não sejam benéficas. Na verdade, é uma atitude parecida: eles rezam por nós, nós rezamos por eles. Mas não há reconhecimento mútuo — como há com o zen, por exemplo, ou mesmo com a Terra Pura. Eles não tinham reconhecimento mútuo nem mesmo no Japão. Quer dizer, posso estar generalizando, mas é uma atitude comumente associada ao budismo de Nichiren.

Gostaria de pedir que, se possível, me esclarecesse a respeito das diferenças, de ensinamentos e práticas, entre as linhagens nyingma e e gelug.

Você pode ler sobre isso em "Bondade, Amor e Compaixão", de Sua Santidade o Dalai Lama. Um dos capítulos desse livro compara sarma (as três kagyu, sakya e gelug) com nyingma. Embora sejam umas 25 páginas, já aviso que é extremamente complicado.

Quais as principais diferenças entre as escolas gelug, nyingma, kagyu, sakya, bon, kadam e jonang do budismo tibetano?

Nenhum estudo compreensivo foi publicado que compare todas estas, nem no ocidente, nem no oriente. Os gelugpas são os kadampas hoje em dia. Um gelugpa que se autointitule kadampa, como os famigerados “novos kadampas”, está implicando que os outros gelugpas são impuros. Os novos kadampas são algo que se deve evitar, se a pessoa tem consideração pelo líder não sectário Sua Santidade o Dalai Lama.

Acho que eu poderia escrever umas 10 páginas levantando minhas próprias dúvidas sobre as diferenças e semelhanças entre as linhagens, mas não é algo que pessoalmente me interesse. Se tal explicação fosse dada por um professor capaz de ensiná-la, ela seria enorme. Acho que eu não teria nem tempo de ler.

Além de mudanças de ênfases diversas na prática e estudo, liturgias, costumes e histórias totalmente diferentes, a discussão propriamente filosófica se dá em termos da interpretação da doutrina da vacuidade, particularmente das formas com que essas tradições interpretam a madhyamaka, que é uma escola budista da Índia Clássica. A ênfase em certas interpretações e mesmo a escolha dos comentadores preferidos dá o diferencial de cada uma dessas tradições – além dos óbvios aspectos externos, em termos de cores, organização social e outros costumes.

 

O que é o Lamrim de Atisha?

"Lam" é caminho, "Rim" é gradual. É portanto um tratado ou resumo da prática do darma do início até o final, o estado do Buda. E, claro, também a prática correspondente. Atisha escreveu um tratado deste tipo, por isso é o Lamrim "dele". Alguns ensinamentos focam só certos aspectos, ou apenas certos estágios da prática. Outros textos são compêndios de pontos essenciais, ou remédios específicos para certas aflições mentais ou dificuldades de praticante. Os lamrim são textos "completos", que alguns professores ou mosteiros usam como guia principal, através do qual complementam com textos secundários e manuais específicos do mosteiro.

Você poderia falar um pouco sobre as escolas de pensamento, como madhyamaka e cittamatra, por exemplo? É muito essencial saber sobre essas escolas para entender o pensamento budista?

Não é essencial. Essa taxonomia é do período indiano tardio e especialmente querida entre os tibetanos — isto é, estas escolas muitas vezes existem através da análise de textos, e não de haverem "escolas" mesmo, como é o caso claro das duas madhyamakas, prasangika e svatantrika.

Seria difícil explicar essas duas que você citou, que são as mais sofisticadas. Citamatra em geral tem um teor idealista, e madhyamaka é compatibilista. Esse tipo de estudo é importante para entender os debates que surgiram em torno da noção de vacuidade. Portanto primeiro seria necessário estudar as paramitas, chegar em sabedoria e se focar nos sutras e comentários sobre sabedoria. Então depurar paulatinamente a visão do que é vacuidade. Em geral, para entender vacuidade começamos com a impermanência, depois vamos encontrando noções cada vez mais sofisticadas até chegar na madhyamaka, Caminho do Meio.

A Prajnaparamita é estudada em todas as linhagens?

Prajnaparamita se refere a três coisas: a prática dos bodisatvas, a realização dos Budas e a um conjunto de textos comuns ao mahayana. Assim, todas as linhagens do mahayana, o que inclui todo o vajrayana também, praticam e estudam a Prajnaparamita.

Alguns professores do theravada também aceitam o Sutra do Coração e alguns comentários de Nagarjuna como válidos, embora não os considerem, em geral, como pertencentes ao cânone — isto é, textos genuínos de sua tradição.

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